De Anónimo a 17.09.2018 às 11:56
" e que não foi decerto a causa da crise de 2008 (a causa foi a política social que obrigou entidades privadas a prover casas a gente sem meios) "
Como a situação vivida na altura deixou marcas indeléveis na sociedade e que continuam a abrir feridas ainda mais profundas esta sua afirmação só serve para gozar com quem ainda está na mó de baixo. Penso que não será preciso dar exemplos de entidades privadas que foram ao charco e começaram logo a pedir batatinhas aos estados.
A fannie mae e fredie mac não devem ser exemplos e muito menos a CGD atolada nos investimentos mirabolantes do 44.
Já agora se você pensa que um casal que tem um rendimento médio bruto de 1500€-1700€ e um filho não tem capacidade e discernimento para pedir um empréstimo de 100 mil euros a 30 anos para um T2 na periferia de uma cidade média então você deve ser riquíssimo ou sabe alguma coisa que os gestores bancários não sabem e então você devia começar a enviar currículos nomeadamente para consultoras e agências de rating que classificavam toda a banca intervencionada pelos Estados com TRIPLO AAA, os bancos que não o foram directamente, foram-no indirectamente através das injecções de capital dos Estados nos bancos adjacentes. Quanto á eventual taxa robles versão PSD esperemos para ver.
Finalizando e falando por mim, se eu tivesse 150 mil euros disponíveis também não os punha num banco a render 0% ou menos, comprava um apartamento que o dinheiro estava bem mais seguro e é isso que os fundos de investimento têm feito em larga escala o que leva a graves distorções do mercado e quando o mercado não se consegue regular (nunca conseguiu como sabemos) é obrigação o Estado intervir e a maneira mais fácil e eficaz é criar ou alterar impostos, que você me diga que temos uma carga fiscal elevadíssima concordo mas isso é outro problema distinto.
WW
De António a 17.09.2018 às 22:06
Eu estou na parte da mó de baixo. Ok?
No que diz respeito aos derivados, concordo que alguns são, como disse Buffet, armas de destruição financeira maciças. Amplificaram o facto de as prestações das casas terem deixado se ser pagas, e essa é a origem da crise - eu não considero um megafone responsável pelo que diz o gajo que fala através dele. Agora se você diz que os derivados tornaram uma crise numa catástrofe, 100% de acordo. Mas não a iniciaram. Foram combustível, não a faísca.
As agências de rating falharam, ou foram coniventes? Sim, e sim. A Enron faliu com AAA dois anos antes da crise. Alguém devia ter tomado nota. Os americanos venderam o lixo como ouro, mas também nenhum comprador olhou para aquilo. Ou olhou, e passou a batata quente a outros.
Não percebi essa relação entre a minha riqueza e o discernimento financeiro das famílias. Estamos certamente em páginas diferentes. Falamos de derivados, ou de taxas de esforço? A maioria sabe fazer contas à vida, mas a evolução do crédito pessoal mostra que muitos não as fazem. Quanto a ler contratos, olhe, eu li as propostas que o BES me apresentou. Não assinei de cruz - não assinei, ponto. Não fui lesado. É dessa iliteracia que falo. Você pode saber o que é um CDS, um MBS, um ABS, um CDO, um CFD, uma Callable Note, mas sinceramente, acredita que é conhecimento geral?
Deixe-me dizer que apreciei a sua resposta. Se calhar somos mais parecidos do que julga. Eu quando não posso não compro, e se aceito endividar-me para os meus filhos terem uma educação, nunca o faria para ir de férias. O meu carro tem 12 anos, o meu computador já nem aceita os sistemas operativos actuais - mas funcionam os dois, e estão pagos. E talvez esteja a ser parvo. Quando outros não conseguirem pagar o crédito fácil, os bancos estouram, o Estado resgata, os impostos aumentam, e eu tenho um carro velho.
Abraço.
De Anónimo a 18.09.2018 às 17:47
Eu não falei em derivados nem em CDS, MBS ou os restantes que mencionou, digamos que a minha cultura financeira é zero mas percebo ou penso que percebo um pouco de economia embora a matemática nunca tenha sido bom aluno. O que foi feito pela banca e permitido pelos Estados foi enganar accionistas e outros bancos, o caso grego é mesmo a cereja no topo do bolo em que o próprio Estado recorreu a esquemas para enganar os seus "parceiros" com a complacência dos mesmos, não acredito que não soubessem pelos menos os mentores do euro (Alemanha e França).
