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A árvore e a floresta

por Luís Naves, em 13.08.16

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Uma frase

“Não posso deixar de sublinhar aquilo que tem sido uma redução muito significativa da área ardida quando comparada com os anos anteriores”.

João Matos Fernandes, ministro do Ambiente, falando dos fogos, na véspera do grande incêndio que atingiu a cidade do Funchal.

8 de Agosto de 2016

 

Um post:: No excelente Desvio Colossal, Pedro Romano faz a análise dos últimos dados sobre o emprego.

 

A semana: 

Domingo, 7 de Agosto de 2016

Notícia do Público dava conta que o Banco Central Europeu já está a limitar as compras de dívida portuguesa, provavelmente numa tentativa de esticar ao máximo o período em que fará essas compras. O problema, diz o jornal, é que a autoridade monetária estará a chegar ao limite legal do mecanismo que lhe permite comprar activos. Quais são as implicações desta situação? As taxas de juro das obrigações do tesouro a dez anos estiveram de forma consistente num intervalo entre 3% e 3,5% e a redução das compras mensais do BCE poderá ter um efeito de subida do respectivo valor. Estão igualmente a chegar ao fim outros programas de compras de activos e aparentemente estas medidas de estímulo não tiveram o efeito desejado. Esgota-se assim a pequena janela de oportunidade de que Portugal beneficiou durante dois anos, com juros historicamente baixos. Vem aí um período de dificuldades no financiamento da República.

 

Segunda-feira 8 de Agosto de 2016

Uma invulgar vaga de calor e ventos fortes desencadeou incêndios florestais de grandes dimensões que atingiram zonas habitadas em várias regiões do continente e também na Madeira. Este ano os fogos começaram relativamente tarde, mas atingiram depressa proporções catastróficas. O Inverno húmido também contribuiu para o crescimento de matos que agora, em condições secas, aumentam o combustível florestal.

Os incêndios são um fenómeno recorrente e as vagas de calor ocorrem de forma cada vez mais violenta. Os cientistas afirmam que Portugal será bastante afectado pelas alterações climáticas, passando a ter um clima parecido com o de Marrocos. No futuro, haverá maior número de períodos secos e quentes. A floresta portuguesa já tinha as espécies erradas para o clima que existia nos anos 50 ou 60 do século passado; agora, a floresta existente é ainda mais vulnerável, como sugere a redução progressiva da mancha de pinhais. A demografia rural e a própria sociedade mudaram completamente, os interesses económicos estão montados para este tipo de floresta caótica, com espécies combustíveis, como é caso das resinosas. Perante as alterações de clima que ninguém conseguirá travar, a adaptação urgente será porventura a concentração de subsídios florestais em espécies que resistam melhor aos incêndios. A questão está estudada e há muitos trabalhos sobre o tema, como por exemplo este relatório, com pistas interessantes de leitura.

 

Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

Uma verdadeira tempestade de fogo desceu sobre a Madeira. Impulsionada por ventos muitos fortes, após semanas de tempo quente e seco. Os fogos florestais no topo da Ilha assumiram proporções devastadoras e invadiram zonas urbanas do Funchal, destruindo inúmeras casas, desalojando centenas de habitantes, matando pelo menos três pessoas. As televisões mostraram em directo o pânico, a histeria, a coragem doida, o esforço inútil, a confusão e o medo. Os incêndios multiplicavam-se pelos jardins da cidade, numa espécie de guerrilha furiosa, e os meios de combate foram insuficientes. A cidade tinha antes sido atingida por inundações: os dois fenómenos estão ligados: as inundações foram mais destruidoras devido a incêndios anteriores e o ciclo vai repetir-se. Caos urbanístico, regras de construção permissivas, excesso de concentração populacional, um clima agora com mais fenómenos extremos (calor e vento forte ou chuva anormal), a Madeira é provavelmente um pequeno laboratório dos erros de ordenamento misturados com os efeitos das alterações climáticas.

Também houve fogos em várias regiões do continente: Aveiro, Viseu, Viana do Castelo e Leiria. As populações organizaram-se como podiam, usando conhecimentos acumulados em episódios anteriores. Numa impressionante reportagem da televisão, mostrava-se uma aldeia a fazer um contra-fogo: era uma cena dramática, mas estranhamente tranquila. Nos incêndios em Portugal vemos muitas pequenas aldeias cercadas, meios que tardam em chegar e populações que se queixam de abandono. A questão dos incêndios é demasiado antiga, resulta “da natureza” e “das transformações sociais do último século”, como aqui justamente escreveu o historiador Rui Ramos.

O Presidente da República, entretanto, travou à nascença as primeiras tentativas de politizar estas catástrofes. Foi uma intervenção cirúrgica de Marcelo Rebelo de Sousa. Num momento de perfeita lucidez, quarta-feira, na Madeira, Marcelo travou o passo às críticas demagógicas e ao circo mediático que já se estava a montar.

