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A estranha tese do suicídio colectivo

por Luís Naves, em 17.05.15

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Mais abaixo, Sérgio de Almeida Correia transcreve um texto de opinião de Nuno Saraiva (que pode ser lido aqui), onde surgem três dos argumentos que vamos ouvir nestas eleições e que, pelo menos na aparência, desmentem a tese governamental da ‘missão cumprida’. Nuno Saraiva faz um excelente resumo: a dívida cresceu, ‘não é líquido‘ que o défice seja reduzido para 3%, o mérito das taxas de juro baixas pertence inteiramente ao BCE. Mas há aqui um problema: a ideia não explica o passado.

Quando o governo tomou posse, em 2011, Portugal não conseguia financiar-se nos mercados e estava submetido a um programa de resgate negociado pelos socialistas e que envolveu 78 mil milhões de euros. Embora o dinheiro não tenha sido todo gasto nos três anos seguintes, tratava-se de empréstimos que contavam para dívida pública, num valor equivalente a quase 50% do PIB. Não admira que a dívida tenha subido de 93% para 128%, pois foi preciso pagar passivos de empresas públicas e o défice de 2010, além dos seguintes, todos a acumularem nos tais 128%. Tendo agora excedente primário, Portugal já está a pagar a dívida e antecipou o desembolso de uma parte do próprio resgate. Havendo crescimento económico, este ano a proporção em termos de produto começará a diminuir.

Nuno Saraiva está correcto em relação ao défice de 2015. O ano ainda não acabou, as instituições europeias apontam para um valor acima de 3%, mas convinha acrescentar que a diferença entre as previsões de Bruxelas e de Lisboa é de meio ponto percentual. Se houver derrapagem em relação ao orçamento, estamos a falar de cinco décimas, não de 5 pontos de PIB, como aconteceu com o governo socialista. No terceiro argumento, sobre taxas de juro, se o mérito fosse apenas do BCE, a Grécia tinha taxas historicamente baixas, o que não sucede. Há, portanto, mérito da estratégia de credibilidade do governo, que terminou o programa de ajustamento e já conseguia financiar-se nos mercados antes do banco central lançar o programa de estímulo monetário.

A tese ensaiada pela esquerda é de que tudo isto não passou de um aprazível suicídio colectivo*, a ideia da loucura irracional dos governantes, mas a argumentação não bate certo em relação aos motivos de cinco anos de sacrifícios. Portugal foi salvo por um resgate, por estar em situação de pré-falência, após erros repetidos de política. Em 2011, não havia dinheiro para pagar salários e pensões. Durante três anos de programa de ajustamento, desmentindo o medo da espiral recessiva e evitando o segundo resgate ou a tentação da renegociação da dívida, este governo cumpriu as condições impostas pelo memorando (e nunca foi além da troika, pelo contrário) tendo a partir de 2014 conseguido financiar-se sozinho nos mercados. Era isto ou a Grécia.

 

*Roubei a expressão ao título de um romance do genial Arto Paasilinna, editado pela Relógio d’Agua. a imagem é de um filme finlandês baseado no livro.

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18 comentários

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De Tenho Dito a 17.05.2015 às 14:14

Quem se der ao "trabalho" de ler/ouvir José Gomes Ferreira (ou Paulo Ferreira, ou...), aprende rapidamente a identificar ignorantes facciosos como esse tal "perito em economia" do DN.


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De Tenho Dito (ii) a 17.05.2015 às 14:28

Está tudo meridianamente explicadinho aqui:

https://books.google.pt/books?isbn=9722056077
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De Tenho Dito (ii) a 17.05.2015 às 18:21

Clicar na figura a que o link conduz e ler o resumo do livro que é apresentado basta... Para os Nunos Saraivas até sobra...
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 17.05.2015 às 15:10

Excelente texto. Mas para o Saraiva, coitado, isto são coisas muito complicadas de entender. Talvez com um desenho, sei lá.
Eu sou dos que pensam que os media podem e devem tomar partido seja na análise politica quotidiana, seja em tempo de eleições. Mas devem assumir e declarar as suas preferências politicas com objectividade e sem margem para dúvidas.
Mas se perguntarmos ao André Macedo ou a este indigente mental que dá pelo nome de Nuno Saraiva, quem é que eles apoiam lá no DN , eles vão declarar com ar de virgens ofendidas que eles e o jornal que eles fingem que dirigem, é absolutamente independente e equidistante dos partidos politicos.
Como já tenho dito, as senhoras que fazem arduamente pela vida ali na Recta de Pegões, merecem muito mais respeito do que esta parelha cujos nomes enfeitam o cabeçalho do Diário de Notícias.
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De Vento a 17.05.2015 às 15:11

Na realidade usou bem o título. Porém afoga uns e tenta colocar outros no bote.
Como todos nos recordamos, Sócrates, sem dúvida, embarcou na política suicida de sucessivos PEC´s, forçado pela Alemanha que até só abria excepção caso o TGV avançasse (pudera! só dois podiam beneficiar como os comboios: Alemanha e França). Até que se chegou ao fatal PEC IV. É caso para dizer que não há duas sem três e três sem quatro (já lá vou).
Porém este IV e V PEC´s vieram pela mão de uma coligação que apresentava como argumento a inutilidade de tal massacre sobre a sociedade e decidiu votar a queda do governo e forçar a apresentação de um pedido formal de resgate.
Tudo estaria muito bem se fosse cumprido o anunciado.

