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Descubram as diferenças

por Pedro Correia, em 12.07.19

 

«Entendi, por dever de lealdade institucional, informar o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República que a aprovação em votação final global desta iniciativa parlamentar [contabilização total do tempo de serviço dos professores] forçará o Governo a apresentar a sua demissão.»

António Costa, 3 de Maio de 2019, em declaração ao País

 

«Nunca farei chantagem com os portugueses dizendo que só governo nesta ou naquela situação.»

António Costa, 8 de Julho de 2019, em entrevista à Rádio Renascença

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 12.07.19

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Andrea Motis

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 12.07.19

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Ana Vidal: «Tive com ele um encontro há poucos dias, neste mesmo gabinete da Gulbenkian, onde confirmei pessoalmente a sensação que nos atravessa ao ler esta entrevista: há em Eduardo Lourenço, além das óbvias lucidez e erudição, uma afabilidade doce e uma espantosa humildade, aliadas a um sentido de humor e de divertimento muito próprio. É um conversador nato, que cultiva o prazer da troca de ideias e nunca fala "de cátedra". Um homem superior, de quem guardei uma impressão forte.»

 

Jorge Assunção: «O actual sistema de ensino superior público financiado na sua maioria por impostos já garante que os ricos tenham acesso a um ensino de qualidade a baixo preço. Basta consultar qualquer estudo sobre o assunto que este logo nos diz que as universidades públicas estão repletas de alunos da classe média/alta, enquanto os pobres, paradoxalmente, vêem-se muitas vezes relegados para as universidades privadas ou, ainda pior, nem sequer chegam a frequentar o ensino superior.»

 

Paulo Gorjão: «José Saramago declarou o seu apoio a António Costa em detrimento do seu partido e do seu candidato. A minha pergunta é muito simples: do que é que o PCP está à espera para instaurar um processo disciplinar e, porventura, expulsar Saramago? Não me digam que no PCP há militantes de primeira e de segunda?»

 

Eu: «Não consigo conceber nada mais "fraccionário" do que votar num partido diferente daquele a que se pertence - sobretudo um partido que tem sido transformado no adversário principal dos comunistas. Vou reler o Ensaio Sobre a Cegueira a ver se consigo ver melhor o alcance de tudo isto...»

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Canções do século XXI (830)

por Pedro Correia, em 12.07.19

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Arrefecimento global

por Pedro Correia, em 11.07.19

 

Este mês de Junho foi o mais frio em Portugal continental nos últimos 19 anos e o 13.º menos quente desde 1931.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.07.19

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A Aventura de um Fotógrafo em La Plata, de Adolfo Bioy Casares

Tradução de Miguel Filipe Mochila

Romance

(edição Cavalo de Ferro, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 11.07.19

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André Couto: «A candidatura do Partido Socialista recebeu esta semana dois apoios de peso vindos bem do coração do Partido Comunista. Carlos do Carmo e José Saramago são dois vultos da cultura portuguesa cujos percursos e imagem falam por si. Dois reforços importantes nesta luta que se prevê disputada até ao último voto.»

 

Ana Vidal: «Não é todos os dias que "aterramos" em Ferragudo à hora mágica do pôr-do-sol, para saborearmos uma amêijoas fresquíssimas, uns camarões igualmente deliciosos e umas sardinhas a rematar, perante uma vista de cortar a respiração. O Sueste, onde eu já não ia há uns anos, continua a servir tão bem como sempre e merece destaque, sem nenhum favor, na nossa rubrica  Esplanadas e restaurantes de praia.»

 

José Gomes André: «Ao assistir ao entusiasmo grotesco com que alguma imprensa noticia os casos de gripe A, pergunto-me com frequência se há ainda um resquício de consciência histórica nesta nossa perturbada sociedade. É que por vezes dá a ideia de que a humanidade nunca se confrontou com epidemias, e que a doença não faz parte deste mundo que habitamos.»

