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terror-europe[1].jpg

 Paris, Novembro de 2015

(foto: Charles Platieu, Reuters)

 

1

O terrorismo jiadista combate-se como se combateu o terrorismo extremista na Itália e na Alemanha, na década de 70. Combate-se como se combateu o terrorismo da ETA, como se combateu o terrorismo do IRA.

Como?

Com serviços de informações competentes e organizados em rede, infiltrados nas organizações terroristas e dotados de meios efectivos para desarticulá-las. Quebrando-lhes as células dirigentes, os circuitos informáticos e as vias de abastecimento de armas e munições. E utilizando dissidentes e terroristas arrependidos nessas operações.

Não é preciso inventar a pólvora. A pólvora já foi inventada há milhares de anos.

 

2

Alguns tudólogos com lugar cativo no espaço mediático teimam em "perceber" o "porquê de o serem [assassinos], o que os levou a isso". Estes raciocínios sempre me conduzem àqueles judeus que tentaram "perceber" as motivações dos nazis entre 1933 e 1939. Alguns desses judeus contemporizaram com a barbárie, deixaram que lhes saqueassem lojas e confiscassem propriedades enquanto procuravam mostrar-se bons cidadãos alemães: muitos escutavam Wagner e exibiam orgulhosamente as condecorações obtidas em combate na I Guerra Mundial em defesa do império germânico.

Acabaram nos campos de extermínio e nas câmaras de gás tal como os outros, os que não tinham tentado "perceber" o que levava as hordas hitlerianas a comportarem-se como bestas sanguinárias.

 

3

Rejeito as teses deterministas. Acredito firmemente no livre arbítrio e na responsabilidade individual: ninguém é criminoso antes de praticar um crime.
Mas não recorro a eufemismos para qualificar actos criminosos.
Lamentavelmente, quando ocorre um atentado terrorista, logo surge gente a considerar que os assassinos são vítimas. Da economia, da crise, da sociedade, da discriminação, do capitalismo, do aquecimento global, do planeta Terra, do sistema solar.
Isto para mim é inaceitável.
Um crime é um crime. A barbárie é a barbárie - tenha a cor ideológica que tiver, idolatre os deuses que idolatrar. Ponto final.

 

4

A ladainha da "destruição do Iraque", invocada por sistema quando ocorrem atentados terroristas na Europa, equivale a dizer que as vítimas inocentes destes atentados "estavam mesmo a pedi-las".
Equivale também a considerar vítimas os assassinos. Coitados, argumentam os arautos de tal tese, eles estão apenas a vingar o que os malandros dos ocidentais fizeram ao Iraque.
Essa é a lógica hitleriana do olho por olho, dente por dente. Hitler conquistou metade da Europa, espezinhando-a e escravizando-a, para vingar as humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes. Alegava ele. E muitos concordaram.
Quando começamos a chamar vítimas aos assassinos os nossos padrões éticos invertem-se. O passo seguinte, nesta rota descendente, será chamar criminosos às vítimas verdadeiras.

 

5

É um absurdo incorporar um homicida numa categoria étnica, religiosa ou cultural, fixando-o neste rótulo.
Há assassinos em todos os quadrantes, em todas as etnias, em todas as classes sociais.
Este princípio não é de via única. É tão absurdo dizer ou escrever que "os muçulmanos professam uma ideologia assassina" como fazer proclamações genéricas de sentido inverso: "os ocidentais são culpados de terem explorado populações noutros continentes e estão a pagar pelo que fizeram" ou "os americanos foram lançar bombas ao Iraque e agora recebem o troco".

 

6

A vida humana para mim tem valor absoluto em qualquer lado. Em Paris como na Síria. Em Bruxelas como no Paquistão. Sou incapaz de alimentar duas teses sobre o assunto em função das coordenadas geográficas.

A minha posição é clara: não quero "compreender" os terroristas. Que armam meninos na Libéria e os transformam em carne para canhão. Ou que usam meninas na Nigéria como bombas humanas. Ou que investem com demencial fúria apocalíptica contra crianças e adolescentes, como ainda há dois dias aconteceu em Manchester.
Nem conseguiria, mesmo que quisesse.


5 comentários

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De Costa a 24.05.2017 às 14:25

"Nem conseguiria, mesmo que quisesse." Nem eu.

Sendo certo que a criminalização da vítima (a extraordinária desvalorização do seu sofrimento, pelo menos, tornada mero sujeito ou veículo expiatório de culpas alegadamente herdadas - donde e sem mais discussão próprias) e a "compreensão" quanto aos terroristas estão de tal forma sedimentadas, nas mentes bem pensantes - é ver considerável número de comentários por aqui de cada vez que o tema é suscitado - que o pior é bem possível, desenha-se bem verosímil no horizonte, para nós. E por nossa própria (in)acção.

Invoca no seu texto Hitler. Quão oportuna essa invocação. Pena que a aliança entre o regime nazi e o grande mufti de Jerusalém, por exemplo, coisa de passado tão recente, seja tão esquecida. Esquecida, decerto, não por acidente.

Costa
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De Pedro Correia a 24.05.2017 às 14:55

Tem razão: nunca é de mais recordar essa miserável aliança, cimentada pelo ódio anti-semita.
Um dia destes abordarei esse tema aqui.
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De Einstürzende Neubauten a 24.05.2017 às 18:01

Aproveite e fale do Duque de Hamilton, de Eduardo VIII, de Aleister Crowley e da ligação da sua Aurora Dourada, da qual faziam parte elementos destacáveis da sociedade londrina, e o regime nazi. Fale também da Reichskonkordat. Da Krups e da IG Farben. Também, já agora, na Operação Paperclip...ou no Dr. Bernard Julius Otto Kuehn, etc...

Ou para quem se indigna com Hitler, mas canta loas a Salazar:

A 2 de Maio de 1945, dois dias depois do suicídio de Adolf Hitler no seu bunker em Berlim, Portugal, apesar de ser um país neutral, esteve de luto pelo ditador nazi.
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De lucklucky a 24.05.2017 às 19:25

Salazar também "construiu" navios anti-submarinos/minas para a Royal Navy em plena segunda grande guerra...

Em que álbum coloca isso EN?

https://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese-class_naval_trawler

Estaleiros CUF (Lisbon)
Arsenal do Alfeite (Lisbon)
Estaleiros Mónica (Aveiro
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De Nebauten a 24.05.2017 às 21:32

Em que álbum? Num dos Ena Pa' 2000. A diferença reside em que quando Hitler morreu não havia a necessidade estratégica do Estado português declarar um qualquer luto em honra da criatura. E se o fez isso tem mais significado do que os navios que fala. Éramos pressionados pelos aliados a colaborar- veja as Lajes.

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