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A corda cada vez mais esticada

por Pedro Correia, em 20.10.14

Gabriel_Viegas_-_Maya_-_xadrez[1].jpg

O cenário está longe de ser brilhante. A Europa em risco de enfrentar a terceira recessão desde 2008, a Grécia às portas de outra intervenção financeira externa de emergência, italianos e franceses incapazes de cumprir as metas do Tratado Orçamental que dita as condições de sobrevivência do euro, perspectivas de estagnação da economia da Alemanha (principal parceira económica de Espanha, por sua vez principal parceira económica de Portugal).

Enquanto isto acontece, PSD e CDS enfrentam-se irresponsavelmente por interpostas notícias de jornal a ver quem estica mais a corda antes de rebentar, deixando antever uma coligação em estado pré-comatoso. O assunto do momento é qual dos partidos poderá beneficiar mais com os efeitos mediáticos de umas quantas migalhas fiscais, invocadas sem sombra de pudor ao fim de quase quatro anos de sacrifícios colectivos. Isto enquanto a esquerda mais extrema persegue sem fadiga a quadratura do círculo, exigindo em simultâneo o reforço das prestações sociais e a redução de impostos.

Tudo isto se desenrola na espuma dos dias como se o monstro da dívida pública não permanecesse incontrolado. Como se a despesa do Estado não cessasse de aumentar. Como se houvesse petróleo ao largo das Berlengas. Como se jogássemos uma tranquila partida de xadrez na Bizâncio sitiada.

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24 comentários

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De l.rodrigues a 20.10.2014 às 17:39

LIgando o início do post ao que se segue, que se pode deduzir?
Dir-se-ia que a política Europeia está a falar em toda a linha, desde os mais laxistas aos mais cumpridores.
Logo, precisa-se de outra política. Nomeadamente na forma de lidar com as assimetrias económicas dentro da zona Euro. Assumindo que os superavits de uns são os déficits de outros. E vice-versa.
Quanto à quadratura do círculo, há-de explicar como se pode Portugal livrar de 13 mil milhões por ano só em juros, segundo li, sem renegociar a dívida.

Mas não, o que interessa é haver consensos para defender o que tem dado sistematicamente mau resultado.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 20.10.2014 às 18:10

Ter superavits dá muito trabalho, mas para ter déficts basta gastar mais do que se produz. E contar com o dinheiro dos outros. De qualquer modo, vêm aí 26000 milhões a fundo perdido que saem dos bolsos dos que têm superavits e até de alguns que não têm.
13 000 milhões para juros é assim uma coisa como a espiral recessiva, só existe em certas cabeças. Mas concordo que pagar 8 ou 9 mil milhões já é muito, mas devíamos ter pensado nisso antes de pedir o dinheiro emprestado.
Renegociar a divida é perigoso; veja-se o que está a acontecer com a divida grega, e que os media portugueses estranhamente têm silenciado: a divida a 10 anos já vai em quase 10% no secundário e a Grécia caminha alegremente para um novo resgate.

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De lucklucky a 20.10.2014 às 17:45

A Europa já está em recessão há muito tempo.
Quando o endividamento é maior que o crescimento está-se em recessão.
Isto claro é coisa que não se diz. Pois é preciso que Politicos, Economistas, Jornalistas poderem vigarizar.
Está lá um número bonito positivo do crescimento escondendo a nova dívida muito superior.

Se uma região tiver aumento de endividamento de 0% e crescimento de -1% está bem melhor que uma região com 2% de crescimento positivo e aumento de endividamento de 10%.
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De Pedro Correia a 20.10.2014 às 23:35

Todo o crescimento pressupõe dívida. Voce há-de dizer-me onde vislumbra perspectivas de crescimento sem endividamento.
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De lucklucky a 21.10.2014 às 14:49

Portugal cresceu nos anos 60 e 70 sem dívida a aumentar. Chile está há décadas sem o endividamento crescer mas a economia cresce. E ao contrário de nós agora em Democracia manteve mais ou menos as regras vindas da Ditadura.
Durante os anos 60 a Europa Ocidental na generalidade esteve sempre com crescimento superior ao endividamento.

Era crescimento real.
Não crescimento a todo o custo como agora, que é simplesmente populismo.

