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(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

 
 

O apêndice

por Pedro Correia, em 27.10.20

Durante dois dias, imperou o suspense: como iriam votar "os verdes" na proposta de Orçamento do Estado para 2021?

Os meios de comunicação social alimentaram esta cantilena como se não soubessem que o chamado Partido Ecologista Os Verdes não existe: é mero apêndice verde do partido vermelho que lhe serve de barriga de aluguer. Nem tentam disfarçar: criados em 1982, nunca até hoje concorreram isolados a uma só eleição. Legislativa, regional, local, europeia. Nem uma para amostra.

Hoje, veio a confirmação: o apêndice vai abster-se na generalidade, viabilizando o OE 2021. Seguindo o exemplo de quem sempre lhe serviu de farol e guia.

Tanto barulho para quê?

Organização Mundial da Doença

por Pedro Correia, em 27.10.20

 

«A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou para o excesso de procura de máscaras e outros equipamentos de protecção contra o novo coronavírus, o que pode comprometer a segurança dos que realmente precisam, os profissionais de saúde.»

7 de Fevereiro

 

«A directora de saúde pública da OMS, Maria Neira, assegurou hoje que é "irracional e desproporcionado" que se esgotem as máscaras e os desinfectantes nas farmácias por medo do coronavírus. Neira afirmou que a medida mais efectiva para prevenir o contágio é lavar as mãos com frequência e insistiu que não se justifica que se esgotem as máscaras e os geles desinfectantes, referindo que a situação se baseia no "medo e na angústia das pessoas", o que deve ser evitado.»

26 de Fevereiro

 

«O director do programa de emergências sanitárias da OMS, Michael Ryan, desaconselhou o uso de máscaras generalizado por causa dos perigos do uso impróprio. (...) "Não há evidências específicas que sugiram que o uso de máscara por parte da população geral tenha algum benefício em particular. Aliás, há até indícios que sugerem o contrário", disse Ryan.»

30 de Março

 

«A OMS admite que o uso generalizado de máscara, quer em espaços públicos, ou privados, pode impedir até 281 mil mortes até Fevereiro do próximo ano.»

15 de Outubro

 

Pensamento da semana

por José Navarro de Andrade, em 27.10.20

"Winter is coming."

- Ned Stark

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 27.10.20

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Ana Vidal: «O tuga, exausto e saqueado, que já não acredita no Pai Natal nem na Branca de Neve vai para muito tempo, corre a pegar no comando da televisão para refugiar-se na Casa dos Segredos e meter na veia, embalado pela voz maviosa da Júlia Pinheiro, a doce anestesia de mais uma dose escaldante de meia dúzia de criaturinhas suburbanas entregues às hormonas e à perversão de outra Voz que as transforma em marionetas inconscientes, pobres ratos às voltas numa gaiola forrada a pelúcia. E assim nos vamos afundando alegremente, ou já nem isso.»

 

André Abrantes Amaral: «Foi um dia estranho aquele em que toda a gente, independentemente do que estivesse a fazer, numa reunião no escritório, a falar ao telefone, a conduzir um autocarro, a guiar o seu automóvel, a atravessar a rua, a limpar as sarjetas, a vender jornais e revistas mais os brindes a acompanhar, a conversar, a comer e a beber, parou. Pararam e viram o sol a pôr-se atrás dos prédios, dos telhados, dos candeeiros das ruas, das colinas da cidade, atrás dos vultos que se punham à frente. A luz começou com um amarelo forte, depois alaranjou, ficando vermelho a seguir, um vermelho intenso, o sol redondo como uma bola de neve feita por miúdos e pronta a ser atirada contra quem passasse.»

 

João Carvalho: «Um dos pontos muito discutidos nas conversações entre o Governo e o PSD foi o dos "alimentos humanos", como referiu insistentemente o ministro das Finanças. Parece que alguém queria que tivessem preços populares. Quem seria o antropófago tão interessado em comprar ao preço da chuva "alimentos humanos"? E exactamente que parte(s) do corpo devia(m) ser as mais baratucha(s)?»

 

José Gomes André: «À falência moral (registada há largos meses) este Governo junta agora a sua própria falência técnica. As notícias sobre o absoluto descontrolo das contas públicas revelam uma incapacidade tão gritante que só o mais fanático socialista pode ainda confiar nas capacidades de Teixeira dos Santos & Ca. para resolver qualquer desafio político-financeiro. E falar de negociações e de compromissos com esta gente é o mesmo que dialogar com uma porta: serve para passar o tempo, mas não leva a lado nenhum.»

