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A berlineta azul

por José António Abreu, em 07.03.17

Blogue_A110_JLThérier_TAP1973.jpg

Jean-Luc Thérier no Rali de Portugal (TAP) de 1973.

 

Creio que foi em 1973, mas pode ter sido em 1972. Do local, recordo-me bem: uma encosta da Serra do Açor, por cima da povoação de Folques, a meia dúzia de quilómetros de Arganil. Hoje a estrada encontra-se asfaltada, na altura era em terra batida. Dependendo do ano, eu tinha quatro anos e meio ou três anos e meio. Estava em pé no cimo de uma barreira, com o meu pai de um lado e a minha mãe do outro. Trata-se, aliás, de uma das memórias mais antigas que tenho dos meus pais. Devo-a à pequena berlineta azul que saiu em derrapagem de uma curva quase em frente, percorreu de nariz no ar as poucas dezenas de metros até à curva em que nos encontrávamos, descreveu-a, fez a seguinte, mais fechada, com a traseira a deslizar, e seguiu encosta abaixo, dançando de curva para curva. Fiquei extasiado. Seguiram-se outros carros espectaculares, entre os quais um par de Porsches 911, mas a minha devoção fora garantida pela berlineta azul. De tal modo que, tendo nas décadas seguintes visto muitos outros carros de ralis (do Fiat 131 Abarth ao Mitsubishi Lancer Evolution, passando pelo belíssimo Lancia 037 e pelos brutais Audi Sport Quattro S1 e Peugeot 205 Turbo 16), não somente nas estradas de Arganil mas também nas da Lousã e nas de Fafe, nenhum deles alguma vez conseguiu destroná-la do topo das minhas preferências.

 

A berlineta azul era um Alpine Renault A110 e nascera da paixão do francês Jean Redelé pela competição automóvel. Natural de Dieppe, filho do dono de uma oficina, concessionário Renault, Redelé começou por preparar e pilotar Renaults 4CV (o famoso «Joaninha») em provas como o rali de Monte Carlo e as Mil Milhas. Em 1955, com a apresentação do A106, ainda sob a base do Renault 4CV, fez nascer a marca «Alpine», nome inspirado pelos resultados que conseguira nos troços dos Alpes. Em 1957 surgiu o A108, baseado no Renault Dauphine, e em 1962 o A110, que utilizava a base do Renault 8. A primeira versão do A110 estava equipada com um motor de apenas 956 cm3 debitando 55 CV (SAE). Ao longo dos anos, as versões disponíveis para compra iriam ver a cilindrada subir até aos 1647 cm3 e a potência até aos 140 CV (na versão de 1605 cm3) enquanto as versões de competição chegariam aos 1860 cm3 e aos 190 CV. Como no Porsche 911, a tracção era feita às rodas traseiras e o motor estava posicionado atrás do eixo motriz. Extremamente leve, o A110 era difícil de controlar no limite. Contudo, nas mãos de pilotos como Bernard Darniche, Jean Pierre Nicolas e Jean-Luc Thérier, ganhou inúmeros ralis, entre os quais o de Portugal, em duas ocasiões: 1971 (Nicolas) e 1973 (Thérier). (Pepita de informação acessória: Michele Mouton, muito mais associada aos anos 80 e à Audi, começou a carreira num A110.) Em 1974, o surgimento do Lancia Stratos, concebido especificamente para a competição e equipado com motor central de origem Ferrari com 260 CV, marcou o final do seu período de glória. Totalmente propriedade da Renault desde 1973, a Alpine viria ainda a ganhar as 24 Horas de Le Mans em 1978, com o protótipo A442B, mas a crise do petróleo e erros de gestão no posicionamento da marca (nem o A310, lançado em 1971, ainda com Redelé à frente da empresa, nem o GTA, lançado em 1984 e apostando numa imagem mais cosmopolita, tiveram sucesso) levaram ao seu desaparecimento.

 

Até hoje. No Salão de Genebra, a Renault acaba de oficializar o renascimento da Alpine, através da apresentação do novo A110. É um pouco maior do que o original (todos os carros têm vindo a crescer) e possui agora o motor em posição central. Ainda assim, muito ADN é partilhado: a tracção traseira, o peso reduzido (1100 Kg), as dimensões compactas (4,18 m de comprimento, 1,25 m de altura), o motor de cilindrada relativamente baixa, com potência muito razoável (um novo 1.8 l de injecção directa com 252 CV). O preço? Em terras gaulesas, entre 55 mil e 60 mil euros. Os 1955 exemplares da «primeira edição» (1955 porque - voltem ao parágrafo anterior - a Alpine nasceu nesse ano) estão já todos vendidos.

 

Blogue_A110_500.jpg

O clássico e o recém-nascido.

