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A ascensão e queda de Skywalker

por João André, em 22.03.20

Vi finalmente o mais recente (e último?) episódio da série Star WarsThe Rise of Skywalker, e para distrair do vírus decidi escrever um pouco sobre o filme.

Ver este filme, depois de ter visto as spinoffs, é como voltar a beber uma cerveja comercial, bem sucedida, com enorme penetração no mercado, mas sensaborona e banal, depois de provar algumas cervejas artesanais, interessantes mesmo quando com falhas. E nesta lista de spinoffs incluo naturalmente o Rogue One, Solo: A Star Wars Story mnas também o episódio VIII, The Last Jedi. Nesse filme Rian Johnson tinha decidido pegar a maior parte das histórias sobre a galáxia, os jedi, a família Skywalker e tantos outros e gozar com eles. Foi um filme imperfeito, mas foi, pela primeira vez desde há muito, original. Deu em contestação, com fãs a pedir a cabeça de Johnson (que tinha sido alihavado para realizar também o filme seguinte) e J.J. Abrams a voltar às rédeas.

E Abrams deu-nos um filme muito Abrams. Ou seja, um best of, com piscares de olho mais subtis ou completamente explícitos mais estes que aqueles) à saga e um esforço às vezes excessivo para nos fazer esquecer o filme anterior. Aliás, se nos créditos iniciais se tivesse adicionado mais uma linha de informação, o filme de Johnson até nem teria sido necessário.

Abrams tem feito uma carreira de reciclagem. Isso em si nada tem de mal. Ele é um artesão habitualmente competente, sabe coser bem uma história, oferece alguns pózinhos de cultura pop e consegue habitualmente encontrar espaço para um ou outro golpe de asa visual. O filme onde ele não o tinha conseguido, que tinha terminado de forma amorfa e sem interesse, fora o seu segundo episódio de Star Trek, Into Darkness. Depois de ter reimaginado a franchise, pareceu já não ter muito mais para criar. Foi reciclar ideias do passado mas, já sem o efeito de novidade dos elementos que criou, o filme foi aborrecido. Aqui sucedeu o mesmo. The Force Awakes tinha sido um bom filme. Reciclava muita coisa, mas estabelecia um novo começo para a série, introduzia personagens novas (e dava nova energia a antigas) e criava uma nova linha condutora para ser explorada. Se tivesse surgido uns 5 anos após The Return of the Jedi, teria sido um filme banal e estafado e sem muitas ideias. Vindo ao fim de tanto tempo e após o desastre da sequela/prequela Binks, vinha como uma lufada de ar fresco.

Mas Abrams perdeu isso. O argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, parecendo que alguém pegou nos post-its da sessão de brainstorming e começou a pô-los em sequência na mesa do argumentista para que os colasse de alguma forma. Ressuscitar Leia é fan service puro e duro. A sua presença de nada serve e é apenas uma forma de recordar Carrie Fisher usando pedaços de diálogo gravados antes da sua morte. Tem tanta relevância como os risos gravados de uma sitcom dos anos 80. trazer Billie Dee Williams também apenas serve para encher chouriços (nada tem para fazer) e faz pena que o esforço para introduzir uma personagem como Rosie (Kelly Marie Tran) tenha sido deitado fora (o Merry Brandybuck tem mais relevância).

Mesmo as sequências de acção não têm grande apelo, são genéricas e poderiam ter sido feitas com um bocejo como treino para aspirantes a realizadores de Wuxia como trabalho de casa. Não há cenários de beleza estilística e apenas o grande cubo (ou prisma ou lá o que era) dos Sith tinha potencial, mas nunca vemos mais que uns vislumbres. Até a frota de Superstar Destroyers acaba por pecar por excessiva, parecendo excessivamente um trabalho de copy-paste.

As únicas surpresas, se lhes podemos chamar isso, são o facto de não existirem surpresas. Passe o tempo a esperar por algum golpe de asa, alguma coisa que me fizesse pensar "não estava à espera disto", mas tudo é tão telegrafado, com tantas indicações prévias, que quando as supostas surpresas aparecem nada têm de surpreendente. Abrams até coloca Palpatine a ter uma descargazinha eléctrica das mãos só para o caso de nos termos esquecido (ou não termos visto os filmes anteriores).

O filme vale pela relação de Rey e Ren (se fossem verdadeiros daria pano para mangas aos tablóides), mas mesmo isto é estragado no fim (não o conto para o caso de não terem visto) ao mudarem a natureza do conflito entre eles e estragarem novamente o trabalho de Johnson no filme anterior. Vale que Adam Driver e Daisy Rider conseguem sustentar o filme quando lhes dão algo mais para fazer que brincar às espadas (e aos médicos), mas mesmo assim há pouco, muito pouco.

Conclusão? O filme é um bom final para uma série que deveria ter ficado na gaveta depois do "episódio VI". Não houve verdadeira linha condutora, tentou-se espremer o sumo por onde foi possível. Ninguém sabia muito bem para onde se deveria ir, como e porquê. Não houve ninguém para dizer não ou lembrar que, a certa altura, as pessoas querem uma história ou personagens que nos façam sentir alguma coisa. A Disney sabe fazer isto, como demonstrou com Marvel Cinematic Universe. Nao é arte pura mas é entretenimento de enorme qualidade. Star Warsdeixou de o ser. Passou a ser uma forma de fazer dinheiro, uma ida à caixa automática. Como alegoria, esta imagem está de acordo com o seu último (?) filme: uma acção robotica e com pouco de criatividade.


