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A continuidade e a mudança

por Pedro Correia, em 23.09.14

 

1. Foi o terceiro. E o último. E, de longe, o pior debate dos três que opuseram os "candidatos a primeiro-ministro" nas hostes socialistas. Com António José Seguro e António Costa falando grande parte do tempo em simultâneo, em tom exaltado, sobrepondo os discursos. Não sei o que se passou convosco: eu não consegui perceber várias frases que proferiram no estúdio da RTP. João Adelino Faria, o moderador, tinha consciência disso mesmo e tentou aplacar os ânimos. Infelizmente sem sucesso.

2. Custa entender tanta animosidade pessoal num partido onde grande parte dos militantes ainda utiliza o termo "camarada": cada vez mais se conclui que as diferenças entre os candidatos são de estilo, não de fundo. Um aspecto aliás realçado pelo guarda-roupa digno de Dupond & Dupont: apresentaram-se ambos de fato cinzento escuro e gravata vermelha. Com pouca convicção, Costa tentou gracejar a propósito deste assunto, lembrando que partilham o fervor benfiquista. Nos primeiros minutos, ainda trocaram umas amenidades de salão.

3. Mas Seguro não estava para graças. Visivelmente mais tenso, e com uma linguagem corporal muito rígida, o secretário-geral socialista abriu hostilidades, procurando percorrer o trilho do frente-a-frente inaugural, em que saiu vencedor: «Há uma crise no PS provocada pelo António Costa.» Estava dado o mote para o despique verbal que preencheria o resto do debate. Com uma diferença digna de registo: desta vez Costa foi a jogo. Coube até ao autarca de Lisboa a frase mais contundente deste despique travado sob os holofotes da estação pública: «Se tu tivesses tido um décimo da agressividade que tens contra mim na oposição a este governo, este governo já tinha caído.»

4. Ficou a sensação de que Seguro se apercebeu, naquele preciso instante, que se arriscava a perder o confronto -- o que de facto viria a acontecer. Mas teria perdido só à tangente se não tivesse ensaiado então uma fuga para a frente, cometendo o erro de mencionar um episódio dificilmente perceptível pelos telespectadores relacionado com o advogado Nuno Godinho de Matos, apoiante de Costa, na frustrada tentativa de associar o rival a interesses obscuros. Saiu-lhe mal o tiro, que o fez descer ao nível do diz-que-disse próprio das conversas de barbeiro.

5. O autarca exibiu um gráfico de sondagem demonstrando a preferência que lhe dedicarão os eleitores num hipotético confronto eleitoral com Passos Coelho. Seguro contrapôs com o barómetro do Expresso que «dá ao líder do PS maior popularidade» entre os políticos portugueses (assim mesmo, falando de si próprio na terceira pessoa).

6. E lá voltou o jogo do empurra, em versão déjà vu. Seguro: «Tu só vens agora disputar a liderança do PS porque terminou o memorando. Que eu não assinei nem negociei, mas honrei. Mas tu eras o nº 2 dessa direcção que subscreveu esse memorando. Agora é fácil fazer oposição.» Costa: «Agora é que é difícil fazer oposição.» Seguro: «Consegui trazer o PS das derrotas às vitórias.» Costa: «Tu deves estar desde pequenino a sonhar ser secretário-geral do PS.»

7. Houve muito mais palavras do que ideias. Costa não deixou de levitar no reino das abstracções e Seguro agarrou-se à sua proposta de reforma eleitoral em jeito de tábua de salvação quando o País em geral e o PS em particular esperariam dele uma solução luminosa para combater alguma chaga social -- o desemprego, por exemplo. O autarca apressou-se a chamar-lhe «populista», rótulo de que se usa e abusa em Portugal. A verdade é que, em termos concretos, Seguro levou pelo menos esta proposta a debate enquanto o rival ficou em branco.

8. De resto, consonância total num pacote de pias intenções: Portugal precisa de crescimento económico; os funcionários públicos devem recuperar o rendimento perdido; reformados e pensionistas não podem continuar a ser as primeiras vítimas da austeridade. La Palisse certamente concordaria.

9. No apelo final ao voto, sem ironia, o secretário-geral sublinhou que o sufrágio do próximo domingo destinar-se-á a escolher «entre a continuidade e a mudança» no Partido Socialista. Assumindo-se -- sem ironia -- como expoente da mudança. Como se não estivesse há três anos em funções no Largo do Rato. Repto aos eleitores em jeito de quadratura do círculo: mudar para continuar ou continuar para mudar?

10. Do que consegui ouvir, não gostei. E reforço cada vez mais a convicção de que deste confronto intestino resultarão feridas difíceis de sarar no maior partido da oposição, como já aqui escrevi a 7 de Junho, chamando-lhe processo autofágico em curso. Tenho hoje razões ainda mais sólidas para pensar assim.

 

Leitura complementar: A funda e a esfinge; A janela e o cutelo.