 

Luís M. Jorge: «A questão não é se o PSD deve ou não viabilizar o orçamento. A questão é se o PSD ainda tem algum instinto de auto-preservação. Se o tiver, viabiliza o orçamento. Se não o viabilizar, merece morrer como partido.»

 

Eu: «"Sei bem que a minha magistratura de influência produziu resultados positivos", disse ontem Cavaco Silva no Centro Cultural de Belém, em jeito de balanço do seu mandato. Com toda a razão. Se não fosse a sua "magistratura de influência" o País talvez estivesse à beira da recessão, com o maior número de sempre de desempregados, o maior buraco orçamental de que há memória, uma dívida externa astronómica, um recorde absoluto do desemprego e mais de dois milhões de pobres.»

Canções do século XXI (1303)

por Pedro Correia, em 27.10.20

"Arejar um pouco a malquerença"

por Pedro Correia, em 26.10.20

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Num dos seus romances, Os Duros não Dançam, Norman Mailer descreve uma cena que faz lembrar toda a série de pequenas querelas políticas desenrolada a propósito do orçamento do Estado para 2021. O romance situa-se numa zona dos EUA que Mailer conhecia muito bem: a faixa litoral do Massachusetts, onde se concentra a maior comunidade luso-descendente da América do Norte, que na sua maioria se dedicava à pesca.

Segue a transcrição da saborosa cena (tradução de Eduardo Saló):

 

250x.jpg«Numa tarde invernal em que o Bergantim se apresentava invulgarmente pouco frequentado, sentava-se ao balcão um pescador português de uns 80 anos. Setenta de trabalho tinham-no deixado tão retorcido e deformado com um cipreste enraizado num penhasco de uma  costa batida pelo vento. Pouco depois, entrou outro pescador, tão artrítico como o primeiro. Em garotos, haviam brincado  juntos, praticado o râguebi, frequentado o liceu, trabalhado em barcos de pesca, tinham-se embebedado e provavelmente ornamentado as frontes um ao outro com as respectivas mulheres e agora, aos 80 anos, quase não conviviam, excepto nas trocas de socos a que se entregavam em particular. Apesar disso, o primeiro pescador deslizou do banco, empertigou-se e, aos uivos, numa voz tão áspera como o vento de Março no alto mar, disse: "Julgava que tinhas morrido." O outro inclinou-se para a frente, dirigiu-lhe um olhar furibundo e, com uma laringe de sons tão agrestes como os das gaivotas, replicou: "Morrido? Antes disso, hei-de ir ao teu funeral." E tomaram uma cerveja juntos. Tratava-se apenas de um exercício para arejar um pouco a malquerença. Os portugueses sabem falar aos ladridos.»

 

Pouco ou nada lisonjeiro, este retrato dos nossos compatriotas da costa leste dos EUA esboçado por Mailer, que aliás também sabia “falar aos ladridos”. Mas há muito de fidedigno na relação amor-ódio entre portugueses simbolizada nesta cena quase anedótica. Isso nota-se também, a um ritmo diário, na nossa vida política. Até que ponto as batalhas verbais em torno do orçamento não servem também apenas para “arejar um pouco a malquerença”, antes de tudo ficar como estava?

Os duros não dançam. Os moles não fazem outra coisa.

Mascarados na rua

por jpt, em 26.10.20

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"Diz que" teremos de andar mascarados na rua. Se a defesa contra a pandemia a isso apela não serei eu a opor-me. E nem sequer me questiono como é que este tipo não tem a dignidade de se demitir, por "razões pessoais" ou "reforma", seria pedir-lhe demasiado face ao que é. O que me surpreende é que nenhum dos dele lhe diga para ir saindo. Septuagenário vácuo, apagável. Nulo.

Quartéis da terceira idade

por José Meireles Graça, em 26.10.20

O SNS 24 diz que os sintomas da Covid-19 são a febre, a tosse e a dificuldade respiratória, dor de garganta, corrimento nasal, dores de cabeça e/ou musculares e cansaço, a perda parcial ou total do olfato e a diminuição ou perda do paladar.

