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Longe demais

por Teresa Ribeiro, em 07.07.15

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As pessoas deixam rasto. Os animais sabem-no bem. Os animais e as mães. As boxers que ficaram esquecidas na roupa suja, a caneca ainda com um resto de leite, a cama desfeita, o rasto morno da ausência sente-se no ar.

O som dos passos e da voz, que é a brisa do corpo, o doce marulhar que assinala a presença de gente que se ama, quando desaparecem alteram o sentido das coisas. O quarto desarrumado, antes cheio e vibrante passa a ter apenas destroços, farrapos de objectos sem utilidade, ao passo que as não-coisas ganham importância: o lugar onde esteve a mala, o lugar onde se sentou, o sítio que...

As memórias, essas horrorosas que servem para tapar os buracos da existência, vão saindo do armário ordenadas, à medida que o tempo avança depois de uma despedida. Aos poucos ocupam os seus lugares, substituindo o real pelo imaginário e um filho passa a ser o que é durante quase todos os dias do ano: o retrato de um filho, ou a imagem via skype de um filho. Algo assim. Inodoro, intangível, pixelizado. De palpável fica aquela dor enquistada e a inveja das famílias que crescem juntas, que podem dar-se ao luxo de crescerem juntas.

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Escutas - 8

por Teresa Ribeiro, em 20.06.15

No elevador:

- Ontem anunciei aos meus filhos que ia ficar sem emprego. E sabes como é que reagiram?

- Como?

- Parecia que estavam combinados. Trocaram olhares, deram um pulo e gritaram: "Yes!!!"

- Tadinhos. Mal te viam...

- Pois.

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Escutas - 7

por Teresa Ribeiro, em 17.06.15

Ao telefone:

 

- Então e o Sebastião, já melhorou?

- Tive que ir outra vez com ele à clínica, mas disseram-me para não me preocupar, que isto agora vai com o tempo.

- Com mais uns miminhos ele arrebita, vais ver.

- Tem passado todas as noites comigo.

- E o Luís não se chateia?

- Diz que ele ressona, nunca está quieto e larga muito pêlo. Mas já o pus à vontade. Se quiser, que vá dormir para o sofá.

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Escutas - 6

por Teresa Ribeiro, em 16.06.15

Na esplanada:

- Agora, quando eu e o João estamos juntos quase não falamos.

- Isso não é bom.

- A questão é que não sei. Às vezes sinto-me bem por não ter que puxar assunto.

- Ah, então não é bom, é óptimo. Significa que já são íntimos.

- Não sei se é intimidade, se é desinteresse.

- Mas quando estão calados ficam aborrecidos?

- Não. Ficamos a jogar no telemóvel.

- Então não percebo qual é o teu problema.

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Escutas 5

por Teresa Ribeiro, em 14.06.15

No restaurante:

- Dantes dizia-se "ele é mulherengo, mas tem bom carácter". Agora diz-se "ele tem bom carácter mas é mulherengo".

- Ainda se pratica o relativismo o moral.

- Sim, mas já não se perdoa.

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Efeitos perversos da cultura azul cueca

por Teresa Ribeiro, em 10.06.15

Ela está reformada, agora não faz nada. Como a reforma é curta, dispensou a mulher a dias, de modo que para se ocupar limpa e arruma a casa, faz as compras, o almoço, o jantar e apoia a filha, que trabalha muito, ajudando as netas a fazer os trabalhos da escola e acompanhando-as ao ballet.

Ele também se reformou. Agora passa o tempo a dormir e a ver televisão. Ainda apareceu algumas vezes nos jantares de confraternização que os colegas organizam todos os meses, mas depois chateou-se. As piadas eram sempre as mesmas, as recordações partilhadas iguais. A verdade é que já não lhe apetece sair de casa. Os médicos diagnosticaram-lhe há pouco tempo uma depressão.

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O estado da arte da Arte?

por Ana Lima, em 13.05.15

Arte hoje.jpg

 Cartoon

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Bullying, disse ela

por Teresa Ribeiro, em 19.04.15

E disse bem. Só que não estamos sequer a falar de um episódio passado entre crianças, ou adolescentes, ou gente rude. Não, isto aconteceu num hospital, por ordem de gestores hospitalares e com a colaboração de médicos. Ficámos também a saber que não foi caso único. A moda pegou no Serviço Nacional de Saúde.