 

Paulo Gorjão: «O que interessa é a forma como é escolhido e nomeado o presidente da Ajutoridade da Concorrência. A análise agora divulgada reforça, caso fosse necessário, a percepção de que o processo de nomeação necessita de ser revisto. Espero que o PSD renove a sua proposta nesse sentido. Não resolveria tudo, certamente, mas criaria uma almofada adicional que permitiria reforçar a defesa do interesse comum.»

 

Eu: «Aposto que várias dessas sumidades têm nos seus cartões de visita a palavra phone – assim mesmo, à inglesa, para indicarem o numerozinho de telefone fixo ou celular. Os ingleses e os americanos são assim: não assinaram nenhum acordo ortográfico, mantêm sem complexos o PH e dão-se bem com tal grafia, que deve tudo à etimologia e nada à oralidade. Uns obsoletos – é o que eles são. E as sumidades também: já há vinte anos que nos andam a chatear com isto.»

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (23)

por Maria Dulce Fernandes, em 11.07.19
Sossego
 

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Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã, vêm às catervas, aos bandos, dezenas, centenas, milhares, turbas alacres numa arrazoada constante, numa babel de sons e tons, dialectos, cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos batalhadores, travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco o meu soldo para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela, em goles fartos, sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio de um dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos, todos os minutos de um tempo que ainda é seu.
Como um náufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.

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Canções do século XXI (829)

por Pedro Correia, em 11.07.19

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Tesouros escondidos

por Cristina Torrão, em 10.07.19

A época medieval é conhecida como a “idade das trevas”, na qual o mundo esteve supostamente parado durante mil anos, até surgir o Renascimento que, redescobrindo a Cultura Clássica, fez florescer as artes e deu os primeiros passos na Ciência. Numa das minhas publicações aqui no DO, o comentador Luís Lavoura lembrou os maus costumes medievais: um homem que assassina o irmão, encarcera um outro irmão, impõe o casamento de uma filha e, no fim, um enterro três semanas após uma morte, já com o corpo em plena putrefação. Ora, recordemos que lutas fratricidas estão longe de serem um exclusivo medieval, existem desde que o Homem é Homem; e o costume de os pais imporem casamentos às filhas estendeu-se, na nossa civilização ocidental, até, pelo menos, ao século XIX. Quanto ao enterro, poderia igualmente acontecer posteriormente.

Na verdade, a Idade Média esteve longe de ser um mundo de trevas. Esquecemo-nos que foi nesse período que se desenvolveu o estilo gótico, construindo-se esplêndidas catedrais por toda a Europa. Também foi na época medieval que se fundaram as universidades europeias, a primeira, em Bolonha, no já longínquo ano de 1088 (ainda nem existia Portugal). E já que falamos de universidades, recordemos que D. Dinis, além de fundar a universidade portuguesa, instituiu o Português como língua oficial dos documentos da corte, dando um enorme contributo para a uniformização e desenvolvimento da nossa língua. Além disso, deixou-nos lindos poemas e cantigas (sim, ele também compunha). Apesar de ter sido um rei medieval, não me parece que D. Dinis tenha vivido num mundo de trevas.

Também foi na Idade Média que se redescobriu Aristóteles - no livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, que deu origem ao famoso filme, tudo gira à volta de uma obra perdida do famoso filósofo grego. E o avô de D. Dinis, D. Afonso X o Sábio, fez de Toledo um centro de cultura, com a sua Escola de Tradutores, onde reuniu estudiosos de várias proveniências (sobretudo árabes) e se traduziram, para latim e castelhano, obras árabes, assim como (ainda com a ajuda dos muçulmanos) tratados gregos de Filosofia, Astronomia, Medicina, Matemática, Geometria e outros. Também lá se traduziram a Bíblia e o Talmude para castelhano. Afonso X fundou igualmente, na mesma cidade, um Observatório Astronómico, consciente da necessidade de estudar os corpos celestes. Como vemos, a redescoberta da Cultura Clássica, assim como os primeiros passos da Ciência, não são um exclusivo do Renascimento.

