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A esquerda não desapareceu

por Diogo Noivo, em 17.07.19

Captura de ecrã 2019-07-17, às 13.09.56.png

 

Num ensaio muitíssimo recomendável, Félix Ovejero traça a genealogia recente da esquerda espanhola e, por extensão, da europeia. Em síntese, argumenta que as forças políticas progresistas evoluíram do primado da raison iluminista para o menu do “tudo para todos”. Pelo caminho, abraçaram lógicas identitárias, de segregação das sociedades em tribos, incompatíveis com a razão e com a emancipação dos povos. Por outras palavras, a esquerda ilustrada negou-se a si própria. Note-se que esta tese saiu da pena de alguém que se situa convictamente no lado esquerdo do espectro político.

Ovejero e outras personalidades da esquerda espanhola, como o filósofo Fernando Savater, o escritor Fernando Aramburo e o político Teo Uriarte (membro fundador da ETA, que há muito abandonou a organização), firmam hoje uma carta aberta onde revelam que, embora tímida e em extinção, a esquerda democrática e liberal não desapareceu. Lê-se no texto que “os nacionalismos identitários e os populismos promovem políticas de divisão e exclusão que visam perverter os nossos fundamentos democráticos. Os melhores valores cívicos comuns de tolerância, respeito e fraternidade estão, portanto, ameaçados”.

Mais importante, e tendo em mente os acordos que o PSOE poderá celebrar em breve com nacionalistas catalães e bascos, os autores da missiva alertam: “A pretensão de chegar a acordos, por acção ou omissão, com populismos e nacionalismos identitários e separatistas – qualquer que seja a escala, nacional ou de comunidade autónoma, como no caso de Navarra – certamente contribuirá para o enfraquecimento dos nossos valores democráticos consagrados na Constituição de 1978. Não se podem ambicionar tais alianças, que contaminam a própria identidade da esquerda e conduzem inevitavelmente à deterioração da vida pública e trazem mais divisão cidadã”.

Entre outros méritos, esta carta demonstra o quão disparatado é enquadrar o “conflito catalão” na clássica dicotomia esquerda-direita. Portanto, revela o quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha.

O caso catalão cava uma fronteira, mas não a que separa a esquerda da direita. É a que separa a democracia representativa da democracia plebiscitária, a que distingue o conceito de cidadania das políticas identitárias, a que evita a confusão entre o direito ao voto e o respeito por direitos, liberdades e garantias. Era importante que deste lado da fronteira se percebesse isto. Ou, pelo menos, que se perceba que é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda.


18 comentários

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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 15:03

é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda

De facto, no independentismo catalão há partidos de esquerda e outros de direita. Não se trata, pois, de uma causa de esquerda nem de direita.
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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 15:05

separa a democracia representativa da democracia plebiscitária

Não há nenhuma oposição ou contradição entre as duas. Em diversos países há democracia representativa, mas também há (ou pode haver) referendos. A Suíça é, é claro, o caso mais paradigmático.
O Reino Unido teve um referendo à independência da Escócia e outro ao Brexit, e nem por isso deixou de ser uma democracia representativa.
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De Luís Lavoura a 17.07.2019 às 15:08

quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha

Temos o contra-exemplo do Luís Menezes Leitão, que se bate pela independência mas não parece ser uma pessoa de esquerda.

Também se pode afirmar que há uma afinidade ideológica primária de muitos dos que por cá se batem contra a independência da Catalunha. Não percebem que, lá por serem pessoas de direita, não necessitam de apoiar o centralismo direitista espanhol.
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De Pedro Correia a 17.07.2019 às 15:57

O essencial sobre a Catalunha é dito aqui por Elvira Roca:
«Cataluña es una parte de España desde siempre y tiene un problema en su interior muy grave. El problema es un nacionalismo excluyente con un componente supremacista, exactamente como el vasco. Y lo que han hecho ha sido machacar a la mitad o más de sus conciudadanos. El problema de Cataluña no es un problema contra España. El problema es de algunos catalanes que se creen dueños de todo el territorio, y están contra otros catalanes a los que se les está privando de sus derechos civiles.»

