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A compra da Gronelândia.

por Luís Menezes Leitão, em 22.08.19

U.S._Territorial_Acquisitions.png

Henry Kissinger costumava dizer, quando lhe falavam na possibilidade de ser Presidente dos Estados Unidos, que essa possibilidade dependia de os Estados Unidos anexarem a Baviera, que tinha sido o local onde nascera, uma vez que a Constituição Americana reserva o cargo de Presidente aos naturais dos Estados Unidos. A afirmação pode parecer uma piada mas a história da América é uma história de anexações, especialmente no continente americano que desde a doutrina Monroe foi declarado de influência exclusiva dos EUA.

A expansão dos EUA ocorreu normalmente através da compra de territórios. Como se pode confrontar aqui, os EUA compraram sucessivamente a Louisiana à França (1803), a Flórida à Espanha (1819), o território de Gadsen ao México (1853), o Alasca à Rússia (1867) e as Ilhas Virgens Americanas à Dinamarca (1917). Outras vezes a anexação de territórios resultou de guerra, como a Guerra Mexicano-Americana (1846), que resultou na anexação do Texas, Califórnia, Novo México e Arizona, ou a Guerra Hispano-Americana (1898), que resultou para os nossos vizinhos espanhóis na perda de Cuba, Porto Rico e as Filipinas, sendo que neste caso apenas Porto Rico permaneceria ligado aos EUA. Noutros casos, a anexação resultou de pedido dos próprios países, como sucedeu com o Hawai em 1898. 

Em relação à Gronelândia, há muito que os EUA a cobiçam, tendo sido proposta a sua compra à Dinamarca por Truman em 1946, a qual foi rejeitada pelos Dinamarqueses. Nessa altura a Gronelândia era considerada uma colónia da Dinamarca, o que contrariaria a doutrina Monroe, que não admite a existência de colónias europeias no continente americano. A questão veio a ser resolvida com a integração plena da Gronelândia no Reino da Dinamarca, o que até levou a que tivesse aderido à então CEE em 1973. A adesão duraria, no entanto, pouco tempo uma vez que os habitantes da Gronelândia consideraram uma ficção a sua integração na Europa, sendo uma região vizinha do Canadá. Em 1979 a Dinamarca transforma a Gronelândia numa sua região autónoma, sendo que esta em referendo decide em 1982 a sua saída da então CEE. Nessa altura a CEE perdeu metade do seu território.

Face a isto, quando Trump anunciou a sua intenção de propor a compra da Gronelândia não estava manifestamente a brincar, como foi considerado pelos Dinamarqueses, levando a este episódio de cancelamento da sua visita à Dinamarca. Trump é um narcisista, estando obcecado com o legado da sua presidência, encarando naturalmente com agrado a possibilidade de aparecer como um dos Presidentes que dilataram o território dos Estados Unidos. E, neste caso, o facto de a Gronelândia ser uma região autónoma da Dinamarca, com apenas 57.000 habitantes para um território de 2.166.000 km2, torna especialmente fácil essa aquisição, o que foi facilmente percebido pelo homem de negócios que Trump é. Imagine-se que os EUA oferecem a cada um dos 57.000 gronelandeses a cidadania americana originária e mais 1 milhão de dólares, adquirindo assim os EUA o território por apenas 57.000 milhões de dólares, e permitindo aos gronelandeses ir viver como nababos para a Califórnia ou para a Flórida. Um referendo com esta proposta de anexação seria rejeitado pelos gronelandeses? Sinceramente, duvido. Aguardo as cenas dos próximos capítulos.


39 comentários

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De Anonimus a 22.08.2019 às 10:35

Costa, amigo. Ilha da Madeira. Quanto paga o Trump por ela?
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De Cristina Torrão a 22.08.2019 às 11:40

Exactamente!