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14 comentários

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De Um Jeito Manso a 23.09.2014 às 23:34

Desta vez, o seu comentário já está mais isento e menos influenciado pela espuma destes duelos dilacerantes. Não é que concorde em absoluto consigo mas acho que a sua análise está mais 'robusta'. Gostei, portanto.
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De Pedro Correia a 23.09.2014 às 23:51

Agradeço as suas palavras na certeza antecipada de que estaremos em sintonia, no todo ou em parte, em diversos outros temas num futuro próximo.
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De Um Jeito Manso a 24.09.2014 às 02:12

Esta sua resposta revela que é optimista o que é sempre uma coisa boa.
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De Pedro Correia a 24.09.2014 às 13:21

Sim, sou optimista. Faz parte da minha natureza.
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De Carlos Faria a 24.09.2014 às 10:02

Este debate apenas me deixou com menos esperança na capacidade de Portugal vencer os obstáculos que enfrenta.
A oeste nada de novo... só que a guerra que Portugal tem de enfrentar não chegou o fim e continuará a haver mais vítimas e desilusões.
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De Pedro Correia a 24.09.2014 às 13:21

É caso para dizer, Carlos: não havia necessidade.
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De Vento a 24.09.2014 às 11:24

Em resumo, os debates esclarecedores foram o primeiro e o segundo. Neste debate pareceu-me que era oportuno esclarecer sobre as companhias que se aceitam ou escolhem.

Seguro, durante esta campanha, foi atacado de se socorrer dos mesmos conselheiros do ex-presidente da CMG, que presumivelmente se encontra sob investigação (?). Desmentindo, entendeu isto como um ataque a sua honra e socorreu-se das declarações de um apoiante de Costa que exerceu funções no BES, ou que ocupou um lugar no BES, para revelar que pretende levar a efeito uma política que vise destronar a promiscuidade que se instalou no país ao nível da política e economia, de que o PS é co-autor.

Em simultâneo, demonstrou que a candidatura de Costa não tem propostas novas e não acrescenta nada ao que tem vindo a ser feito por Seguro.

Deixou claro que concorreu à liderança do PS sem oportunismos e calculismos e num momento em que este tinha assinado um memorando, QUE HONROU, em que Costa era o nr.2. Revelou que por isto mesmo fez uma travessia pelo deserto e que, não obstante, GANHOU as autárquicas e as europeias, sabendo-se que nas europeias existe sempre uma maior desmobilização do eleitorado.

Revelou também que Costa tendo-se aproveitado deste (Seguro) ter apagado a fogueira originada pela troika decidiu consumar as suas ambições e trair o trabalho levado a efeito por Seguro.

Este debate, para Seguro, só podia servir para relembrar estas questões uma vez que nas outras, as importantes também, Costa nada acrescentava.
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De Pedro Correia a 24.09.2014 às 13:29

No jogo das expectativas, que lhe eram desfavoráveis, os debates foram globalmente positivos para Seguro. Ganhou o primeiro, empatou o segundo, perdeu o terceiro.
Costa tinha mais a perder porque vinha de um patamar de expectativas muito superior.
O PS perdeu, em termos globais. Houve demasiada crispação, demasiados estados de alma em confronto - aliás reflectidos nos estados-maiores das duas campanhas - e política a menos. Em comparação com esta, a campanha interna de 2004 - que acompanhei como jornalista - teve muito mais elevação sem perder a acutilância.
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De Vento a 24.09.2014 às 17:12

Na substância estamos de acordo, Pedro. E certamente que também concordamos com o comentador logo abaixo de nós.
Na realidade estes debates e estas eleições que se vão realizar só servem para debater o carácter dos personagens neles envolvidos, e este na minha opinião é claramente desfavorável a Costa.
Seguro entrou num período muito delicado para líder do PS e a sua figura de certa forma apagada, inicialmente, ajudou a que o PSD ficasse torrado por si mesmo. Bastava-lhe saber gerir o tempo, a má herança de Sócrates e Costa e a ingenuidade de Passos para poder desferir o golpe final.

Costa, que se sentiu mal por ter entrado no Rato como leão e saído como um rato, julgou que a queda de 5% nas europeias era o mote para avançar a trote, e caiu do cavalo tal como Paulo que não lhe restou outra alternativa de, perante as evidências divinas, se converter à pregação dos valores que conduzem à liberdade.
Mas eu tenho uma explicação para esta queda, a dos 5%: a presença de Sócrates e de Costa na campanha fizeram o eleitorado aderir ao discurso de Marinho que se propunha limpar a nação. E é isto mesmo que necessitamos, de uma boa limpeza e não de justiceiros e catonianos pregadores.
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De Mário Pereira a 24.09.2014 às 15:24

«Custa entender tanta animosidade pessoal num partido [...]»
Custa assim tanto entender? O PS e o PSD são dois partidos que congregam dois terços a três quartos dos portugueses (que votam...). Sendo partidos de poder, têm nas suas fileiras milhares de militantes que apenas são atraídos por esse poder. Numa palavra, há lá de tudo.

