A curiosa intolerância dos liberais
A direita liberal é curiosamente intolerante, como se constata neste texto. Trata-se de um dos grandes enigmas da política contemporânea: quanto mais as pessoas se reclamam da liberdade, mais se insurgem contra a liberdade dos outros, neste caso a liberdade dos contribuintes de não pagarem pela estupidez alheia.
Alguém obrigou os accionistas do BES a comprar as acções cujo valor agora se perdeu? Os investidores tinham de investir daquela forma? Mas as pessoas que compram acções desconhecem os riscos?
E qual era, para o autor, a alternativa? Suspender o negócio, avançar para a falência total, prejudicando incontáveis empresas e empregos, prejudicando todos os outros bancos? O facto é que o BES já não tinha crédito em lado nenhum, ia rebentar na segunda-feira, com uma corrida aos depósitos. Era preciso agir.
Nunca percebi esta alegada direita portuguesa. Neste caso, foi aplicada a legislação europeia, cujo objectivo é evitar o colapso do sistema financeiro minimizando os custos potenciais para os contribuintes. O Banco de Portugal podia ter feito de outra forma? É evidente que não podia. Limitou-se a aplicar uma fórmula que estava politicamente definida pelos líderes europeus, usando dinheiro que tinha sido fornecido pela troika exactamente para auxiliar bancos em dificuldades. Estas são as novas regras da zona euro, estão em vigor, no âmbito da emergente união bancária.
Os accionistas do BES foram enganados? Recorram aos tribunais, como faz qualquer cidadão que seja burlado.
Se a direita não explica o que pretendia fazer, também se verifica que a esquerda reagiu a este caso com extrema dificuldade. Os partidos mais à esquerda saíram logo aos tiros, mas sem explicarem como teriam feito; os socialistas têm o contraste do BPN, afinal ainda estamos a pagar essa brilhante factura. António Costa ficou calado (até agora), não sei a razão, talvez estas questões sejam de lana-caprina. Enfim, as críticas que tenho lido são quase incompreensíveis: como é que se fazia? Agia-se fora da legislação comunitária? Deixava-se cair o banco e provocava-se um colapso económico no País?
A intolerância dos chamados liberais com tudo o que seja noção de Estado forte ou intervenção de bom-senso dá para pensar. O autor que citei mais acima até pretende viajar para longe (ainda bem que pode) só para não ter de votar neste Governo. Tem a liberdade de o fazer, mas teria sido melhor acompanhar a revolta com uma pequena explicação sobre o método que devia ter sido usado para salvar os depositantes, salvaguardar os trabalhadores e a economia, sem prejudicar os contribuintes.


