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Delito de Opinião

Selecção Nacional -1

Inês Pedrosa, 02.07.16

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"Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

Ler e não ler

Pedro Correia, 02.07.16

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Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo há um padrão imutável: em dois meses, Dezembro e Junho, leio tanto como nos restantes. Ou perto disso. É assim de há muito tempo para cá. E ainda não consegui arranjar uma explicação satisfatória. Mas acontece ano após ano.

Será que os dias de maior exposição solar convidam à leitura? Mas, se assim for, essa regra não deve prevalecer também para Julho?

Será que o aconchego natalício favorece a companhia de um bom livro? Mas Janeiro e Fevereiro, meses mais frios, não deveriam impor ainda maior retraimento doméstico?

A verdade é que tudo se repetiu, em obediência a uma regra insólita, neste Junho agora terminado. Pego no caderno onde vou anotando as minhas leituras e verifico que li nove livros completos - sem saltar páginas, sem interrupções, do princípio ao fim. À média de um título diferente de três em três dias, como sucedia nos meus anos de adolescência em que o tempo parecia durar infinitamente mais. Mas em Maio - lá está - tinha sido bem diferente. Aí cada livro demorou-me dez dias: só consegui ler três. Em Abril, outros três.

De todas essas leituras irei dando nota aqui. Adianto que em Junho foram cinco romances, um ensaio, uma memória, uma colectânea de entrevistas e uma peça teatral. Quatro destas obras mereceram-me cinco estrelas, confirmando que 2016 está a ser ano de boa colheita para o leitor voraz que continuo a ser. E sempre sorrio ao recordar o professor de Direito Constitucional quando nos dizia no anfiteatro da faculdade: "Espero que os senhores já tenham lido muito antes de chegar à Universidade. Porque, se não leram até agora, também não lerão. Eu li o essencial até aos 18 anos."

Eu tinha 18 anos à época e nunca mais esqueci a solene advertência do professor Jorge Miranda (que por estes dias costumo encontrar à entrada ou à saída de salas de cinema). Acreditei nele e preparei-me para viver o resto dos meus dias mergulhado numa irremediável e desprezível ignorância.

Sei hoje que quase nunca devemos interpretar uma frase pelo seu inteiro valor facial. Esta é uma das lições que aprendi tanto por experiência própria como enquanto leitor atento. Já nem sei por que ordem. Mas também não interessa. Como assinalou Marguerite Yourcenar, num dos romances da minha vida, "a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana".

O fascínio da literatura

Pedro Correia, 21.05.16

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Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

Ler (sobre o massacre em Paris)

Pedro Correia, 16.11.15

Paris sous l' attaque. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

La Palice. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

La nausée. De António Araújo, no Malomil.

A guerra explicada às criancinhas. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Paris. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Medo. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Surrealismo... De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Popper e Cristo em Paris. De Pedro Norton, no Escrever é Triste.

Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam. Da Daniela Major, no Aventar.

Carry on. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

um bilhete de avião chamado livro

Patrícia Reis, 20.10.15

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O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo "normal" desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

Ler

Pedro Correia, 13.02.15

Eles já estão aí. Do Gabriel Silva, no Blasfémias.

A entusiástica estupidez suicida da UE governada pelo medo. Do Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto.

Comprimidos para a memória. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

Destruição criativa. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Olho. Da Ana Cássia Rebelo, na Ana de Amsterdam.

De que falamos quando falamos de Birdman? De Carlos Natálio, no Ordet.

Bénard: "There was never a man like my Johnny". Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

O sortilégio da literatura

Pedro Correia, 20.12.14

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Estas coisas nunca acontecem exactamente como as planeamos - aliás, os imprevistos fazem parte do fascínio da leitura.

No final do ano passado tracei um objectivo para 2014: só leria de Janeiro a Dezembro livros da autoria de escritores galardoados com o Nobel. Defini esta meta após concluir que apenas conhecia, enquanto leitor, menos de um terço desses autores: era uma lacuna que urgia colmatar.

 

As coisas correram como planeei, mas só em parte.