A ideia que temos das igrejas românicas (mais antigas que as góticas), escuras e sem cor, é falsa. Na verdade, as suas paredes ostentavam frescos coloridos, que se perderam ao longo dos séculos, fosse em obras de remodelação, fosse no desbotar das pinturas que não eram restauradas. A esmagadora maioria desses frescos perdeu-se para todo o sempre. Mas há vestígios em algumas igrejas, que dão uma ideia da sua riqueza.

Recentemente, uma historiadora de arte italiana descobriu um fresco medieval de cores vivas e em excelente estado de conservação, na igreja de Sant'Alessio all'Aventino, nos arredores do Circo Máximo e do Coliseu, em Roma.

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A obra, que ficou escondida atrás de uma parede durante quase 900 anos (o que contribuiu para o seu estado de conservação), retrata Jesus Cristo e Santo Aleixo. Uma parte da pintura continua escondida pela parede, que, por questões de segurança, não pôde ainda ser removida.

As igrejas medievais, afinal, tinham muita cor. E havia excelentes artistas.

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Ler em férias

por Pedro Correia, em 10.07.19

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O Sapo, muito simpaticamente, quis saber que livros levarei para estas férias e que leituras posso recomendar.

Respondi assim:

 

Este ano tracei como meta essencial ler autores portugueses – designadamente romances e novelas do século XX. Assim, na bagagem para férias levarei três livros que há muito constam da minha lista: A Casa Grande de Romarigães (Aquilino Ribeiro), A Torre da Barbela (Ruben A.) e Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde (Mário de Carvalho). Pena não encontrar em lado nenhum Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco – há muito esgotado. Seria o quarto volume a incluir na bagagem.

Seguindo o mesmo raciocínio, recomendo três romances de autores portugueses editados pela primeira vez no século XX: A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e Hotel Lusitano, de Rui Zink. Cada qual a seu modo, são três livros em que o tema férias está presente. Férias no campo, com Eça. Férias na praia, com Sena. Férias em Lisboa, com Zink. Três formas de ver Portugal. E de aproveitar muito bem o tempo.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 10.07.19

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Um Passeio pela Europa, de Fernando d' Oliveira Neves

Reflexões

(edição D. Quixote, 2019)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 10.07.19

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Ana Vidal: «O velho Restinga que conheci era como está na fotografia. Agora, presumo que para a versão Allgarve, foi todo remodelado e ainda não fui lá depois disso. Espero que não tenham remodelado também os mágicos da cozinha, porque esta esplanada despretensiosa era um dos melhores restaurantes de peixe de todo o barlavento algarvio.»

 

João Carvalho: «Está visto que Ari Vatanen respeita Max Mosley, mas não é um 'maxista'.»

 

Paulo Gorjão: «O PS não ignorava a líder do PSD, mas José Sócrates, salvo raras ocasiões, nunca mencionava o nome de Ferreira Leite. O caso mudou de figura no dia seguinte às eleições europeias. Agora Ferreira Leite é o alvo a abater. O mais pequeno deslize, a mais leve gaffe, enfim, qualquer pretexto servirá para salientar as suas contradições, sejam elas verdadeiras ou não.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Longe da elegância e altivez do cherne, o polvo tem aspecto gelatinoso, é viscoso, com os seus tentáculos não se importa de tocar vários instrumentos, adapta-se facilmente aos ambientes, muda de cor conforme a ocasião, e servindo de pretexto para reunir os amigos à volta de uma mesa, permite mil e um manjares, dos mais populares aos mais sofisticados.»

 

Eu: «Expressões que detesto (24): "Arco constitucional".»

