Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A diferença entre valor e preço

por Pedro Correia, em 22.02.19

250x[1].jpg

 

Nada mais errado do que incluir o conservadorismo entre as ideologias, com as suas infindáveis terapias de catálogo para os problemas do mundo. Ser conservador é, essencialmente, um estado de espírito. Impulsionado pelo nosso instinto de preservação e alicerçado na convicção de que é inútil dissipar energias na mudança do que funciona bem. Que é quase sempre mais do que parece.

Disto nos fala, com a linguagem requintada e os argumentos esclarecidos a que o autor nos habituou em obras anteriores (como As Vantagens do Pessimismo), o mais recente livro de Roger Scruton disponível no mercado editorial português. Numa linguagem despida de pomposidades académicas, este catedrático britânico que é um dos pensadores mais estimulantes do nosso tempo impele-nos a resistir aos lugares-comuns. Desde logo àqueles que levam os conservadores a terem tão má imprensa.

 

Razão e emoção

 

Um conservador é, geralmente, uma pessoa mais aborrecida do que um revolucionário pronto a inaugurar novas eras, indiferente ao cortejo de horrores das revoluções pretéritas. Os arautos da revolução costumam socorrer-se da emoção em defesa dos seus argumentos – e a emoção atrai audiências vibrantes e variadas.

Os conservadores, mais racionais do que emotivos, cultivam a estabilidade, a hierarquia e a tradição. Pessimistas antropológicos, admitem existir uma forte probabilidade de que o futuro venha a ser pior do que o presente, sem acreditarem na progressão linear da aventura humana. Pretendem, portanto, manter o essencial das estruturas políticas e da organização social que já vigoram, rejeitando o grande salto no escuro que para eles sempre representa a ruptura revolucionária.

Nos capítulos iniciais de Como Ser um Conservador, Scruton inspira-se em autores tão diversos como Stefan Zweig ou T. E. Eliot para combater o mito determinista que ainda leva milhões de pessoas a depositar uma fé inabalável no nosso destino histórico rumo ao progresso. Este mito originou os devastadores totalitarismos do século XX impondo uma nova lei da razão prática: «É sempre correcto preservar as coisas quando, em substituição delas, se propõem coisas piores.» (p. 18)

Um conservador tem a noção exacta do seu lugar na sociedade e do seu papel na história – cabe-lhe assegurar, desde logo, uma ligação harmónica entre os traços identitários que lhe couberam em herança e o legado que transmitirá às gerações futuras. Um território, um conjunto de costumes submetidos ao império da lei, um património cultural e linguístico: «O conservadorismo é a filosofia do vínculo afectivo. Estamos ligados a coisas que amamos e desejamos protegê-las da decadência.» (p. 50)

 

Separar águas

 

Isto leva um genuíno conservador a separar águas. Em relação aos predadores ambientais, por exemplo. Os valores ecológicos são inerentes à militância conservadora, que figura na primeira linha da defesa do ecossistema e da biodiversidade – não por acaso, “conservationist” é ambientalista em inglês. O étimo da palavra não engana.

Também há diferenças nítidas entre um conservador e um liberal: o primeiro preocupa-se acima de tudo com o valor; o segundo parece mais interessado no culto do cifrão, indiferente à evidência de que tudo quanto é sagrado não tem preço. Tal como existe uma demarcação perante o nacionalismo erigido em ideologia enquanto sucedâneo da religião, procurando nela o que não pode obter – «a finalidade última da vida, o caminho para a redenção e a consolação de todas as mágoas». Subsistem enfim divergências várias face à «grande ilusão socialista de que os pobres só são pobres por os ricos serem ricos» e que é possível «redistribuir recursos» como se estes irrompessem de geração espontânea.

São linhas de demarcação muito úteis para arrumar ideias nesta obra que se assume como um veículo de saudável provocação política e não como um guia pronto-a-pensar. Uma obra por vezes demasiado insistente nas teses eurocépticas que conduziram ao Brexit e que não precisa de ser lida pela ordem cronológica dos capítulos: bastaria aliás o sétimo – desassombrado libelo contra os novos dogmas da correcção política intitulado “A Verdade no Multiculturalismo”, entre as páginas 111 e 127 – para lhe conferir valor intrínseco. O que nada tem a ver com preço.

 

............................................................... 
 
Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz, 2018). 243 páginas.
Classificação: ***
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

Autoria e outros dados (tags, etc)


13 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 22.02.2019 às 10:50

Ora bem, deve ser um excelente livro. Muito recomendável a muitos auto-proclamados conservadores portugueses, para os quais o conservadorismo se limita a defender alguns dogmas da Igreja Católica, e que confundem e misturam o conservadorismo com o liberalismo.

(Eu pessoalmente não estou interessado em ler, porque não sou nem pretendo ser conservador.)
Sem imagem de perfil

De Camarada a 23.02.2019 às 06:03

máta-te
Sem imagem de perfil

De Costa a 22.02.2019 às 15:50

Já por aqui terei deixado, provavelmente, num ou noutro comentário, a confissão da minha condição impenitente de anglófilo. Se isso nunca foi, por si, certificado de respeitabilidade (por cá, é de crer, geralmente a avaliação disso gerada será a precisamente a oposta, e suponho que por estes dias mais ainda, tal é o peso jacobinista da nossa presente correcção política), permita-se-me notar que não equivale, sem mais, a ser-se "brexiteer".

