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Delito de Opinião

A Contadora de Fotografias

Francisca Prieto, 03.07.15

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias abria uma das doze gavetas do móvel de alumínio e começava o dia a contar. Um, dois, três, quatro. Só depois de seleccionar o quarteto de imagens comprimidas no arquivo de tiras é que se fechava na câmara escura. 

Quando estava bem-disposta, a escolha seguia um critério. Havia dias em que lhe dava vontade de contar fotografias de gente pequena, outras vezes gostava de contar lugares, ou dias cinzentos, ou gestos de ternura. Quando estava demasiado cansada, tão cansada que as palavras lhe faltavam, a escolha era feita ao acaso e deixava que as imagens se contassem a elas próprias.

Tinha herdado o espólio do pai, o tirador de fotografias, um homem com um olho tão grande que conseguia captar microsegundos de realidade e eternizá-los num quadrado a negativo onde as pessoas viviam do avesso a pairar em formas pouco distintas.

A contadora de fotografias era dona das palavras, mas nunca tinha encontrado o termo certo para contar o amor que sentia pelo pai. Procurou adjectivos, advérbios e predicados no léxico de todas as línguas do mundo. Comprou dicionários, gramáticas e prontuários, leu-os de fio a pavio, da frente para trás e de trás para a frente, às vezes abrindo uma página ao acaso, na esperança de lhe ter escapado uma sílaba escondida, um prefixo ou sufixo que a salvasse de tal inquietude. “Há palavras que nos faltam”, concluiu ao fechar o último tomo, “há palavras que têm de ser inventadas”.

Foi nesse dia que soube que, para chegar à palavra que lhe faltava, tinha de começar a contar cada uma das fotografias do pai.

Um, dois, três, quatro negativos a submergir em tinas.

Quando era pequena, o tirador de fotografias tinha-lhe ensinado que o negativo é o pão que vai ser barrado na manteiga. “Assim, estás a ver?” – dizia ele enquanto mergulhava o negativo em nitrato de prata – “ Se não o preparares com cuidado, não vai aderir em doses uniformes ao papel e ficas com uma imagem enjoativa”.

Ela subia para o banquinho e tentava dar conta da receita. Ao princípio tinha medo de o desapontar e enervava-se de tal maneira que as imagens apareciam demasiado densas no papel. “ Vês? Isso é uma imagem que até faz mal ao fígado”, dizia-lhe o pai, “tenta outra vez”.

Depois aprendeu a controlar o batimento cardíaco e ganhou a precisão de um relógio de quartzo. O segredo era simples, bastava acompanhar o processo com uma ladainha que variava em função do cenário que estava a revelar: “árvore-menino-cão-ladrão”, “avó-sorvete-degrau-neto”, “rio-frio-inverno-casaco”. Era a lengalenga que lhe dava o timing certo.

Cinco manhãs por semana, a contadora de fotografias escolhia quatro imagens e ampliava-as até cobrirem uma parede. Duas em cima, duas em baixo, mesmo a raiar o rodapé. Depois, sentava-se defronte da parede e contava o que se passava em cada um dos cenários eternizados pelo tirador de fotografias.

“...aqui o tirador de fotografias pediu ao menino que sorrisse. O menino fez uma birra que gritava pela roupa toda. A mãe, envergonhada, prometeu-lhe um chocolate na mercearia do senhor Arlindo, o velhote que tinha uma mulher que sofria de varizes...”

“...neste dia fazia um frio dos diabos e as pessoas andavam na rua com casacos de papa alentejana. Bem, não eram de papa alentejana, mas antes fossem, que o frio que caía do céu chegava para humedecer paredes grossas...”

“..este pato era parvo, ou então tinha muita personalidade. Pois se estão todos a nadar para o pão que a menina atirou, ele também devia estar. Olha, se calhar não tinha fome...”

“...devia ser março ou abril. Só no início da primavera é que as pessoas vão à praia com sapatos fechados. No outono ainda levam o embalo do verão e as sandálias nos pés...”

Depois, a contadora de fotografias retirava a fita-cola a cada uma das imagens, sorria ao lembrar-se de que o pai dizia “fita-gomada”, escrevinhava no verso pequenas notas da sua história, guardava-as numa grande caixa e saía para trabalhar.

Um dia, já não havia no arquivo mais tiras de negativos com imagens para contar. A contadora de fotografias já as tinha contado todas e ainda não tinha dado com a palavra para descrever as saudades que sentia do pai. Abriu cada uma das doze gavetas do móvel de alumínio. Vazias, as doze. Depois, desmontou-as uma a uma e, lá no fundo do armário, deu com uma tira de negativos perdida. Quatro imagens dela menina, num canto da câmara escura, a contar fotografias.

Foi quando percebeu que o tirador de fotografias, por não ter jeito para as palavras, tinha preferido fotografar o amor.

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