Esta lista, que não implica que quem está infectado apresente todos os sintomas, é acrescentada volta e meia com outros. Mas nem a literatura médica nem a opinião publicada se têm referido às perturbações mentais que o vírus induz em pessoas que detenham poder público no âmbito do “combate” à doença.

Sabe-se que os jornalistas arranjaram uma desculpa óptima para produzirem sem trabalho “informação”, pelo caminho lisonjeando a sua fantasia de que estão desempenhando um útil papel numa causa de interesse público – basta ecoarem-se uns ao outros no copy/paste de opiniões alarmistas, diligentemente traduzidas pelo google translator quando calha a desgraça comunicada ser lá de fora; que plutocratas e reformadores sociais sortidos julgam que o reforço do papel do Estado é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para engenheirar uma sociedade nova, e o homem novo, dos seus delírios totalitários; que, aqui e em quase toda a parte, os políticos fazem tudo e o seu contrário para convencer a opinião pública de que estão a fazer o melhor possível. E como o melhor possível não chega porque o raio da doença segue inelutavelmente o seu caminho, vão multiplicando as regras de conduta obrigatórias, não tanto por estarem certos de que são as melhores, mas porque precisam, para sobreviver, de convencer as pessoas que a culpa do que corre mal é das que têm comportamentos que as autoridades proíbem.

Tudo isto é vulgar e sabido. Que as galinhas sem cabeça que nos governam não hesitam em terraplanar o Estado de Direito quando julgam que isso pode atrasar a propagação da doença, também; que o supremo magistrado da Nação as únicas instituições cujo regular funcionamento quer assegurar são a sua preciosa saúde e a sua popularidade, idem; e que a maior parte da opinião pública, aterrorizada, compra qualquer discurso autoritário, sobretudo quando são censurados discursos alternativos, aspas.

Mas deveria haver limites, não tanto ao disparate porque esse, com governos socialistas, é de essência, mas nas cabriolas histriónicas dos responsáveis políticos. E também na desprezível subserviência de uma comunicação social que há muito deixou o seu papel de quarto poder para se transformar, quase sem excepções, em agência de propaganda de causas, a primeira das quais é a sua miserável pitança.

É isso que explica que esta notícia tenha passa despercebida:

Forças Armadas em acções de sensibilização em todos os lares do país, diz o título e, lendo, ficamos a saber que elas vão aos lares para "ações presenciais de sensibilização e demonstração sobre boas práticas relacionadas com cuidados gerais, pessoais e na instituição a adotar, utilização de equipamentos de proteção individual, limpezas e desinfeções e circuitos a implementar, com o objetivo de contribuírem para a segurança de auxiliares, utentes e funcionários." Ou seja, as Forças Armadas são especialistas nestas matérias, quem está nos lares não. E ficamos a saber que nunca houve falta de dinheiro, nem pessoal, nem inspecções, nem conservação das instalações, nem investimento. Do que havia falta era de formação dada por furriéis. Mais valia transformar desde já os quartéis em lares da terceira idade e acabar com o ministério.

E não seria talvez má ideia: Este ministro poderia ser da maior utilidade como técnico de limpezas, a condição de perfeito idiota não o inibe para o desempenho satisfatório dessas funções.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 26.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «Foram hoje publicados os resultados de um estudo do International Budget, que apresenta a transparência orçamental em perspectiva comparada. O relatório português foi realizado por Marina Costa Lobo (ICS), Paulo Trigo Pereira (ISEG), Ana Margarida Craveiro (ICS) e Luís de Sousa (ICS). Os resultados não são brilhantes para Portugal: 58 pontos num total de 100, uma das piores prestações na zona europeia. (...) A falta de transparência é também uma das causas do nosso actual problema. Sem conhecermos a situação, como podemos pedir contas ou tentar corrigi-la?»

 

Gabriel Silva: «Em finais de 2009 a equipa gerente da mina anunciou que os 10 milhões de portugueses estavam a 9,4 metros abaixo do solo. Muito mais do que os 5,3 metros que a mesma equipa anunciara antes de ser escolhida novamente para dirigir a operação. O engenheiro-chefe disse que agora é que ia ser. Embora fosse operação demorada, anunciou que no final do ano seguinte estariam 1 metro acima, nos 8,4. Seriam precisos sacrifícios, como seja cada um dos mineiros pagar um pouco mais das suas economias. Mas em contrapartida a equipa dirigente diminuiria a despesa, isto é, aquilo que leva a terra acumular-se em cima dos desgraçados. Os financiadores da operação torceram o nariz. Não acreditaram, até porque aquela mesma equipa já tinha revelado igual incompetência antes e com as mesmas promessas. Começaram a pedir juros mais altos.»