Este desafio que lancei a mim próprio foi-me útil, sem dúvida. Li pela primeira vez obras destes 11 escritores que receberam o Nobel: Pär Lagerkvist (vencedor em 1951), Juan Ramón Jiménez (1956), Günter Grass (1999), Anatole France (1921), Luigi Pirandello (1934), Kenzaburo Oe (1994), Ivo Andric (1961), Naguib Mahfouz (1988), Mikail Cholokov (1965), William Golding (1983) e Yasunari Kawabata (1968). Além disso li ou reli romances, novelas ou contos de outros escritores também galoardoados com o Nobel mas cuja obra já conhecia: José Saramago (distinguido em 1998), François Mauriac (1952), William Faulkner (1949) e Ernest Hemingway (1954).

 

Mas a dada altura quebrei a regra que impusera a mim próprio. E acabei por alterar o plano inicial, mudança de que não me arrependo. Como poderia? Sem ela, neste ano que agora acaba não me teriam passado pelas mãos livros de Chesterton, Cortázar, Jack London, Simenon, Ray Bradbury, Joseph Roth, Conrad, Cardoso Pires, Remarque, Rubem Fonseca, Graham Greene, Jane Austen, Virginia Woolf, Scott Fitzgerald e John Le Carré, entre vários outros.

Livros de autores que não se cruzaram com o Nobel, mas que contribuíram para prestigiar, dignificar e engrandecer a literatura. E que, à distância de décadas ou de séculos, mantêm o condão de nos emocionar, de nos dar asas, de nos rasgar horizontes, de nos ensinar a decifrar as encruzilhadas do mundo ou os abismos da alma humana.

 

Nunca considero perdida qualquer parcela do tempo que dou por mim rendido, enquanto leitor grato e arrebatado, ao infindável sortilégio da literatura.

Penso rápido (59)

Pedro Correia, 06.11.14

Aos 18 anos comecei a anotar todos os livros que ia lendo. É uma lista que sempre me acompanhou de então para cá. Já são mil e muitas anotações. Com nome do livro, autor, data e local em que terminei a leitura. E as estrelinhas da praxe.

Ajuda sempre na releitura. Como tenho verificado nestes últimos meses dedicados a revisitar alguns dos livros que mais me marcaram.
Ajuda também a lembrar quais foram os anos mais férteis em leituras. No ano em que fiz 20, por exemplo, li setenta e tal livros completos. Algo impensável nos tempos que correm, pelos mais diversos motivos.
Ajuda ainda a recordar que livro líamos quando nos ocorreram determinados factos que marcaram as nossas vidas, para bem ou para mal.
Ajuda enfim a pontuar a nossa memória. Como uma espécie de GPS para consumo próprio.
Dá jeito, muito mais vezes do que possamos imaginar.

Os labirintos da memória

Pedro Correia, 11.10.14

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Não sei se convosco acontecem coisas destas. Na quinta-feira, quando soube que o escritor francês Patrick Modiano era o vencedor do Nobel, lembrei-me logo que tinha uma obra dele: Domingos de Agosto, editada pela D. Quixote, na sua efémera colecção de livros de bolso.

Ao chegar a casa, e como tenho a biblioteca arrumada, fui logo direito ao livro disposto a lê-lo nos próximos dias. Lá estava a anotação inicial: comprei-o a 27 de Maio de 2000 (certamente na Feira do Livro, por coincidir com a data). A surpresa aconteceu ao espreitar a última página, onde vinha outra inscrição: 11 de Junho de 2000. A data em que terminei de lê-lo, duas semanas depois de o ter comprado.

Lembro-me perfeitamente de livros que li muito antes deste. Acontece que nada retive desta obra. Nada mesmo. Irei (re)lê-la como se fosse a primeira vez. Certamente sem dificuldade, até porque só tem 160 páginas.

Gosto de sublinhar um livro que vou lendo. Quando isso não acontece é sinal inequívoco de que a leitura não está a impressionar-me. Folheio este exemplar e verifico: tem apenas dois sublinhados.

Um na página 33: «É da Primavera que eu tenho medo. Chega sempre como uma vaga de fundo, e eu pergunto-me sempre se não vou desequilibrar-me e sair borda fora.»

Outro na página 107: «Porque é que certas pessoas são como as pastilhas elásticas que em vão tentamos desprender dos saltos dos sapatos, esfragando-os na borda de um passeio?»

Foi uma leitura tão etérea que passou por mim sem deixar rasto. Ao contrário da pastilha elástica mencionada no parágrafo anterior. Já conhecia, portanto, Patrick Modiano. Mas na quinta-feira recebi a notícia do Nobel como se nunca me tivesse sido apresentado.

