Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A cruzada

por Rui Rocha, em 03.05.15

Escrevia Savater, a propósito da tragédia do Charlie Hebdo, que as crenças religiosas são como feras: muitas vezes esteticamente atraentes, mas terríveis devoradoras de homens. Em consequência, como feras que são, só podemos permitir que se passeiem nas ruas da civilização depois de domesticadas. E, continuava, se quase conseguimos domesticar o cristianismo, o islamismo continua em estado perigosamente selvagem. Desde que li o artigo, um poderoso elogio do laicismo como pedra basilar da democracia, há uma questão que me acompanha: a nossa civilização, chamemos-lhe ocidental à falta de melhor, é o resultado da domesticação do cristianismo ou foi o cristianismo que contribuiu de forma decisiva para sermos o que somos? Percebo que existe um argumentário viável para cada uma das opções. E que, à boa maneira das ciências sociais, existe sempre espaço especulativo para a tese, para a antítese e para a síntese. Mas há coisas que me fazem pender para um dos lados. Quando uma criança de 12 anos é violentada pelo seu padrasto e engravida, devíamos ser capazes de tomar tempo, de pensar, de reconhecer que há questões sem solução evidente, de admitir que ficamos divididos no nosso íntimo, que há encruzilhadas tão fodidas na vida que é impossível não hesitar, não duvidar, não andar em círculos, em que não há texto a publicar, ou que não se pode publicar texto sem esgotar os pontos de interrogação. E devíamos saber que qualquer decisão será sempre uma má decisão, porque nestes casos não há decisões boas. É por isso extraordinário que um padreca se aproveite do drama de uma criança, dessa criança, para fazer demagogia, comparando o incomparável, instrumentalizando a informação à luz dos seus interesses, chafurdando na desgraça, para dar cumprimento à sua cruzada político-religiosa. Sou assim levado de regresso às conclusões de Savater. Os ratos de sacristia são feras quase domesticadas. Por isso, é na sacristia que devem continuar.


22 comentários

Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 06.05.2015 às 12:20

"Uma violação, com gravidez, é sempre com uma adolescente" - não é bem assim da Maia. Estabeleceu-se doze anos como o términus da infância em função do desenvolvimento fisiológico e mental mediano registado nessa idade. Não se pode separar maturidade física de maturidade mental. Note que há meninas que aos nove anos já menstruam, o que as habilita a engravidar - não sem grandes riscos, pois apesar de ovularem não têm o seu aparelho reprodutor suficientemente maduro para suportar uma gravidez. Por outro lado também existem meninas que começam a menstruar muito tarde, com dezasseis e até dezassete anos. Consideramos essas jovens crianças? Claro que não.
Quanto à família não ser chamada a decidir neste caso parece-me que é o mais correcto, uma vez que - segundo o que percebi da leitura das notícias - a menina era abusada pelo padrasto com o conhecimento da mãe.
Por fim, a questão da "responsabilidade natural": num caso de violação falar de "responsabilidades natural" da vítima é em si mesmo um abuso. Sendo esta uma criança não me choca que na ausência de uma tutela familiar responsável se recorra a especialistas com experiência no acompanhamento de gravidezes precoces para decidir o que fazer naquele caso específico.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 06.05.2015 às 19:54

Compreendo, Teresa.
... mas "estabeleceu-se" é quem?
... e com que direito, um direito acima da Natureza?

Normalmente quem invoca direitos acima da Natureza, invoca razões religiosas, divinas.

A estatística enquanto parte matemática é rigorosa, mas quando transportada para outros campos redunda quase sempre em especulação leviana.
Assim, estabelecer-se um número pode ajudar em macro-decisões, mas uma "verdade estatística" nunca se pode substituir à verdade, caso a caso.

A maturidade física é objectiva, e decidida pela natureza do corpo. A gravidez pode falhar em muitas idades, e a noção de "normalidade" é sempre estatística.

Seria de uma enorme presunção pensar que somos nós que decidimos o que é "normal" na Natureza, quando não somos mais que um subproduto dela.
É presunção nossa considerar que há "anormalidades" na Natureza, quando não somos outra coisa senão uma das muitas "anormalidades" que a Natureza produziu, e que pode ser varrida do mapa num sopro do cosmos.

Há demasiada presunção científica, por ausência de epistemologia crítica.
Na ciência, o observador cientista coloca-se num "plano divinal", à parte do observado, e quer ignorar que nunca se pode desligar dele. Assim, descreve a Natureza como se a ela não pertencesse, nem fosse filho dela.

Há quem julgue que pode fazer o que quer da Natureza, e que esta obedece... Porém, a Natureza muda o resultado consoante a intenção do observador.
Parece estranho, por estar suprimido de maior divulgação popular, mas é aceite academicamente sem discussão:
http://odemaia.blogspot.pt/2014/07/duplo-corte.html

Quanto à "maturidade mental", é pior, pois será sempre uma mera convenção social.
Pressupõe avaliadores com "maturidade", e avaliados que se sujeitam a essa avaliação.

O facto de duas pessoas não se entenderem no mesmo registo, significa pouco.
Se me perder na Amazónia estou sujeito às convenções da tribo que me acolher, e é natural que considerem algumas atitudes minhas imaturas ou insanas... isto claro, admitindo que não iria para o menú.

Assim, o problema com os avaliadores de maturidade é que não passaram nenhum teste absoluto de maturidade, porque tal coisa não existe.
Quem se arrogar de ter essa capacidade de avaliação dos outros, sem manifestar dúvidas, é porque desde logo tem uma deformação mental grave, e precisaria de ser tratado, ou internado. Se tem dúvidas, nunca deve agir como se não as houvesse.

Eu votei favoralmente ao aborto, por decisão materna, nas primeiras 10 semanas.
A única razão foi o Elo Natural no binómio mãe-filho, e também a não existência de um cérebro formado no feto até essa data.

Era isso que estava escrito na pergunta em que votámos.
O que foi colocado ou interpretado a mais, é de responsabilidade moral de quem faz leis como quer, porque só uma opinião é que lhe interessa - a sua.
É assim também com os ditadores.
Juntas para decidir que alguém é imaturo, inapto, etc... podem formar-se às centenas, e decidir o que bem lhes aprouver, e até invocando o "superior interesse do executado".

Agora, eu não estou aqui a julgar os decisores, mas tenho fundadas dúvidas sobre o processo de decisão, e acho que todos deveriam ter, começando pelos próprios.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D