 

João Carvalho: «Há um ano tomava posse o actual governo. Aqui fica a nossa lembrança pelo aniversário. Não, não é oferecida ao governo, mas ao país, porque o país, coitado, é que merece. Querem uma boa notícia neste primeiro aniversário? Pois bem: primeiro e último.»

Canções do século XXI (1302)

por Pedro Correia, em 26.10.20

Leituras

por Pedro Correia, em 25.10.20

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«Depois do discurso, alguém ouviu um jovem diplomata francês dizer a um colega, enquanto se encaminhavam para o banquete:

- Não percebo porque o aplaudiram de pé e com tanto ruído e durante tanto tempo.

- Porque - explicou o colega mais velho - detestaram tudo o que ele disse.»

Ian McEwanA Barata (2019), p. 95

Ed. Gradiva, Lisboa, 2019

Um abraço

por jpt, em 25.10.20

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Hoje, manhã de domingo, bebo um café, dois mesmo, com amiga que há muito, demasiado, não via, pois ela emigrada. Ainda tão bela, entusiasmante, até balsâmica, como o era aquando nós no liceu e no sempre depois, porventura mesmo mais se me deixar acreditar neste sentir já trôpego. Conversa larga, rápida mas larga. E diz-me que se testou com a competência necessária. E depois foi a casa da mãe, agora octogenária, já viúva: "Mãe, há quanto tempo é que ninguém a abraça?". "Há mais de seis meses, filha". E abraçaram-se, como é óbvio que deve ser.

Mudar de lentes

por Maria Dulce Fernandes, em 25.10.20

Estes últimos tempos não me têm sido propícios. Tudo me cansa, física e psicologicamente falando. Vejo as pessoas adoecer à minha volta e saio de casa todos os dias a pensar se será aquele o último dia em que regressarei livre de viroses. 

No trabalho, são-nos impostas cada vez mais regras, mais ordens, mais directrizes sob pena de pesadas coimas, que a cada dia que passa são mais complicadas de fazer cumprir. 

O egoísmo é a única filiação comum a todas as cores e credos. 

Em casa, vejo os meus netos e desespero.

E depois vejo isto e apetece-me partir tudo.

Quem sabe, sou quem quem vê mal e precisa mudar de lentes.

 

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Memórias

por José Meireles Graça, em 25.10.20

Acontece-me ultimamente ter a desagradável sensação de que já disse isto. O facto, a terceiros, não impressiona: ninguém se lembra, e menos ainda procura, do que eu já disse. Depois, imagino um tetraneto que tenha, por quem eram os tetravós, a mesma curiosidade eu que tenho pelos meus, e que talvez ache graça a eventos incompreensíveis perdidos na memória dos tempos e a um antepassado incontinente verbal.

Daí que tenha começado a construir uma base de dados, com a data, o título, e os assuntos, de todos os artigos que já escrevi em blogues finados ou actuais, por aqui e por ali. Isso implica às vezes reler e tropeçar em coisas que hoje não diria, outras que não diria da mesma maneira, outras obsoletas e outras – a maioria ꟷ sem interesse nem sequer para mim. Também aparecem textos absolutamente seminais sobre matérias do maior relevo, como foi o caso com um luminoso post sobre a problemática do bacalhau fritado.

Algumas pessoas que beneficiaram da minha consistente aversão já se passaram para o Inferno, ou para rendosos tachos, ou para um merecido anonimato; mas classes profissionais destinatárias de não poucas objurgatórias não se extinguiram, lamentavelmente, e estão aí pujantes, a reclamar que se lhes vergastem as orelhas.

A mais saliente dessas é a dos economistas. Hoje tenho mais amigos dentro dessa agremiação do que os que contava então, e acontece-me a contragosto concordar com isto ou aquilo, reconhecer-lhes inteligência, e constatar desconsolado que alguns – os melhores ꟷ chegam a ponto de ter dúvidas e serem modestos, pelo que reforcei o desgraçado vício de lhes ouvir os arrazoados. Mas não mudei substancialmente de opinião, que, em Janeiro de 2013, era esta:

Tenho para mim que o grau de doutor em ciências económicas deveria automaticamente inibir o infeliz académico do desempenho de quaisquer funções públicas com competências legislativas naquela área, salvo exame prévio de normalidade cognitiva.

