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Delito de Opinião

Meia-idade

José António Abreu, 11.03.16

No que me diz respeito, chegar perto dos cinquenta e começar a apreciar raparigas com idade para serem minhas filhas gera uma perturbação não mais do que ligeira. Pior é perceber que algumas delas são filhas de amigas e/ou colegas que fizeram - e, em muitos casos, ainda fazem - parte das minhas fantasias.

Confirma-se: Eva não foi criada a partir de uma costela de Adão

Rui Rocha, 13.08.15

Quer dizer então que estavam mesmo convencidos que Deus criou Eva a partir de uma costela de Adão? Ihihih! Onde é que já se viu? Desculpem lá, mas quem é que acredita numa história dessas? Duma costela... Ele há com cada um. Crendices é o que é! Mas pronto. O que importa agora é que fiquem informados sobre o que realmente aconteceu.

Entre homens...

Helena Sacadura Cabral, 15.06.15

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Eles estavam no bar de um bom hotel. Já tinham falado de tudo e mais alguma coisa. Ambos empresários, criticavam a política como se dela fizessem parte. Um, situacionista, ainda não estava contente com a TSU e defendia que a mesma teria de descer mais. O outro nem queria ouvir falar da dita embora não se percebesse porquê. Finalmente falaram de mulheres.

- Tu já viste a sorte do Zé?
- Sorte porquê?
- És parvo ou quê? Então o gajo não anda com a Marta?
- É pá, mas a Marta é casada com o teu sócio.
- Por isso mesmo. Aquela já tem editor responsável...
- Ah! De facto, é um ponto de vista. Não tinha pensado nisso.
- Pois é. Ele é que a sabe toda. Assim alarga o negócio!

Futebol, esse desporto ignorado

José António Abreu, 09.06.15

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 Blergh, gajas!

 

O Eurosport está a transmitir o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino. Eu, que nem ligo a futebol, fiquei ontem durante algum tempo a ver onze suecas (todas louras, muitas delas giras) enfrentando onze nigerianas (todas negras, várias delas giras). Descontando a inevitabilidade biológica de apresentarem menos poder de fogo do que os homens (no sentido futebolístico da expressão, que noutros até me parece que tinham mais), jogavam bem. Marcaram-se seis golos, três para cada lado. Como tantas vezes sucede no futebol masculino (mas estou em crer que com menor risco de lesões dolorosas), num deles a bola passou entre as pernas da guarda-redes. Igualmente como no futebol masculino, as jogadoras abraçaram-se para celebrar e parece que por vezes fazem questão de levantar a camisola. Como no futebol masculino, várias tinham tatuagens e/ou penteados esquisitos. Como no futebol masculino, algumas eram propensas a fazer faltas e outras a atirarem-se para o chão. Como no futebol masculino, a bola era redonda (no ecrã; ouvi dizer que, na realidade, é esférica), o relvado verde e, nos placards laterais, a FIFA apelava ao fair play. Exactamente como no futebol masculino, há quem diga que no final ganha a Alemanha. Mas a SportTV esteve-se nas tintas para o campeonato (valha-nos isso), nos noticiários nacionais ninguém lhe liga e as audiências não devem ser famosas. Decididamente, custa-me perceber os adeptos do futebol. Muitos andam para aí armados em macho e, no fim de contas, só apreciam homens.

 

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Aqui entre nós, a expressão da guarda-redes sueca é deliciosa mas a silhueta da atacante nigeriana constitui pura poesia.

 

Fotos: Kevin C. Cox/Getty Images North America, pescadas na net.

Vermes comandados pelo cérebro que não têm

José António Abreu, 31.03.15

Os homens são capazes de ignorar a fome e ir à procura de um par. Um novo estudo feito numa espécie de vermes comprovou que a culpa não é propriamente deles, mas sim do seu cérebro.

No Observador, por Carolina Santos.