Se o Trump posta no Twitter que vai comprar a Madeira e ainda uma fotomontagem da ilha com uma Trump Tower lá no meio, eu queria ver ocmo so portugueses reagiam.
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De Luís Lavoura a 22.08.2019 às 11:12

Independentemente de Trump ser ou não ser um narcisista, a sua proposta de compra da Gronelândia faz todo o sentido do ponto de vista dos interesses nacionais dos EUA, pelo que se trata de uma proposta eminentemente racional, qualquer que seja o presidente do EUA que a faça.
Não há pois aqui qualquer motivo para criticar Trump.
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De Cristina Torrão a 22.08.2019 às 11:38

Há a criticar a maneira como a "proposta" foi feita. Porque não foi uma proposta. Ele anunciou, no Twitter, pouco antes da visita agendada, que queria comprar a Gronelândia, sem antes ter comunicado essa sua intenção ao governo dinamarquês, à porta fechada. Isso sim, seria o comportamento adequado. Trump continua arrogante, prepotente e mal-educado. E, não, isso não pode ser sinónimo de politicamente incorrecto.

Depois, ficou muito amuado com a recusa e cancelou a visita. Mais uma vez, de uma grande falta de educação. Por tudo isto, ele merece ser criticado, sim.
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De Costa a 22.08.2019 às 12:49

De acordo, o homem não será um exemplo de boa educação; e, seguramente, provocará momentos de genuína aflição a diplomatas, chefes de protocolo e outros "quadros" mais respeitadores das fórmulas e processos consagrados nas relações entre estados. Ou apenas gente bem-educada. Mike Pompeo já parece andar de extintor na mão...

Isto posto - e Trump, convirá talvez não o esquecer (e será fácil esquecê-lo, no frenesim da crítica ao Trump, por tudo e mais alguma coisa, que hoje é tomada como uma espécie de dever para-religioso e quase orgíaco pela intelligentsia dominante) será apenas um entre tantos políticos arrogantes, prepotentes e mal-educados -, há a questão das relações e interesses entre estados. Que perduram para lá das pessoas e - quanto a pessoas - tendem, creio, a ser definidos e conciliados, por bem menos vistosos subalternos e, em boa medida, bem antes das solenes cimeiras em que os líderes, mais ou menos bem educados, mais ou menos bem falantes, mais ou menos carismáticos, finalmente assinam os tratados.

E no plano das relações entre os estados, dir-se-ia que, e independentemente da sua efectiva viabilidade nos tempos que correm, a ideia, como demonstra o autor do "post", não é nem inédita nem absurda. Nem será economicamente impraticável. Se há ou não vontade de vender, isso é outra coisa. A vontade de comprar é que não parece necessariamente ser um disparate de um louco de quem ora se troça ora se teme o pior. De modo que a boa ou má educação de quem por estes dias ocupa a Casa Branca, bem poderá acabar - haja ou não venda - por ter bem pouca importância. É capaz de valer a pena esperar pelas cenas dos próximos capítulos.

Já agora, quanto a políticos arrogantes, prepotentes e mal-educados (e não ignoro que vão faltando perigosamente, e não é de agora, "estadistas"; gente de bem, enfim, na política, da junta de freguesia ao topo da superpotência), talvez fosse tempo de em vez de se gritar em quase histeria que vem aí - ou já cá está - o terrível populismo, se perceber onde falharam os partidos políticos "tradicionais". Onde falharam, quem permitiu essas falhas, como foi essa gente responsabilizada (escrevo isto sem me rir - mas confesso que custa). O que corrigir, enfim; como recuperar a credibilidade da política tradicional, para evitar que o terrível populismo, fonte de todos os males, volte a ganhar eleições. Para que Trump, Bolsonaro e outros, sejam apenas um episódio breve e esclarecedor.

É que se se eternizarem, a culpa não será deles.