O melhor é oferecer livros

Pedro Correia, 31.12.13

Este ano, por efeitos acumulados da crise no meu orçamento pessoal, as prendas natalícias que ofereci aos familiares mais chegados resumiram-se a livros que fui comprando ao longo do semestre. Estas são aliás, para mim, as melhores prendas. As mais intemporais, as mais persistentes, as que mais nos acompanham vida fora.

 

Que livros foram esses?

 

 

O Quinto Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes, com chancela editorial da Dom Quixote. É um género em que o autor de Memória de Elefante se revelou um dos maiores cultores de sempre em Portugal, produzindo textos que são autênticas obras-primas do engenho literário.

 

 

Os Contos Completos, de Fernando Pessoa. Enfim um volume que reúne supostamente na íntegra -- supostamente porque com Pessoa nunca se sabe -- ficções do criador de Mensagem, capaz de ser pontualmente tão brilhante em prosa como foi na poesia. Uma edição com a qualidade a que a Antígona nos habituou.

 

 

Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Uma reedição muito cuidada deste grande clássico da dramaturgia de todos os tempos inserido numa colecção de obras do genial autor britânico que a Relógio d'Água, a preços muito convidativos, põe agora à disposição dos leitores portugueses. A isto chamo serviço público.

 

 

A Bibliotecária de Auschwitz, de António G. Iturbe. Com a chancela da Planeta, uma das melhores narrativas que nos chegou de Espanha nos últimos anos, cruzamento de reportagem com ficção, originalmente editada em 2012. Uma admirável história de resistência baseada em factos reais que passou com distinção no exigente crivo crítico espanhol.

 

 

As Grandes Batalhas da História de Portugal, de Rui Natário. Um livro de consulta permanente, ideal para quem gosta de conhecer ou recordar alguns dos factos mais decisivos da nossa história política e militar, sem os quais Portugal não seria o que é. Da batalha de São Mamede (1128) à batalha de La Lys (1918), quase 800 anos em revista nesta obra da editora Marcador.

 

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Nota suplementar: todos estes livros, impressos em 2012 ou 2013, estão escritos em português não-acordista. Sem mutilação de consoantes, portanto. O que os torna ainda mais recomendáveis.

Um texto que chega do Brasil

Patrícia Reis, 20.12.13

O amor acaba

 

Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

Os livros que fomos lendo

Pedro Correia, 15.10.13

 

Durante quatro meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 19 etapas.

 

O João Campos, a 6 de Junho, dava o pontapé de saída. Revelando qual era o seu livro de cabeceira: Consider Phlebas, de Iain M. Banks.

 

O José Gomes André, a 12 de Junho, falou-nos de um livro que acabara de ler: Fatherland, de Robert Harris.

 

O José Maria Gui Pimentel, a 21 de Junho, saltava da ficção científica para a História. Com a leitura da História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos.

 

O José Navarro de Andrade, a 27 de Junho, rumava à América Central com a leitura do romance El Señor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, galardoado com o Nobel.

 

O JPT, a 2 de Julho, dava-nos notícia d' A Maldição de Ondina, de António Cabrita -- radicado em Moçambique, tal como ele.

 

A Laura Ramos, a 10 de Julho, levantava o véu sobre o seu livro de cabeceira: Uma Vida Francesa, de Jean-Paul Dubois, "mestre no retrato da sociedade e da cidadania política".

 

A Leonor Barros, a 21 de Julho, ia lendo "com prazer" Mentiras & Diamantes, de José Rentes de Carvalho.

 

O Luís Menezes Leitão, a 24 de Julho, escreveu sobre as Memórias, de Humberto Delgado, publicadas originalmente em Londres, em 1964 -- meses antes de o "general sem medo" ter sido assassinado.

 

A Marta Spínola, a 29 de Julho, mencionou um dos livros que acabara de ler: Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci.

 

A Patrícia Reis, a 1 de Agosto, reafirmava que gosta de ler várias obras ao mesmo tempo: Os Antiquários, de Pablo de Santis, era uma delas.

 

A 5 de Agosto, foi a minha vez: aqui escrevi o que pensava sobre uma obra muito estimulante: De Gaulle, de Éric Roussel -- uma das minhas melhores leituras deste Verão.

 

A Teresa Ribeiro, a 9 de Agosto, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Enamoramentos, de Javier Marías. Um escritor digno do Nobel, como garante Pedro Mexia, que revelou ter boa pontaria ao vaticinar a escolha de Alice Munro pelo júri de Estocolmo.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 30 de Agosto, lamentava-se da falta de tempo para leituras. Mesmo assim ainda conseguiu ler O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas.