Não obstante, já estando consumado tal pedido, Passos, e seus representantes, continuou a argumentar que sua via era sempre diferente daquela seguida por seu adversário (os registos das promessas são púbicos e poderão ser consultados). Continuando com o não obstante, acresce referir que durante as negociações o PSD tinha alcançado uma grande Vitória na medida em que era necessário um plano diferenciador que contrariasse o absurdo PEC IV, aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=V4UaXkJV0IY

https://www.youtube.com/watch?v=0kC5f-X6_uQ

E de tal forma esta diferenciação deveria ser vincada, que mais tarde, já montado no burro, isto é, aqui no povito, preconizou a brilhante solução de ir mais além da troika. Bem, não nos confundamos, este além da troika não era nenhum sprint para se ver livre dela nem tampouco uma meditação transcendental. Consistia em esticar ainda mais as medidas tão brilhantemente negociadas. E sempre a assertar os valores dos défices!
Garanto-vos que tudo quanto possa contrariar esta realidade ou é pintelho ou pêlo encravado.

Não é verdade que Portugal não se conseguisse financiar. Portugal financiava-se. E quem o financiava era a Banca que comprava dinheiro entre os 0,25% e 1% ao BCE e, titulando os empréstimos com a dívida soberana, cobrava taxas exorbitantes, acima dos 7%.
Nota: Aliás, uma das propostas que Seguro apresentou mais tarde era precisamente que o BCE interviesse directamente na compra da dívida para evitar a agiotagem. E também me recordo que a política do PSD, já pelas mãos de Gaspar, ao invés de abrir a dívida massivamente aos cidadãos para se poder financiar oferecendo taxas mais baixas, continuou a estimular o negócio. Isto só mais tarde é que mudou.

Portanto, a intervenção da troika ocorre não pela facto do país estar em bancarrota mas pelo facto de ser inviável suportar taxas acima dos 7%. E quando se falava em programa de PROTECÇÃO o mesmo devia ter esta função, isto é, o de PROTEGER.
Mas NÃO protegeu e lançou o país no caos.

Por outro lado, esquece que 12 MIL MILHÕES estavam destinados a apoiar o sector bancário PRIVADO, e com a sobra deste montante PAGOU-SE DÍVIDA. Isto é, NÃO FOI O CRESCIMENTO ECONÓMICO E AS POLÍTICAS ECONÓMICAS E FINANCEIRAS LEVADAS A EFEITO pelo governo que pagou, FOI DÍVIDA A PAGAR DÍVIDA e NÃO O EXCEDENTE PRIMÁRIO.

Aliás, o excedente primário, que na GRÉCIA FOI MELHOR, só está aí para confirmar a RECESSÃO ocasionada pelas políticas.

Acontece ainda, que a questão da dívida também tem de ser vista pelo VALOR ABSOLUTO e não só pela percentagem do PIB.

E na realidade, a alteração da conjuntura a leste, a guerra na Ucrânia, e a intervenção directa do BCE ditou as melhorias nas taxas de juro. Porque com perda de mercados em risco em toda a zona leste da Europa, a partir da Polónia, as taxas tinham de baixar E PARA OS OUTROS.
A Grécia continua a ser excepção pelas causas e consequências sobejamente conhecidas.

Termino por agora, por causa do número de caracteres, mas podemos conversar especificamente sobre números.
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De T a 17.05.2015 às 20:28

Nesse seu mundo o céu é claramente cor-de-rosa.
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De Vento a 18.05.2015 às 13:08

Como você acaba por confirmar.
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De Diogo Moreira a 18.05.2015 às 14:00

O Vento apresenta uma argumentação clara e com recurso a factos (desde as declarações públicas de vários intervenientes até números disponíveis).

Em nenhum lado faz a apologia de um clube cor-de-rosa; apenas contrapõe os argumentos do Luís Naves. O(a) senhor(a) T discorda do que foi escrito pelo Vento?
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De cristof a 17.05.2015 às 15:20

Noto que a narrativa é escolhida pelos eleitores conforme o seu credo; é grave e a negação da democracia. Como todos os erros vai-nos ficando caro esta palermice.
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De da Maia a 17.05.2015 às 15:39

A Enorme Dívida... o principal problema a ser tratado, mas que afinal não pára de engordar.

1) Transferência da mesma dívida para outro credor, não é "pagamento de dívida".