 

Confesso: a primeira coisa que fiz, ainda antes de ler o artigo, foi verificar se tinha sido escrito por uma mulher. Em primeiro lugar pela deliciosa associação entre homens e vermes (eu sei que o estudo foi mesmo realizado em vermes mas talvez fosse mais correcto e abrangente usar «machos» em vez de «homens»). Depois pela igualmente deliciosa facilidade com que se aceita a extrapolação do comportamento dos referidos vermes para o ser humano, deixando de lado eventuais diferenças a nível de  - sei lá - número de neurónios. Finalmente pelo ainda mais delicioso recurso à velha dicotomia corpo-mente, na tentativa magnânima de desculpar essas criaturas vermiculares e desprovidas de neurónios, os homens (obrigado, Carolina; se vieres ao Porto nos próximos tempos avisa e vamos jantar, OK?; ou então até podemos saltar o jantar, que para mim é secundário). Porque a culpa (e tanto haveria a dizer sobre o facto de, mesmo após a ciência justificar o comportamento, poder continuar a associar-se-lhe o conceito - a ter de culpar-se alguém, que tal escolher Deus?) é do cérebro, não é propriamente dos homens. Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos - machos, fêmeas, hermafroditas - se definem por factores externos ao cérebro.

 

Nota 1. Como o meu sentido de humor não é partilhado por alguns leitores do Delito - mas Kafka também se ria ao ler as suas histórias aos amigos e poucos leitores delas fazem o mesmo desde então -, fica o alerta: este texto contém ironia e pretende ser uma provocação benigna.

 

Nota 2. Não, não estou a comparar o que escrevo ao que Kafka escrevia. Em contrapartida, a minha vida é quase tão excitante quanto foi a dele.

 

Nota 3. Agora vou dar descanso aos neurónios que não tenho, parar com estas notas e entreter-me a observar as mulheres que andam por aqui, OK?

 

Nota 4. Estranho. Estou com fome.

Questão de idade?

Helena Sacadura Cabral, 04.03.15

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Se um homem mais velho casar com uma mulher mais nova, toda a gente considera normal. Se, ao invés, uma mulher mais velha casar com um homem mais novo, muita gente ainda fica surpreendida. E, até, nalguns casos, chocada. Porquê? O que é que justifica a reacção negativa?

Em certos países esta opção é já bastante comum entre as chamadas “famosas”, que não costumam preocupar-se muito com a diferença etária, dado o estatuto especial de que gozam. Todavia, longe dos holofotes, muitas mulheres não hesitam e namoram rapazes mais novos. São elas que conhecem as vantagens e os inconvenientes que a diferença de idade pode trazer a um relacionamento. 

Do ponto de vista sexual, na cama, a diferença de idade não importa muito, dizem os clínicos. Quem já passou por isso, limita-se a afirmar que “que basta ambos quererem e tudo será muito bom”.

O problema pode surgir no dia a dia em que as coisas não são assim tão simples". Hoje já muitas mulheres de 40 anos preferem homens que tenham, no máximo, a mesma idade delas.  Porque são independentes e entendem que não têm por missão ficar em casa a aturar as vicissitudes de um marido mais velho.

Ora é aqui que reside o cerne da questão. Antigamente o homem mais velho era o garante da sobrevivência da mulher. Para muitas, para cada vez mais isso já não é válido. Ora se assim é, que justificação pode haver para censurar uma relação em que o homem seja mais novo que a mulher?

Acresce que se a menopausa pode trazer ao sexo feminino problemas clinicamente solúveis, eles não são, nos dias que correm, menores nem maiores do que aqueles que surgem no sexo masculino da mesma idade...

Ressaca do vitorianismo

José António Abreu, 14.02.15

 

Lytton Strachey, o amigo de Woolf com quem ela esteve comprometida a certo ponto, teve numerosas relações homossexuais, muito embora também ele tenha assentado num arranjo de longa duração, no seu caso com Dora Carrington, uma jovem mulher que o adorava, e o marido dela, Ralph Partridge, que ele adorava.