Costa
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De Guglielmo J Marconi a 23.08.2019 às 08:45

Foste muito eloquente e politicamente correcto a defender o bocal e o politicamente incorrecto.
Muito bem!
(Sem cinismo... Apenas admiração)
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De Anónimo a 22.08.2019 às 15:21

Muito curioso é a reacção desse Trump, ser abjecto e super mal educado ter achado "horrível" a resposta da DInamarca. Os calhaus também se ressentem?
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De Cristina Torrão a 22.08.2019 às 18:48

É muito sensível, como todos os narcisistas. Conheço-os bem, cresci com um. Amuam e ofendem-se facilmente.
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De Ricardo Alves a 22.08.2019 às 13:51

Os interesses nacionais justificam a pretenção de adquirir um território em pleno seculo XXI? Vamos seguir entao a sua linha de raciocinio até ao fim ou de uma forma mais utopica. Os EUA comprariam a Gronelandia e ficava anexada ao seu territorio. Anos mais tarde, tinham interesses nacionais em comprar a Islandia e conseguiam. Depois porque nao comprar o Reino Unido? E por aí em diante até a aquisição da totalidade do planeta...
Na sua opinião isto faz sentido?
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De sampy a 23.08.2019 às 20:50

Não faz nenhum sentido. Seria como imaginar um partido comunista a comprar a torto e a direito propriedades e imóveis, a ponto de ser actualmente o maior proprietário do país, pagando uma ninharia de impostos. Alguém concebe um disparate destes? Um completo absurdo.
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De sampy a 22.08.2019 às 11:35

Um valente aplauso.

Apenas para complementar:
- saberão alguns que a Gronelândia já foi nossa? Foi apenas questão de achamento e colocação nos nossos mapas. Por um século, quase ninguém se importou...
- imaginam alguns a actual dimensão dos territórios comprados pelos chineses em África?
- que pensariam alguns se por acaso Putin se oferecesse para comprar a Crimeia? Também seria considerado um completo absurdo?...
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De Anónimo a 22.08.2019 às 11:48

Digam o que disserem de Trump, mas se fosse o Putin já tinha enviado a Marinha de Guerra e já estariam nalguns mastros pendurada a àguia de duas cabeças.
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De sampy a 23.08.2019 às 20:57

Sim, da próxima vez que o Putin puser a Marinha em exercícios no Mar Báltico, vamos ver a quem os dinamarqueses vão telefonar...
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De Jo a 22.08.2019 às 12:45

Trump parece estar ainda no período colonial. Propõe a compra de um território à metrópole sem uma referência sequer aos habitantes da Groenlândia.
Fala de uma oferta aos naturais da região mas isso nem sequer passou pela cabeça de Trump. Ele pensa-se um monarca absoluto com o poder das armas e do dinheiro.
O que acho perigoso é que haja tanta gente a pensar que ele tem razão.
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De sampy a 23.08.2019 às 21:02

É triste o Trump andar convencido que ainda estamos no tempo da USSR. Já agora, por quanto comprou o KGB os ficheiros da PIDE?
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De Manuel da Rocha a 22.08.2019 às 12:55

Na verdade, a própria Dinamarca considera a Gronelândia um território "incómodo". É que todas as receitas ficam na ilha, sendo que a Dinamarca tem de pagar aos militares, forças policiais, ajudas para os transportes, forças de segurança e sistema de saúde. Portanto, é uma região em que a Dinamarca chega a perder mais de 10000 milhões de coroas (cerca de 1300 milhões de euros) anualmente.
O Trump terá pensado nisso, já que a outra opção era a Islândia, que é um país, não dava para negociar (apesar de ter existido alguma coisa, nos anos de 2009-2010, aquando da crise, sobre a possibilidade da ilha juntar-se aos EUA). Além disso, os EUA tem uma base de aviação e uma de navios/submarinos, na ilha, pelas quais pagam, cerca de, 80 milhões de dólares anualmente.
Se mantivessem a autonomia, os próprios habitantes eram capazes de aceitar a mudar, por larga margem, pois facilitava as viagens e o acesso a outros serviços. Tem uma língua própria e o inglês é a língua secundária, à frente do dinamarquês.
O próprio governo da Gronelândia já pediu um referendo para se tornar num estado independente, só que as sondagens davam a derrota dessa medida, por isso alteraram para uma maior autonomia (de impostos e o fim do envio de valores para a Dinamarca, provenientes das explorações mineiras e os portos), que venceu o referendo de 2008, por quase 78% dos votos de 89% da população.
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De Vento a 22.08.2019 às 12:58

