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A esquerda caviar.

por Luís Menezes Leitão, em 14.03.15

Há muito tempo que a esquerda tem um problema complicado com a exibição pelos seus partidários de uma vida de luxo e glamour, ao mesmo tempo que defendem a igualdade e a distribuição da riqueza. Surge assim a expressão "esquerda caviar", para designar a hipocrisia dessas posições, normalmente aplicável especificamente à extrema-esquerda, uma vez que os comunistas são muito mais cautelosos em evitar fazer essas figuras. Álvaro Cunhal vivia uma vida de completo mistério e declarava sempre que era modestamente pago no partido. Lembro-me de, numa entrevista, ele ter declarado descontraidamente que ganhava vinte contos mensais (hoje 100 euros) apesar de ser visível que o fato que trazia vestido custava mais do que isso. Por esse motivo Veiga de Oliveira caiu em desgraça no PCP apenas por ter declarado numa entrevista que o prato de que mais gostava era a lagosta. Hoje Jerónimo de Sousa alinha pelo mesmo diapasão e os militantes comunistas continuam a fazer questão em não exibir luxos. Curiosamente esse mesmo padrão é observado pela direcção mais à esquerda que alguma vez existiu no partido trabalhista inglês, agora liderado por Ed Miliband, o Red Ed. É assim que o mesmo, que é dono de uma casa de três milhões de euros, até conseguiu esconder a cozinha numa entrevista que deu, tendo-se feito fotografar na sua segunda cozinha, em ordem a parecer que vivia num apartamento modesto.

Pelo contrário, a extrema-esquerda não tem qualquer problema em ostentar os denominados "sinais exteriores de riqueza" e até faz gala em os exibir. É assim que Yanis Varoufakis, que já mostrava descaradamente o seu cachecol Burberry nas reuniões do Eurogrupo, faz-se agora fotografar para a Paris Match no seu magnífico apartamento em Atenas com vista para a Acrópole, degustando um opíparo jantar, bem regado a vinho branco, a que se seguiu uma sessão de piano.

Se me perguntarem qual das reacções prefiro, confesso que acho a atitude de Varoufakis bastante mais descontraída do que a de Miliband, até pela inveja que seguramente causa em meio mundo. O problema é que ninguém acredita na crise humanitária na Grécia e na necessidade de o Eurogrupo avançar rapidamente com dinheiro quando vê o estilo de vida adoptado pelo Ministro das Finanças grego. Tudo isto demonstra o amadorismo com que o novo governo grego está a trabalhar, não tendo sido sequer capaz de montar uma estratégia de comunicação que evitasse fazer estas figuras. É que por este andar a tragédia grega — que é verdadeira - corre o risco de parecer afinal uma comédia.


12 comentários

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De Adiante a 14.03.2015 às 09:14

Ah, pois é, o camarada Kim Jong-un, por exemplo, da esquerda pirescoxinha, leva uma vida muito modesta.
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De lucklucky a 14.03.2015 às 10:44

No Socialismo Israelita dos kibbutz estava a única possibilidade de existir uma Esquerda honesta : só era Socialista quem queria.

Construir uma Comuna. Logo sem obrigar ninguém a fazer parte.

Obviamente que para a maioria da Esquerda pensar assim é um anátema. A imposição da Esquerda a obrigar todos a serem de Esquerda e a violência que comporta fez sempre parte do seu ADN para a maioria dos seus membros.

O estranho neste post é precisamente isso, o autor não considera que o uso da violência do estado para obrigar quem não é, a ser socialista, seja ainda mais hipócrita.

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De Mal por Mal a 14.03.2015 às 10:50

A loucura irresponsável milenar dos gregos está bem retratada neste Siryza e em Antony Quinn, naquela do Zorba a dançar na Praia com Allan Bates.

Só faltava a Irene Papas e já apareceu.
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De Esconder é um caminho a 14.03.2015 às 15:05

A Nomenklatura soviética tinha os seus clubes privados,as suas cooperativas de abastecimento próprias a que o povo ignaro não tinha acesso.Tudo reservado,como deve ser nos dirigentes do proletariado.As massas terão de esperar,lá chegarão um dia,quando os amanhãs cantarem.
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De Alberto Cunha a 14.03.2015 às 20:00

A Nomenklatura dos países capitalistas não tem nada disso. Vivem na miséria e frequentam hotéis e restaurantes acessíveis a qualquer um, sem ter de esperar por amanhãs que cantem, nem sequer precisam de esperar por ter um emprego para terem acesso a todas essas benesses. Observações inteligentes precisam-se.
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De Gulag a 15.03.2015 às 21:07

Doeu, camarada? Isso no fresquinho da Sibéria cura-se num instante.
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De rmg a 14.03.2015 às 16:09


Uma nota à margem, a bem dizer um off-topic.