 

 

Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Duas notícias económicas com sinais opostos. O desemprego desceu no segundo trimestre para uma taxa de 10,8%. Aparentemente, é um bom resultado; visto de forma mais cuidadosa, sugere uma melhoria marginal do emprego. Estas estatísticas são sobre o emprego e deve olhar-se para os valores homólogos. Assim, houve um modesto aumento de 20 mil trabalhadores, apesar de se ter passado a barreira dos 4,6 milhões de pessoas com trabalho. A actual taxa de crescimento não é suficiente: a economia permite uma pequena melhoria ou a estagnação do mercado de trabalho. Este é cada vez mais um país a várias velocidades: há os portugueses invisíveis, um pouco embaraçosos, que podem ser facilmente despedidos ou nem sequer têm trabalho; depois, há os portugueses visíveis, beneficiados pelo poder político e cujos problemas os meios de comunicação nunca se cansam de analisar. É o caso do grupo que protagoniza a segunda notícia: o Jornal de Negócios teve acesso a um relatório oficial que aponta para efeitos significativos na questão das 35 horas. Muitos serviços disseram precisar de mais pessoal e mais horas extraordinárias. O que parece espantoso é que se tenha falado em impacto orçamental mínimo desta medida.

 

Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016

Com o País ainda em estado de choque com a situação dos incêndios, terá passado despercebido um novo incidente na campanha de Donald Trump, uma ‘piada’ que poderá custar muito caro ao candidato republicano. Trump falava de uma hipotética vitória de Hillary Clinton, problema que apenas os defensores da ‘segunda emenda da Constituição‘ poderiam resolver. A referência era jocosa, mas foi lida de forma séria: seriam os defensores do porte de armas a resolver o problema, ou seja, a tiro. A frase causou uma imediata onda de condenação, dado o historial de presidentes assassinados. A campanha de Trump procurou desvalorizar, dizendo que era uma interpretação dos meios de comunicação desonestos, mas a afirmação tem pouco espaço para ambiguidade. Trump não estava a falar do voto desses cidadãos, mas de algo que eles teriam de fazer após a eleição. A ameaça ao adversário é algo de inédito na História das eleições presidenciais americanas. Em poucos dias, as intervenções demagógicas do candidato republicano, a agressividade da sua campanha e o vazio das proposta políticas causaram forte impacto na disposição dos eleitores. O plano económico, por exemplo, baixa os impostos dos ricos e fará disparar a dívida americana. Trump está a perder terreno em estados cruciais. Desde o início de Agosto, Hillary Clinton distanciou-se no Wisconsin, na Virgínia, na Pensilvânia, em Oregon e Colorado. Hillary está a ganhar terreno em estados decisivos, como Ohio e Flórida, que ainda parecem empatados, mas onde surge uma pequena vantagem democrata. Trump convenceu muitos americanos, mas a sua base de apoio não é suficiente para a vitória. As gafes tiram-lhe qualquer hipótese de alargar a coligação de votos. Na realidade, está a acontecer o inverso: a campanha de Trump ameaça ruir em poucas semanas.

 

Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016

Enquanto o país continuava a arder, esfumava-se a estratégia orçamental do governo. O INE divulgou a estimativa rápida sobre o PIB no segundo trimestre e o decepcionante valor de 0,8% em termos homólogos, permite explicar o comportamento medíocre do emprego no mesmo período. É uma péssima notícia. O valor está longe da previsão do governo para 2016, que era de 1,8% e que muitos organismos económicos consideraram optimista. Está tudo bem explicado em O Insurgente, neste post de Jorge Costa.

O crescimento lento implica dificuldades na execução orçamental, tornando mais estranha a recusa de aplicar medidas adicionais exigidas pelos parceiros europeus. Do cumprimento do objectivo de 2,5% em 2016 dependerá a saída do procedimento por défice excessivo. Se falhar, Portugal sujeita-se a sanções ou a suspensão dos fundos europeus, tendo como alternativa mais provável a aplicação de impopulares medidas de austeridade. O crescimento económico abrandou devido à degradação de componentes que o Governo visou estimular de forma objectiva, o investimento e o consumo interno, portanto, estaremos perante um falhanço de estratégia. Será preciso encontrar depressa mais receita (aumento de impostos) ou cortar despesas que os partidos que suportam o governo podem não estar dispostos a apoiar.

A realidade tem sempre mais força, podemos escondê-la durante algum tempo, iludir os seus efeitos, adiar o inevitável, mas não é possível contrariar a natureza. Tudo isto parece uma metáfora dos dias de brasa: nunca houve coragem política para fazer reformas, o país vive há vinte anos num lírico deixa-andar, num irresponsável depois-logo-se-vê. Está tudo estudado, os diagnósticos foram repetidos em cada ano, mas a política continua a discutir a árvore em vez da floresta.