Mas leia-se, de Scruton, o superior escrito "England, An Elegy". Não exactamente longe, perdoe-se a ousadia, e sempre respeitando as devidas proporções e sabendo da tragédia imensa - e incomparável -, contida em Zweig, do inesquecível "Mundo de Ontem". Leia-se essa obra de Scruton e perceber-se-á, creio, partilhe-se ou não, o seu eurocepticismo. Cepticismo, partilhado ou não, perante uma Europa (união europeia) tão longe do que deveria ser.

Costa

Ps: que o Lavoura se afirme jamais conservador é, lidos anos e anos dos seus comentários, dos melhores certificados de bondade e correcção de pensamento que um conservador poderia ambicionar.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 22.02.2019 às 16:25

Nunca vi este jornal "dia 15" à venda. Só sai no dia 15 de cada mês? É um jornal? Uma revista?
Imagem de perfil

De Pedro Vorph a 22.02.2019 às 17:01

Se não houver uma adaptação à mudança histórica, procedente da mudança tecnológica/cientifica, então o conservadorismo resume-se a uma ideologia atrofiante, anquilosada ,avessa à dúvida e portanto ao espirito inquiridor, critico, do método cientifico. Aliás uma das caracteristicas mais chamativas do conservadorismo é a sua mundividência simplista, alicerçada em conhecimentos básicos, em certezas de senso comum, que oferecem um certo conforto existencial às mentes preguiçosas, neste mundo em permanente mudança. Esta simplicidade de conhecimento, esta auto-satisfação com o que se sabe (a glorificação do passado como mantra) inculca , nos conservadores, uma repulsa pela novidade, pelos novos saberes, muitos deles ambiguos (onde paira a verdade?), pelo pensamento complexo, representando a ciência e a evolução tecnológica um antagonismo. Viver, saber, é aprender a mudar e não a conservar
Sem imagem de perfil

De Costa a 22.02.2019 às 19:56

Você confunde (funde), desastrada ou deliberadamente, conservadorismo e reaccionarismo.

Um erro - ou uma dolosa perversão (qual seja o seu caso, Vorph, é coisa sobre que não interessa agora elaborar) - muito comum e muito conveniente, de parte de quem até crê dominar os conceitos. Algo perfeitamente estimável, desejável mesmo, à luz do politicamente correcto destes nossos dias. É aliás a versão oficial e abundantemente servida às massas.

Uma sugestão (se estiver disposto a aceitá-la; se lhe não for repugnante) de leitura: Conservadorismo, de João Pereira Coutinho. Só para isso: para clarificar conceitos; não se trata de pretender que adira ao que seja.
Imagem de perfil

De Pedro Vorph a 22.02.2019 às 22:07

Obrigado pela sugestão
Sem imagem de perfil

De Camarada a 23.02.2019 às 06:08

na ideia deste socialista ser conservador é parar no tempo, estude a história milenar onde sempre existiu inovações em sociedades conservadoras
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.02.2019 às 20:07

"Viver, saber, é aprender a mudar e não a conservar."
Certo!
No entanto, há mudanças muito consevadoras.
Por exemplo, a mui recente lei que impõe que as mulheres ganhem o mesmo que os homens, segundo o princípio de que à mesma função, a mesma remuneração.
Disparate!
O princípio deveria ser: à mesma produtividade, a mesma remuneração.
O mérito, em vez do género.
Por que carga de água haveríamos de condenar as mulheresde a não ganhar mais que os homens?!
Esqueçam o género, por favor e de uma vez por todas!
Não amesquinhem mais as mulheres, senhores progressistas!
João de Brito
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.02.2019 às 21:47

Vorph desculpe o impromptu, Kraft Heinz não foi só a SEC, foi um write-down de quase 19 mM. Cuidado. Mais uma vez as minhas desculpas pela interrupção.
Imagem de perfil

De Pedro Vorph a 22.02.2019 às 22:58

Compre agora e aguarde uns 5 anitos. Há-de render mais do que se o puser no Banco, acredite.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 22.02.2019 às 17:52

É curioso observar que Scruton identifica (corretamente, a meu ver) a conservação da Natureza como uma forma de conservadorismo. Ora, no atual ambiente político norte-americano, que como se sabe contamina muito o ambiente político europeu também, os defensores da conservação da Natureza tendem, pelo contrário, a ser vistos como perigosos esquerdistas, gente avessa aos negócios e que os pretende sabotar. Curiosamente, muitos ecologistas vêem-se a si mesmos também como pessoas de esquerda - que pretendem o progresso nas relações sociais, mas não na tecnologia nem na exploração do ambiente.
Enfim, o mundo está cheio de curiosas contradições.
Sem imagem de perfil

De Bea a 23.02.2019 às 01:17

Intuitivamente, sempre me achei conservadora. Pelo que aqui está, sou capaz de ter razão.
Talvez seja um livro com interesse, mas creio que não o vou ler.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D