Sandra M. Gilbert, introdução a Orlando, de Virginia Woolf, edição Penguin Classics. Tradução minha.

 

Resta a questão: quem adorava a Dora? Desde que Ralph a adorasse, era o triângulo perfeito.

À primeira vista e para sempre

José António Abreu, 05.02.15
(Um comentário deixado há dias num post da Francisca Prieto leva-me a republicar este texto, de Novembro de 2010. Rush lançou entretanto Subtle Bodies, editado em Portugal pela Quetzal naquela coisa a que a maioria das editoras nacionais chama português. Obviamente, comprei-o em inglês.)
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Norman Rush, em entrevista à The Paris Review:

 

INTERVIEWER

So which novelists were you reading on your own?

 

RUSH

Conrad and Dostoevski above all. Conrad continued to be a huge revelation to me about serious political thinking taking place in a novel. Under Western Eyes and, especially, The Secret Agent. Dostoevski meant Notes From Underground and The Idiot, especially, though it’s very hard to privilege one of his books over another. All were important to me.

But the most significant literary moment at Swarthmore came when I met Elsa. Elsa was everything. I was only there a few months before we met but—she would do a much better job with these stories. Shall we invite her to join us?

 

INTERVIEWER

Why not?

 

ELSA

Well. Do you know Swarthmore? It was in their main building, in a quite formal parlor with velvet sofas and big oil paintings. I was sitting on one of these sofas with—my God, it was heaven!—young men all around, talking to me. At least five. Maybe eight. Some were sitting on the floor.

 

INTERVIEWER

All competing for your attention?

 

ELSA

I was naïve. I was eighteen. I’d only had one boyfriend and never got over being shy with him, so I didn’t think of myself as holding court. I just thought, Gosh, this is fun! No good dates in high school and now all of these conversations, with clever men asking my opinion about philosophy to show how sophisticated they were. At some point a mysterious stranger appeared in the doorway, wearing a black coat. He stood and listened for a minute, and when someone asked me a question—I wish I could remember what; I’ve thought of it many times—this man in the doorway said, “You don’t have to answer that.”

 

RUSH

I thought the question was intrusive.

 

ELSA

I actually wasn’t upset by the question, though I did understand what this man in the doorway meant. Then one of my couch suitors said something provocative, and the man gave a reply that infuriated them all. He said—instead of arguing, he said—

 

RUSH

I gave them a reading recommendation.

 

ELSA

And they hated it. He said, Why don’t you read such and such? Which is very annoying, of course. It’s a way of saying, “You’re not equipped to have this conversation with me.” I wish I could remember the book he recommended, though in a way it doesn’t matter, because Norman has done that so many times in his life.

 

RUSH

She means that I’ve often been aggressively, unpleasantly authoritative.

 

ELSA

Correct. Though at the time, I was smitten. I went back to my dormitory and told everyone that I’d met the man I want to be with forever. I was completely taken by his gestalt. And even later, after we’d married and departed Swarthmore, I remained this way, though when I disagreed with him, I certainly said so.

 

