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bratislava-castle.jpg

 

A frase

“Acredito que me queiram afastar de tudo”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pela instrução do caso que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Expresso

17 de Setembro de 2016

 

Post

Este texto de Francisco José Viegas sobre a pobreza da linguagem deve ser lido em conjunto com este sobre o ensino.

 

A semana

Domingo, 11 de Setembro de 2016

Foi um fim-de-semana horrível para Hillary Clinton: num comentário infeliz, a candidata democrata classificou de “deploráveis” os eleitores do seu rival, Donald Trump; horas depois, domingo, quando estava nas cerimónias do 11 de Setembro, em Nova Iorque, a ex-secretária de Estado teve de abandonar o local com evidentes dificuldades de saúde. O comentário sobre os deploráveis foi a melhor demonstração do elitismo de que é acusada pelos detractores; o aparente desmaio foi causado por uma pneumonia, mas a campanha de Trump insinuou que se passa algo de mais complexo; afinal, nos dias anteriores, a candidata democrata dissera ter umas alergias e até brincara, dizendo que tinha alergia ao rival.

Elitismo e suspeitas de problemas de saúde são uma combinação tóxica na campanha, para mais estando Hillary Clinton a deslizar nas sondagens. A vantagem confortável que os democratas tinham há apenas um mês dissipou-se e a eleição será, no mínimo, difícil. Trump avança em todos os Estados que vão decidir a votação de Novembro. As eleições americanas são indirectas, por colégio eleitoral, e cada Estado atribui todos os delegados ao vencedor estadual, nem que seja por um voto: o candidato mais votado a nível nacional pode perder, pelo que as sondagens a nível nacional têm de ser vistas com cautela. Há Estados que votam sempre no mesmo partido, ganhos ou perdidos à partida e nenhum dos candidatos gastará neles muitas munições. A eleição decide-se num pequeno número de votações parciais, nos chamados swing states, cujos maiores são, neste momento, os seguintes: Ohio, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia, Pensilvânia, Geórgia e Michigan. É sobretudo nestes campos de batalha que a situação está a mudar depressa a favor de Trump.

 

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

A entrevista do ministro das Finanças Mário Centeno à CNBC provocou forte reacção em Portugal, com críticas da oposição e textos de opinião contundentes, como este de António Ribeiro Ferreira. Evitar o segundo resgate é de facto a prioridade do governo de António Costa, como seria a prioridade de qualquer outro governo. Se conseguir evitar a derrapagem orçamental, o primeiro-ministro terá ganho a sua arriscada aposta política. Ao alcançar a meta de 2,5% no défice, Costa terá cumprido as promessas eleitorais e, ao mesmo tempo, os compromissos com os credores. O inverso implica a desconfiança das instituições europeias, o fim da notação favorável da dívida, sanções automáticas, subida dos juros. Três ou quatro décimas acima de 2,5% e todo o edifício entra em colapso. A questão estará em saber qual é a fronteira da tolerância.

 

Por tudo isto, a entrevista de Petteri Orpo, o novo ministro das Finanças finlandês, que pode ser lida aqui, é provavelmente mais reveladora e preocupante do que a de Mário Centeno: as sanções não podem evitar-se em caso de incumprimento das metas de défice, pois a própria credibilidade da moeda única estará em causa. Junte-se a tudo isto a perigosa conjuntura política europeia, com o avanço do descontentamento popular, a subida dos partidos de protesto e as várias ameaças existenciais, do Brexit à crise migratória. Mário Centeno limitou-se a reconhecer o óbvio: a sua preocupação é simplesmente a de evitar o segundo resgate, pois esse é o corolário inevitável do fracasso. O factor decisivo não está nas escolhas da agência de notação canadiana DBRS, nem sequer nos apoios da esquerda ao governo minoritário, mas na execução do orçamento de 2016.

 

Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Na campanha presidencial americana só se discute a expressão de Hillary Clinton ‘basket of deplorables’, o cesto dos deploráveis, que serviu para a candidata democrata arrumar metade dos eleitores de Donald Trump, como gente de duvidoso patriotismo e numerosos preconceitos, da xenofobia ao sexismo. A frase é de facto tóxica e a campanha democrata tentou justificá-la, repetindo que uma parte do eleitorado republicano é mesmo deplorável, só não se sabia exactamente que parte. A emenda foi pior do que o soneto e a frase vai colar-se à candidata. Os republicanos acusam Hillary de insultar milhões de trabalhadores americanos e vão usar a controvérsia para desviar a atenção dos eleitores de assuntos mais sérios. A candidata democrata era acusada de elitismo, agora provou essa inclinação.

O alheamento dos políticos não é um problema exclusivo dos americanos. Um pouco por todo o mundo ocidental, as elites tendem a desprezar o voto dos eleitores comuns, julgando que estes não escolhem correctamente e não percebem a bondade das suas decisões. Na Europa, os federalistas contestam a legitimidade de posições nacionais contrárias ao grande plano e defendem expulsões de países, como se um suposto interesse europeu fosse mais elevado do que a vontade soberana de um povo. Nesta hipocrisia, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, é um verdadeiro mestre.

 

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Nas sondagens, Hillary Clinton continua numa queda que se acentua diariamente. Está a perder no Ohio e na Flórida, dois Estados que garantiram as vitórias de Barack Obama. A Carolina do Norte, onde os democratas tinham vantagem, ficou cerradamente empatada. Se confirmar estes três e ganhar a Virgínia, Trump pode ser presidente. Enfim, faltam quase dois meses, haverá certamente novas gafes do candidato republicano e a disposição do eleitorado indeciso pode inclinar-se na direcção de Hillary. Uma coisa é certa: estas eleições ficam para a História. Nunca houve um par de candidatos presidenciais que inspirasse tal rejeição, uma por elitismo, o outro pela demagogia. Se vencer, Hillary será a primeira mulher à frente da maior super-potência mundial. Ganhe Donald Trump e teremos muitos nervos nos mercados, com tendência para o isolacionismo da América.

