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A democracia venezuelana

por Diogo Noivo, em 09.08.17

O Egipto de Hosni Mubarak era uma democracia. Bom, não era, mas se aplicarmos ao regime de Mubarak a bitola usada por alguns para analisar a Venezuela de Hugo Chávez, então o ditador egípcio era na verdade o chefe de um Executivo ampla e plenamente democrático. Os órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP - mostram-se incomodados com as cenas que nos chegam da Venezuela e, acto contínuo, dizem-nos que antes é que era bom, que antes não se manipulavam eleições, enfim, que Hugo Chávez era um democrata. Ora, se Chávez era um democrata, então Mubarak também o era.


No Egipto de Mubarak as eleições eram livres na medida em que raramente havia manipulação dos votos expressos em urna. De resto, alguns actos eleitorais foram monitorizados e validados por organizações internacionais independentes. O problema da liberdade eleitoral egípcia estava a montante, isto é, nos partidos e indivíduos a quem era permitido concorrer. O crivo eleitoral imposto pelo regime era de tal forma apertado (e viciado) que às eleições apenas se apresentavam o partido no poder e chamada "oposição leal". No Egipto de Mubarak as eleições eram livres porque a manipulação (opressão, na verdade) acontecia antes de os eleitores se deslocarem às urnas. Na Venezuela de Chávez a lógica era em tudo semelhante: os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente. Quando este é o terreno de jogo não há grande necessidade de manipular eleições. Por estes dois lustrosos exemplos de autoritarismo se vê que quando falamos em democracia não nos limitamos à exigência de actos eleitorais livres em stricto sensu.
 
Na Venezuela actual a manipulação é evidente, como é evidente o grotesco atentado às liberdades políticas dos cidadãos. Não há dúvidas - pelo menos, para os democratas - quanto ao carácter autoritário do regime de Maduro, criatura que as ruas de Caracas apelidam adequadamente de Maburro. No entanto, o agravar da crise política e humanitária em curso está a abrir espaço para a reabilitação de Hugo Chávez, um revisionismo que dificilmente teria sustentação se não fosse pela falta de memória colectiva. Hoje, como no passado chavista, a democracia venezuelana é uma aldeia Potemkin.

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8 comentários

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De glu glu a 09.08.2017 às 00:22

a estampar em camisolas a oferecer aos camaradas do pc.
ainda assim não iriam acreditar, por força da madraça e inexistência de memória/realidade fora dela.
em que medida pode um partido que sistematicamente manifesta apoio aos mais escabrosos regimes que a humanidade conseguiu produzir pode ter legitimidade num contexto político essencialmente democrático?
apenas aquela que a liberdade de expressão lhe permite?
e é suficiente?
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De V. a 09.08.2017 às 01:17

A Caixa Geral de Aposentações envia cartas de auto-congratulação aos pensionistas informando-os de que "depois da baixa de rendimentos entre 2011 e 2015" vêm agora anunciar um fabuloso aumento de 1.35 cêntimos. Assinado por uma tal Margarida Silva ou lá o que é.

A instrumentalização dos organismos do Estado pela gente nojenta do PS não tem limites. É simplesmente asqueroso a manipulação que fazem de idosos e deficientes e a apropriação de tudo o que mexe para lá enfiarem a sua tropa manhosa de fdpês. Gente medonha que mete nojo.

A única diferença para a Venezuela é que esses já não escondem o que são.
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De Anónimo a 09.08.2017 às 11:21

"excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP " Exclua todos os que não concordam consigo. Assim evitará a maçada de arranjar argumentos.
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De Diogo Noivo a 09.08.2017 às 11:53

Se os vários que são apresentados no post não chegarem arranja-se mais. Mas estará o caro anónimo preparado para os interiorizar?
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De Anónimo a 09.08.2017 às 14:11

Eu, anónimo, não estou preparado, confesso, para grande coisa devido à minha falta de conhecimentos. Frequento blogues para ver se encontro argumentos racionais em vez de apaixonados. Quanto a Boaventura Sousa Santos, sei que é um grande intelectual de grande prestígio. Por isso dou-lhe um certo crédito e não gosto de ver as suas ideias postas de lado sem prova capaz. Interpreto isto assim: quem não é capaz de argumentar com ele, põe-no liminarmente de lado com se não merecesse atenção. Acaba por ser um argumento que (na opinião de quem o usa) serve para rebater todas as ideias.
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De Diogo Noivo a 09.08.2017 às 16:53

Os argumentos estão no post. Coisa diferente é a disponibilidade de cada um para os entender.
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De V. a 09.08.2017 às 12:02

No vosso caso, "argumentar" argumentos definem-se como as pessoas normais definem a ideia de "desviar o assunto": para qualquer argumentação contrária à vossa a resposta é invariavelmente "então e a Direita?"
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De J. L. a 09.08.2017 às 16:35

" órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP". Será que quer dizer que Boaventura Sousa Santos e o PCP, de duas uma: não estão bons da cabeça ou não têm vergonha. Acho esta afirmação um tanto exagerada. Se lhes falta sanidade mental, mande-os para uma clínica psiquiátrica (de preferência na Sibéria para pescarem com o Putin). Se não têm uma dose mínima de vergonha, não lhes responda, eles não merecem.
Resta uma hipótese: o caso em que nem têm falta de sanidade nem falta de vergonha. Se assim for como responde ao que eles dizem? É que se esqueceu de contemplar este caso.
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De Diogo Noivo a 09.08.2017 às 16:52

Não esqueci. Agora não posso obrigar ninguém a ler o que escrevo. Mas não tem importância, reescrevo: o problema do branqueamento do autoritarismo de Hugo Chávez, tentando fazer dele um democrata, é o facto de esquecer que "os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente". Há mais, mas creio que isto basta para perceber que caracterizar Chávez como democrata é das duas uma: ou falta de sanidade ou falta de vergonha.

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