Rush fez setenta e sete anos a 24 do mês passado. Publicou o primeiro livro, Whites, em 1986, já depois dos cinquenta, e desde então apenas mais dois (tem o quarto quase pronto). Em parte, tal deve-se ao facto de em 1978 ter queimado tudo o que escrevera até então. Reside numa zona rural do Estado de Nova Iorque, na casa que partilha com Elsa há quarenta e nove anos. Escreve no sótão, em três máquinas de 1955 (duas Royals, uma Underwood) colocadas lado a lado (usa uma das Royals para a primeira versão do texto, a segunda para revisões, a Underwood para apontamentos). Organiza gigantescos dossiers com as características das personagens e depois permite que estas definam o rumo dos acontecimentos. Elsa torna-se leitora e revisora assim que a primeira versão da primeira vintena de páginas está escrita. Marca a vermelho as passagens que lhe suscitam dúvidas e discute-as com Norman; umas são alteradas, outras não. Diz que ele já foi mais intransigente. Norman admite embaraço por uma frase de Mating (National Book Award em 1991), que decidiu manter no texto apesar de contestada por ela (parecia-lhe inadequada a uma personagem feminina), ter sido escolhida por um crítico, em cinco centenas de páginas, como exemplo de falta de verosimilhança. Diz que Elsa é excelente a habitar as personagens. Parecem estar em paz, com a vida e um com o outro, mas nem sempre terá sido assim. Enquanto jovem, Norman era politicamente radical. Foi condenado a dois anos de prisão por recusar combater na guerra da Coreia, tendo escrito uma carta a Eisenhower explicando que era pacifista e se opunha a qualquer tipo de violência (não usou o estatuto de objector de consciência porque este implicava acreditar numa religião e ele também recusava fazer isso). Após abandonar Swarthmore com Elsa, quis que vivessem em comunas. Elsa estava grávida e detestou a experiência mas, negando-se a renunciar à visão que tivera naquele primeiro encontro (que ele era o homem com quem iria passar o resto da vida*), não desistiu. Com o tempo, foi-o transformando numa pessoa menos radical. E ele sabe-o: But I'll tell you, her patience with my arcane fiction was part of a greater patience, over a sort of battle we waged for years. Some couples don't ask much of one another after they've worked out the fundamentals of jobs and children. Some live separate intellectual and cultural lives, and survive, but the most intense, most fulfilling marriages need, I think, to struggle toward some kind of ideological convergence. I was a sectarian leftist when we met. Radicalism was essential to my self-definition. So there had to be a long period of argument and discussion before I developed, let's say, a less immanentist view of social change. Also—and this is relevant to Mortals—I was sort of a stage atheist when we first got together. I just couldn't believe religion was still happening. She had a much more humane view of the whole business. De entre os vários empregos que tiveram, Norman trabalhou como livreiro e professor e Elsa como tecedeira, designer e professora de design. No final dos anos setenta e início dos oitenta, trabalharam para o Peace Corps no Botswana, país onde decorre a acção dos três livros de Norman (o próximo passar-se-á nos Estados Unidos). Na dedicatória de Mortals, o último publicado (em 2003), que vou finalmente tirar do lugar da estante onde espera ser lido desde que as referências sempre tão admiravelmente isentas de incerteza deste filho da mãe e um preço absurdamente baixo para um calhamaço hardcover de 700 páginas me fizeram encomendá-lo à Amazon, Rush escreveu: For my Muse and Critic, with gratitude for the last ten years of extraordinary forebearance, creative impatience, unfailing love. Elsa, you are unique. Pode muito bem ser excesso de optimismo (algo de que sou culpado ainda muito mais vezes do que provavelmente se justificaria) ou distorção de leitura induzida pelo efeito conjunto do sono (passa da meia-noite) e da necessidade de ir ao oftalmologista mas vou guardar o número da revista como prova de que tanto o amor à primeira vista como o amor eterno (bom, pelo menos até à morte) são realidades humanas. E de que ambas se podem dar bem com espíritos fortes e na presença de livros. Muitos livros.
 
* São sempre as mulheres a sabê-lo primeiro e a agir de modo a que possa ser verdade. Contudo, o patamar de dificuldades que estão dispostas a suportar para manter a visão afigura-se-me cada vez mais baixo. (Com honrosas excepções, os homens nunca foram bons no campo do auto-sacrifício em nome do interesse da companheira.)

No dia em que Manoel de Oliveira festeja 106 anos

Pedro Correia, 11.12.14

 

O melhor filme português de sempre

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia 'à portuguesa', como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase "Chapéus há muitos".

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia - prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

Texto reeditado

Meu Capitão

Pedro Correia, 25.04.14

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo -- conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes -- aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga -- mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser "vanguarda revolucionária". Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.

