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A Derrota dos Porcos

por Rui Rocha, em 28.06.18

Era uma vez três porquinhos que moravam na Brandoa. Cresceram e decidiram ir viver para Lisboa. A mãe avisou: cuidado, é lá que vive o especulador mau e não vou poder proteger-vos da gentrificação. Ainda assim, foram. O mais novo arrendou uma assoalhada na Graça. O do meio comprou um prédio em Alfama. E o mais velho uma casinha para restaurar no Largo do Rato, junto ao bar do filho do Dr. Costa. O porquinho mais novo só pensava em brincar. Fez um arrendamento de curto prazo. O do meio pediu um empréstimo avultado. Construiu um anexo onde passou a morar e dedicou o edifício principal ao Alojamento Local. Tornou-se um porco capitalista. O mais velho lembrou-se dos conselhos da mãe. Poupou e reconstruiu com modéstia e tijolo. Só foi brincar depois de terminar a obra. Um dia, quando estavam os três a saltar e a fazer as coisas que os porquinhos fazem para se divertirem, apareceu o especulador mau. Os especuladores maus têm dentes afiados e parecem lobos. Mas são ainda mais ferozes. Às vezes, até andam de Uber. Vendo-o, os porquinhos fugiram, cada um para sua casa. O especulador perseguiu o mais novo: sai daí que vou… Ya, mitra, já sei a tua cena, interrompeu o porquinho. Vais soprar e deitar a palhota abaixo e o caraças. Só que a palhota não é de palha, tás a ver. É mesmo uma casa, tás a ver. “Palhota” é calão urbano, tás a ver. Mas não é mesmo de palha à séria. É como a Eurovisão, tás a ver. É “Euro”, mas a Austrália participa e tá-se bem. É como o Dr. Costa dizer no Congresso que o PS esteve na 1ª linha do combate à corrupção. Só que não, tás a ver. Quando o porquinho acabou, o especulador riu-se e explicou que, agora, só soprava nos casos difíceis. Normalmente, bastava denunciar o contrato de arrendamento. E o especulador denunciou o contrato de arrendamento com tanta força que o porquinho teve de fugir para o anexo do irmão do meio. O especulador não desistiu e continuou a rondar, ameaçador. Preocupado, o Estado decidiu intervir. Estabeleceu quotas para o Alojamento Local. E regulou-o. E taxou-o. E o porco capitalista faliu. Endividado até aos chispes, entregou a propriedade ao Banco Mau. Os especuladores são todos maus. Os Bancos não. Há os Banco Maus e os Bancos Bons. É como o PS. O PS Mau era o do Eng. Sócrates. Tinha os Drs. Costa, Vieira da Silva, César e Santos Silva. Já o PS Bom tem os Drs. Costa, Vieira da Silva, César e Santos Silva. É muito diferente. O certo é que os dois porquinhos fugiram para a casa do irmão mais velho. O especulador, vendo-os juntos, afiou os dentes. Encheu o peito de ar e soprou com força. A casinha não abanou. Aliviados, os irmãos saltaram e fizeram as coisas que os porquinhos fazem quando estão contentes. O especulador é que não se deu por vencido. Tinha feito carreira num call-center, daqueles que ligam para fazer inquéritos de satisfação nos momentos mais inconvenientes, e não desistia assim à primeira. Tentou entrar pela chaminé. O porquinho mais velho, esperto, preparou um caldeirão com água a ferver. Quando o especulador desceu, queimou o rabo e ficou ainda mais furioso. In extremis, o porquinho sábio tirou do bolso uma política de protecção de dados e exibiu-a. Foi como se tivessem mostrado ao Diabo uma cruz. Em pânico, o especulador fugiu no primeiro tuk-tuk que apareceu. Os dois porquinhos mais novos agradeceram ao irmão e aprenderam uma grande lição: a protecção de dados é eficaz na relação entre privados. Estranhamente, não se aplica ao Estado. Os anos passaram e os porquinhos envelheceram. Cansados, decidiram vender a casinha e receberam muitas propostas interessantes. Mas o Dr. Costa bateu-lhes à porta. Que estava interessado, que o xôr porquinho podia vender-lhe, que aquela casinha era o sonho da filha, que assim ficava perto do bar do irmão, que era uma questão de solidariedade, que podia pagar poucochinho. E o porquinho mais velho, um coraçãozinho de banha derretida, vendeu barato. Os três porquinhos, tão velhinhos, pegaram na trouxa e regressaram à Brandoa, onde viveram infelizes para sempre. Já o Dr. Costa, ao fim de dez meses, vendeu a casinha pelo dobro do preço. No Europeu, foi o Éder que prejudicou os franceses. Já os porquinhos, não foi o especulador mau, foi o Dr. Costa que os comeu.

