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Delito de Opinião

A bolha dentro da bolha com o país ao lado

Pedro Correia, 11.01.22

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Rui Tavares é o candidato-a-tudo na política portuguesa. Já concorreu a eurodeputado pelo Bloco de Esquerda – e mandou a sigla às malvas após ter sido eleito. Já concorreu a vereador em Lisboa, integrado no rol de candidatos encabeçado pelo socialista Fernando Medina – e em vez de somar subtraiu, contribuindo para a vitória de Carlos Moedas.

Agora corre para a Assembleia da República com a marca Livre. Mas a julgar pelo primeiro dos 32 debates que até ao dia 20 desfilarão nos diversos canais televisivos, ambiciona ser secretário de Estado num novo governo liderado por António Costa. É a conclusão que se extrai da sucessão de salamaleques trocados entre ambos neste sonolento frente-a-frente na RTP.

Foi o equivalente a um desafio amigável no futebol. Tavares gostaria de ser lateral esquerdo – ou direito, tanto faz – de uma geringonça recauchutada, sem a incómoda ganga operária do PCP nem a fachada radical do Bloco. Costa, que parecia ter tomado um litro de chá de tília antes deste falso debate, tratou-o reverentemente por «professor Rui Tavares»: não lhe desagradaria vê-lo como secretário de Estado fosse do que fosse.

O primeiro confronto autêntico desta campanha ocorreu na SIC Notícias, também no serão de domingo. A hora bem tardia: 22.45. De um lado, Catarina Martins; do outro, André Ventura. Houve faísca, como se previa: ela nunca o tratou pelo nome, apelidando-o sem cessar de «candidato da extrema-direita»; ele, fiel ao boneco que criou como comentador da bola no canal do Benfica, chamou-lhe várias vezes «mentirosa». Como um adepto a insultar o árbitro.

Inútil especular sobre quem ganhou: não competem no mesmo campeonato. O deputado do Chega terá conseguido fixar o seu eleitorado mais ortodoxo, travando eventual debandada para o PSD. A deputada do BE deixou por explicar uma questão de fundo que irá persegui-la ao longo da campanha: por que motivo o seu partido precipitou esta crise política ao chumbar o Orçamento, fornecendo capital de queixa ao PS? A 30 de Janeiro, o Bloco será o principal prejudicado numa dinâmica de voto útil. Chamar mil vezes «racista» a Ventura não soluciona o problema.

 

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Se os debates pecam por falta de substância, o subsequente desfile de “analistas” agrava a situação, desviando os telespectadores para outros canais. Essas “análises” andam a ser monopolizadas por gente que é parte interessada e não tem qualquer distância face ao que foi dito.

O exemplo mais gritante ocorreu há dias na CNN lusa. Acabava de ser exibida uma entrevista a António Costa. Quem surge em estúdio a comentá-la? O isentíssimo Medina, quinto candidato na lista do PS por Lisboa às legislativas, e o imparcialíssimo David Justino, vice-presidente do PSD. O bloco central personificado em antena. «Foi uma entrevista simpática», condescendeu o amável Justino, insólito opositor bissexto.

As televisões tornam a política num mundo ainda mais fechado do que já é. Uma bolha dentro da bolha. Falam uns para os outros e comentam-se entre si. Enquanto o país passa ao lado.

 

Texto publicado no semanário Novo

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