 

É fácil, com alguns exemplos, perceber o porquê deste parti-pris: boa parte das decisões que a cada novo orçamento se tomam, assim como as avulsas que se vão tomando ao longo do ano, destina-se a corrigir os efeitos perversos das anteriores; os economistas que forem europeístas admitem agora pacificamente que o Euro nunca deveria ter entrado em vigor sem uma muito maior dose de integração, nomeadamente sem veleidades independentistas em matéria orçamental e financeira; e o grau de incapacidade para fazer a mais leve previsão razoável só ombreia com a suficiência com que se fazem novas previsões igualmente fantasistas.

 

Mas isto é uma constatação; e cabe perguntar que mecanismo perverso é esse que faz com que a economia seja tão difícil de entender para a maior parte dos especialistas nela, a tal ponto que não há desastre verificado, e com frequência facilmente previsível, que não tenha tido o alto patrocínio de gurus da ciência económica.

 

Como princípio de explicação, creio que a exigência mesma da carreira académica, com a sua interminável bibliografia, a sua incessante procura de casos pregressos para demonstrar uma causalidade, constatar uma correlação, afinar uma tese que se intui: casa mal com uma realidade em permanente mutação, sobre a qual se pretende agir sem haver nem o tempo nem os meios para sequer a entender. Acresce que os agentes económicos são pessoas; e só não recomendo psicólogos para tomarem decisões sobre economia por ter fortes suspeitas de que esta variedade de teóricos está mais vocacionada para consolar cidadãos a quem faleceu um ente querido.

 

Depois, o principal mecanismo da criação de riqueza, se tem na sua base o conhecimento científico que depois a tecnologia aplica, passa pelas empresas e, dentro destas, sobretudo pelas pequenas. Ora, a realidade das empresas é de tal natureza que não dispensa o saber de experiência feito - a formação em gestão habilita sobretudo na emissão de opiniões sobre a gestão dos outros, como se evidencia com o facto infeliz de as centenas de gestores que as universidades despejam no mercado se absterem cuidadosamente, no geral, de fazer empresas.

 

Seria todavia precipitado dizer que deveria haver empresários ao leme das decisões políticas: o conhecimento deles vale para a empresa, quando muito para o ramo, e a receita do sucesso de hoje não é necessariamente a mesma do de amanhã; o País não é uma empresa, o grau de complexidade das decisões é infinitamente maior ter meia dúzia de perspectivas correctas e ideias acertadas sobre gestão é curto (lembro-me do defunto engº Belmiro de Azevedo que, inquirido sobre as reformas necessárias ao País, começou uma vez pelo organograma do Governo, com aquela suficiência que resultou tão bem nos negócios, e resultaria tão mal se a tentasse transpor para a carreira política que sensatamente evitou).

 

Resta o senso comum que, contraditoriamente, nada tem de comum no seio dos economistas que nos governam e, pior, raramente se traduz em bom senso. Se não, como explicar isto que um advogado escreve?

 

Notas: i) Texto editado; ii) O advogado referido no último parágrafo é, se não estou em erro, o dr. Ferreira de Almeida, que felizmente ainda anda por aí, embora já não se dê tão frequentemente ao trabalho de escrever; iii) O incidente para o qual o link remete era a abusiva obrigação, que o Fisco impôs, de novas máquinas registadoras, quase um pecadilho antes da longa lista de exacções em que aquele organismo inquisitorial se especializou; iv) O ministro da época era o desastre Vítor Gaspar, felizmente desaparecido nas profundezas do FMI, detestado pela esquerda acéfala, isto é, toda, e por aquela parte da direita, minoritária, que achava a austeridade necessária mas por via do corte de despesas e não do aumento de receitas. A parte restante achava que se deveria cortar nas despesas mas desde que ninguém fosse despedido, não se extinguissem serviços que invariavelmente eram essenciais para quem deles beneficiava, e portanto efectuou grandes poupanças no papel higiénico, no ar condicionado e com os famosos cortes transversais em salários e pensões, que tinham a grande virtude de resolver problemas no imediato, e nenhuns no futuro.