 

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Em Portugal, um dia cheio de notícias contraditórias, com o anúncio de eventuais impostos sobre o património em negociação entre PS e Bloco de Esquerda, a que se juntou um relatório sombrio do Conselho de Finanças Públicas, que aponta para anos de crescimento insuficiente e para o fracasso da estratégia do Governo António Costa de estimular o consumo interno. O facto é que as taxas de juro continuam a subir, apesar dos elevados montantes de dívida comprados em cada mês pelo Banco Central Europeu: parece que os investidores deixaram de comprar e estão a livrar-se da dívida que têm, o que pode significar graves dificuldades quando o BCE interromper o seu programa de compras. Na economia, não há investimento. Portugal deve crescer apenas 1% este ano, mas o Governo, aprovando um imposto da autoria do Bloco de Esquerda, ameaça afugentar os investidores que estimulavam o mercado imobiliário e o turismo. Parece que, como explica Paulo Ferreira, se pretende agora ‘perder por poucos’, ou ir passando entre as gotas da chuva. As reformas foram travadas, triunfou a preocupação de satisfazer clientelas e manter uma campanha permanente de venda de ilusões. A geringonça já falhou, mas pode manter-se ainda algum tempo ainda, alheia a um contexto europeu adverso. Os outros países estão a tentar libertar-se do lamaçal, nós estamos atascados até aos ossos.

 

Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016

A Europa iniciou oficialmente a discussão sobre o seu futuro, numa cimeira em Bratislava onde eram mais do que evidentes as divisões entre grandes blocos de países. Esta reunião não contou com a participação do Reino Unido e, pelo menos na agenda, destinou-se a discutir os efeitos do Brexit. O ambiente de crise na Europa começa nas próprias lideranças, pois os dirigentes dos maiores países da UE encontram-se todos em situação complicada: a chanceler alemã está a ser contestada no seu próprio partido e pelos aliados democratas-cristãos bávaros (CSU) por causa da política de imigração; o Presidente francês tem perspectivas duvidosas de reeleição em 2017, surgindo nas sondagens sem grandes hipóteses de passar à segunda volta; os chefes de governo italiano e espanhol podem não estar em funções no Natal. Há uma crise política na Áustria, a Grécia tem de negociar o terceiro resgate, Portugal tem de evitar o segundo, a Holanda vota na Primavera e os populistas avançam, o estendal de problemas parece sem fim e não há memória de uma liderança tão frágil ter de tomar decisões que podem ter repercussões por décadas.

Este artigo no El Pais explica as divisões e a circunstância de não existir uma ideia mobilizadora, que possa servir de referência para a Europa futura, o tal ‘momento Kennedy’. Fartei-me de rir com o cínico que queria mandar um inglês para a Lua.

 

Sábado, 17 de Setembro de 2016

O castelo de Bratislava (na imagem) dominou a História de vários países, fica no coração da Europa, nas margens do Danúbio, esteve em ruínas, é hoje imponente, mas não suscitou grande inspiração. No final da cimeira foram ditas as habituais palavras de circunstância, naquela língua de pau que se tornou típica da eurocracia. A única ideia da cimeira foi a de reforçar a segurança e a defesa, pelo menos ideia transmitida em público, pois a transparência nunca foi o ponto forte destes encontros. A discussão sobre o futuro da Europa pós-Brexit ainda agora começou e certamente não será finalizada pelos mesmos protagonistas de ontem. Angela Merkel, por exemplo, deve sofrer nova derrota amanhã, domingo, nas eleições de Berlim, e esta pode ser humilhante, capaz de lançar uma insurreição dentro do seu próprio partido. A questão da migrações não tem solução: é um problema humanitário que a Europa não pode ignorar, mas tornou-se também claro que as quotas nacionais de refugiados não resolvem coisa alguma. Não é possível registar grandes quantidades de estrangeiros sem criar novos problemas sociais e a própria Alemanha não consegue integrar todos os que lhe bateram à porta. Para cúmulo, a Turquia ameaça, a todo o momento, abrir a torneira dos 3 milhões de refugiados sírios que tem no seu território.

A Europa confronta-se com o fracasso da sua gestão da crise das dívidas soberanas, que criou um fosso entre Norte e Sul, e com o falhanço clamoroso da sua gestão da crise das migrações, que causou uma divisão entre Leste e Ocidente. A isto junta-se um conflito antigo entre federalistas e soberanistas, além da mais recente subida dos partidos populistas, que ameaça o equilíbrio tradicional entre liberais, social-democratas e conservadores.

A União Europeia terá provavelmente de fazer um recuo temporário nas suas ambições e esperar o aparecimento de uma nova elite, de outra geração, com ideias frescas. Afinal, este é um mercado gigantesco, com 500 milhões de consumidores, ao qual o Reino Unido continuará a pertencer. A Europa de hoje é também uma aliança de países democráticos como nunca houve outra, com os seus problemas, é certo, sobretudo a poderosa consciência de declínio irreversível, que é infelizmente a única ideia mobilizadora que persiste. As elites fracassaram? É evidente, e a sua substituição será natural e vantajosa: é assim nas democracias.

Substituir as lideranças? Eis uma boa ideia mobilizadora. Outra: não ponham o carro à frente dos bois.

 


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