Recordando Medeiros Ferreira

Pedro Correia, 20.04.14

 

Há pessoas que partem cedo de mais. Aconteceu há um mês, com José Medeiros Ferreira. Neste Domingo de Páscoa apetece-me recordar a excelente entrevista que concedeu em Novembro ao jornal i, muito bem conduzida pelos jornalistas Rita Tavares e Luís Claro.

Nem entrevistado nem entrevistadores imaginavam, mas esta conversa acabaria por ter o valor de um testamento. Por ser a última entrevista do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, uma das vozes mais estimulantes das últimas quatro décadas da política portuguesa.

É um documento impressionante. Tenho-o arquivado na pasta dedicada às melhores entrevistas que já li. E hei-de citá-la com frequência nos tempos que hão-de vir. Porque Medeiros Ferreira, com a inteligência e a elevação intelectual que o caracterizavam, sabia falar para um tempo que já não seria o seu.

 

Deixo aqui alguns excertos. Todos de uma lucidez arrepiante:

«Em 1992 Portugal teve a primeira presidência da União Europeia e, por essa razão e não por qualquer raciocínio económico ou financeiro, resolveu aderir ao sistema monetário europeu, cujas negociações a Grã-Bretanha tinha declinado. Portugal avançou, mesmo aceitando uma taxa de câmbio que sobrevalorizava o escudo.»

«A primeira grande talhada na competitividade internacional da economia portuguesa foi dada pelos nossos negociadores financeiros: o ministro das Finanças e o governador do Banco de Portugal, no dia 4 de Abril de 1992.»

«O governo de Guterres até fez uma missa em Madrid e disse que sobre a pedra do euro - a literatura evangélica é muito poderosa, tal como a pedra onde Pedro assentou a Igreja - era aquela sobre a qual ia assentar a União Europeia. O euro foi uma âncora continental para a Alemanha, depois da unificação, ficar amarrada à União Europeia.»

«Tenho esperança na racionalidade do comportamento internacional dos Estados. Não tenho nenhuma esperança na capacidade de previsão programática ou na capacidade ideológica de uma social-democracia em frangalhos, desde que se tornou numa espécie de colónia do liberalismo. Quando os filhos dos sindicalistas passaram a ingressar nas boas universidades ocidentais perderam a liberdade de espírito.»

 

ADENDA: não celebro o título do Benfica, mas gostaria muito que José Medeiros Ferreira, benfiquista do coração, cá estivesse para celebrar a conquista do campeonato nacional de futebol.

A ténue luz que se apagou de vez

Pedro Correia, 23.03.14

 

Nenhum político em Espanha foi tão aplaudido, nenhum político foi tão vilipendiado. Nenhum foi tão enaltecido em tão curto tempo. Nenhum acabou tão solitário como ele.

Adolfo Suárez, o homem que conduziu com habilidade florentina e uma vontade férrea a transição espanhola da ditadura para a democracia em dois anos vertiginosos, entre 1976 e 1978, morreu há poucas horas. Morrer, neste caso, talvez não seja a expressão mais correcta: seria melhor dizermos, como sugere Juan Cruz numa excelente prosa publicada no El País, que a ténue luz que ainda o iluminava se apagou de vez. A doença de Alzheimer, que lhe fora diagnosticada em 2003, mantivera-lhe relativamente incólume o corpo mas fora-lhe remetendo o espírito para parte incerta.

 

Foi um dos raros políticos que admirei sem reservas. Pela missão que levou a bom porto de reconciliar os espanhóis, incompatibilizando-se à vez com todos os sectores políticos, entre bombas da ETA e atentados extremistas cometidos a um ritmo quase diário naquele final da década de 70 por todos os inimigos da democracia, oriundos da esquerda e da direita. Sofreu ameaças de morte, foi alvo das mais torpes injúrias, mil vezes lhe vaticinaram um prematuro obituário político: ele soube resistir a todas as adversidades. Com uma assombrosa coragem física e moral.