Não mudei de opiniões. E como o futuro próximo é de austeridade, chame-se o que se lhe chamar, o textinho venerando continua actual. Por isso o repesco.

A normalidade continuará dentro de momentos

por Paulo Sousa, em 25.10.20

No início da pandemia escrevi aqui que, a que então começava seria a mais longa primavera das nossas vidas.

Não sabíamos o que estava para vir. Olhando para trás é óbvio que continuamos, mais do que tudo o resto, com dúvidas. Não sabemos a dimensão do que ainda falta passar até que regressemos às rotinas despreocupadas com as partículas em suspensão na atmosfera que nos rodeia.

Vendo um filme, as fotos de recordação de há um ano atrás sugeridas pelo facebook, um jogo de futebol do ano passado ou as melhores jogadas do Mundial de Rugby de 2019, dou por mim a reparar que faltam ali máscaras e como é que aquela gente pode estar tão indiferentemente despreocupada estando tão próxima. Como é que se pode fazer uma formação ordenada sem pensar na expiração dos restantes jogadores?

Nestes meses que passaram já mudamos, e foi por dentro. Um dia no futuro voltaremos a cumprimentar-nos com beijos nos rosto e com abraços sentidos e despreocupados, mas isso ainda vai demorar. Até lá, a preocupação em manter a distância física, em desinfectar as mãos, em filtrar o ar que respiramos vai ganhando raízes e vai-se acumulando como por camadas, ameaçando tornar-se numa memória muscular.

O choque perante os hábitos antigos, de apenas há ano, é muito mais perceptível ao ver um filme do que ao ler um livro. Os olhos desviam-se da acção e de relance procuram os irresponsáveis que não cumprem as regras, enquanto que num livro somos levados pela mão de quem o escreveu e só vemos o que nos é revelado. Vou por isso tentar ver mais filmes e ler menos. Não me quero esquecer do mundo onde vivíamos enquanto espero que termine este longo intervalo. Isto é apenas um desagradável intervalo.

Carta Encíclica "Fratelli Tutti"

por Cristina Torrão, em 25.10.20

Alguns pontos que considero interessantes (e importantes), da última Carta Encíclica do papa Francisco, publicada e 03 de Outubro passado:

7. Quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afectam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.

11. A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

15. A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte (…) Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.

18. Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma selecção que favorece a um sector humano digno de viver sem limites.

27. Criam-se novas barreiras de auto-defesa, de tal modo que deixa de haver o mundo, para existir apenas o «meu» mundo; e muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável passando a ser apenas «os outros». Reaparece «a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade».

74. O facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros (…) O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

107. Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade.

121. Por conseguinte, ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra. Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.

180. Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade [nesta passagem, a tradução alemã utiliza a expressão “amor ao próximo” - Nächstenliebe - que considero mais apropriada do que “caridade”].

 

A Encíclica completa pode ser lida aqui:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#_ftn2

O estado da arte

por jpt, em 25.10.20

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Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. E recomendo-a, pois é uma boa descrição do actual "estado da arte" português. Trata-se de "O Torso Dispensável".

(Como o texto tem acesso reservado a assinantes poder-se-á ler uma transcrição parcial, mas quase completa, aqui.)

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.10.20

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Foto: jornal The Guardian

 

«Meu pai faleceu em Julho de 2011. Logo a seguir ao funeral, minha mãe negou-se a estar uns dias comigo antes de regressar à sua casa na Parede.

"Não filho, vou já para casa, a vida continua."

E assim continuou, em casa, com uma senhora uma vez por semana para limpezas e passar a ferro (hoje não se pode dizer mulher-a-dias), tratando da sua alimentação, de lavar a roupa na máquina nova que lhe comprei, tratando portanto da rotina caseira. [Fui] visitando-a em regra uma vez por semana, altura em que vamos ao supermercado, falando-nos ao telefone diariamente. Nos últimos quatro anos passou a ir sozinha ao supermercado: abriu um Continente a cerca de 40 metros de casa, pelo que me dispensou. Literalmente!

Na segunda-feira a seguir à Páscoa de 2019 teve uma crise de arritmia forte, esteve 11 dias no hospital de Cascais, recuperou, e quando a fui buscar para minha casa, logo nessa noite: "Filho, já não consigo estar sozinha em casa, quero ir para o lar onde estava até há poucos dias a minha prima Lana."