Pelos vistos é assim que querem acabar com as mamas no Estado. Alguém lhes explique o que é uma metáfora e já agora o que é a decência. 

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Escutas - 4

por Teresa Ribeiro, em 18.04.15

No metro

- Eu bem podia pôr um anúncio a pedir emprego numa dessas páginas em que as pessoas se oferecem para ter relacionamentos: "Jovem licenciada em Biologia bem parecida solteira e sem filhos deseja casar-se com a profissão a qualquer preço".

- Eheheh! Experimenta. Hoje em dia valorizam muito a criatividade.

- É fora da caixa, não achas?

- Totalmente fora da caixa!

 

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Isto sim, é notícia

por Teresa Ribeiro, em 16.04.15

CEO diminui ordenado em 90% para aumentar (desculpem o anacronismo)... trabalhadores.

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Jornalista durante duas horas

por José António Abreu, em 09.04.15

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Rui Moreira surge apenas para almoçar e é mais alto do que parece na TV. José Alberto Carvalho está na plateia desde o início e é mais baixo do que parece na TV. Na mesa, Nuno Garoupa afiança que «o Porto é o início desta saída de Lisboa», Pedro Magalhães fala no «lado escuro e no lado claro da tecnologia» e David Lopes debruça-se sobre uma das frases expostas nas paredes (Login, logo existo?) enquanto ao seu lado, muito adequadamente, os outros dois usam os smartphones pousados sobre a mesa. No que me diz respeito, não sei bem o que estou aqui a fazer.

 

A culpa é do Pedro Correia. Contactado para saber se o Delito gostaria de estar presente na conferência de imprensa de apresentação do quarto encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), a realizar no Porto no dia 12 de Junho, perguntou-me se estaria disposto a ir. Nos breves e inconsequentes devaneios que em adolescente tive com a profissão de jornalista entravam mais visões de Cary Grant em His Girl Friday (e de súbito apetece-me falar sobre Rosalind Russell mas vou resistir ou não escrevo mais nada sobre a conferência) e de Robert Redford em Os Homens do Presidente (também havia Dustin Hoffman mas eu identificava-me mais com o gajo giro) do que de almas penadas, precárias e mal pagas sentadas em cadeiras desconfortáveis recolhendo informação previamente formatada para lhes evitar esforços cerebrais e – mais inconveniente – assomos de curiosidade. Ainda assim, respondi-lhe que iria. Afinal, respeito o trabalho e as ideias de Nuno Garoupa, de quem li O Governo da Justiça, e de Pedro Magalhães, que costumava ler no Margens de Erro (notícia em primeira mão: ele promete reactivá-lo antes das legislativas). Além disso, haveria almoço.

 

E lá fui então hoje assistir à conferência de imprensa na Casa da Música, no preciso dia em que se iniciam as comemorações dos seus dez anos de actividade (uma «feliz coincidência», segundo David Lopes, da Comissão Executiva da FFMS). O tema do Quarto Encontro da Fundação (o primeiro fora de Lisboa – daí a frase de Garoupa) é: Admirável Mundo Novo: o Futuro Chegou Cedo Demais? Como seria de esperar, no pequeno auditório do espaço CiberMúsica (ciber, estão a ver? Tudo é pensado ao mínimo detalhe) houve referências a Aldous Huxley, que, graças a tecnologias outrora impensáveis mas hoje banais, surgiu mesmo no ecrã (evidentemente, havia um ecrã), no excerto de uma entrevista de 1958. Infelizmente (até a tecnologia comprovada tende a falhar nos momentos mais inconvenientes), a qualidade sonora correspondia mais a uma entrevista efectuada nos tempos da grafonola, quase nada se entendendo, mas Pedro Magalhães prometeu que os problemas estarão resolvidos no encontro, a realizar na maior e – todos o sabem – acusticamente perfeita sala Suggia. Por sorte ou competência (em Portugal, costuma ser a primeira; neste caso, é possível que seja a segunda), na documentação em papel (esse meio obsoleto) a frase lê-se sem problemas e até se encontra traduzida: O que eu acho é que não devemos ser apanhados de surpresa pelo avanço da nossa tecnologia. Isto aconteceu vezes sem conta na História com o avanço tecnológico, que por sua vez muda as condições sociais, e de repente as pessoas encontram-se em situações que não anteciparam e a fazer todo tipo de coisas que, afinal, nunca quiseram fazer. Ou seja, por muito que eu ande para aqui a divagar, o tema é sério e actual. Genericamente, o encontro será constituído por quatro blocos, versando sobre:

