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A cruzada

por Rui Rocha, em 03.05.15

Escrevia Savater, a propósito da tragédia do Charlie Hebdo, que as crenças religiosas são como feras: muitas vezes esteticamente atraentes, mas terríveis devoradoras de homens. Em consequência, como feras que são, só podemos permitir que se passeiem nas ruas da civilização depois de domesticadas. E, continuava, se quase conseguimos domesticar o cristianismo, o islamismo continua em estado perigosamente selvagem. Desde que li o artigo, um poderoso elogio do laicismo como pedra basilar da democracia, há uma questão que me acompanha: a nossa civilização, chamemos-lhe ocidental à falta de melhor, é o resultado da domesticação do cristianismo ou foi o cristianismo que contribuiu de forma decisiva para sermos o que somos? Percebo que existe um argumentário viável para cada uma das opções. E que, à boa maneira das ciências sociais, existe sempre espaço especulativo para a tese, para a antítese e para a síntese. Mas há coisas que me fazem pender para um dos lados. Quando uma criança de 12 anos é violentada pelo seu padrasto e engravida, devíamos ser capazes de tomar tempo, de pensar, de reconhecer que há questões sem solução evidente, de admitir que ficamos divididos no nosso íntimo, que há encruzilhadas tão fodidas na vida que é impossível não hesitar, não duvidar, não andar em círculos, em que não há texto a publicar, ou que não se pode publicar texto sem esgotar os pontos de interrogação. E devíamos saber que qualquer decisão será sempre uma má decisão, porque nestes casos não há decisões boas. É por isso extraordinário que um padreca se aproveite do drama de uma criança, dessa criança, para fazer demagogia, comparando o incomparável, instrumentalizando a informação à luz dos seus interesses, chafurdando na desgraça, para dar cumprimento à sua cruzada político-religiosa. Sou assim levado de regresso às conclusões de Savater. Os ratos de sacristia são feras quase domesticadas. Por isso, é na sacristia que devem continuar.

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3 comentários

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De João Pedro a 05.05.2015 às 02:01

O assunto é sério é não pode ser despachado de ânimo leve. Posto isto (e esclareço desde já que sou um opositor ao aborto livre, da forma como a lei o permite em Portugal desde 2007, e que acho a sua banalização uma violência atroz), por muito que lhe desagrade o artigo de Portocarrero de Almada, ele tem o direito à opinião, como qualquer outra pessoa. Essa história dos padres "ficarem na sacristia" não é laicidade, nem sequer laicismo (são coisas diferentes): é jacobinismo, muito em voga por aqui entre 1890 e 1920, e que se recomenda pouco.
Que dizer, do lado contrário da barricada, de Isabel Moreira, que acha que não se deve aplicar a lei relativa à violação (16 semanas), mas sim a que se refere ao perigo físico e psíquico para a mulher (sem limite), e que mesmo que a criança queria dar à luz, deve ser impedida por um "representante legal", e caso este não aceda, pelo respectivo médico? Pelos vistos, o aborto aqui já nem é a pedido da mulher dentro do fronteira legal, mas sim dependente da vontade de Isabel Moreira.
E faço-lhes notar que estamos a falar de uma vida em formação, não exactamente de uma víscera nem de um apêndice se utilidade.
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De Teresa Ribeiro a 06.05.2015 às 12:37

Estamos também a falar de uma vida em formação quando falamos da menina de 12 anos, João.
Concordo com esta lei, acho que estabelece regras razoáveis, no sentido de equilibradas, justas. A maternidade marca profundamente uma mulher para o resto da vida. Mesmo quando desejada há um antes e um depois. A vida nunca mais será como antes. É irreversível.
Uma maternidade aos doze anos acaba abruptamente com a infância. Já é suficientemente mau quando é fruto de uma brincadeira irreflectida entre miúdos, mas em consequência de uma violação é tão destrutiva que desencorajá-la é um acto de humanidade.
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De João Pedro a 07.05.2015 às 00:35

Com certeza que com tal idade (e da forma sórdida com que aconteceu) será sempre algo de terrivelmente marcante. Mas poder-se-á acabar com aquela gravidez mesmo contra a atitude da rapariga (não esquecendo, claro, que ela tem 12 anos)? Poderá a simples opinião de um médico, ainda que não haja risco físico para ela, decidir só por si a favor de um aborto aos cinco meses? Quando comparo esta situação com a recente lei belga que permite eutanásia a pedido dos menores de idade, fico com a ideia de que é mais fácil interromper uma vida do que conservá-la. E tudo isso é terrivelmente angustiante. Numa sociedade onde a pena de morte é apenas uma má recordação do passado, e a média de idades cresce, parece-me que há algo de paradoxal que pretende contrariar esses reais avanços civilizacionais.

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