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Na manhã seguinte à derrota de Hillary Clinton já estava em curso uma suposta campanha em prol da candidatura presidencial de Michelle Obama, em 2020. Nem vou comentar a estupidez política da iniciativa, tão óbvia é: uma das razões da rejeição de Hillary foi a questão "dinástica", pelo que propor imediatamente Michelle só pode servir para a queimar. Nem vou alongar-me sobre a - também óbvia - misoginia desta ideia de que a melhor candidata mulher terá de ter sido necessariamente mulher de um Presidente. A minha questão é outra, e ética: a arrasadora imoralidade deste abandono imediato de Hillary. Não gostavam dela, é isso? Mesmo que seja isso: quando apoiamos alguém, o mínimo olímpico de ética que se exige é que fiquemos ao lado dessa pessoa no momento da sua queda. Que lhe seguremos a mão quando tudo se esboroa, caraças. Pergunto a esses febris corredores de lebres: gostariam que os vossos próximos desertassem no momento de maior dor? Achariam natural? 

Como o próprio T***p acabou por dizer no discurso da vitória (depois de ter passado a campanha eleitoral a insultá-la soezmente e até a prometer mandá-la para a prisão, é preciso não esquecer), Hillary Clinton tem uma vida inteira de dedicação ao serviço público. Em 1977, co-fundou a associação Advogados em Defesa das Crianças e Famílias do Arkansas. Entre 1979 e 1992, liderou a reforma do sistema de ensino do Arkansas. O seu plano de saúde (de 1993) era muito mais avançado do que o de Obama - tão avançado que não conseguiu que fosse aprovado. Entre 1997 e 1999, criou o Programa de Seguro de Saúde para Crianças, a Lei da Adopção e da Segurança Familiar e a importantíssima e inovadora Lei dos Adoptivos Indepententes. Como secretária de Estado de Obama, visitou mais países do que qualquer dos seus antecessores e incentivou o acesso das mulheres aos cargos de poder. Terá cometido erros, evidentemente: só quem não faz nada não os comete. E foi sujeita a um escrutínio e a uma crueldade que não se aplica a nenhum político do sexo masculino: a eleição de T***p é prova disso. Ah, é que T***p não era político, e por conseguinte não sofre de nenhum dos múltiplos vícios de que essa classe padece - é esta a lengalenga do populismo triunfante. Sabem que 87% do dinheiro da Fundação Clinton é mesmo aplicado em programas destinados a melhorar o mundo? Quantas fundações portuguesas conhecem que façam isto? E o que fez T***p em prol do seu semelhante?      

O empenhamento e a capacidade política de Hillary pareceram-me sempre muito maiores do que os de Bill - que, aliás, várias vezes tem afirmado que foi ela quem o empurrou para a política. Tive pena que não fosse ela a candidata em 1992; evidentemente, não teria qualquer hipótese, nessa época. Nem agora a teve, não só porque a misoginia custa muito mais a ultrapassar do que o racismo, mas também por ser a mulher de um ex-presidente. Até das infidelidades do marido a acusaram: T***p chegou a dizer publicamente que, se Hillary nem sequer conseguia satisfazer o marido, certamente não conseguiria satisfazer a América. Sim, é nisto que ainda estamos. Ou que cada vez mais voltamos a estar. Poucos meses antes de morrer, em 1993, Natália Correia disse-me que não tinha vontade de continuar a viver porque o início do milénio seguinte seria de acentuado retrocesso civilizacional, e preferia não assistir a isso. Lembro-me muitas vezes dessas palavras proféticas. 

Não é só T***p nem o que ele significa; é o facto de, no lado pretensamente oposto ao racismo, ao sexismo, ao isolacionismo e à arrogância que o dito cujo representa, se encontrar gente para a qual palavras como lealdade e solidariedade não representam nada. Este cavalo perdeu a corrida? Apostemos já noutro, adiante. É a febre do next, a ambição sem freio nem reflexão, uma visão da existência como gigantesca onda a surfar, de sucesso em sucesso. Quando lhes dizemos: «tenham vergonha», espantam-se do nosso arcaísmo. Boa sorte com esse modo de vida.  

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2 comentários

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De José António Abreu a 11.11.2016 às 10:25

Tens alguma razão. É possível que Hillary estivesse melhor preparada do que Bill e certamente não merecerá ser considerada um falhanço a esquecer o mais depressa possível. Mas, se a pressa em fazer surgir uma alternativa é obscena pelo que representa de falta de lealdade e contraproducente para a eventual alternativa (em especial se ela for Michelle Obama, num momento que Barack ainda nem sequer abandonou a Casa Branca), também não vale a pena alongar demasiado a constatação de que, bem ou mal (ou, mais provavelmente, bem e mal), ela cometeu demasiados erros e gerou demasiados anticorpos numa sociedade que ainda pode ser sexista mas onde muitas mulheres acabaram votando em Trump.
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De Inês Pedrosa a 14.11.2016 às 16:53

A questão central, neste texto, é exactamente a da obscena deslealdade.
Mas as justificações de voto que tenho lido levam-me a considerar que nenhum político de carreira conseguiria vencer T***p. Houve uma vontade de punir "o sistema", que radica, por um lado, na crise de 2008 e, por outro, na tibieza da resposta ao fundamentalismo islâmico.
Hillary tinha, além disso,contra si a chamada "questão dinástica". E, creio, o facto de ser clara e frontal na defesa das suas convicções - designadamente a defesa da IVG e o combate à poderosa associação das armas americana ( que Sanders defendia, convém não esquecer) - ter-lhe-á também tirado votos.
Erros, só não comete quem não trabalha. Houve uma exigência absolutamente surreal em relação a Hillary, que não encontramos em relação a nenhum político do sexo masculino. Aí entra o inconciente misógino de homens e mulheres - às vezes mais acentuado até nas mulheres, por razões que Freud explica.

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