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Delito de Opinião

A era da pós-verdade

jpt, 12.12.25

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Muito se fala agora da "pós-verdade". Já não apenas referindo a diversidade opinativa como efeito da pluralidade de pontos de vista e interesses. E também não só a tradicional desinformação interesseira, propalada por políticos e imprensa avençada/subsidiada. Mas muito devido à relativa novidade dos anunciados efeitos das mensagens robóticas ("bots") que procuram "fazer a cabeça" dos incautos.
 
Sempre vivi espartilhado por essa pós-verdade: desde novo que recebo mensagens sanitárias contraditórias sobre se devo cozinhar com óleo, manteiga, margarina ou azeite. As instruções variam com a época. Opto pelo preço!
 
Enfim, a realidade é que se vem escoando o conservador (mas talvez mítico) valor da Verdade. As coisas (já) não são o que parecem. E, pior ainda, o que deveriam ser.
 
Nos últimos dois dias vi isso, envelhecendo-me. O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa narra um triste exemplo da pós-verdade: havia sido escolhido para júri de um concurso literário brasileiro, Oceanos. Um dos finalistas era o escritor angolano (e julgo que também moçambicano) Agualusa, ao qual no ano passado Ungulani criticou as suas declarações apoiando sem reservas o regime político vigente em Maputo. Como resultado disso houve pressões para que Khosa fosse afastado do juri e assim aconteceu. Uma pós-verdade literária!
 
Ontem houve uma greve geral em Portugal. As centrais sindicais anunciam ter sido a maior greve de sempre. E o governo declarou-a praticamente inexistente. É uma "Concertaçao Social" de patranhas, a velha pós-verdade nada robótica, excêntrica às malvadas redes sociais. Acompanhada de alguns dislates: na televisão uma jovem senhora, bem apessoada, comenta dizendo não perceber porque protestam os funcionários públicos se as alterações propostas na lei laboral não incidem sobre eles. Convém estudar antes de ir à tv. Faz-se uma manifestação diante da Assembleia, "ordeira" como se dizia. Quando a hora de jantar se aproximou os manifestantes foram para casa. Ficou um punhado de mariolas, fazendo alguns dislates de pouca monta, menos do que os holigões das claques sempre fazem. Tudo acicatado por estarem no "breaking news" das impunes estações televisivas. Entre os defensores das propostas ali contestadas, logo emerge um coro de republicanos "aqui d'el-rei" como se aquilo fosse o significante. É o reino, republicano repito, da pós-verdade!
 
O prémio Pessoa - que bem me lembro ter sido inaugurado com a atribuição a Mattoso, exactamente quando eu lia o seu deslumbrante "Identificação de Um País" - foi dado a Lídia Jorge. É uma consagração de carreira, quem sou eu para cutucar os méritos da autora do "A Costa dos Murmúrios". Mas atribuí-lo exactamente no ano em que a escritora proferiu um medíocre discurso de 10 de Junho, a suprema honraria nacional dada a um intelectual? (No qual, entre outras coisas, truncou a "Crónica..." de Zurara, uma malevolência lesa-majestade). Enfim, é, pelo menos, uma pós-verdade relativa!
 
Mas o pior, a mais escandalosa pós-verdade, o derrube dos símbolos, a devastação das identidades, aconteceu na Alemanha. No muitíssimo visto debate entre o agrupamento em que me filio e os representantes da Baviera, estes surgiram como sempre, orgulhosos de serem os "vermelhos". Os meus surgiram "filisteus", vendilhões do templo, abandonando o verde-e-branco que lhes é matriz, e durante um século foi alma. Sendo assim uma pós-verdade.
 
Perderam o debate. Ainda bem!

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