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A decadência do jornalismo

por Pedro Correia, em 09.11.16

imrs[2].jpg

 

«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»

José Saramago (2001)

 

Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.

Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.

 

Andámos assim durante 16 meses.

Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o  Presidente Obama e a primeira dama - mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.

Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.

Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?

Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.

 

Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.

Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.

Um dos marcos desta campanha - pela negativa - ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.

 

Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.

Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.


52 comentários

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De JS a 09.11.2016 às 17:55

A Marcia começou a sua campanha nos EUA a chamar louco ao candidato. A cara dos média que pagamos, à força.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 18:46

Deve ter sido gralha verbal. Queria dizer louro.
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De lucklucky a 09.11.2016 às 18:11

Como é que pode existir jornalismo se os jornalistas só têm uma cultura?

A cultura do cheeleader politico de esquerda.

Há algum jornalista curioso?
Há algum jornalista que se interessa por engenharia, medicina ou seja algo que não seja política ou desporto?
A Engenharia tem contribuído muito mais para a melhoria de vida das pessoas que a Política mas nenhum jornalista se interessa...

Porque o jornalismo não existe para informar mas para dar mais poder à Política. Para entrar para as SIC's, TVI's Expressos, Publicos, Washington Post, New York Times a primeira coisa é o jornalista ter as ideias política certas.

A política certa que nos diz que o Obiang é um malvado Ditador Guinense mas que o Fidel é um Líder Cubano.

Nessa cultura não se pode esperar que exista jornalismo. Existe uma claque profissional.




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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 18:47

Os jornalistas "só têm uma cultura" e você só tem um 'colt'. Dispara sempre o mesmo.
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De BELIAL a 09.11.2016 às 19:34

Concordo em absoluto, com post.

E já agora: Os jornalistas "só têm uma cultura" e você só tem um 'colt'. Dispara sempre o mesmo.

Boa malha, eh eh eh :-)
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De M. S. a 09.11.2016 às 20:45

Caro Pedro:
O loucolucky só tem uma bala e ata-a com um cordel, como na anedota do Solnado.
Por isso dispara sempre a mesma contra qualquer alvo que lhe apareça.
----------------------
P. S. Caro Pedro, conhece isto?
http://dererummundi.blogspot.pt/2016/11/persistir-contra-o-acordo-ortografico.html
(Manuel Silva)
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 21:16

Gostei muito da leitura para que o seu 'post scriptum' me encaminhou. Fico-lhe agradecido.
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 00:07

É um assunto inesgotável, como sabemos. Hei-de voltar a ele muito em breve.
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De lucklucky a 09.11.2016 às 23:09

O Jornalismo é só o problema mais importante no Ocidente.

Que já desde antes da Segunda Grande Guerra anda a tentar destruir.
A única razão porque a Segunda Grande Guerra contra os Nazis não foi uma Guerra Imperialista do Grande Capital contra a Alemanha Nazi é porque a União Soviética foi atacada.





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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 23:19

Isso hoje está fraco, aí do seu lado. Ir buscar a invasão da URSS pela Alemanha a propósito da vitória eleitoral de Trump e da crise da decadência do jornalismo é uma bota que não cola com a perdigota.
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De lucklucky a 09.11.2016 às 23:29

Só demonstrei o que o jornalismo desde há muito tem feito como transformar a Segunda Grande Guerra numa Guerra Justa e a defesa do Vietname numa Guerra Injusta.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 23:54

Isso já é recuar muito. Mais um pouco e chega à Guerra da Secessão norte-americana.
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De M. S. a 10.11.2016 às 13:52

Caro Pedro:
Eu diria que o loucolucky não tardará a recuar até à Guerra dos Cem Anos - a mãe de todas as guerras no Ocidente em duração.
Cumprimentos.
(Manuel Silva)
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De lucklucky a 10.11.2016 às 17:25

Só possível acontecer quando se formou a cultura Marxista.

Malcolm Muggeridge até escreveu uma novela sobre o Jornalismo e Estaline
https://en.wikipedia.org/wiki/Malcolm_Muggeridge
"Muggeridge turned back to novel writing, beginning Winter in Moscow (1934), which describes conditions in the "socialist utopia" and satirises Western journalists' uncritical view of Joseph Stalin's regime."

Claro que antes de 1939 tivemos Walter Duranty do New York Times que ganhou o Pullitzer pelas falsidades que escreveu sobre a União Soviética
https://en.wikipedia.org/wiki/Walter_Duranty


Na narrativa Marxista, 1939 até ao 22 Junho em que os Nazis invadiram a União Soviética a Segunda Grande Guerra foi uma guerra Imperialista dos Aliados.

Foi por essa razão que vários sindicatos Franceses afectos ao PCF tentaram e sabotaram várias fábricas de armamento antes e quando a Alemanha Nazi invadiu a França. Foi por essa razão que o CPUSA defendia o pacifismo Americano durante o período 1939-41.

A narrativa mudou a partir de Junho 41, desde essa data os soldados mortos americanos já não morreriam por culpa do grande capital. Mas caso Hitler continuasse Aliado a Estaline a guerra contra o Nazismo teria sido uma guerra do grande capital.