 

Sexta-feira e madrugada de sábado, 12 e 13 de Agosto de 2016

O nadador norte-americano Michael Phelps será o grande herói dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, após ter batido um recorde com mais de 2100 anos. Ao ganhar a sua 13ª medalha de ouro individual, Phelps ultrapassou o anterior recorde de vitórias, que pertencia a um grego chamado Leonidas de Rodes, que venceu 12 competições em quatro olimpíadas clássicas. Leonidas, evidentemente, não ganhou medalhas de ouro, mas ramos de oliveira. Para além deste momento histórico, os jogos do Rio estão a ser marcados pelas primeiras críticas públicas de atletas limpos aos batoteiros que usam drogas para melhorar as suas capacidades físicas. O movimento olímpico só poderá sobreviver se conseguir reduzir os custos destes eventos e se conseguir identificar e expulsar todos os ladrões de medalhas. É uma tarefa difícil, devido à politização do desporto, fenómeno quase tão antigo como as olimpíadas.

Em 67 d. C, numa altura em que os jogos já estavam em decadência, o imperador Nero fez uma visita à Grécia e cumpriu o seu sonho de competir nos jogos olímpicos. Nero adorava corridas de carros puxados por cavalos e tentou bater todos os recordes com uma viatura de dez cavalos, o Ferrari do seu tempo, muito instável e perigoso. O imperador romano saiu da linha de partida a uma velocidade louca e estampou-se logo na primeira curva, sendo projectado para fora da pista. Ficou bastante maltratado (há teorias de que bateu com a cabeça e enlouqueceu neste episódio), mas apesar de não ter concluído a corrida, Nero foi mesmo assim declarado vencedor. Aliás, bateu todos os recordes relevantes, talvez também estivesse sob o efeito do doping, teria bebido uns copitos para ganhar coragem, mas é pura especulação da minha responsabilidade.

 

Um livro: Mocidade, de Joseph Conrad

Muitos exemplos de grande literatura são textos curtos sobre temas aparentemente simples, mas que escondem uma profunda e justa complexidade. É o caso deste conto de Joseph Conrad, publicado de forma isolada numa excelente colecção da Assírio e Alvim. Mocidade terá sido um ensaio ou um esboço para a obra-prima deste autor britânico de origem polaca, O Coração das Trevas, publicado um ano depois, em 1899. O narrador é o mesmo nos dois textos, Marlow, também o narrador de Lord Jim. Conrad usa no conto e na novela o mesmo esquema narrativo banal, de alguém que conta uma velha lenda aos amigos.

Mocidade é uma história de homens fracassados, que executam com valentia uma viagem feita de sucessivos obstáculos. O texto está repleto de pequenas observações certeiras sobre as personagens, “um homem que tivera, tinha ou esperava ter desgostos”, e descreve num tom nostálgico perigos quase inimagináveis. Este conto tem também aspectos autobiográficos: Conrad fez aos 21 anos uma viagem parecida com a que descreveu, num velho navio fustigado por tempestades, vítima da combustão espontânea da sua carga de carvão, incluindo uma explosão quase catastrófica e a propagação imparável do incêndio, culminando no abandono do navio perdido. Há também semelhanças na última etapa, até um porto onde o herói tem a sua primeira visão do mítico oriente e que, no caso de Conrad, terá sido um pouco mais fácil do que acontece na ficção.

Num plano mais simbólico, há aqui uma metáfora do mal que nos acompanha, que se esconde no porão da sociedade e cuja superação é o verdadeiro triunfo. É pelo menos assim que Marlow olha para aquele episódio: “Para mim era o esforço, a prova, o julgamento da vida”, isso era o importante, ou, como afirma mais à frente, “a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo...e se apaga cedo, muito cedo... antes da própria vida”.

O mal, o horror, é aquilo que Marlow encontrará no Coração das Trevas, uma extraordinária denúncia do colonialismo que serviu de base para o mítico filme Apocalipse Now. Em Mocidade, temos um texto mais brando, sobre a prova da vida, a superação da juventude, o combate contra o fogo escondido que arde no interior de um navio condenado. O Judea devia transportar homens sem nada de especial, mas estes revelam-se no meio da adversidade, nunca desistindo, a sua coragem sem glória, como explica o narrador, evocando “aquele velhote cheio de ironia...e Deus queira que o mar alto onde agora dorme seja carinhoso para ele”. Existe em Mocidade uma suave crença no humano que recusa a derrota, apesar das forças adversas, da natureza cruel e das marcas do tempo que vão apagando a chama do coração.

 



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