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A cortina

por José Meireles Graça, em 05.04.20

O Covid19 apanhou o mundo de surpresa. Não fosse a sua facilidade e velocidade de contágio, incógnito muitas vezes porque assintomáticos têm a capacidade de o transmitir; e o seu tratamento requerer equipamentos, e pessoal para os operar, que os vários sistemas de saúde não têm disponíveis nas quantidades necessárias: as medidas de isolamento social e congelamento de actividades económicas nunca teriam ganho as proporções radicais que têm tido.

Imaginemos que havia ventiladores ao pontapé, e abundante pessoal com formação para os operar? Afinal de contas, equipamentos caros é o que não falta nos hospitais, públicos e privados: maquinetas de TAC e de ressonância magnética, por exemplo, muito mais caras que um ventilador, que custa cerca de 13.000 euros (sem IVA, porque é recuperável). Treze mil euros? O equipamento de um consultório de dentista custa muito mais do que isso.

Em matéria de Covid, números são praticamente o que cada um quiser e, fosse eu economista ou matemático, punha aqui uma data deles para ilustrar o meu preconceito. Mas como não tenho vagar para andar a escabichar preciosidades, resumo do seguinte modo, baseado sobretudo no laboratório sobre águas do Diamond Princess e números pescados aqui e ali: 80% da população é naturalmente imune (no tal barco foi menos, vá lá saber-se porquê); dos 20% infectados, até 1,9% podem morrer, até 15% requerem internamento e até 5% atingem um estado crítico.

Dou de barato as condições ideais que existiam dentro do barco para a propagação do vírus e as idades dos passageiros, e ignoro a extensão, rigor e eficácia da segregação que lá terá estado em vigor. Traduzidos estes números para Portugal, temos: os infectados poderiam chegar a 2 milhões, os mortos a 38.000, e os internados a 300.000, dos quais requereriam ventilação 100.000, isto na hipótese absurda de todos os internados o deverem ser ao mesmo tempo e não haver entretanto recuperados.

100.000 ventiladores a 13.000 euros são 1.300 milhões de euros. E mesmo tendo em conta que faltam as camas e o pessoal, e que umas e outro consomem recursos e tempo, não parece que estejamos a falar de números que sequer se aproximem da hecatombe que a paralisação da economia vai arrastar, e que estimativas conservadoras, senão tímidas, traduzem em 10 mil milhões (5% do PIB, grosso modo).

É por estas e outras que gostaria de ouvir falar menos de medidas draconianas de isolamento social e limitações da actividade económica, e mais de reforço de meios; e que presto crescente atenção às raras vozes que, por as sociedades estarem a sobre-reagir sob a pressão do pânico, lembram que a depressão económica também traz o seu cortejo de vítimas, pelo que seria talvez avisado maneirar.

Ouvimos todos os dias a desastrada ministra da Saúde, a quem saiu uma fava que não sabe cozinhar; uma directora-geral da saúde vovozinha esforçada e maternal, ambas a querer explicar o que entendem mal e a convencer a opinião pública que o que quer que as autoridades decidam é pelo melhor, segundo a melhor ciência disponível.

A ciência que há está envolta em polémica: virologistas, epidemiologistas, médicos comuns, matemáticos não se entendem. Os menos inclinados ao drama, aliás, não têm grande audiência porque as pessoas querem acreditar que o sacrifício redime e a lucidez não. E menos ainda cotejam o custo das medidas profilácticas que aconselham com o respectivo custo económico, o que aliás não sabem nem têm de saber.

Sucede que a decisão política, essa, tem de ponderar tudo. Não vamos reclamar no fim pelo tempo que levou a criar medicamentos ou vacina, nem pelas tolices que o médico A e o cientista B andaram a debitar, porque o saber científico progride pela tentativa, a discussão e o erro – não há outra maneira; mas vamos crucificar retrospectivamente quem se enganou nas escolhas.

Esta gente que nos pastoreia terá a lucidez de ver para lá do que diz a comunicação social, e do que pensa a opinião pública, essa velha rameira volúvel? E, por trás da cortina das medidas necessárias para tranquilidade pública, e para não entupirmos um aparelho de saúde sub-equipado, está-se a mexer (com o mesmo dinamismo com que inventa proibições) para que aqueles de nós que vão cair ao hospital não corram o risco de morrer de falta de ar, mesmo tendo chegado a hora de esticar o pernil?