Não podemos dizer que os 20 contos de que Cunhal falava são 100 euros de hoje sem saber em que ano ele disse isso.

Uma boa aproximação à realidade poderá está no Anexo da Portaria nº 281/2014 de 30 de Dezembro (valores actualizados anualmente).

http://info.portaldasfinancas.gov.pt/NR/rdonlyres/3183DF0B-56DC-4E18-8002-B0D2117C8C3C/0/Portaria_281_2014.pdf

Isso não invalida em nada a sua observação de que à época se via que o fato dele tinha sido mais caro que 20 contos.


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De Sérgio de Almeida Correia a 14.03.2015 às 19:44

"Opíparo", Luís? Peixe frito e salada? E uma garrafa de vinho? Será um Saint Émilion ou um Chateau Petrus 2009? Há "tascas" de Lisboa onde se come melhor. E com toalhas e guardanapos mais apresentáveis.

Não quero pensar o que se diria se fosse um ministro deste Governo a fazer uma refeição dessas. Certamente seria uma prova de austeridade.
Este tipo de reportagens é um disparate, mas mais disparate é que quem se presta a elas. Tanto à direita como à esquerda. E essa não foge à regra. É por aí, em meu entender, que a crítica deve ser feita. Casas e terraços como aquele existem aos milhares em Atenas e em qualquer aldeola grega. Querer considerar isso e uma refeição frugal caseira como um luxo parece-me um evidente exagero. Fumar um charuto em Cuba ou na República Dominicana não é um luxo. Em Lisboa ou Zurique é. Convém colocar as coisas no seu devido lugar.
A não ser que à esquerda só se possa comer migas, carne do alguidar e atum de conserva, morar em águas furtadas húmidas e a cair de podre e beber vinho do pacote.
O ideal era que todos pudessem ter refeições caseiras como essa e não que se ache normal haver quem gaste 300 ou 400 euros para almoçar, verba que é a reforma de muitos que pagam taxas moderadoras.
Não é preciso que todos bebam Poliphonia Reserva, presunto de 24 meses e comam bifes no Morton's . Mas se todos pudessem beber um Monte das Servas, um Maria Mansa ou um Quinta do Vallado , comer presunto de 12 ou 18 meses e um bife decente já não seria mau. E nada disto é caro ou um luxo. O resto é demagogia.

(tomei a liberdade, que espero me releves, de deixar aqui este curto comentário porque não irei perder mais tempo com o assunto)
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De Sérgio de Almeida Correia a 14.03.2015 às 19:48

O "saboreiem" que ficou a faltar no presunto de 24 meses deixou-se arrastar pelo teclado.
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De Sérgio de Almeida Correia a 14.03.2015 às 19:54

Ah, e o vinho foi branco, por isso talvez fosse mais apropriado um Chablis ou até mesmo um bom Riesling, para quem os aprecie. Como em regra só bebo tintos...
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De lucklucky a 15.03.2015 às 11:28

"A não ser que à esquerda só se possa comer migas, carne do alguidar e atum de conserva, morar em águas furtadas húmidas e a cair de podre e beber vinho do pacote."

Se for esse o nível de riqueza de um país deve ser esse o nível de riqueza de alguém de Esquerda. Sem mais.

"Desigualdade" é a palavra empregue pela Esquerda a toda a hora.
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De António Rodrigues a 22.09.2018 às 22:46

O PCP a fingir que é pobre e a dizer o que o CDS diz "ser de esquerda tem que se ser pobre". Basta visitar a sede o Bloco em Lisboa para perceber o ódio fininho que o PCP nutre pela estrema esquerda. O problema é que o PCP afinal não pode controlar toda a esquerda. Basta ver a festa do Avante e o que ela tem a ver com ser marxista e adesão dos PC's ao Benfica! Está tudo dito.

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