 

* artigo originalmente publicado na edição de Junho do Dia 15.


16 comentários

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De Rão Arques a 28.06.2018 às 11:02

No seio de tal cambada de porcos não existe fronteira entre especulação, fraude e corrupção
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De Sarin a 28.06.2018 às 11:15

Boa sorte com o Dia 15!

O texto, bom, eu já tinha estranhado a falta de piadas sobre o tema :)
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De Anónimo a 28.06.2018 às 13:14

O autor estava mesmo inspirado. Esta não é uma estorinha para adormecer, é uma estória que merece ser relida e... entendida.
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De Tiro ao Alvo a 28.06.2018 às 19:51

Este anónimo tem nome e assina assim: Tiro ao Alvo
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De Rui Rocha a 28.06.2018 às 22:54

Obrigado, TA.
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De JS a 28.06.2018 às 14:23

Versão lapidar. Corregida e diminuída, adaptada a estes tempos em que ler mais do que três linhas de uma fábula, não é comum.

Sr. George Orwell, considere-se actualizado.
Mas afinal é uma honra ser-se "apedeiteado" por Rui Rocha.
Saudações.
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De Rui Rocha a 28.06.2018 às 22:54

Obrigado, JS.
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De Anónimo a 28.06.2018 às 14:39

"...regressaram à Brandoa, onde viveram infelizes para sempre." Tá mal. Não concordo. Na Brandoa vive-se bem. Tanto que há muita gente que quer voltar para a Brandoa.
E agora até tem um nome pomposo: Encosta do Sol. Ou como identificado no airbnb por alguém: "Sun Hill" spacious apartment II
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De Rui Rocha a 28.06.2018 às 22:55

Não foi a Brandoa que os fez infelizes :). Foi a circunstância. Os porquinhos e a circunstância deles.
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De Anónimo a 29.06.2018 às 11:23

Ah ok. Assim está melhor. Que isto de dizer mal do bairro é que não.

Por acaso, na Brandoa, antes da demolição dos quintais na encosta, havia lá porcos (dos de 4 patas).
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De Anónimo a 28.06.2018 às 15:43

E não era tudo pelo bem?
Onde estaremos seguros em Lisboa?
Um tecto nos tape, uma teta nos alimente.
E esse tal de dr. Costa intervém em todas as etapas do ciclo retirando dele energia?
Tenho de ir aos canhenhos de estudante.O Lehninger, não o Lenine que é destruição pura.
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De Rui Rocha a 28.06.2018 às 22:56

O da Bioquímica?
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De Anónimo a 28.06.2018 às 23:05

É verdade.
Um ciclo em que é extraída energia da degradação dos porquinhos.
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De Arlety Pin a 30.06.2018 às 21:52

Adorei! Adorei! Adorei!
Principalmente esta parte:
"In extremis, o porquinho sábio tirou do bolso uma política de protecção de dados e exibiu-a. Foi como se tivessem mostrado ao Diabo uma cruz. Em pânico, o especulador fugiu no primeiro tuk-tuk que apareceu. Os dois porquinhos mais novos agradeceram ao irmão e aprenderam uma grande lição: a protecção de dados é eficaz na relação entre privados. Estranhamente, não se aplica ao Estado."

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