Em relação ao caso Enron, ainda bem que o referiu, trata-se do mesmo tipo de crime e ainda por cima em ambiente sem concorrência, será como a EDP falir e ficarmos todos sem electricidade, o que pode acontecer - a EDP falir em virtude da sua elevada divida e/ou a China entrar em crise, algo impensável mas Angola também foi ao charco ou a Venezuela e são países riquíssimos daí entender que o Estado Português deve voltar a ter golden shares (ou mesmo participações maioritárias) em empresas que actuam em monopólios naturais ou em oligopólio. Quanto ao caso do BES, só se descobriu porque um Grande Empresário deu conta mas daí a achar que os lesados dos BES foram enganados vai um longo caminho, qualquer pessoa minimamente sensata nem precisaria de ler os contractos bastava aperceber-se que o BES dava 4.5% enquanto os outros davam 1.5% (se tanto), as pessoas / clientes apostaram e perderam, simples, nada mais do que isso, embora os grandes tenham sacado o seu dinheiro a tempo e só isso lhes confere (aos lesados) alguma autoridade moral para entenderem que deviam ser de alguma forma ressarcidos.
A faísca foi o próprio combustível e engane-se quem pensar que o problema foi resolvido daí a cada vez maior procura por bens tangíveis que é o que está a acontecer (agora o imobiliário) antes de 2008 o ouro, por ex. quem comprou ouro a 1500Uusd em 2011 só perde 300usd se vender agora mas também pode não perder nada se não vender ou até ganhar, quem compra agora um apartamento a pronto por 150 mil euros está a trocar um garantia de confiança por uma garantia certa e isso na minha opinião vale mais do que por exemplo 90 mil euros na conta "garantidos" pelo BP/BCE.
No entanto o cerne do post em causa é o que o "actual" PSD possa apresentar como proposta, ainda não se conhece apesar das estórias que se vendem na "imprensa" mas o que realmente se deve salientar é que Rui Rio disse o que realmente importa, não se devem descartar ideias em função de quem as propõe.
Cumprimentos
WW
De António a 18.09.2018 às 22:04
Nem se trata de descartar idéias em função de quem as propõe. Já pagamos impostos a mais, já basta. Qualquer proposta de novo imposto, ou, como agora se diz, “adicional”, é demais. Falta pouco para duplicar os impostos à conta dos “adicionais”.
E depois, é esta mesquinhez. Ontem apareceram notícias da “epidemia de lixo” em Lisboa. O Sr. Abílio acha que devia haver multas - e eu acho que deviam recolher o lixo.
Hoje as notícias eram sobre os carros que não cumprem as normas de emissões. E mais uma vez as multas. O meu carro já não deve cumprir as normas - mas cumpria quando o comprei. Um carro comprado hoje não vai cumprir as normas daqui a 4 anos. Dão-me um novo? Não. Podem arranjar um esquema de subsídios, quando o mais simples era tirarem o imposto - os carros ficavam a metade do preço.
Mas por aqui é tudo corrido a multa, taxa, coima, derrama, imposto. Não me interessa donde vem a bordoada, se do Rio se do esgoto, já chega. Em vez de me roubarem mais comecem mas é a gastar menos.
Ouça, a literacia financeira é simples, os experts gostam de falar em código para não percebermos. Você percebeu que eles no BES estavam a dar demais. Eu também, não era difícil. Propuseram-me 11% em obrigações perpétuas. Mas lá no prospecto - o grande, que ninguém lê - dizia que podiam ser convertidas em capital. Ora o capital duma cotada são acções. E foi o que aconteceu, e depois as acções foram a zero.
Um CFD é o equivalente a você alugar acções por um período, e devolvê-las no fim desse período. Uma opção é o equivalente a dar um sinal para comprar um carro - se não o comprar fica sem o sinal. Um CDO é uma dívida de alguém, que agora lhe paga a si (se pagar). É tudo incrivelmente simples.
Você está a pagar uma casa de 100000 a 30 anos ao BCP. O BCP não espera 30 anos pelo dinheiro, tira a sua margem e vende a sua hipoteca por 80000 à Allianz - é um MBS. E a Allianz junta tudo num fundo, por exemplo um PPR, e você faz um PPR à Allianz (compra um CDO). Se você deixar de pagar fica sem a casa e sem PPR. Grosso modo é isto. Se a Allianz fôr ao charco por outras razões, você pode ficar sem casa, mesmo pagando pontualmente a prestação. Que você julgava ser ao BCP, e o BCP nem faliu. Mas a casa agora já é do Fundo Soberano do Dubai, e como a Allianz lhes ficou a dever, você é despejado e a casa vendida por tuta e meia. Não é bem, bem assim, mas não anda longe.
Abraço.