 

A Ana Lima, a 8 de Setembro, falou-nos dos Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís. Há sempre uma primeira vez para ler Agustina: chegou a vez dela.

 

A Ana Vidal, a 20 de Setembro, falou-nos de El Amor de mi Vida, de Rosa Montero. E foi tão convincente que eu corri a comprar o livro.

 

O Bandeira, a 28 de Setembro, trouxe-nos notícias de uma colectânea: The Collected Stories of Lydia Davis.

 

O Fernando Sousa, a 30 de Setembro, apresentou-nos Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie.

 

A Ivone Mendes da Silva, a 4 de Outubro, lia A Ilha de Sukkwan, de David Vann.

 

E a série terminou ontem, 14 de Outubro, com o João André. Leitor da obra The German Genius, de Peter Watson.

 

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Como ele bem disse, em breve haveremos de ter outra série colectiva. Conto dar-vos notícia dela a curto prazo. E de outra mais pessoal, sobre jornalismo e política, depois de ter conseguido arrumar a biblioteca.

Parar para ler, parar para pensar

Pedro Correia, 02.01.13

 

Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim. 

Os livros que fomos lendo

Pedro Correia, 29.01.12

 

Durante quase três meses, fomos aqui revelando as leituras que íamos fazendo, partilhando-as com os leitores. Chegou o momento do balanço desta série, desenrolada em 24 etapas.

 

A Ivone Costa, a 3 de Novembro, relia A Mecânica da Ficção, de James Wood.

 

O JAA, a 7 de Novembro, falou-nos de um dos três livros que então lia: Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo.

 

O José Maria Pimentel, a 14 de Novembro, deixou-nos nota da obra que ia lendo: China: its History and Culture, de W. Scott Morton e Charlton Lewis.

 

O João Campos, a 15 de Novembro, fazia uma incursão pela banda desenhada: As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II - Apocalipse. De Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (ilustrações).

 

O João Carvalho, a 18 de Novembro, optava por "alcoviteirices": Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni.

 

A Laura Ramos, a 22 de Novembro, citava Leo Ferré à laia de introdução do seu texto sobre o livro A Confraria do Vinho, de John Fante.

 

A Leonor Barros, a 28 de Novembro, trouxe-nos literatura em alemão: Meine Russischen Nachbarn, de Wladimir Kaminer.

 

Luís M. Jorge, a 30 de Novembro, lamentava a perda do livro que estava a ler: The Sense of an Ending, de Julian Barnes.

 

O Luís Menezes Leitão, a 2 de Dezembro, assumia-se como apreciador de biografias ao escrever sobre Estaline, de Jean-Jacques Marie.

 

A Patrícia Reis, a 2 de Dezembro, escreveu sobre Dois Rios, de Salem Tatiana Levy, e a biografia de Lúcio Feteira, de Miguel Carvalho.

 

A 6 de Dezembro, foi a minha vez: deixei a minha opinião sobre uma obra muito interessante: A Liderança Segundo John Kennedy, de John Barnes.

 

O Rui Rocha, a 7 de Dezembro, desvendava-nos o livro que andava a reler: A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

 

A Teresa Ribeiro, a 12 de Dezembro, trazia-nos aqui a sua perspectiva sobre Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.

 

O Adolfo Mesquita Nunes, a 19 de Dezembro, confessou-nos a sua nada surpreendente predilecção por The Iron Lady, biografia de Margaret Thatcher escrita por John Campbell.

 

A Ana Cláudia Vicente, a 23 de Dezembro, interrompia Vitorino Nemésio para ler Luiz Pacheco.

 

A Ana Lima, a 26 de Dezembro, narrava-nos a sua opinião sobre O Retorno, de Dulce Maria Cardoso.

 

A Ana Margarida Craveiro, a 27 de Dezembro, andava a braços com "um tijolo de 800 páginas": The Better Angels of our Nature, de Steven Pinker.

 

A Ana Sofia Couto, a 30 de Dezembro, falou-nos de Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff.

 

A Ana Vidal, a 2 de Janeiro, trouxe-nos notícias d' O Túnel, de Ernesto Sabato.

 

O António Manuel Venda, a 3 de Janeiro, relia o Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho.

