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A diferença entre valor e preço

por Pedro Correia, em 22.02.19

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Nada mais errado do que incluir o conservadorismo entre as ideologias, com as suas infindáveis terapias de catálogo para os problemas do mundo. Ser conservador é, essencialmente, um estado de espírito. Impulsionado pelo nosso instinto de preservação e alicerçado na convicção de que é inútil dissipar energias na mudança do que funciona bem. Que é quase sempre mais do que parece.

Disto nos fala, com a linguagem requintada e os argumentos esclarecidos a que o autor nos habituou em obras anteriores (como As Vantagens do Pessimismo), o mais recente livro de Roger Scruton disponível no mercado editorial português. Numa linguagem despida de pomposidades académicas, este catedrático britânico que é um dos pensadores mais estimulantes do nosso tempo impele-nos a resistir aos lugares-comuns. Desde logo àqueles que levam os conservadores a terem tão má imprensa.

 

Razão e emoção

 

Um conservador é, geralmente, uma pessoa mais aborrecida do que um revolucionário pronto a inaugurar novas eras, indiferente ao cortejo de horrores das revoluções pretéritas. Os arautos da revolução costumam socorrer-se da emoção em defesa dos seus argumentos – e a emoção atrai audiências vibrantes e variadas.

Os conservadores, mais racionais do que emotivos, cultivam a estabilidade, a hierarquia e a tradição. Pessimistas antropológicos, admitem existir uma forte probabilidade de que o futuro venha a ser pior do que o presente, sem acreditarem na progressão linear da aventura humana. Pretendem, portanto, manter o essencial das estruturas políticas e da organização social que já vigoram, rejeitando o grande salto no escuro que para eles sempre representa a ruptura revolucionária.

Nos capítulos iniciais de Como Ser um Conservador, Scruton inspira-se em autores tão diversos como Stefan Zweig ou T. E. Eliot para combater o mito determinista que ainda leva milhões de pessoas a depositar uma fé inabalável no nosso destino histórico rumo ao progresso. Este mito originou os devastadores totalitarismos do século XX impondo uma nova lei da razão prática: «É sempre correcto preservar as coisas quando, em substituição delas, se propõem coisas piores.» (p. 18)

Um conservador tem a noção exacta do seu lugar na sociedade e do seu papel na história – cabe-lhe assegurar, desde logo, uma ligação harmónica entre os traços identitários que lhe couberam em herança e o legado que transmitirá às gerações futuras. Um território, um conjunto de costumes submetidos ao império da lei, um património cultural e linguístico: «O conservadorismo é a filosofia do vínculo afectivo. Estamos ligados a coisas que amamos e desejamos protegê-las da decadência.» (p. 50)

 

Separar águas

 

Isto leva um genuíno conservador a separar águas. Em relação aos predadores ambientais, por exemplo. Os valores ecológicos são inerentes à militância conservadora, que figura na primeira linha da defesa do ecossistema e da biodiversidade – não por acaso, “conservationist” é ambientalista em inglês. O étimo da palavra não engana.

Também há diferenças nítidas entre um conservador e um liberal: o primeiro preocupa-se acima de tudo com o valor; o segundo parece mais interessado no culto do cifrão, indiferente à evidência de que tudo quanto é sagrado não tem preço. Tal como existe uma demarcação perante o nacionalismo erigido em ideologia enquanto sucedâneo da religião, procurando nela o que não pode obter – «a finalidade última da vida, o caminho para a redenção e a consolação de todas as mágoas». Subsistem enfim divergências várias face à «grande ilusão socialista de que os pobres só são pobres por os ricos serem ricos» e que é possível «redistribuir recursos» como se estes irrompessem de geração espontânea.

São linhas de demarcação muito úteis para arrumar ideias nesta obra que se assume como um veículo de saudável provocação política e não como um guia pronto-a-pensar. Uma obra por vezes demasiado insistente nas teses eurocépticas que conduziram ao Brexit e que não precisa de ser lida pela ordem cronológica dos capítulos: bastaria aliás o sétimo – desassombrado libelo contra os novos dogmas da correcção política intitulado “A Verdade no Multiculturalismo”, entre as páginas 111 e 127 – para lhe conferir valor intrínseco. O que nada tem a ver com preço.

 

............................................................... 
 
Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz, 2018). 243 páginas.
Classificação: ***
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

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13 comentários

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De Costa a 22.02.2019 às 19:56

Você confunde (funde), desastrada ou deliberadamente, conservadorismo e reaccionarismo.

Um erro - ou uma dolosa perversão (qual seja o seu caso, Vorph, é coisa sobre que não interessa agora elaborar) - muito comum e muito conveniente, de parte de quem até crê dominar os conceitos. Algo perfeitamente estimável, desejável mesmo, à luz do politicamente correcto destes nossos dias. É aliás a versão oficial e abundantemente servida às massas.

Uma sugestão (se estiver disposto a aceitá-la; se lhe não for repugnante) de leitura: Conservadorismo, de João Pereira Coutinho. Só para isso: para clarificar conceitos; não se trata de pretender que adira ao que seja.
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De Vorph Valknut a 22.02.2019 às 22:07

Obrigado pela sugestão
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De Camarada a 23.02.2019 às 06:08

na ideia deste socialista ser conservador é parar no tempo, estude a história milenar onde sempre existiu inovações em sociedades conservadoras

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