7 comentários

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De Cristina Filipe Nogueira a 22.03.2020 às 09:20

É isto: “ O argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, parecendo que alguém pegou nos post-its da sessão de brainstorming e começou a pô-los em sequência na mesa do argumentista para que os colasse de alguma forma.“

Pessoalmente, também acho a história de Rey e Ren, digna de uma telenovela de 5.ª categoria.
Um desconsolo.
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De João André a 22.03.2020 às 18:40

Sim, se lhe tivessem adicionado o Finn de forma decente para ter um triângulozito... ou metessem o Poe também à mistura, apaixonado platonicamente pelo Finn. Desta forma não tem piadinha nenhuma. Um desperdício de talento naquele elenco.
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De João Campos a 22.03.2020 às 14:29

Não sou especial fã de Star Wars - cheguei já muito tarde à série, depois de muitos outros filmes melhores e sobretudo depois de muitas leituras. Ainda assim, fui acompanhando esta trilogia, a única que pude ver em cinema (os spin offs deixei de lado; logo os verei quando os apanhar num Domingo à tarde num canal generalista).

Achei "The Force Awakens" péssimo - um copy/paste absoluto do filme original, mas sem nenhum carisma. O "The Last Jedi" pareceu-me interessante, mais pelo meta-comentário que faz a alguns dogmas da série e por algumas possibilidades que parece abrir para aquele universo ficcional, que foi sempre demasiado maniqueísta e simplista; no entanto, pareceu-me um filme partido ao meio pela tensão entre as duas histórias muito diferentes que o Rian Johnson e a Disney queriam contar. Do "Rise of Skywalker" a única coisa que me ocorre é que esperava muito pior. Não que tenha sido bom, longe disso (a carga de cavalaria é capaz de ser o momento mais estúpido de todos os filmes de Star Wars que já vi). Mas estava à espera de muito pior.

Também não tenho grande estima pelo Jar Jar Abrams. É um tipo simpático, sim, mas que disfarça a sua gritante falta de criatividade com referências populares para agradar aos fãs e com truques visuais que envelhecem demasiado depressa. Nunca acompanhei Star Trek, mas sempre tive ideia de ser uma série mais idealista e científica. O Star Trek do Abrams, desde o primeiro filme, é um filme de acção. Nada mais do que isso.
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De João André a 22.03.2020 às 18:43

"Jar Jar Abrams" . Deveria ter-me lembrado dessa.

Não sei qual foi o pior momento da série, houve tantos.
Não considero o The Force Awakens péssimo, mas não passa de razoável, se bem que depois das prequelas, aquilo até parece de qualidade.

Concordo contigo com o The Last Jedi. Não consegui bem entender aquilo que me faltava ali, mas penso que tens razão: o conflito entre Johnson e Disney deve ser a razão para o filme tão aos tropeções.
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De Jose Roberto a 22.03.2020 às 21:03

A Disney devia ter continuado com as princesas, ratos e patos.
Tentar simplificar conceitos para serem digeridos pelas massas é desconsiderar a capacidade de perceção das pessoas. O resultado é o que se vê.
A obra APAGAR, tem pouco de científica; é uma ode a polarização entre bem e o mal (onde o mal não tem explicação) uma coisa que a Disney tenta erradicar da face da terra. Palpatine tinha que dar luta e Rey tinha que combater com o estilo de todos os jedis que a levaram até ali. Entretanto, acabam como se fosse um final de Romeu e Julieta.
Tolice sem tamanho. Somos feitos de dialéticas, conflitos e sobretudo paixão.
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De Anónimo a 22.03.2020 às 22:51

Concordo plenamente com a sua critica . Toda esta trilogia nova do " Star Wars " soube -me a " déjà vu " ; os americanos provaram mais uma vez que , se nao lhes faltam actores e actrizes de algum calibre ( os de grande calibre , eles importam !),a carestia de argumentistas na América é gritante ! Utilizam cenarios ja utilizados com uma pitada de efeitos especiais , algum drama ou romance de pacotilha para apurar o "guisado " e , no fim , fica ao espectador que pensa ir ver algo extraordinario com a sensaçao ao sair do cinema que comeu o mesmo " Macdonald's " de sempre!!!...

P.S- Se nao concordam comigo vejam o numero de adaptaçoes americanas de filmes estrangeiros que os estudios americanos decidem fazer !...
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De Anónimo a 22.03.2020 às 23:11

Star Wars: Episode VII - The Force Awakens cumpre, e bem, o regresso da saga aos tempos modernos.
Tem uma historia aceitável, bom momentos de ação e comédia, espetaculares efeitos visuais e cenários. Eu, que vi os primeiros filmes em pequeno quando volta e meia passavam no canal 1, gostei dos elementos de reciclagem dos filmes da primeira série e saí da sala com aquela sensação de viagem aos tempos da minha infância.
Depois o ponto alto com Rogue One, para mim o filme mais intenso, maduro e negro de toda a saga, um filme de guerra com uma reta final sempre em crescendo e um desfecho dramático que me deixou colado à cadeira.
Os restantes são apenas receitas de bilheteira, o enredo e historia enfim, sobretudo no ultimo filme, quiseram contar e ligar tudo e acabaram por não contar nada de jeito. Aproveitam-se algumas cenas de ação com cenários magníficos, que numa sala de imax onde vi os últimos 5 filmes da nova saga, elevam os nossos sentidos a outro nível.

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