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A descoberta definitiva do mal

por Pedro Correia, em 01.09.18

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Houve umas décadas fugazes em que a “paz perpétua” antevista por Kant parecia possível. Na viragem do século XIX para o século XX, floresciam as artes e as letras e as ciências no benigno reinado do Imperador Francisco José (1830-1916). A partir de Viena congregava-se um dos maiores potentados económicos do planeta, com a mais vasta extensão territorial europeia (exceptuando a Rússia, euro-asiática), doze línguas oficiais, cinco religiões reconhecidas, direitos constitucionais consagrados.

 

Das décadas irrepetíveis do multinacional Império Austro-Húngaro, formado em 1867, nos deixaram testemunho grandes autores como Stefan Zewig (em forma memorialística, com o seu monumental O Mundo de Ontem) ou Joseph Roth (em forma de ficção, com o seu excelente romance A Marcha de Radetzky). Naquele mosaico de etnias e culturas emergiram escritores de projecção universal como Arthur Schnitzler, Karl Kraus, Rainer Maria Rilke, Robert Musil, Franz Kafka, Hermann Broch e Sándro Márai, pintores mundialmente consagrados como Gustav Klimt, Oskar Kokoschka e Egon Schiele, compositores aplaudidos nos cinco continentes como Gustav Mahler, Arnold Schoenberg e Alban Berg, pensadores e filósofos tão determinantes como György Lukács, Ludwig Wittgenstein, Karl Mannheim e Karl Popper.

 

Dos dias crepusculares desta efémera idade de ouro que trouxe progresso económico e florescimento cultural ao coração da Europa nos fala uma obra imprescindível, desde já um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal: A Língua Resgatada, primeiro dos três volumes de memórias de Elias Canetti, galardoado em 1981 com o Prémio Nobel da Literatura.

 

Raízes ibéricas

 

Nascido na Bulgária em 1905, numa família de judeus sefarditas com seculares raízes na Península Ibérica (descendente, pela linha materna de apelido Arditti, de astrónomos e médicos judeus da corte de Afonso IV de Aragão), viveu até aos seis anos na cidade natal, Ruse, à beira do Danúbio: ali ouvia diariamente seis diferentes línguas que aprendeu a identificar sem dificuldade. Em casa, a família falava ladino-espanhol, que funcionava como traço identitário dos judeus sefarditas expulsos da Península no século XVI.

 

A tradicional errância judaica marcou a família Canetti (originalmente Cañete, com origem em Cuenca). Aos seis anos, o pequeno Elias rumou com os pais e os dois irmãos mais novos para Manchester. Mas a morte prematura do pai nesta cidade britânica levou a família a transferir-se para Viena, a partir de 1913. Entre a capital do Império Austro-Húngaro e Zurique dividiram-se os anos seguintes do futuro Nobel, que haveria de exprimir-se essencialmente em alemão. Anos de aprendizagem – das primeiras leituras, dos primeiros ensaios literários, do crescimento numa família cheia de ramificações e em larga medida disfuncional. Anos marcados pela sombra da guerra em Viena, que apagaria para sempre as luzes do Império Austro-Húngaro. Anos de uma «plenitude feliz» na neutral Suíça, porto de abrigo de um velho clã marcado pelo êxodo: «Toda a nossa história assentava na nossa expulsão de Espanha.»

 

O centro do mal

 

O centro do mundo visto pelo olhar de uma criança tornada adolescente com maturidade precoce: assim pode ser resumida esta envolvente autobiografia, inicialmente publicada em 1977 e traduzida do alemão original por Maria Hermínia Brandão. A Língua Resgatada suspende-se em 1919, tinha o autor apenas 14 anos: a mais absurda de todas as guerras terminara, com o seu cortejo de 20 milhões de mortos, aquele mundo onde faiscavam luzes tão singulares não voltaria a ser o mesmo: dera-se a descoberta definitiva do Mal.

 

Aguardam-se os próximos dois tomos desta trilogia memorialística onde não se detecta uma palavra a mais. Herança da mãe, que tanto marcou Canetti: «Tinha uma raiva de morte ao palavreado, falado ou escrito, e quando eu ousava dizer alguma coisa inexacta dava-me uma forte reprimenda, sem contemplações.» Um Nobel pode nascer assim

 

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A Língua Resgatada, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro, 2018). 345 páginas.
Classificação: *****
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15



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