E assim foram retratadas todas as guerras do Ocidente nos jornais a seguir à Segunda Grande Guerra.
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De cristof a 09.11.2016 às 18:27

E bem séria que deve ser a reflexão; a supremacia intelectual dos média sobre a população inverteu-se, e parece que não repararam; o acesso a outras fontes de reflexão e info são generalizadas e os média parece que não notam (ainda mais os que têm a renda garantida, por todos nós)
Ou acordam e dão corda nos sapatos ou soçobram. E andarem a dar tiros uns aos outros é patético.Ou a fazerem camõezadas ou peixotadas só desacredita os bons que ainda por aí lutam pela vida.Os pastorinhos dos amanhãs que cantam devem ir para a IURD.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 18:50

As vitórias do Brexit, do referendo na Colômbia e agora dos republicanos nos EUA - sempre contra o jornalismo dominante - são sinais claros de mudança na política mundial. Outros vão seguir-se.
Mas são também sinais claros de mudanças irreversíveis na influência social e política do jornalismo. Por "preguiça intelectual", antes de mais nada, como Saramago alertou em devido tempo.
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De vale de lobos a 09.11.2016 às 20:17

Ainda bem que vai haver um Congresso dos Jornalistas
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 20:35

O anterior realizou-se no século passado. O que diz tudo sobre o estado desta profissão.
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De sampy a 09.11.2016 às 20:49

Citar Saramago, o "jornalista revolucionário", a propósito da decadência da classe jornalística, é muito meta.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 21:17

Saramago, o Nobel. Observador atento da decadência do jornalismo também.
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 00:04

Que vem de longe, como sabemos.
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De JSC a 09.11.2016 às 22:15

Sim, mas o problema maior é a falta liberdade, a Sociedade não permite que se diga em alto e bom que se é homofóbico, racista, homosexual.... pois a pessoa fica marcada para sempre. Este sim o grande problema da sociedade e que a comunicação social apenas reflecte.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 22:32

Sem jornalismo pujante não existem sociedades verdadeiramente livres. Caminhamos para sociedades onde o jornalismo se torna irrelevante, o que é profundamente preocupante. Em grande parte, diga-se, isto ocorre por culpa dos próprios jornalistas.
Começaram por render-se aos "jornais gratuitos", incutindo no cidadão comum a noção de que não era necessário pagar por informação.
Continuaram abrindo conteúdos de borla nas suas edições digitais. Resultado: as vendas em papel baixaram drasticamente.
Prosseguiram fazendo decalcar cada vez mais os conteúdos jornalísticos das "redes sociais". Sem preocupações com o rigor, com o contraditório, com a deontologia. Sem hierarquizar temas, cultivando o episódio e o irrelevante - tal como nas "redes sociais".
Todos estes erros - somados ao longo de duas décadas e a que se juntaram vários outros . têm contribuído para pôr fim ao jornalismo tal como o conhecemos em dois séculos de história da humanidade.
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De JSC a 09.11.2016 às 22:18

Concluindo, o chamado medo social e quando se tem medo não se é livre.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 22:25

Em democracia, há sempre um recurso. O voto.
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De JSC a 10.11.2016 às 14:31

Exacto, como foi provado na Terça!
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 22:21

Tal e qual. Podemos não gostar da decisão popular, mas devemos aceitá-la. Seja onde for.
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De Diogo Noivo a 09.11.2016 às 22:59

Subscrevo, Pedro. Mas tudo como d'antes, quartel general em Abrantes.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 23:02

Mais do mesmo, Diogo. Os erros de ontem repetidos hoje. E prontos a repetir amanhã. Porque nunca se retiram consequências dos erros e nunca se apuram responsabilidades. Pelo contrário, há sempre uma recompensa para o infractor.
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De rmg a 09.11.2016 às 23:24


Meu caro

É o momento de lembrar que entre os comentadores do DO houve um que desde muito cedo - e por mais de uma vez - previu a vitória de Trump e em meia dúzia de linhas disse o que tinha a dizer: o comentador "Vento".

Como quem acompanha "esta casa" sabe bem que não sou suspeito de "estar feito com ele" nos elogios, aqui deixo esta menção.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 23:29

Não me recordo disso, meu caro. Não devo ter lido.
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De rmg a 09.11.2016 às 23:58


Peço-lhe desculpa mas só agora me dei conta que falhei: excelente artigo.

Aproveito para trazer aqui algo que li ontem por aí num comentário algures:

"Chamar ignorância à ira anti-sistema é profundamente imbecil. E não se lhe chame facilmente populismo, a outra grande mentira habitual e automatizada do sistema"

"Trump nâo é a causa, é o efeito. Basta inverter isso para se perder completamente qualquer possibilidade de compreender o que se passa - e passará. Nos EUA e em 30 outros países mundo fora"

Com os meus agradecimentos a quem o escreveu.
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 00:06

Obrigado pelas suas palavras, meu caro. E subscrevo sem favor as que aqui traz como citação.
Populismo é um dos rótulos de que se usa e abusa nos tempos que vão correndo. Dá para designar quase tudo e significar quase nada ao mesmo tempo.
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De Artur a 10.11.2016 às 00:20

Todos tão chocados com o Trump e afinal nem percebiam que a geografia eleitoral nos States estava a mudar ..
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 00:25

Os jornalistas devem ser os primeiros intérpretes dos sinais dos tempos. Infelizmente têm passado para a carruagem dos últimos.

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