(em entrevista ao jornal digital El Español:
https://www.elespanol.com/cultura/libros/20180806/elvira-roca-republicanos-no-vencidos-guerra-civil/327967515_0.html)
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 14:35

Tenho interesse em ler esse livro. Está a gerar polémica em Espanha. Em traços gerais, estou de acordo com a citação, Pedro. A conclusão é a que foi enunciada pelo José Álvarez Junco (creio já ter escrito sobre ele no DO):

"A História um dia julgará as elites nacionalistas. Culpá-los-á, creio, pela grave deterioração da cultura catalã, outrora cosmopolita e agora ensimesmada, e pela divisão da sociedade, anteriormente satisfeita com o bilinguismo e a dupla identidade. Irá culpá-los pela criação um Estado na sua pior versão possível: decidido a impor a homogeneidade cultural, de acordo com seu modelo preconcebido de nação e, portanto, a reduzir a liberdade e o pluralismo da sociedade que governa."
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De Manuel Gonçalves Pereira Barros a 17.07.2019 às 22:54

Esquerda liberal? Não é lapsus linguae? Tampouco lapsus calami? Nossa Senhora de Fátima bendita, salvai-nos e salvai Portugal !
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 14:36

Não é lapso. Quanto a Fátima, frequento pouco.
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De Anónimo a 18.07.2019 às 02:09

O actuais orgãos políticos, eleitos, na Catalunha, exigem o poder de autoridade tributária e de como a obtida colecta será redestribuida.

Esse poder será sempre, continuamente, mais ou menos abertamente, reivindicado pelo poder político em exercício na Catalunha, quer ele seja de esquerda, ou de direita, maioritariamente constituido por nacionalistas ou partido(s) afetos ao governo de Madrid.

E não é só na Catalunha que se desenrola esta situação ....
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 14:41

A Catalunha tem o poder de autoridade tributária. Mas quer ter mais - algo semelhante ao quadro aplicável ao País Basco. Há, contudo, um problema: a reivindicação fiscal ficou no passado, pois o actual independentismo tem metas maximalistas, impossíveis de cumprir. A negociação no plano fiscal já não resolverá nada.
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De jpt a 18.07.2019 às 04:38

Obrigado. E é verdade, por extensão o "estado da arte" é o europeu.
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 14:38

Lamentavelmente, jpt. Caso tenhas tempo e paciência, lê o ensaio do Ovejero. Creio que vais gostar. É denso, tem passagens demasiado explicativas, mas está muitíssimo bem pensado e argumentado.
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De Justiniano a 18.07.2019 às 14:59

É extraordinário o paradoxo entre da distancia geográfica, de Portugal e, os povos irmãos, Espanha, e a profundidade do conhecimento político. Conheceremos mais facilmente os conflitos políticos e sociais que se passam em França ou nos EUA, do que os que medram aqui ao lado! Mesmo sobre a mítica guerra civil (sobre o que ainda hoje leio, como um curioso interessado) que finou a mítica segunda República o conhecimento é distorcido, reconstruído, distante ou exótico. Em Espanha, o dramático e o trágico assim como amor e o ódio são sempre muito mais intensos, como se o não soubessem ser de outra maneira!!
A Espanha transformou-se nestes últimos 40 anos. As sementes talvez tenham sido largadas no sec XIX, germinaram em força no início do sec XX!! Dão hoje frutos vigorosos!! Da nação mais conservadora do ocidente, na década de 70 do sec passado, para a mais alçada das vanguardas que se reivindicam sucessoras dos progressistas de inspiração anarquista, socialista de diversos quadrantes ou dos mais ou menos libertários!! Navarra e a Galiza, antes baluartes do conservadorismo espanhol de inspiração católica, integrista e espanholasta, são hoje, indistintamente, palco de negação da Nação Espanhola. Na Galiza inventam o galego moderno. Em Navarra aprendem basco (A Rioja virá a seguir). O conservadorismo Espanhol vale hoje, politicamente, cerca de 20% do eleitorado (50% dos votos do PP e os votos do VOX). Para os pregressistas ao centro (50% do PP e Ciudadanos), a Espanha é uma economia, um mercado. O PSOE é o lugar natural para os herdeiros oportunistas e jacobinos do PSOE de outrora, e sendo por vezes os herdeiros directos do ressentimento. As esquerdas à esquerda do PSOE são fieis à sua história e à diversidade de inspirações que, fatalmente, as inspirarão ao suicídio recíproco, depois de, lá pelo meio, haverem suicidado os seus inimigos de estimação para além dos colaterais que se suicidarão de fome.
E como bem menciona o Diogo, a negação de Espanha faz-se, também, actualmente será sobretudo, pelo nacionalismo à esquerda. É mais palatável para certas sensibilidades, como se vê também aqui na nossa esplendida media.
Ocorra uma crise económica profunda e teremos o quadro perfeito para a reedição do prelúdio da mítica...
Um bem haja,
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 15:18

Bom comentário, Justiniano. Obrigado.
De facto, o espírito 'guerracivilista' parece ter renascido, muito embora não se deva entender como um regresso ao passado. É, creio, uma reedição das clivagens fratricidas no plano político, que não se resumem às dicotomias esquerda-direita e liberais-conservadores (por exemplo, vejam-se as guerras internas em curso o Ciudadanos).
Aliás, creio que a principal conclusão a retirar das últimas legislativas é precisamente essa: Espanha é um país fragmentado no plano social e polarizado no plano partidário. O resultado dificilmente será positivo.
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De Justiniano a 18.07.2019 às 16:35

