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A cultura entre dois homens de espectro oposto

por João Pedro Pimenta, em 13.06.19

 

Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo.

Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Ruben.

 


7 comentários

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De Vorph Valknut a 13.06.2019 às 19:44

"que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo."

Por volta das 13h. Lembro-me, por vezes, de abrandar o carro, com o propósito de adiar a meu regresso a casa, para os ouvir. Tomava banhos de erudição sobre tudo e mais alguma coisa. Literatura, história, música, cinema...as farpas sobretudo lançadas por Ruben de Carvalho a Nogueira Pinto, este último, sempre, educadissimo.

A vida tem destas coisas. Havia de poupar alguns durante mais tempo e levar outros mais cedo. Vamos perdendo Homens que não vejo passsiveis de ser substituidos pelos mais novos. Valha-nos, ainda,Adriano Moreira.
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De João Pedro Pimenta a 14.06.2019 às 13:09

E não raras vezes encontravam uma ponta solta e afastavam-se do tema principal, e assim por diante. Era mesmo uma conversa, muito mais do que um debate.
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De Vorph Valknut a 13.06.2019 às 20:00

Esqueci-me:

Bonita homenagem, João!
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De Pedro Correia a 13.06.2019 às 20:15

Muito bem, João Pedro. Oportunas evocações.
Conheci bem um e outro.
Ruben, como jornalista, numa época em que acompanhava muito de perto a vida interna do PCP. Sempre afável, sempre dialogante, sem nunca abdicar da fidelidade aos princípios em que acreditava.
Lucas Pires, que me deu aulas de Ciência Política na faculdade, foi um dos melhores professores que tive desde sempre. Impressionou-me muito a sua morte prematura quando tinha ainda tanto a dar ao País e tantas lições a dar a outros alunos.
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De João Pedro Pimenta a 14.06.2019 às 13:23

Infelizmente nunca conheci Ruben de Carvalho, mas conheci outros que o conheceram, muito afastadas da sua linha política, que muito o elogiaram.

Lucas Pires também chegou a ser meu professor, precisamente de Ciência Política, mas como na altura estava concentrado na função de deputado do PE, era apenas o Regente, ou seja, só dava duas ou três aulas. No resto dos semestres era substituído pelo seu assistente, chamado Paulo Rangel, que acabou por lhe seguir as pisadas, tanto no percurso partidário como na carreira no Parlamento Europeu, e que o ouvia nessas poucas aulas que nos deu com um ar de absoluto embevecimento.

Entretanto, e como era amigo de uma sobrinha dele, ainda conheci a viúva de Francisco Lucas Pires, Teresa Almeida Garrett, que tinha um sentido de humor fabuloso e que, um pouco por homenagem ao marido, viria também ela a ser eleita ao PE pelo PSD.
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De Vento a 13.06.2019 às 21:27

Não gosto de escrever sobre vivos no tempo passado. São duas figuras originais, direi mesmo, originalíssimas, que quebram o cinzentismo que caracteriza quer a esquerda quer a direita nacional. As semelhanças vão para além desta última característica. Possuem ainda em comum a demonstração de ser possível ser-se conservador trabalhando o presente com olhar no futuro.

Na realidade estas duas personagens enriquecem o presente com raízes no passado, demonstrando assim que Homem e Natureza possuem algo em comum: uma árvore sustenta-se pela raiz.

A direita e a esquerda em Portugal, em particular os neo-esquerdistas e também os xuxas, com seus pseudo-modernismos e avanços civilizacionais revelam que sua base intelectual é meramente discriminatória e funda-se no fundo de um lodo ou lamaçal.
Esta peça da RTP2 só vem confirmar que o desalento da nação continua a ser a destruição fictícia e falaciosa de uma identidade cultural. Jamais se vencerá uma cultura, vistam-lhe os fatos e coloquem-lhe as cores que quiserem. A base nunca se desbotará.
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De Anónimo a 14.06.2019 às 01:53

No mundo de um se tivesse todo o poder Marxista Leninista, o primeiro referido Ruben de Carvalho, parte dos portugueses seriam assassinados e existiriam milhões de refugiados , no mundo de outro não.

Mas a poeira para o olhos continua a ser atirada pelos "democratas".


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