Quando nos endividamos 10% para crescer 2% como pagamos os 8% que restam mais os juros?
Crescimento só é valido se o retorno der para pagar o que investimos e os juros.
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De Pedro Correia a 21.10.2014 às 17:02

O mundo actual, globalizado, com os antigos países subdesenvolvidos a ditarem regras no comércio internacional, nada tem a ver com a década de 60. Era um mundo etnocentrista e proteccionista, marcado pela indiscutível supremacia económica do Ocidente e pelo condicionalismo industrial, com mercados coloniais ainda vigentes, onde os preços das matérias-primas (começando pelo petróleo) eram incomparavelmente mais baixos e as taxas demográficas apresentavam curvas ascendentes e não descendentes.
Um mundo que já não existe.
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De am a 20.10.2014 às 18:54

A nossa esperança está no "Costa -- O Pugilista" ...
Ele já prometeu dar um murro na mesa da UE /e --um pontapé no traseiro de Merkel, socos à fartazana nos credores.
Dos mercados encarregar-se-á o seu futuro secretário de Estado, o experiente na matéria o Zé Fernandes!

A vitória está no papo!
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De Pedro Correia a 20.10.2014 às 23:33

Convém sempre não dar muitos murros na mesa. Não por causa da mesa, que é forte, mas por causa do pulso, que é fraco.
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De Luís Menezes Leitão a 20.10.2014 às 19:21

O CDS, se fosse inteligente, já tinha roído a corda há imenso tempo. Neste momento a sua influência no Governo é zero e Portas acaba sempre metido no bolso por Passos Coelho. De que serve ao CDS estar no governo com este estatuto? O velho CDS de Freitas do Amaral desfazia governos por muito menos.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 20.10.2014 às 19:44

Roer a corda porquê, o CDS está amarrado a uma manjedoura? O velho CDS de Freitas do Amaral já não existe, agora está todo no PS.
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De Manuel a 20.10.2014 às 19:54

Onde está concentrado um dos maiores grupos de eleitores? - Em tudo o que é do Estado e em tudo o que através dele garante a sua renda.
Passos atacou todo este sector, mas "ladrou" ainda mais, ora porque o memorando de entendimento não passou de um "teatrinho" reles, ora porque a nossa Constituição é uma excelente fecundadora de argumentos carregados de bondade e banha de cobra - que estão para os ouvidos de todos os que tem interesses no sector publico como o toque de ataque está para a cavalaria.
- A coligação sempre foi um casamento mal amanhado, outro "teatrinho" reles, mas é assim, são as coisas que a nossa gente faz só para ter o poder.
- Estas primárias do PS produziram um excelente engodo e pouco mais há a fazer, a rede está enchendo. Costa sobe com maioria, não acredito que conquiste 2 terços da Assembleia, mas se precisar vai com certeza encontrar parceiro/s.
- Depois mais certo é avançar com as reformas no Estado, nem que para isso reforme a Constituição, só não acredito que toque nas PPP´s.
- A reestruturação da divida, quanto a mim, faz parte do engodo.
- A ver vamos.
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De Pedro Correia a 20.10.2014 às 23:32

Se entretanto descobrirem petróleo nas Berlengas a coisa melhora.
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De William Wallace a 20.10.2014 às 21:58

Acho que ainda temos um corta-fitas, é dar-lhe trabalho............
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De Pedro Correia a 20.10.2014 às 23:04

Há um Corta-Fitas, sim. E um Insurgente. E até um Blasfémias.
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De zedeportugal a 20.10.2014 às 23:44

O link que tenho associado ao nome Blasfémias na barra lateral do meu blogue é este:
http://jsdseccaoilisboa.wordpress.com/2009/07/02/ministerio-da-informacao/

Já para o Corta-Fitas tenho este:
http://re-visto.com/mudam-se-os-tempos-mudam-se-os-abrantes/

O link para o Insurgente ficou sem alteração porque, ao contrário dos outros dois, eles não costumam apagam os meus comentários contendo opiniões contrárias (e, às vezes, sarcásticas), nem responder com insultos.
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De Anónimo a 21.10.2014 às 16:16


No insurgente até os pode mandar para onde quiser que eles publicam. O liberal o que quer é que lhe deem troco, fica todo contente.
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De Vento a 20.10.2014 às 23:38

Pedro, eu não sou bruxo. Quero somente lembrar-lhe que estamos naquele ponto em que um dia comentei e que pedi que guardasse tal comentário para quando tudo isso ocorre-se. Isto começo também no momento em que a senhora Merkel quis sacudir a água para cima de Durão em matéria de políticas de austeridade.

O CDS devia ter aproveitado a irrevogável decisão para decidir em definitivo o destino do país. Muitos trambolhões ter-se-iam evitado se a coerência que afirmam ter e não têm tivesse sido posta em prática.
A situação a que se chegou deveu-se a um contínuo quadro de destruição de poder de consumo e, consequentemente, da destruição da capacidade produtiva. Paralelamente, ao invocarem-se as questões sobre a competitividade e produtividade não sabiam que estas questões estão intimamente ligas a custos de energia, taxas de juro elevadas e a uma deficiente política empresarial e de gestão no tecido público e privado.