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Canções do século XXI (828)

por Pedro Correia, em 10.07.19

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Quotas da discórdia

por José Meireles Graça, em 09.07.19

O Pedro Correia, decerto por achar que o Delito está com um excesso de prestígio que urge empanar, convidou-me para integrar o plantel. Seria normal que me apresentasse, mas não o faço por haver já uma plétora de vaidosos no espaço público e o amor da verdade me obrigar, falando de mim, a referências encomiásticas. As quais, mesmo estando cobertas pela liberdade da minha opinião, que naturalmente respeito, suscitariam porventura alguma rejeição dos leitores menos esclarecidos.

 

Prefiro republicar um texto (acolhido no cantinho discreto da blogosfera onde há anos me alivio de ódios e aversões) sobre a indignação da semana. Ei-lo:

 

Nunca aceitei, nem aceito voluntariamente, as quotas para mulheres – nos cargos resultantes de eleições, nos de direcção de empresas e em todas as situações em que estejam sub-representadas e essa sub-representação seja apresentada, com boas ou más razões, como advinda de preconceitos.

 

Não é que, no mercado de trabalho ou na dura competição pela obtenção do poder político, elas não tenham objectivamente handicaps, sobretudo se tiverem ou quiserem ter filhos. É que, legalmente, a condição de mulher já está reconhecida como de perfeita igualdade em direitos e portanto o inegável surgimento de mulheres em lugares de mando é uma legítima conquista fundada no mérito. Tão pacíficas hoje, a evolução e o mérito, que ninguém no espaço público e na opinião defende uma marcha-atrás nos direitos cívicos das mulheres, ou na igualdade entre os sexos, nem torce o nariz quando uma delas atinge lugares de topo, senão pelas mesmíssimas razões que torceria se fosse um homem – isto é, por se tratar de uma imbecil, ou ignorante, ou esquerdista, ou fascista, ou outra coisa qualquer que não tem nada a ver com sexo e tudo com ideologias, crenças, práticas e discurso.

 

Dito de outro modo: eu acho a senhora Úrsula von der Leyen um perigo e a senhora Lagarde uma estrela pop, uma por ser federalista e a outra por ser um saco de vento inconstante e superficial. Mas nada permite supor que desempenharão pior papel do que qualquer dos seus colegas, visto que na alta roda do funcionalismo supranacional não há falta de homens com aquelas características: lembremo-nos de Guterres, tão oco e esponja de ideias boazinhas que andam no ar que para ser ainda mais politicamente correcto só lhe falta usar saias, ser gay e vegan, tudo a tempo parcial. A tempo completo, continua a ser o perfeito patarata verboso que foi toda a vida.

 

Pois bem, o sistema de quotas para mulheres tem dois problemas:

 

Um é o de que, se uma mulher chega a um lugar por ser mulher e não por ser melhor do que qualquer outro candidato, a qualidade do desempenho só pode, se a lógica não for uma batata, ressentir-se. É certo que o preconceito pode, em circunstâncias iguais ou parecidas, fazer pender a balança para o lado dos homens, sobretudo se quem decide tiver, como muitos provavelmente terão, preconceitos inassumida ou inconscientemente misóginos. Sucede que confiar na evolução dos costumes é um caminho seguro – dificilmente farão marcha-atrás se entregues a eles próprios; mas acreditar na engenharia social e nos poderes do Estado para os reformar pode despertar, e desperta quando não haja consenso, a reacção dos que foram derrotados circunstancialmente – quem manda e legisla hoje são uns e amanhã outros. Tenham paciência, senhoras, o caminho da engenharia social é reversível.

 

Outro é o do precedente: se as mulheres estão insuficientemente representadas nos lugares de topo porque neles não figuram na mesma proporção que no conjunto da população, o mesmo raciocínio se pode aplicar a outros cidadãos com marcas distintivas já não de sexo mas de orientação sexual (gays ou lésbicas, p. ex.), origem étnica (pretos, ciganos, asiáticos, etc.), religião (muçulmanos, ateus, protestantes sortidos, etc.) e o mais que se queira que permita identificar um grupo social qualquer que não esteja, ou não se ache, adequadamente representado. E, é claro, se incluirmos no leque de instituições as do ensino, porque sem graus académicos numerosas carreiras estarão vedadas, então é apenas uma questão de tempo até termos quotas para homens, porque estes já estão hoje insuficientemente representados na maior parte dos graus de licenciatura.