E assim está num lar desde 31 de Maio de 2019. Nesse que queria, em Lisboa, e desde 12 de Maio de 2020 num melhor, a poucos metros de minha casa, visitando-a [eu] até há duas semanas na "Box das emoções", onde estamos separados por um vidro.

Completou 95 anos em 8 de Julho passado. Continua felizmente, muito bem de cabeça, com uma lucidez, discernimento e memória extraordinárias. Mas apesar de ser uma senhora muito forte isto vai deixando mossa, devagarinho.»

 

Do nosso leitor António Cabral. A propósito deste texto do JPT.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 25.10.20

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Ana Margarida Craveiro: «O fim das "disciplinas" de Área Projecto e Estudo Acompanhado, definido em Orçamento do Estado, diz muito sobre a desorientação do Ministério da Educação. Não me interpretem mal, ainda bem que acabam essas perdas de tempo, mas mal vai o país em que o currículo escolar é definido pelo Ministério das Finanças.»

 

João Campos: «Desde o sucesso da trilogia "O Senhor dos Anéis", realizada por Peter Jackson, que ouço falar numa futura adaptação para o cinema da prequela "O Hobbit". Neste livro, Tolkien narra a história de Bilbo Baggins, um pacato hobbit do Shire que (com um "empurrãozinho" de Gandalf) se vê no meio de um grupo de anões preparados para recuperar o seu antigo reino a Leste, na Montanha Solitária, em tempos atacada e dominada pelo dragão Smaug. Claro que a viagem não seria assim tão simples, e durante a aventura, os anões e o hobbit perdem-se nas Montanhas Azuis (onde Bilbo encontra Gollum, e lhe rouba o Anel), são capturados por elfos, enfrentam Smaug e acabam por entrar na Batalha dos Cinco Exércitos, contra os Goblins e Wargs de Moria.»

 

João Carvalho: «Por ocasião do PEC2, o PSD aceitou a recolha de receitas agravadas se o montante fosse igual ao das despesas cortadas pelo Governo até ao fim deste ano. Agora com o Orçamento, o Governo aceita um corte nas despesas para o próximo ano se o PSD apresentar receitas que respeitem um saldo igual ao previsto. Portanto, ambas as partes concordam sempre desde que tudo seja igual. Só as armas são desiguais: apenas uma das partes toma conta das receitas e das despesas. Precisamente aquela que nunca cumpre, sonega informação e pinta a realidade.»

 

Sofia Bragança Buchholz: «Um dia, a curiosidade foi mais forte do que eu e segui-o. Depois de o ouvir, colei o olho à mira da porta, espiando as escadas do prédio. Vi-o descer descontraído, assobiando, aliviado. Vi um homem alto, entroncado, ligeiramente calvo, mas de viris braços peludos, aquele mesmo que um dia, à entrada de casa, vira roubar um beijo à cinquentona inquilina de cima e percebi finalmente o porquê de todo aquele clamar: aquele grito de dor, de aflição, de tormento, mais não era do que o orgasmo histriónico do histriónico namorado da vizinha.»

 

Teresa Ribeiro: «Os melhores salários para um dos piores desempenhos. Segundo um relatório da Comissão Europeia é esta a relação custo-benefício desta casta de funcionários do Estado [juízes], a mesma que anda a chorar os cortes salariais determinados pelo novo O.E. e a tributação do subsídio de residência.»

 

Eu: «Esta é já, para mim, a frase do ano. Foi proferida por um dos 33 mineiros libertados por um prodígio de tecnologia após 69 dias de cárcere imprevisto 700 metros abaixo de terra. "Estuve con Dios y estuve con el diablo. Me pelearon y ganó Dios, me agarré de la mejor mano." É esta a frase, proferida pelo extrovertido Mario Sepúlveda, o segundo mineiro que regressou à superfície naquele já inesquecível 14 de Outubro, o primeiro de dois dias que fez colar mil milhões de pessoas aos ecrãs televisivos em todo o mundo. "La mejor mano" possibilitou que esta história, ao contrário de quase todas que nos vão chegando ao domicílio, tivesse um final feliz. Mais emocionante, mais empolgante, mais cheia de imprevistos e com muito melhor elenco do que a esmagadora maioria da ficção televisiva e dos reality shows que se produz actualmente.»


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