2) Não só aumentou a dívida, como aumenta ainda mais.
O aumento de dívida de 2012 para 2013 foi 10 mil milhões de euros.
Agora de 2013 para 2014 o aumento foi 13 mil milhões de euros.
Não só aumenta, como está aumentar mais.
(Os passivos de empresas públicas nada têm a ver com o assunto, isso ocorreu antes de 2012.)

3) Apesar do grande encolhimento do Estado e dos bolsos dos contribuintes, o défice não desaparece, o que significa um aumento constante da dívida, e da completa dependência externa. Não há um só lampejo de ideia governamental (ou do PS) para inverter esta situação de eterna mendicância.

4) Temos crédito a juros mais baixos... ok.
Uma verdade, para variar a narrativa.
Nem interessa se é por razão do BCE ou do Diário de Marilú.
O que interessa é que isso não cura o endividamento, que continua imparável.
O que interessa é que os mercados exigiram liquidez, e os portugueses foram obrigados a empobrecer para a pagar.
Nada garante que não seja exigida nova liquidez, e tenhamos que pagar mais de novo. Basta mudar o apetite do BCE e dos mercados, que aliás, nunca mudaram a classificação da dívida como "lixo".

Conclusão:
- Se o objectivo era apenas encolher o Estado, o país, e o dinheiro disponível aos contribuintes, então foi conseguido.
- Se o objectivo era controlar as contas e diminuir a dívida, que reflecte uma total dependência externa, então assistimos a um FRACASSO TOTAL.
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De Avençados... a 17.05.2015 às 17:45

O sr Nuno do núcleo de avençados do Largo do Rato que escrevem no DN terá alguma vez ouvido falar no "perímetro orçamental" e das alterações que teve de sofrer? Sempre poderia ter perguntado tal, assim com o significado de "desorçamentação", ao sr. Centeno, que o saberia certamente elucidar.
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De M. S. a 17.05.2015 às 18:25

Pode saber-se à conta de quem o senhor é avençado?
Isto é uma pergunta meramente retórica, como é evidente.
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De Luís Naves a 17.05.2015 às 19:24

Texto assinado. A opinião do autor tem de ser respeitada.
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De J.S. a 17.05.2015 às 19:29

Os indivíduos que sofrem de apoplexias e badagaios sempre que se mostra a podridão do PS não enganam quanto a quem lhes paga a avença. Embrulhe e vá pedir conversa a quem não o conheça.
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De estoriador a 17.05.2015 às 23:45

Assim falava o Dr. º Passos Coelho em 2011

“não usaremos nunca a situação que herdamos
como desculpa para o que tivermos que fazer”.

“Governo não irá desculpar-se com o passado”

"Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água
por precaução."

"Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro
tapando com impostos o que não se corta na despesa."

"Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai
reduzir a carga fiscal às famílias."

"Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser
reduzidas."

"Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e
criminalmente responsáveis pelos seus actos."

"Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer
austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos."

"Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais
terão que ajudar os que têm menos."

"Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às
empresas para o Estado."


E quanto ao défice de 3%, esta é de rir:

Eurostat ainda não decidiu se BES vai ao défice

"26 Mar 2015" - Económico

"A resposta deveria ser dada hoje, mas afinal vai ser preciso esperar mais uns meses, porque o Eurostat ainda não tomou uma decisão"

"Mais uns meses", quem souber ler nas entrelinhas que o troque em miúdos ?!

Vende-se muita banha da cobra, por estes e outros lados...

A partir de Outubro vou continuar a rir-me dos portugueses que ligam para as antenas abertas das rádios e tv´s .

Da Maia venha de lá esse partido, é Agora ou Nunca !

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De da Maia a 18.05.2015 às 12:51


A este circo nunca faltaram palhaços ricos, faltam é palhaços pobres.

Meu caro, o Agora só se aceita como presente, quando o futuro não for escravo do passado.

Cada batida do coração tem ordens do futuro, tal como cada pensamento racional se faz pela ordem do passado.

Para o casamento entre passado e futuro, a tropa de cúpidos tem desembarcado, mas o contigente principal ainda não deve ter largado as fraldas.

Digo-lhe isto porque já vi a bestialidade dos noivos, e assim, sobre o "viveram felizes para sempre", acho que devemos dar o desconto habitual das histórias de crianças.
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De Tiro ao Alvo a 18.05.2015 às 09:34

Relativamente ao texto do Saraiva, não fiquei nada espantado; quanto à posição assumida pelo Sérgio, achei-a despropositada mas não desalinhada das que tem assumido ultimamente que parece ter cativado alguns comentadores que agora também aparecem a olhar apenas para um lado e a verem as coisas distorcidas, como se pode ver em Vento.
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De Diogo Moreira a 19.05.2015 às 13:20

Importa-se de mostrar os argumentos pelos quais diz que o Vento está a ver as coisas distorcidas?

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