 

 

Ficou na memória colectiva de todos os democratas -- em Espanha e não só -- aquele momento crucial, ao fim da tarde de 23 de Fevereiro de 1981, quando o Parlamento em Madrid foi tomado de assalto por oficiais golpistas armados até aos dentes enquanto decorria o debate de investidura do executivo liderado pelo seu sucessor, Leopoldo Calvo-Sotelo. Ao grito de "Todos no chão!", soltado pelo líder dos golpistas entre vários tiros intimidatórios, só dois civis se mantiveram sentados nos seus lugares do hemiciclo, sem se sujeitarem ao ditame do pistoleiro: Adolfo Suárez e o então líder comunista, Santiago Carrillo.

Aquele gesto de verticalidade do chefe do Governo cessante no que poderia ter sido o último dia da sua vida fez mais pela pedagogia democrática em Espanha do que mil discursos de cem políticos.

 

Tal como Churchill, despedido pelos eleitores britânicos no Verão de 1945, logo após ter ganho a guerra aos nazis graças à sua coragem inquebrantável, também ele recebeu guia de marcha depois de ter cumprido uma missão que parecia utópica: lançar as bases de uma democracia sólida num país que fora dilacerado pela mais sangrenta guerra civil dos tempos modernos e por quatro décadas de regime ditatorial. Uma das frases que proferiu nesses exemplares anos da transição espanhola podia bem servir-lhe de lema: "Posso prometer e prometo."

Ninguém como ele -- a par do Rei Juan Carlos -- fez tanto para pôr fim às "duas Espanhas" que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas -- numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.

Nessa altura Adolfo Suárez era já uma espécie de personagem póstuma ainda em vida. Perdeu a memória da missão histórica que desempenhou, deixou de reconhecer até os parentes mais próximos. Quando em 2008 o seu amigo Juan Carlos o visitou na residência madrilena para lhe entregar em mão a mais alta condecoração civil espanhola, limitou-se a perguntar-lhe com aquele sorriso desarmante que conservara de outros tempos: "Quem és tu?"

 

Por vezes questiono-me até que ponto degenerou a política europeia para termos deixado de ver à nossa volta homens com a envergadura de um Adolfo Suárez. Homens tocados por um sentido de elementar decência que os levam a servir da melhor maneira os concidadãos deixando as nações que governam mais respeitadas, mais dignas e mais livres. E que depois se afastam rumo ao crepúsculo, sem aguardarem honrarias nem esperarem o reconhecimento ou até a mais elementar gratidão dos contemporâneos, apesar de terem deixado a sua marca impressa no destino histórico. Bastando-lhes a convicção da missão cumprida e a certeza de terem contribuído para transformar o mundo num lugar mais habitável.

 

Leitura complementar:

Um homem já com lugar na História

Grandezas e misérias da política

As duas Espanhas

Suárez não sonhou com esta Espanha

Um bocado feio

José António Abreu, 23.03.14

É terrível ser um bocado feio. Um bocadinho não é grave, pelo menos para os homens: com um mínimo de confiança, pode transformar-se a pitada de fealdade em algo de atractivo; no detalhe que faz a diferença. (Para as mulheres é mais difícil: os gostos dos homens são limitados e as mulheres tendem a amplificar a importância de qualquer pequeno defeito, o que lhes diminui o nível de confiança e – uma coisa leva à outra – a capacidade de atracção.) Nesta sociedade assente na imagem, ser horrivelmente feio é péssimo mas, ainda assim, tem um certo pathos: a fealdade pode assumir-se, num desafio às convenções e num teste às inseguranças alheias (poucas pessoas estão confortáveis com a hipótese de serem consideradas politicamente incorrectas). Ser muito feio pode usar-se como o José Castelo Branco usa a roupa, os gestos e a maquilhagem: como que desafiando constantemente os outros a achá-lo ridículo. Lixado mesmo é ser um bocado feio. Não um bocadinho, não muito, apenas um bocado. Algo que não dê para disfarçar nem para transformar em statement. Que não provoque curiosidade (como um pouco) nem desejo de não ferir (como muito). Por mais que se faça, pelo menos sem recurso à cirurgia, nada altera significativamente a situação. É como ser chato: existe-se mas ninguém quer estar por perto. Sim, é terrível ser um bocado feio. Ou melhor: deve ser.

