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A criança problemática

por Luís Naves, em 30.01.16

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Os defensores da frente de esquerda subestimam as dificuldades da sua estratégia populista. O Governo parece cercado por duas opções incompatíveis: continua a consolidação orçamental ou perde a confiança dos mercados. Dito de outra forma: o País cai em crise política ou as taxas de juro sobem. A questão não está apenas nas exigências de Bruxelas, que teme os efeitos da súbita perda de credibilidade portuguesa, mas na percepção dos investidores e na ilusão de que será possível convencer os credores de que esta é uma luta entre bem e mal.

O Governo ignora os sinais da realidade. O problema das migrações transformou-se na crise mais séria da última década na Europa. Um grupo de países de Leste (com os mesmos votos que a França) uniu-se em rebelião contra os poderes da Alemanha, e talvez mais do que isso. A banca italiana pode necessitar de um resgate gigantesco. A UE entrou numa difícil negociação sobre reformas internas, visando manter o Reino Unido nas instituições; sem mudanças profundas, algumas difíceis de concretizar, os ingleses poderão abandonar a organização.

Estas negociações decorrem num ambiente inquinado pela ascensão dos populistas de direita. A Frente Nacional, em França, ultrapassou um patamar eleitoral que ameaça o regime da Quinta República; outro partido, Alternativa para a Alemanha, conquistou parte do eleitorado da CDU da chanceler Angela Merkel; o governo minoritário dinamarquês (liberal) terá de aplicar uma lei injusta que confisca os refugiados, demonstrando que os populistas de direita (Partido do Povo, DF), fora do governo, mexem todos os cordelinhos; o fenómeno do crescimento de formações que contestam o sistema tradicional estende-se ainda à Suécia, Finlândia e Holanda. Todos estes países receberam multidões de refugiados, pelo que parece pura hipocrisia o tom das críticas em Portugal. E como se resolve isto? Suspende-se a democracia? Entretanto, a zona euro não estabiliza e a Espanha entrou numa crise política que talvez só tenha solução em Maio.

Nem é preciso alargar o palco para se perceber que 2016 será um ano de instabilidade. Ao contrário do que escrevi, o populista Donald Trump tem mesmo hipóteses de ser nomeado candidato republicano às eleições presidenciais americanas de Novembro de 2016. Esse pesadelo não é impossível, nem sequer improvável. Para piorar os cenários, o petróleo barato pode não durar muito tempo, sobretudo se tiverem êxito as tentativas russas de negociar cortes na produção; a alternativa é o inevitável estoiro de economias emergentes, o que pode provocar uma nova vaga na crise financeira mundial.

Talvez António Costa acredite ser possível passar entre as gotas desta chuva torrencial, mas parece insensato apostar em travessia tão arriscada. Convinha ter prudência, pois com tantos problemas entre mãos, os nossos credores tentarão matar à nascença qualquer veleidade de insubordinação da “criança problemática”.


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