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A crise dos vulneráveis

por Luís Naves, em 02.03.15

Admitindo que nos anos do ajustamento era prioritário resolver a crise financeira, o governo precisa agora de reconhecer que em consequência da longa recessão se acentuou a crise social. O desemprego de longa duração atinge talvez mais de meio milhão de trabalhadores com escassas possibilidades de encontrar trabalho, sobretudo os menos qualificados. Portugal é hoje um país onde há níveis absurdos de violência doméstica e onde muitos velhos vivem em situações precárias, com rendimentos que não chegam para pagar remédios e até, em certos casos, que não chegam para uma alimentação normal. Este é também um país onde se ouvem apenas os protestos de alguns sectores, para os quais cada pequeno sacrifício se transformou no horror mais insustentável.

Portugal tem uma elite política hipócrita, incapaz de ver além dos seus próprios interesses. A oito meses de eleições, as sondagens sugerem que o eleitorado vai votar ao centro, que a direita tem pouco mais de um terço do voto e a esquerda pode conquistar quase 60% do parlamento. O grande mistério destes inquéritos de opinião é o facto de nenhum deles mostrar para onde vai o voto de protesto. O PS ainda não se definiu e talvez esteja a captar a simpatia de muitos descontentes, mas parece demasiado tímida a inclinação do eleitorado para os partidos que contestam o poder, tal como ele existiu na última década: em Espanha, o universo da contestação aos partidos tradicionais representa metade do eleitorado; na Grécia, é maioritário; na Itália, chega a um terço; aqui, parece não ultrapassar os 16%.

Não se ganham eleições a dizer que isto terá de continuar. Os vencedores propõem a mudança, embora para os partidos do poder, em 2015, isso seja o mesmo que enganar os eleitores, pois a margem de manobra do próximo governo será mínima. A questão está no Tratado Orçamental, que não tem ambiguidades e que todos os membros da zona euro que não desejem estar sob resgate terão de cumprir em 2018. Isto significa que haverá mais cortes na despesa pública e que as grandes tarefas políticas do próximo ciclo serão a reforma do Estado e da segurança social. Não há futuro sem crescimento económico nem se pagam dívidas, o que exige investimento, que só ocorre se houver estabilidade política e financeira, o que implica a perspectiva de cumprimento do Tratado Orçamental (ou seja, não se espere grande ajuda do investimento público).

Ora, num contexto de aperto será mais difícil resolver a crise dos vulneráveis. Como é que os desempregados de longa duração voltam ao trabalho e como é que se protegem os idosos que passam fome? Na campanha, vamos ouvir muita demagogia da esquerda em volta disto, mas se a direita reagir de forma autista, recusando a existência do problema, então não merece governar.

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