Caro Diogo, de acordo quanto à insuficiência da dicotomia esquerda direita! Quanto ao conflito liberais - conservadores, esse será um dos mais inconciliáveis e expressivos conflitos da actualidade!
O PP em Espanha tem atravessado esta cisão dentro de si. (Diz-se que o fundador do PP (Fraga), se fosse ainda vivo, teria fundado o VOX, com outra designação talvez mais acronímica.) Eu entendo que o Ciudadanos será inconciliável com o VOX (E digo Vox, porque será o único partido que se declara expressamente conservador sem qualquer constrangimento, como poderia dizer uma parte do PP que ainda se revê como parte de um partido conservador, apesar da direcção do partido não se declarar como conservadora mas, tão só, como gestionária de grande qualidade ou qualquer coisa que mantenha o poder. Como o actual PSD), apesar de terem propostas de política económica muito próximas, de uma forma que não o será com o Podemos!
Há, actualmente, liberais que exigem e carecem de uma legitimação constante e que se não quedam no tradicional discurso legitimador liberal. A legitimidade do Estado, do Povo, da Nação histórica e suas instituições, o casamento, as tradições....etc..! Estes Liberais que estarão mais próximos, hoje, dos libertários (Note o comentário e a estranheza ou incompreensão de Putin face aos actuais liberais do ocidente. O que revela o comentário de Putin é que esse liberalismo não seduzirá ninguém. Ou seja, que não haverá na Rússia projecto político que se possa opor à hegemonia política de Putin. Quem diz Putin, diz todo o resto do mundo para quem o Ocidente seria o farol de ideias e de projectos políticos para o futuro)!
Por outro lado (regressando a Espanha) os conservadores actuais estão muito mais próximos dos sociais democratas do século XX, e muito mais distantes dos Carlistas, em Espanha, pelo que filosoficamente já efectuaram a síntese histórica e largaram lastro teórico desnecessário. Quedam-se, os conservadores de hoje, no que entendem ser verdadeiramente essencial, o mínimo possível, para a manutenção da comunidade e da nação histórica!!
Ou seja, entre os progressistas liberais e os conservadores, as concessões possíveis já foram feitas pelo que restam os pontos inconciliáveis!
E isto ocorre não só em Espanha mas um pouco por todo o Ocidente, à excepção de Portugal (para já. Será outra discussão)!
A cisão é, sobretudo, nas questões fundamentais, entre conservadores e liberais progressistas (globalistas vs nacionalistas etc...)
Um grande bem haja e continue a seguir e a divulgar a actualidade Espanhola, fás falta (Assim como o Naves, aqui, o faz em relação à Hungria). Não há um único jornal ou estação de TV em Portugal que preste esse serviço de enorme valor! Pelo contrário, quando vejo aquela enviada da RTP a Espanha...
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De João Pedro Pimenta a 18.07.2019 às 16:29

Diria que na Galiza, apesar do apego à cultura local, a negação a Espanha é mais empolada que real. Não conheço bem o caso da Navarra, embora seja visível que o Carlismo é uma recordação e que há uma ampla penetração da nacionalismo abertzale basco.
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De Justiniano a 18.07.2019 às 17:16

Caro Diogo, as pretensões de independência serão empoladas em todas as regiões à excepção do País Basco (Há independentistas nas Canárias, nas Asturias, Cantábria...Só não os conheço nas Castelas, que inclui parte de Leao e a estremadura, e Andaluzia). É evidente que há um mecanismo jurídico financeiro, a Administração da Autonomias, que promove a ficção independentista.
Há uma extraordinária penetração do nacionalismo abertzale basco em Navarra, desde há 20 anos. Vi mais bandeiras bascas em Pamplona que bandeiras Navarras. Se o PSOE, Bildu e Podemos formarem governo na Comunidade Foral de Navarra teremos a inversão total da história. Um Reino Basco com a província de navarra. Incrível!!
Os Galegos, tal como nós, são uns diletantes e contentam-se com a Academia de Ciências da Galiza para poderem escrever como falam. Um tipo bai a Tchaves beube un tchinquito e sai de lá Galego!!
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De Justiniano a 18.07.2019 às 17:25

Perdão! É João Pedro Pimenta, por lapso pensei que o comentário fosse do Diogo !!
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De Diogo Noivo a 18.07.2019 às 17:22

Completamente de acordo, João Pedro. Em Navarra, há, de facto, uma entrada em força do abertzalismo, o que tendo em conta os seus objectivos só pode dar mau resultado. Já o Carlismo, julgo que se resume a uma presença menor no PNV - em Navarra terá alguma influência no plano cultural.

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