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A esmolar no SNS

por Teresa Ribeiro, em 05.04.14

Há poucas semanas, quando entrou na urgência de Santa Maria, a médica  que lhe deu ordem de internamento confidenciou-me: "Há pessoas que com estes níveis de creatinina morrem. É por ter uma insuficiência renal crónica que ele consegue resistir desta forma. O organismo, de alguma forma, adaptou-se". Ele, tem 94 anos.

Depois do internamento passou para o ambulatório, mas está muito fraco. Há dias foi-se abaixo e as enfermeiras, que já o conhecem bem, deram uma palavrinha ao médico, a ver se o internavam outra vez. O doutor disse que sim, mas houve mudança de turno e a colega que o veio substituir decidiu mandá-lo para casa. Argumento: não há camas.

Tem 94 anos mas um espírito invejável. Em casa faz tudo. Adora cozinhar para a rapariga de 92 anos com quem está casado há mais de 60, segue com interesse as notícias na televisão e cuida com esmero da sua aparência. Só os rins não colaboram e como incha nas pernas, receia subir e descer as escadas sozinho. Sempre que vai ao hospital, são 80 euros para ir e vir de cadeirinha com os bombeiros.

Como está mal, os médicos querem vê-lo de dois em dois dias, só que a pensão assim não chega. A ideia de ficar dependente do favor de familiares angustia-o muito, visto não ter filhos. Diz que na próxima deslocação ao hospital vai tentar descer do terceiro andar onde vive para poupar nos bombeiros. Terei que lá chegar a tempo de impedir a façanha, o que o vai sensibilizar e stressar ao mesmo tempo. E chegados ao hospital apelarei à solidariedade dos médicos, explicando que estão a fazê-lo viver acima das suas possibilidades. Talvez o chavão político os divirta e assim condescendam em desencantar-lhe uma camita.

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17 comentários

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De gty a 09.04.2014 às 14:56

Creio que percebeu - e não contradisse o que que afirmei: o serviço nacional de saúde, ou o educativo não são pilares da democracia. Repetindo: houve serviço nacional de saúde nas mais ferozes ditaduras (e não era mau) e quanto à qualidade do ensino era (e continua a ser, nos países que constituiam o 2º mundo) muito superior à portuguesa. Nos últimos 40 anos não mudámos a nossa posição relativa em alfabetismo e literacia e continuamos na cauda da Europa.
Sobre as qualidades do serviço nacional de saúde, Jorge Coelho contou, honestamente, que quando soube que estava doente telefonou não sei a quem, que telefonou a um ministro socialista francês e passados dois dias estava em França.
Para quem não conhece ministros socialistas franceses, aconselho um bom seguro, se quer ter as mesmas possibilidades (igualdade, nao é?) de um ministro socialista português.

É claro que os norte-americanos pedem um cartão de crédito. Também o pedem aqui, naquela clínica a que Mário Soares recorre quando está doente.

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