«[...] onde grande parte dos militantes ainda utiliza o termo "camarada"»
Os do PSD não se chamam "companheiros"?

«Cada vez mais se conclui que as diferenças entre os candidatos são de estilo, não de fundo».
Havia dúvidas? Mais do que de estilo, é uma questão de imagem. Na construção da qual media e opinadores tiveram um papel muito importante.

«Visivelmente mais tenso, [...] o secretário-geral socialista [...]
É natural. Ao contrário do Costa, que tem uma janela com uma bela vista à sua espera, a vida do Seguro vai levar uma grande volta em caso de derrota.
Assim se explica a sua agressividade. Uma coisa é certa: o Seguro pode cair, mas não cai sem luta. Isto não foi o passeio triunfal que o Costa imaginou quando se candidatou...

«Ficou a sensação de que Seguro se apercebeu, naquele preciso instante, que se arriscava a perder o confronto - o que de facto viria a acontecer. »
O Augusto Santos Silva diz que a sentença sobre quem ganhou um debate apenas serve para revelar a simpatia do opinador.
Quanto aos "notáveis", que à excepção do João Soares apoiam todos o Costa, mais do que afirmar que representam a promiscuidade entre a política e os negócios - o que até é verdade -, o que me interessa a mim é que valem cada um deles um voto, que é igual ao de qualquer outro eleitor. Felizmente que o mau hábito dos clubes de futebol ainda não chegou aos partidos.

«O autarca exibiu um gráfico de sondagem [...]»
A sondagem que interessa é no domingo.

«Tu só vens agora disputar a liderança do PS porque terminou o memorando. Que eu não assinei nem negociei, mas honrei.»
Ser líder dum partido de poder na oposição é sempre muito difícil. Não é por acaso que se diz que as eleições não se ganham, perdem-se. Quanto às ambições de cada um, parecem-me legítimas. Mas lá que o Costa era o número dois do Sócrates, era...

«Costa não deixou de levitar no reino das abstracções e Seguro agarrou-se à sua proposta de reforma eleitoral [...]
Não há soluções luminosas nem milagrosas. O Seguro disse-o claramente. Quanto ao Costa, remeto para a minha conclusão final.

«O autarca apressou-se a chamar-lhe "populista"».
O abuso de rótulos e chavões, tão do agrado de tantos no debate político, apenas revela falta de argumentos.

«De resto, consonância total num pacote de pias intenções»
Aqui, cederam ambos à demagogia fácil. Há muitos funcionários públicos (e reformados)... Mas o moderador teve a sua dose de culpa, porque optou por fazer esta pergunta, para a qual não há soluções mágicas, em detrimento de outras bem mais importantes, como a dívida, a educação, a saúde ou o estado social.

«Mudar para continuar ou continuar para mudar?»
Para já, a proposta em cima da mesa é uma mudança de mosca...

«Processo autofágico em curso»
O poder é um grande cimento. Para já, as hostes vão-se unir em torno de quem ganhar - especialmente se for o Costa, bem entendido. Depois, depende do resultado das legislativas. Uma coisa é certa: com Costa ou com Seguro, com ou sem cisões, o PS deve ganhar as eleições, mas sem maioria absoluta. E se, por absurdo que possa parecer, o PSD as ganhar, isso significa que os portugueses estão dispostos a continuar a empobrecer, caso em que o Coelho, se se aguentar até lá - este caso da Tecnoforma parece lixado... -, terá toda a legitimidade para continuar a fazê-lo.

Findos os debates e com a eleição à porta, concluo que está tudo na mesma, como a lesma. Explico: o PS tinha um líder. Apareceu um desafiador. Fiquei atento às suas propostas, porque para mim, mais do que a imagem, o que interessa é o que eles dizem. Conclui que o Costa não tem nada de novo a acrescentar. Assim sendo, não me parece que faça sentido mudar de líder. Quanto à imagem, há gostos para tudo.
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De Pedro Correia a 25.09.2014 às 13:26

Tem razão: a sondagem que interessa acontecerá no domingo. Nenhuma empresa - nem aquela que falha sempre, de um parlapatão nada isento com lugar cativo na TV - se atreverá desta vez a prognosticar resultados.
Quanto à tese de Santos Silva: ora aí um comentador-político ou político-comentador que é sempre, sempre, sempre parte interessada. O que às vezes até o torna interessante.
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De cristof a 24.09.2014 às 16:57

Olhando para as diretas apenas como uma forma de obter presença facil,gratuita e util nos media, parto do principio que os gladiadores têm que apresentar algum sangue senão os espectadores bocejam e desinteressam-se e os donos da arena acabam por nem as luzes acenderem. Foi o 1º é natural que ainda lhes estejam a apalpar o jeito.
Quem lutou ou acompanhou a luta livre em Portugal e vê a publicidade a volta dos espectaculos nos EUA percebe bem como a encenação faz milagres ou mata o circo mediatico
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De Pedro Correia a 25.09.2014 às 13:21

O meu polegar vira-se para baixo.

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