 

Há quem ambicione possuir Ferraris e Aston Martins. Mais modesto, eu contentar-me-ia com um A110. E não, este texto não reflecte uma crise de meia idade (acabei de explicar o que a Alpine representa para mim desde os  tempos em que ainda desconhecia onde ficavam os Alpes) nem consiste em publicidade encapotada (não tenho qualquer ligação à Renault). Trata-se apenas de expressar a minha alegria pelo renascimento da marca. Não posso, contudo, deixar de aproveitar a oportunidade para enviar uma nota ao Partido Socialista. Em troca de um montante entre os 55 mil e os 60 mil euros, estou disposto a assinar textos de apoio à geringonça. Aceito usar o nome «Abrantes» (afinal, é só mudar a terminação) ou até mesmo «Pipoca». Entrem em contacto, OK? 

 

Blogue_A110_2_500.jpg 

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16 comentários

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De Jose Coimbra a 07.03.2017 às 18:47

Ia apostar que esta foto é no cimo da Serra da Boa Viagem, no "salto" da casa do guarda. Posso estar enganado, mas penso que até estava lá e ainda me lembro do caramelo de chapéu. eh eh
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De José António Abreu a 07.03.2017 às 18:58

É muito possível, José. Mas, quanto ao chapéu - e não contestando que você possa ter uma grande memória -, olhe que não estávamos assim tão longe dos tempos em que Vasco Santana garantia haver muitos.
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De José Coimbra a 07.03.2017 às 20:58

Pois. Debaixo do chapéu está a cabeça de um colega.
A velhice já é muita mas ainda estamos ambos vivos. E também estava lá do outro lado da estrada.
As histórias dos rallyes desses anos fariam um romance.
Desde começar namoros às 4 da manhã debaixo de mantas ao frio à espera dos carros nos 5 caminhos no Buçaco até....
Ou o TAP de 75 quando os comunistas iam acabar com esse desporto burguês. A descida da Lousã durante a noite com os discos vermelhos de fogo ao fundo e a multidão maior do que nunca naquela serra a esvaziar o que ia na alma de milhares de pessoas contra o gonçalvismo e camaradas.
Tempos que lá vão e vivem na memória.
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De José António Abreu a 08.03.2017 às 10:31

Ah, bom, nesse caso...

Sim, as histórias associadas à passagem do rali de Portugal dariam muitos livros... As noites de Arganil eram uma experiência fantástica e quase surreal. Eu costumava ficar na zona de Folques, a maioria das vezes na encosta de Mancelavisa, mas também vi a passagem noutros sítios, incluindo a descida para Lomba, mesmo junto a Arganil. Já nos ralis do campeonato nacional tendia a privilegiar a Selada das Eiras.

Curiosamente, fiz a descida da Serra da Lousã há menos de um mês. Aqueles 20 kms continuam fantásticos - e, mesmo devagar (cof-cof) capazes de destruir travões. ;-)
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De Vento a 07.03.2017 às 22:37

O A110 era e é um belo bicho. Este que posta vem a estalar com pipocas.

Moura Pinheiro, que adquiriu um em África, fez o rali em Angola em 1973 com um Alpine Renault A110. Não, não venceu a prova.
Aqui:
http://4.bp.blogspot.com/_cmzGpNA3orQ/Sz-twYdVQrI/AAAAAAAACfA/uoRlH9tgno4/s1600-h/BCA+73+Luanda+cedida+por+MGV+25.jpg
Este carro acabou por aparecer no Brasil devido aos acontecimentos, guerra, durante o processo de descolonização.

Nesse ano de 73 assaparam aí várias máquinas, entre elas o Datsun 240 Z, o Mazda RX2 de motor rotativo (uma máquina voadora), o Renault Gordini, o BMW de António Peixinho, que se estatelou numa classificativa, alguns Porsches entre muitas outras máquinas. A grande revelação foi o Mazda RX2 turbo de motor rotativo.

Sei que existe um exemplar do A110 numa garagem em Lisboa que agora não recordo o nome. Se estiver interessado, poderei pedir informações para que o possa ver ao vivo e tirar umas fotos para manter a memória. Também eu tenho várias recordações, incluindo a foto autografada que me enviou o Niki Lauda.

A grande paixão sempre foram os automóveis e as motos. Em particular as Kawasaki e as Yamaha, em pista. Em motocross as Suzuki e uma moto portuguesa, a Casal 50 cc, que atingia as 12000 rotações.

Agora um pouco sobre a história da Casal e da Casal Villa 250cc que encontrei aqui:

http://www.motorizadas50.com/pagina%20oculta%20casal%20250%20motocross.htm
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De José António Abreu a 08.03.2017 às 10:22

Olha, olha, temos uma paixão em comum...

Obrigado pela oferta. Já estive junto de alguns A110. Há uns tempos, o Centro Comercial Palácio do Gelo, em Viseu, até teve um em exposição.

Dos carros do rali de 1973 lembro-me mal, como seria de esperar. Comecei a acompanhar os ralis (e a competição automóvel de forma geral) mais de perto no final de década de 1970, com os Escort RS, Fiat 131 Abarth, Opel Ascona, etc. Mas lembro-me do Mazda, que Carlos Torres ainda conduzia por volta de 1977 ou 1978.