 

(Republicado.)

Tolice

José António Abreu, 17.12.13

Sei demasiado sobre rapazes para ter uma perspectiva sentimental a seu respeito. Também fui um deles e sei o que isso significa; ou seja, que há um tolo ou um homem apaixonado no seu interior que luta por se libertar.

Robertson Davies, O Quinto da Discórdia. Edição Ahab, tradução de Maria João Freire de Andrade.

 

Gostava de conhecer a versão original para perceber que termo foi traduzido por «tolo». Provavelmente «fool», que também serve. Julgo entender o «ou»: pode libertar-se um tolo (no sentido de parvalhão, de macho com o nível de sensibilidade de um tractor velho sacolejando uma charrua em piso empedrado*) ou um homem apaixonado. Mas, neste caso, mesmo levando em conta que a paixão nem sempre é dirigida a outro humano mas a uma causa, a um assunto, a um animal doméstico, não ocorre sempre uma aglutinação? Não é ponto assente fazer parte da condição de homem apaixonado uma boa dose de tolice? Aliás, conquanto por norma apenas se consiga percebê-lo em retrospectiva e até apenas depois de dissipados os efeitos de uns quantos actos irreflectidos, não constituirá a tolice um dos aspectos mais positivos da paixão – aquele que estilhaça a imagem construída e torna os homens (como, de resto, as mulheres) mais humanos? Nenhum cão, gato ou ave do paraíso tem capacidade para detectar tolice na forma como age quando fortemente atraído por algo. Só os humanos a têm. Só os humanos conseguem perceber que estão a ser tolos e, por conseguinte, pelo menos em teoria, deixar de o ser. Não o fazendo, os humanos constituirão até os únicos tolos genuínos. Sendo que, na sua versão mais benigna (mais leve, mais etérea, mais slapstickiana), a tolice é também o oposto do cinismo, outra característica eminentemente humana. Deixemos então claro: ser tolo é muito diferente de ser estúpido ou parvalhão. Ser estúpido ou parvalhão é sempre mau. Ser tolo é frequentemente uma coisa boa.

Ou assim espero. Até um humano ligeiramente cínico como eu precisa de ilusões.

 

* Sim, podem ficar impressionados: analogias destas vêm-me sem esforço.

Não te dignificam os homens,

Gui Abreu de Lima, 23.07.13

 

erva daninha. Não te respeitam porque é fácil ignorar-te. Sabes porque te ignoram? Porque podes mais que eles. Que basta a chuva, que aguentas o sol, que te contentas superiormente com a vida. Que és a vida. Tomaram-te os homens, erva daninha. Sem ânsias, no espaço que é teu, sorrindo ao que pisa e passa, a olhares que não te deitam e à admiração que nem te devotam. És efémera, hastezinha, e os homens temem a impermanência. Vives pouco, e não se contentam com pouco. A tua grandeza não passa das solas dos seus sapatos.

Meia-idade

José António Abreu, 18.07.13

Pergunta:

A crise da meia-idade é real?

 

Resposta:

Claro que sim. Mas:

1. Não atinge apenas os homens;

2. Não é verdade que se caracterize por estes passarem a olhar mais para raparigas novas; os homens passam a olhar (ainda) mais para todas as mulheres;

3. Ir atrás das mais novas é apenas bom senso no meio da loucura.

 

(Republicado. Não devido a qualquer post publicado ontem pelo Pedro Correia, que fique bem claro.)