Passos Coelho e Portas pensavam que Portugal possuía a dimensão de mercados como os EUA, Rússia... e que as virtudes do capitalismo se praticam com iguais modelos aqui e em qualquer outro ponto. Esqueceram, por exemplo, as participações que os estados mantêm nas suas empresas de referência: Alemanha, Inglaterra, França, Itália...
Pensavam que bastava investimento sem análise aos factores supra para garantir a eficaz concretização de sonhos; e sempre borregando, aumentavam ainda mais a potência dos motores fiscais para fazer parecer que continuavam no bom caminho e com controlo da situação, perdendo controlo total dos mecanismos que podiam equilibrar os desequilíbrios.

A ideia era salvar a banca, dos outros; daqueles que não distribuem lucros mas que exigem benefícios aquando de prejuízos.
E como isto está tudo lixado e nada mais há para fazer que não a aplicação da fórmula corrente, isto é, carregar mais e mais e fazer crer que não, pretende-se mostrar que isto se faz em nome da coerência e não por saber-se que perderam uma boa oportunidade de ficar quietos lá por casa.

E agora? Vamos ver o que o efeito da inércia pode agravar ainda mais.
Acabou-se o Encantamento, o instrumento económico mais usado por esta Europa de Schauble/Merkel e seus mordomos.

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De Nacionalista a 21.10.2014 às 13:10

quando tudo isso ocorre-se ?
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De Vento a 21.10.2014 às 13:24

Obrigado pela correcção.
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De Pedro Correia a 21.10.2014 às 17:07

A crise não tem fronteiras, caro Vento. E é estrutural, não conjuntural.
Claro que alguns estão melhor - ou menos mal - que outros. Os britânicos, por exemplo, podem gabar-se de ter melhores indicadores económicos do que o conjunto dos países membros da eurozona:
http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11145124/Britain-cements-position-at-top-of-G7-growth-league-as-eurozone-stutters.HTML
O que talvez ajude a explicar a recente derrota dos nacionalistas no referendo sobre a independência da Escócia.
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De Vento a 21.10.2014 às 23:00

Concordo consigo, Pedro, no que diz respeito ao pragmatismo do Reino Unido em lidar com suas dificuldades. No entanto, a notícia que me oferece baseia-se em expectativas do FMI. Há outras vertentes a considerar na economia do UK, como por exemplo a queda dos preços do crude. E o Mar do Norte também é território Inglês.
O mercado laboral, de acordo com informações que me vão chegando, não reflecte, até agora, qualquer pujança económica em que se baseiam as expectativas do FMI.

Quanto à crise, Pedro, eu ainda não compreendi muito bem o que pretendem dizer com estrutural. Será que se referem aos desenvolvimentos ocorridos desde a era Tatcher/Reagan? Será que é o alinhamento à política anglo-saxónica que determina essa questão estrutural? Se puder elucidar-me fico-lhe muito grato.

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De Pedro Correia a 23.10.2014 às 18:08

Enfrentamos uma crise estrutural desde 2008, meu caro. É uma crise de modelo económico. E de modelo social.
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De Vento a 23.10.2014 às 20:44

São os dois modelos em crise, concordo. 2008 foi o eclodir, mas a semente já lá estava.
Por isso mesmo acho que é um fait-diver essa semântica estrutural. As sociedades corrigem-se, e parece-me que neste momento ao invés de correcção lançam-se questões estruturais que provam desestruturar tudo.

No caso português, enfrentamos contínuas crises desde 1974. Parece-me que se esquecem da crise dos anos 80, 90, 2003 e posteriormente a esta data. Esta economia foi sendo aguentada pela capacidade do funcionalismo público e outros organismos do estado não perderem poder de compra, garantido por impostos, e a grande maioria da população desconhece o martírio que era e é viver com uma economia privada nos moldes em que existe.
Mas o pior disto tudo é não compreender que a redução da dita despesa agravará ainda mais esta situação.
Todavia os modelos de gestão, refiro-me à gestão, que, por exemplo, o ministro da saúde tem levado a efeito são de facto necessários.

Por outro lado discute-se agora a acessibilidade a partir de 2015 a subsídios de desemprego - segundo projecções, diga-se - a cerca de 250.000 empresários e trabalhadores independentes. Curiosamente pretende-se aplicar esta acessibilidade depois do desmoronamento deste tecido. Significa isto que aquilo que é apresentado como benefício jamais o será, porque a imposição de tempos de desconto não corresponderá aos ciclos de actividade para esse efeito. A não ser que haja um milagre.
Tem aqui um exemplo do que deve ser feito para estruturar, isto é, adaptar à realidade as políticas. Mas eu estou em crer que isto é propositado.
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De Pedro Correia a 23.10.2014 às 20:54

A sua reflexão dá pano para mangas, meu caro. Talvez eu a destaque para a pôr à consideração mais alargada dos restantes leitores.

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