Também gosto de motos mas nunca fui tão fanático. Curiosamente, a minha marca japonesa preferida também é a Kawasaki, nem sei bem porquê. Talvez porque o amigo de um colega de universidade tinha uma das primeiras ZZR (um monstro, que ele - pequeno e franzino - chegou a deixar cair ao sair de cima dela, e com a qual costumava subir e descer a encosta de Serra da Estrela do lado da Covilhã durante a noite), talvez por ser a mais pequena das 4 principais marcas japonesas (a minha posição natural é apoiar as minorias), talvez por a sua cor oficial ser o verde (como o Sporting).

Da história da Casal sei pouco. Obrigado pelo link</>.
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De Vento a 08.03.2017 às 23:24

Até temos várias paixões em comum. O que não é comum é estarmos de acordo em algumas delas.
A Kawa tem a particularidade em oferecer um mix de "sopro", disparo, e endurance. As Yamaha possuíam um excelente sopro mas já era mais difícil aguentar uma prova demasiado longa. Queimavam velas como mato.

Conheço bem as encostas da Serra, quer do lado da Covilhã quer do lado de Gouveia, Seia e Sabugueiro e também do lado da Guarda até Belmonte e até a fronteira de Vilar Formoso, e também Viseu... Aliás os Escort RS do Torres fizeram aí alguns "slides". No final da década de 70, em Portugal, as pelejas estavam precisamente com os Fiat e os Escort. Depois surgiram os Audi Quatro.

Lembra-se desta voadora, a Michelle Mouton? Era boa de roda. A moça domava o bicho com cabresto.
https://www.youtube.com/watch?v=Xe0uPHIpQEo

Os ralis têm a vantagem de ser mais estimulantes, pois a cada 60 segundos pode fazer-se um vencedor ou um perdedor. Nasci no meio das competições, daí a paixão.
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De Sérgio de Almeida Correia a 08.03.2017 às 05:47

Um belíssimo carro que faz jus à tradição.
Também tenho boas memórias dos Alpine.
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De José António Abreu a 08.03.2017 às 10:08

Sim, parece uma reinvenção sensata, com as doses certas de nostalgia e de modernidade. O Alpine original tinha pouco mais de 600 Kg mas, com as normas de segurança actuais, até mesmo baixar dos 1000 Kg exigiria chassis em fibra de carbono, o que faria disparar o preço.
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De Luís Lavoura a 08.03.2017 às 09:39

O que é uma "berlineta"? Nunca tinha visto tal termo. O que significa?
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De José António Abreu a 08.03.2017 às 10:05

https://en.wikipedia.org/wiki/Berlinetta

O termo foi bastante usado no período após a Segunda Guerra Mundial. Entretanto caiu em desuso, mas há alguns carros - com o Alpine - a que ficou indelevelmente colado.
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De José Coimbra a 08.03.2017 às 21:11

Os Alpine Renault eram um sonho, de facto. Coladinhos à estrada até faziam impressão. E eram bonitos naquela cor azul. Juntamente com os Fulvia HF fazem o cume das minha memórias de rallyes no início dos anos 70, em que tinha juventude para ir fazer noitadas a ver passar esses carros nas montanhas. Sem esquecer os 131 Abarth. Já o Américo Nunes no Porsche verde ( CA-50-14, se a memória não me falha) coitado, naquele salto em que outros voavam travava a fundo e não saltava, para gozo do pessoal que assobiava a sério.
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De Alpine Portugal a 11.03.2017 às 15:18

Boa tarde!
Fantástico texto que muito nos honra.
Há a possibilidade de poder ser publicado no nosso blogue na rubrica testemunhos?
http://renaultportugal.tumblr.com/tagged/testemunhos%20#category
Cumprimentos
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De José António Abreu a 11.03.2017 às 16:50

Obrigado pelos elogios. Desde que identifiquem a origem, estejam à vontade. Parece-me é que a parte final pode não ser consensual... :)
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De Alpine Portugal a 11.03.2017 às 17:30

Obrigado nós! Sim, fica a promessa de identificarmos o autor do texto e, claro, excluir a parte final... :)
Mas se preferir ser o José António Abreu a partilhar o texto... Segue o link: http://renaultportugal.tumblr.com/submit
Cumprimentos e, mais uma vez, obrigado também pela disponibilidade.
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De Alpine Portugal a 12.03.2017 às 11:32

Como o combinado, o texto já está publicado no nosso blogue em http://renaultportugal.tumblr.com/post/158287437666/a-berlineta-azul e partilhado também em https://www.facebook.com/alpinesportscarsportugal/.
Mais uma vez, muito obrigado pela disponibilidade e pedimos o favor do envio do contacto, por mensagem privada, para o Facebook da nossa página. E não, não é com o objetivo de lhe enviarmos uma proposta comercial... :-)

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