 

Ou seja, a derrogação do princípio todos iguais perante a lei, por generosa que pareça a bandeira sob a qual se acolhe (feminismo, anti-racismo, igualitarismo, etc.), é grávida de uma interminável guerrilha com vencedores hoje que serão os derrotados de amanhã, e abre uma porta de conflitualidade dispensável. E não se julgue que o facto de as mulheres serem a maioria impede qualquer reversão das conquistas do feminismo assanhado: porque precisamente porque as mulheres não são inferiores aos homens e não têm menos discernimento na avaliação das políticas públicas é que, a prazo, julgarão com severidade todas as distorções que, em nome delas, se operaram pela longa e intrusiva mão do Estado.

 

Maria de Fátima Bonifácio, em artigo no Público de sábado passado (disponível apenas para assinantes), verbera este estado de coisas e manifesta-se contra as quotas para negros e ciganos a propósito das declarações de um tal Rui Pena Pires, secretário nacional do PS, que terá expectorado: “O PS quer discriminação positiva para as minorias étnico-raciais” e “Se fizermos uma política de alargamento de acesso ao ensino superior, já resolvemos parte do problema. Não faz sentido ter um ensino virado para os melhores alunos, mas sim para todos os que têm as condições mínimas para entrar”.

 

Por outras palavras: o PS quer votos cativos de pretos e ciganos e para o assegurar está disposto a meter no Parlamento, e eventualmente no governo, algumas personagens daquelas etnias que poderão até não fazer má figura, tendo em conta que num e noutro órgão do que não há falta é de personagens especialistas em patacoadas interesseiras e bons amplificadores de disparates bem-pensantes. Mas isto é o menos: abandalhar o grau de exigência do ensino (não há recursos para meter todos, e por conseguinte dar preferência a uns implica excluir outros melhores, para já não falar de uma discriminação ilegal à luz da Constituição, se bem lida) tem um custo oculto: as nossas pobres elites, cuja qualidade está ligada em parte à do ensino superior, levam mais um golpe.

 

Portanto, eu estou com Maria de Fátima Bonifácio. Mas apenas nas conclusões. Sobre os pressupostos, Rui Rocha escreveu no Facebook o seguinte:

 

Em artigo publicado hoje, Maria de Fátima Bonifácio afirma a não descendência (?) de africanos e ciganos da Declaração dos Direitos do Homem. Isto é usado para recusar um sistema de quotas. Mas, se admitíssemos o argumento, este serviria facilmente para negar-lhes também esses mesmos direitos fundamentais. Porque não “descendem”, teríamos que aceitar, por exemplo, que não se lhes aplica o princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais. Aceitar esta tese abre a porta a um inquietante relativismo moral que parece ser, aliás, aquilo que Bonifácio queria combater. A proposta de quotas deve ser discutida a partir do entendimento sobre os princípios da liberdade e da igualdade, mas nunca da “descendência” ou não de valores fundamentais e universais”.

 

Subscrevo, ainda que qualificasse a “igualdade” acrescentando-lhe “perante a Lei”. E acrescento: O Estado não pode nem deve tolerar comportamentos e práticas que, em nome do multiculturalismo, ofendam valores axiais (com perdão da palavra) do tipo de sociedade que temos, desde logo a igualdade entre os sexos ou a liberdade de expressão da opinião, por exemplo. E isto sem complexos, porque comportamentos não são opiniões, salvo quando estas consistam no incitamento à prática de crimes. Opiniões, cada um tem as que tiver e é livre de as exprimir porque não é a mesma coisa ter opiniões racistas (que são perfeitamente legítimas, tanto como acreditar que a terra é plana, o comunismo o fim da História, ou outro disparate qualquer) e agredir, desconsiderar ou por qualquer forma discriminar um negro; e pode achar-se, e até acreditar por razões religiosas, que a excisão genital feminina é algo de positivo para a coesão social, mas isso não deve impedir que quem a recomende e pratique seja criminal e severamente punido.