- A «pegada digital» que deixamos online, as questões dos comportamentos e da privacidade;

- As consequências das evoluções tecnológicas nas áreas da bioengenharia, da cibernética, da inteligência artificial e da sensorização da realidade;

- Os efeitos na sociedade (e, desde logo, no mercado de trabalho) das mudanças na produção de bens e serviços decorrentes de avanços nos sistemas de informação, na automação e na impressão 3D;

- As implicações das novas tecnologias na cidadania e nos sistemas políticos.

Entre os participantes, contam-se pessoas como David Brin (autor, entre outros, dos livros The Transparent Society e The Postman – o qual, na transposição para o cinema, permitiu novo tour de force a Kevin Costner, sem dúvida um dos melhores actores inexpressivos da história de Hollywood), Evgeny Morozov (redactor da New Republic e autor de livros como To Save Everything Click Here: The Folly of Technological Solutionism), Tyler Cowen (economista, colaborador dos principais jornais americanos e autor do blogue Marginal Revolution), Bruce Sterling (crítico, colaborador da Wired e autor de vários livros, entre os quais alguns dos mais importantes romances de ficção científica das últimas décadas) e, suponho que para demonstrar que a tecnologia não é tema exclusivo do género masculino, cinco – ou seis, que falta anunciar um nome – mulheres (em vinte participantes). Por exemplo, Ellen Jorgenson, directora executiva do Genspace, um laboratório dedicado à promoção da ciência e do acesso dos cidadãos à biotecnologia (aqui numa Ted Talk, apresentando o Genspace). Quem estiver interessado («não é cedo demais para marcar lugar no futuro», alertou David Lopes, usando mais uma das frases publicitárias) pode consultar o programa no site oficial. A inscrição custa 15 euros mas inclui almoço, servido no parque de estacionamento subterrâneo da Casa da Música (Lopes garante que a tecnologia o transformará num local onde os comensais poderão sentir-se na serra ou em frente ao mar mas eu, que conheço o local e também já estive em serras e junto ao mar, permaneço céptico). Extra programa, será possivel assistir à gravação da emissão da semana do Governo Sombra. Quem não quiser – ou não puder – estar presente poderá seguir as intervenções via streaming e a TVI24 providenciará ampla cobertura, sendo José Alberto Carvalho uma espécie de «mestre de cerimónias» do encontro (novamente, David Lopes dixit). 

 

E pronto. Acho que é tudo. Ah, não, também por lá encontrei colaboradores de outros blogues. São detestáveis. Mas o almoço estava óptimo.

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Gestores portugueses

por Teresa Ribeiro, em 08.04.15

Segundo este estudo, os piores gestores da UE moram em Portugal e na Grécia, os membros mais vulneráveis e aflitos da união monetária. Falando dos nossos gestores, que é o que mais nos interessa, gostaria de saber o que resultaria da comparação entre a qualidade dos que temos e a dos que saíram para trabalhar fora.

Só posso especular, mas não duvido que se esse estudo comparado existisse indicaria duas coisas: que não temos nenhum problema genético, nem tão pouco ao nível da formação académica (há escolas superiores de gestão portuguesas no topo dos rankings internacionais). 