Não vejo qualquer tipo de narcisismo em Trump em torno da questão da Gronelândia.
Importa, contudo, uma nota introdutória a esta questão. Em 2007 a Rússia colocou uma bandeira em titânio no subsolo do Ártico. Enviando, assim, uma clara mensagem ao mundo sobre o que seria a importância futura da Plataforma Continental Russa no Ártico.
Também em retrospectiva, recorde-se o período da guerra fria em que os submarinos nucleares cruzavam o oceano abaixo das placas de gelo na região, bem como a utilização da Base Aérea de Thule (na Gronelândia) pelos bombardeiros estratégicos americanos.

Associado ao anteriormente referido, e enquadrado na estratégia económica e geopolítica, note-se que o degelo que começou a ocorrer nessa região revelou os imensos recursos energéticos, minerais etc. que importam explorar.
Paralelamente, concluiu-se há poucas horas uma cimeira ente Macron e Putin, onde a ideia de uma cooperação e integração estratégica europeia de Lisboa a Vladivostok foi aflorada por ambos.

Assim, não obstante o estilo de abordagem, nota-se uma clara compreensão do fenómeno por parte da administração americana, e também um claro entendimento por parte desta que a Europa não é um aliado confiável e estabilizador nos interesses políticos e geoestratégicos americanos. Daí a oferta de compra e não um pedido de cooperação.
Existindo uma Convenção Internacional em torno do Ártico, a proposta de Trump revela maturidade e respeito pela ordem estabelecida. E indica também que futuramente existirão importantes transformações na região que afectarão globalmente.

Gostaria de deixar ao Luís Menezes duas ligações que certamente ajudarão a encontrar matéria para desenvolver melhor esta questão. A importância de uma base académica, e não emocional, nesta abordagem imprimirá certamente uma maior compreensão da situação:

https://exploringgeopolitics.org/

https://exploringgeopolitics.org/publication_boon_von_ochssee_timothy_mackinder_and_spykman_and_the_new_world_energy_order/
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De Valdemiro Robalo a 22.08.2019 às 13:52

Seria melhor comprar Cabo Verde
Um pouco mais de 500000 habitantes ( 500 milhões de dólares) e 10 ilhas para disfrutar as suas férias com a sua jovem esposa durante o ano todo.
Pensa nisso Tramp e certamente será um bom negócio para o primeiro ministro Ulisses.
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De sampy a 23.08.2019 às 21:06

Olha alguém que está quase a perceber porque é que a Guiné Equatorial faz parte da CPLP...
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De Makiavel a 22.08.2019 às 14:13

Após o enquadramento histórico dado pelo autor, o cabotinismo lá chegou à tona. Então a decisão de comprar a Gronelândia estaria praticamente no papo se os EUA pagassem um milhão de dólares a cada um dos 57000 habitantes... não duvido se lá vivessem 57000 Luíses Menezes Leitões.
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De João André a 22.08.2019 às 16:00

1 milhão a cada um? Isso assume que os habitantes quereriam sair de onde estão e ir então viver para a California. Umas férias sem dúvida, que apreciariam. Alguns quantos até se mudariam com prazer. Os outros possivelmente quereriam voltar a casa.

Digamos que 75% voltaria à Gronelândia depois das suas férias. Uns 40 mil voltariam a casa. Que aconteceria à economia com 40 mil milhões subitamente injectados nela?

Não aconteceria. Mesmo que os quisessem

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