 

A Cláudia Köver, a 13 de Janeiro, transmitiu-nos as suas impressões sobre Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier.

 

O Fernando Sousa, a 20 de Janeiro, apresentou-nos os Contos Reunidos, de Felisberto Hernández.

 

A Helena Sacadura Cabral, a 21 de Janeiro, lia Longe é um Bom Lugar, de Mário Zambujal.

 

E a série terminou a 26 de Janeiro com o José Navarro de Andrade. Leitor d' Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo.

O que ando a ler (24)

José Navarro de Andrade, 26.01.12

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.

O que ando a ler (23)

Helena Sacadura Cabral, 21.01.12

 

Não será bem o que estou a ler, mas antes, o que acabei de ler. Pelo que vejo das escolhas da "confraria", eu sou a mais heterogenea... Acabei, há dias, a leitura de dois. Sim, sou megalómana e tenho, por norma, duas obras de cabeceira. 

Desta vez, foi o último livro do meu querido Mário Zambujal Longe é um bom lugar, colectânea deliciosa de short stories que é um dos meus estilos preferidos e com o qual o autor e eu própria não nos damos nada mal. Gaba-te cesto!

São contos sobre o quotidiano, com um marcado sentido do humor e que caracterizam os comportamentos de uma certa novel classe média nacional. Fiquei fiel ao Mário desde a velha "Crónica dos bons malandros" e assim continuarei enquanto ele publicar. Nada de filosófico, de intelectual, mas uma bonomia que faz falta neste país de fado triste.

Ao mesmo tempo, li a Ordem Breve da "nossa" Ivone Costa, uma colectânea de poesia difícil mas de rara qualidade e que, aos meus ouvidos - sim leio sempre alto poesia -, soou com uma harmoniosíssima sinfonia. Li-o duas vezes porque, no género, isso me acontece quase sempre. E à segunda volta, ainda gostei mais. Tanto, que tenciono, quando estiver inspirada, escrever um post sobre ele. Não coloco aqui a capa - linda - porque não tenho scanner e não encontrei foto na net. Alguém dá uma ajuda?

 

 

 

E pronto. A seguir apetece-me uma biografia de um homem forte. Tenho duas em mente, mas ainda me não decidi!

 

E tu, Zé Navarro, o que andas a ler agora?

O que ando a ler (22)

Fernando Sousa, 20.01.12

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita - e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável - o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?

O que ando a ler (21)

Cláudia Köver, 13.01.12

 

Escolhi o livro não pelo título, autor ou imensa vastidão de páginas, mas porque insisto em ler em alemão e foi esta a obra que a minha mãe me colocou na mala antes de eu partir para Istambul. O tempo para a leitura foi escasso, mas a obra “Comboio Nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier fez me companhia em algumas noites de insónia. Não o terminei, nem a meio estou. Não por desgostar mas por falta de tempo e dedicação.

O livro inicia-se com uma fuga irracional (ou um acto de coragem dependendo do leitor) para a cidade de Lisboa. Um breve instante na vida do protagonista leva-o a arrancar-se da sua monotonia em Berna e a embarcar numa viagem que o levará a questionar todo o seu estilo de vida e decisões tomadas até então (a forma como viveu as discussões coma sua ex-mulher, a forma como exercera a sua profissão, etc.) Trata-se de um homem invulgarmente inteligente com fracas capacidades sociais e pouca vontade de mudar, que num dia chuvoso se encontra numa situação invulgar e encantadora. A busca por uma mulher portuguesa deixa o cair nos braços de uma obra de Amadeu Inácio de Almeida Prado, escritor português que falecera 30 anos antes, em 1975. O homem míope e que fugia a tudo - exactamente por se negar à evasão e se afundar na leitura dos seus amados livros - dá corpo ao terceiro romance deste autor suíço. A obra foi traduzida em 15 idiomas, tendo sido um grande sucesso na Alemanha, mantendo-se no top durante três anos. Um autor apaixonado por Pessoa, cujas descrições “thrillescas” nos levam a uma Lisboa mística que reflecte bem a sensação que tantos visitantes dizem ter ao visitarem a nossa capital, e que nós – por termos o privilégio de aqui vivermos – tantas vezes escolhemos ignorar.

Não sei o que me espera nos próximos dias em Lisboa (no livro, digo eu), mas sei que sempre que estou “lá por fora” sinto a falta desta cidade e de muita coisa que se representa neste livro: o vintage, o velho, o local remoto, romântico e por vezes esquecido e abandonado pelos seus próprios habitantes.