38 comentários

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De António a 05.04.2020 às 14:05

É pena não haver ventiladores a pontapé. Até haver ventiladores, tratamento, vacina, algo tem de ser feito. Não dispomos de múltiplas realidades, não podemos ver como seria com várias respostas. Discutir o se, e se, e se, significa, na práctica, não fazer nada - o que aliás foi a política de muitos países até a realidade chegar. E na realidade todos temos, todos os dias, de tomar decisões sem ter a certeza se são as melhores. É um exercício estéril, contemplar o “se”.

De Anónimo a 05.04.2020 às 14:13

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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 14:28

Sobre "esses" números, exagerados ou não, mas sempre imunes, talvez se entenda melhor vendo, para não se ficar doente, indiferente.

https://youtu.be/14ilmlAkvtc
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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 15:07

Nestas matérias onde se mistura vida e dignidade convém não andar à pesca de números.

Dos 50 aos 80 anos a taxa de mortalidade, total , por Covid-19, é de 28%, sensivelmente.

Em Portugal, a traços muito largos, serão mais de 3 milhões de pessoas com idades compreendidas naquele intervalo etário.

Quanto à falta de investimento na Saúde, presumo que tenha sido por obrigação da tão santificada Economia. A tal "ciência", que através de regras inventadas, justifica, justificou, a morte, objectiva e concreta, de milhões de pessoas. A fome mata mais que a bala.

As previsões epidemiológicas actuais são baseadas em medidas profiláticas. Mudando as últimas, perdem sentido as primeiras.

O conhecimento científico é objectivo. A sua interpretação, não. Daí a necessidade de prestarmos atenção aos Especialistas e Instituições mais creditadas, e não a quem gosta de mantas, sobre o pernil, e cortinas de olhados.
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De Anónimo a 06.04.2020 às 18:52

"Nestas matérias onde se mistura vida e dignidade convém não andar à pesca de números."

Então 5 ou 10 vidas é igual ao litro?

Vê, como quem se quer mostrar sem pecado "capitalista" facilmente cai no pecado "comunista"?


lucklucky


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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 15:14

"80% da população é naturalmente imune"

Fontes, por favor.

Naturalmente imune significa que, 80%da população não ficaria infectada, o que é um absurdo (infectada não é sinónimo de doente ; seropositivo não significa ter a doença, mas, sim, estar infectado)
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De o cunhado do acutilante a 05.04.2020 às 16:17

"80% da população é naturalmente imune"

Veja lá se saca dali alguma coisa, caro Vorph.
Não é por nada, mas estou vivamente interessado em saber.

Feliz Páscoa e votos de que, se por menor favorecimento Divino ou científico, - à escolha de cada um, - não for um feliz contemplado da natural imunidade, que escape na mesma sem danos indesejáveis.
Um Abraço.
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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 16:44

Obrigado. Tudo de bom
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De José Meireles Graça a 05.04.2020 às 16:31

Imune à doença que o vírus induz, não ao vírus em si, como imaginei fosse óbvio. De resto, por um excesso de precaução, escrevi que no barco tinham sido menos de 20% os infectados porque a percentagem exacta é disputada, mas 20% é o número que este senhor, em https://www.jpost.com/HEALTH-SCIENCE/Israeli-nobel-laureate-Coronavirus-spread-is-slowing-621145 , que não é exactamente um amador, indica (“Those are extremely comfortable conditions for the virus and still, only 20% were infected".)
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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 16:43

Imunidade natural significa imunidade intrínseca de um organismo a um microrganismo. Deve substituir imunidade natural por imunidade adquirida, não se sabendo, ainda a duração desta (6 meses como na gripe?).

Prefiro estudos epidemiológicos baseados em modelos e amostragens mais representativas da "realidade".

Claro que o "spreading is going to slow", como em qualquer epidemia/pandemia. Faz parte da curso natural de qualquer doença "natural/infecto-contagiosa"
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De Albino Manuel a 05.04.2020 às 15:24

Empresário do Vale do Ave. Pouca coisa.
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De Anónimo a 05.04.2020 às 15:27

Bom dia , há um ditado antigo que diz que temos de enterrar os mortos e cuidar dos vivos , hoje não nos deixam enterrar os mortos com dignidade nem cuidar dos vivos .
Luis Almeida
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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 15:55

"5% atingem um estado crítico"

Isso traduz o quê, exactamente?

Incapacidade permanente, com necessidade de cuidados médicos continuados? Implica ficar numa cama, auxiliado com uma botija de oxigénio? Implica o cônjuge se dedicar totalmente ao apoio de quem fica em "estado crítico"?