 

Por mim, estou certo de que não é cientificamente defensável que por causa de características físicas genéticas haja alguma espécie de superioridade ou inferioridade de algum grupo humano, a viver entre nós ou algures; mas isto não é a mesma coisa que imaginar que todas as culturas se equivalem. Se fosse o caso, todo o progresso social seria impossível porque não haveria em nome do que mudar. E não estou certo, ao contrário de Fátima Bonifácio, que a integração de certas comunidades seja impossível: a tolerância em relação a comportamentos ofensivos dos valores que temos como essenciais, sob o pretexto da neutralidade cultural, é que pode atrasar a integração; e a discriminação positiva também, por ser o reverso da mesma moeda.

 

Finalmente, no dia seguinte o director do Público achou útil publicar um editorial lamentável, em que pede desculpa aos leitores por, em nome da pluralidade da opinião, dar guarida a um texto com “proximidade a teses racistas e xenófobas”.

 

Em vez de qualificar erroneamente um texto que tresleu, teria feito bem em não dizer nada ou, no máximo, esclarecer pela milionésima vez que a liberdade de opinião ou serve para exprimir pontos de vista dos quais se discorda ou não serve para nada.

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«Essa»

por Pedro Correia, em 09.07.19

 

«Essa».

Foi nestes elegantíssimos termos que Rui Rio se referiu ontem à ex-ministra da Justiça e ex-dirigente social-democrata Paula Teixeira da Cruz, respondendo a uma pergunta de Miguel Sousa Tavares no Jornal das 8 da TVI.

Para não haver dúvidas, transcrevo a frase na íntegra: «Acho que essa até disse "tirano", salvo erro, ahahah...»

Há pormenores que definem uma pessoa. Às vezes basta uma palavra. Um simples pronome demonstrativo, como é o caso. Rio definiu-se nesta palavra com que brindou em directo, num dos principais telediários portugueses, uma senhora - sua companheira de partido.

Como se estivesse lá em casa. Ou no café.

 

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É este um líder da oposição?

por Pedro Correia, em 09.07.19

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1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 09.07.19

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A Guerra, de Fernando Reis Lima

Memória de um ex-combatente em Angola 1961-1963

(reedição Modo de Ler, 2.ª ed, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 09.07.19

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André Couto: «Governar não é estar sentado no trono, é lutar a cada hora, a cada dia, nos vários terrenos que nos surgem. E quando o espírito é grande, a batalha faz-se onde cada homem quiser.»

 

Jorge Assunção: «Acho que Ferreira Leite está na campanha errada. Ela queria mesmo era candidatar-se a líder do Partido Socialista.»

 

Paulo Gorjão: «João Gonçalves hoje foi à província comer sardinhas. A bloga é que pagou a factura e não houve piropos para ninguém. Até o coração mais empedernido fica incomodado com isto. Pessoalmente espero que as sardinhas sejam uma merda. Assim o João Gonçalves continua a querer adoptar uma cabra selvagem.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Felizmente que ainda há muitos magistrados compreensivos e trabalhadores que se assumem como titulares de órgãos de soberania e não como meros funcionários sindicalizados que julgam das 9 às 17.»

 

Teresa Ribeiro: «Para mim foi um choque descobrir que a mulher que contestou a subalternização feminina de forma tão veemente foi, desde o primeiro encontro com Sartre, reduzida ao estatuto de sua escrava. Coseu, cozinhou e lavou roupa para ele e, pior ainda, nada fez para sair da sua sombra em termos de carreira, quando tinha, reconhecidamente, capacidade para o fazer.»

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Canções do século XXI (827)

por Pedro Correia, em 09.07.19

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