 

Espero que o Fernado esteja mais dedicado à leitura do que eu!

O que ando a ler (19)

Ana Vidal, 02.01.12

Essa pergunta não é de resposta fácil, Ana Sofia. Acho que já disse por aqui que nunca leio só um livro de cada vez. Mas, como a maioria dos livros que empilho na mesa de cabeceira é de poesia - neste momento há uma invasão da maravilhosa poesia brasileira, vários livros oferecidos e com dedicatórias que me comovem - falarei aqui do último que li em prosa, acabado ontem mesmo (atravessou comigo o ano, por sinal). É O Túnel, o primeiro romance do argentino Ernesto Sabato. Dele, já tinha lido em tempos "Heróis e túmulos", um livro empolgante que me deixou água na boca e foi considerado, penso que muito justamente, o melhor romance argentino do século XX. O Túnel é um texto muito diferente, embora nos agarre igualmente pelos colarinhos e não nos deixe respirar até à última página. A estrutura é quase policial: um mergulho lento e a cada capítulo mais profundo numa trama obsessiva e tão bem urdida que, mesmo revelado o desfecho logo na primeira frase do livro, a história não perde o suspense, pelo contrário.

 

 

Juan Pablo Castel, um pintor de talento reconhecido - embora despreze totalmente as opiniões dos críticos sobre a sua obra - repara, numa exposição sua, numa mulher que, por sua vez, observa um dos seus quadros atentamente. Maravilha-o que ela se fixe num pormenor do quadro que ninguém mais parece valorizar: uma pequena janela, a um canto, através da qual se vê uma mulher olhando o mar. Está dado o mote: esta sequência, aparentemente inocente, de observadores e objectos de interesse - pintor>mulher>quadro>janela>mulher>mar - dá início a um caleidoscópio alucinante, um jogo de espelhos em permanente mutação que nos desvenda a labiríntica e tortuosa mente do narrador, o próprio pintor. Sob a batuta  de uma paixão súbita e avassaladora (não mais do que um pretexto, já que o amor por Maria não passa da busca de um nome para um papel pré-definido), começa o opressivo bailado nupcial de predador e presa, dois seres desesperados e cada um deles perdido na sua própria e inescapável solidão: Maria, a vítima, que permanece triste e misteriosa até ao fim, e Castel, o implacável algoz, que nos vai conduzindo até à exaustão pelos abismos do seu pensamento, meticulosamente organizado mas circular: "Em geral, esta sensação de estar só no mundo aparece misturada com um orgulhoso sentimento de superioridade. Desprezo os homens, vejo-os feios, sujos, incapazes, ávidos, grosseiros e mesquinhos. E então a minha solidão não me assusta, é quase olímpica. Mas naquele momento, como noutros semelhantes, encontrava-me só como consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Em tais casos sinto que o mundo é desprezível, mas também que faço parte dele, e sou invadido por uma fúria de aniquilação." É este homem que, mesmo nos momentos de felicidade com a mulher que considera a sua alma gémea e a única pessoa no mundo capaz de compreendê-lo, é incapaz de aceitar essa felicidade e semeia nela uma dúvida envenenada até deitar tudo a perder. Um espírito destrutivo que tão bem cabe naquela frase de Schopenhauer: "Quando não tenho nenhuma angústia, é isso mesmo que me angustia".

 

A narrativa, primorosamente escrita e rica de inquietantes metáforas (não falta até uma referência a Kafka e às suas metamorfoses, com a descrição de uma transformação do narrador em pássaro, num sonho), vai num crescendo de angústia e loucura que só pode levar a um final trágico. Já o sabíamos desde a primeira página, mas chegamos lá sem fôlego e ainda expectantes de alguma coisa que possa ter-nos escapado.

 

Ernesto Sabato é um desses escritores mágicos em que a América Latina tem sido pródiga. Tem uma escrita vibrante e lúcida, que prende irremediavelmente o leitor desde as primeiras linhas. Morreu neste ano que agora acabou, a dois meses de completar cem anos. Vale a pena lê-lo.

 

Título: "O Túnel"

Autor: Ernesto Sabato

Editora portuguesa: Relógio d'Água

135 páginas (de puro prazer)

 

E tu, António, o que andas a ler por estes dias?