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De Luís Lavoura a 05.04.2020 às 16:10

[eu] gostaria de ouvir falar menos de medidas draconianas de isolamento social e limitações da actividade económica, e mais de reforço de meios [de saúde]

Mas o José Meireles Graça já terá reparado que Portugal (tal como muitos outros países) está a tentar a todo o custo fazer isso, isto é, reforçar os meios de saúde, e não está, genericamente, a ter muito sucesso. Em grande parte, porque Portugal não está a conseguir, com a velocidade desejável, adquirir mais ventiladores, já para não falar do álcool e das máscaras que faltam em todas as farmácias.

Ou seja, aquilo que o José Meireles Graça pede já está a ser feito, mas com escasso sucesso - e não é somente Portugal que está a ter escasso sucesso, outros países também.
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De Vento a 05.04.2020 às 16:12

José, no que é o tema principal de seu texto falta o rigor científico para determinar a mensagem que pretende passar. A polémica e e/ou contradições entre pessoas, nesta matéria, não traduz e nunca traduziu uma verdade, mas a dúvida.

Porém é verdade que existe uma paranóia que surge de um sector de puristas que dizendo-se ateus, mas possuidores da verdade, criam um dogma em torno do bicho. Creio que estes estão à espera do elixir da vida que os projectará para além da eternidade. Vem isto a propósito para demonstrar como se criam elementos de substituição, deidades e deísmos, para propagar uma crença que se centraliza.

No entanto para contrariar os coitadinhos e as coitadices, existem números que desmontam as teses:
dos 100% de idosos, incluindo os com patologias várias, menos de 10% perdem a vida nas mãos deste vírus;
Existe sim uma capacidade do organismo de desenvolver anticorpos que contrariem o bicho, mesmo sem qualquer intervenção médica e, depois de contrariado o bicho, sem possibilidade de o propagar. Porque este perdeu seu capacidade;
Existem, sim, camas. Nos hotéis, que poderão ser utilizados para se instalarem ventiladores e aí tratar os doentes que necessitem cuidados.

Também é mentira que isto mude, porque a natureza humana não se muda pela acção de devastação de um bicho. O que vai mudar são os processos como usaremos esta mesma natureza. Assim, os profetas da desgraça estão aí para ocupar tempo e fingir que tudo muda, pretendendo mudar e moldar a seu prazer os acontecimentos; pois eles mesmos demonstram que não mudam e simplesmente se contradizem, pelo medo e cobardia. Também vemos isto por aqui e nos mais diversos comentários.

Eu não acredito que o mal venha dos que "nos pastoreiam", mas dos que são pastoreados. E são muitos, mesmo quando afirmam que assim não permitem e nunca permitirão. Desabafos de quem não se ocupa e muito se pré-ocupa.

E não, ninguém deve ser crucificado pela ignorância. Os únicos crucificados que conheço são aqueles que o foram por muito saber.
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De Vorph Valknut a 05.04.2020 às 17:01

O que é um idoso? Quantos são? 10.000, 1.000.000, 2.000.000?


DEATH RATE

80+ years old

14.8%

70-79 years old

8.0%

60-69 years old

3.6%

50-59 years old

1.3%


"Existe sim uma capacidade do organismo de desenvolver anticorpos que contrariem o bicho, mesmo sem qualquer intervenção médica e, depois de contrariado o bicho, sem possibilidade de o propagar. Porque este perdeu seu capacidade"

Asneira. Por essa linha de raciocínio poderíamos relativizar sempre qualquer doença, infeção, etc....desde a SIDA, Ébola, passando por um abcesso dentário, ou uma pneumonia bacteriana (garanto-lhe que antes da descoberta e uso de antibióticos - ex: antes de 1930 - muitos se curavam sem antibióticos e muito menos sem intervenção divina).

O bicho perde a capacidade de se propagar até a imunidade adquirida deixar de existir.

Isto sim é uma desgraça e quem usa o sofrimento para fazer libelos ou manifestos políticos deveria ser empalado (não me refiro a ninguém em particular, atenção!!!)


https://www.youtube.com/watch?v=EK7QbQhqddY
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De Vento a 05.04.2020 às 17:13

Meu caro Vorph,

é simples o que eu disse, e repito. E o que disse é verdadeiro. Quem quiser interprete à sua maneira. Mais claro que isso não posso ser.
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De Vento a 05.04.2020 às 18:59

José Meireles, só para acrescentar que todos os equipamentos e acessórios para o combate a este vírus deixaram de ter IVA cobrado, mesmo os que vêm de países extracomunitários.

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