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Férias da Páscoa

por Teresa Ribeiro, em 06.04.15

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"Pai! Pai! Pai!" Era uma urgência, um clamor, mas sobretudo uma disputa com a irmã, pouco mais velha, talvez com uns nove anos. De temperamento menos nervoso, ataviada com a roupa de sair com o pai, a menina falava baixinho. Tão baixinho que o pai tinha de se curvar até quase roçar a cabeça dela. "Hã? Repete lá!" Em volta o miúdo sitiava-os, inventando números de circo. "Não te pendures aí, podes cair!" A voz do adulto saía controlada. Era a voz de passear os filhos em público.

"Pai! Pai! Pai!" E agora abanava-o, para o desviar dos sussurros da irmã. Mas a menina ignorava-o, prosseguindo a sua história interminável em surdina. Sem nunca perder a consciência de que estava a ser observado por estranhos, o homem tentava partir-se em dois, evitando acusar sinais de impaciência. Os garotos, também sem perder a consciência de que estavam a ser observados por estranhos, tentavam tirar o máximo partido da situação, esticando-o como se fosse uma corda. Cada um a puxá-lo pela sua ponta e um risco ao meio do terreno.

- Pai! Pai! Pai!

- Não grites, não vês que incomodas as pessoas?

Sempre em tom civilizado, desta vez com a menina a prender-lhe a cintura, tentava acalmar o filho, mas este continuava num desatino, a lutar contra o tempo, porque o comboio estava a chegar e antes que viesse ele queria, mais que tudo no mundo, ele queria, queria, queria que o pai o visse.

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Losers

por Teresa Ribeiro, em 28.03.15

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Loser é um insulto que ouvimos com tanta frequência nos filmes e séries de tv americanas que mais parece um tique de linguagem. Entre nós "és um falhado" pode dizer-se, mas não andamos por aí a ouvi-lo na rua. Imagino-o a aplicar-se só em contexto dramatico-telenovelesco e mesmo assim em privado. Parece que não, mas soa mais pesado que um vulgar "és um merdas", algo que facilmente concebemos ouvir alguém proferir à porta de um café ou em frente a um grupo de amigos. Há até quem use o impropério com bonomia "anda cá meu merdas, dá cá um beijinho". E quem diz este, diz outros, até mais cabeludos.

A diferença entre este género de insultos e o estrangeirado "és um falhado" está logo à partida na forma como os pronunciamos. A emoção que carrega o nosso vernáculo retira-lhe conteúdo, pois é sabido que o que dizemos com raiva não corresponde necessariamente ao que pensamos. Loser, sempre o senti, possui a frieza de um golpe de arma branca. Começa no tom, que não é de raiva, mas de desprezo. Não julga o carácter, mas a capacidade de sobrevivência. É um chumbo numa sociedade onde ter sucesso e ser popular é tudo. E é aqui que se chega à questão da filiação ideológica do vitupério americano. Loser é um anátema. Corporiza tudo o que não se quer ser numa sociedade que odeia falhados.

Claro que também por cá não nos faltam recursos linguísticos para humilhar o próximo. A diferença que por enquanto existe entre uma sociedade como a americana e a nossa é que ainda não é compulsiva, mecânica e massiva a utilização do insucesso como arma de arremesso. Mas tudo indica que estamos quase lá. Há dias, no cinema, um anúncio a uma aplicação para telemóvel rematava com o icónico vocábulo. "Loser", assim mesmo, sem tradução. Para que o conceito passe com toda a sua força expressiva e fique.

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Da indignação

por José António Abreu, em 27.03.15

O aspecto mais curioso na sociedade que busca incessantemente motivos para se indignar (aquela onde vivemos) é ser cada vez mais difícil prever quais os temas que gerarão maior desagrado. Como seria de esperar, a política, especialmente em anos de crise, funciona bem. A religião, evidentemente, também é quase sempre óptima a catalisar ódios reprimidos (um paradoxo?). O futebol, claro, permanece excelente a fazer com que opiniões contrárias ou pequenas provocações pareçam ataques pessoais indesculpáveis. Mas existe uma miríade de outros temas que, na sequência de uma piada seca ou de um adjectivo dúbio, têm um inesperado potencial para desencadear fúrias quase homicidas (o advérbio pode não passar de optimismo deslocado). Que num dado momento todos se afirmem Charlie não passa, evidentemente, de reacção condicionada pelo horror, pela força da opinião dominante e por défice de auto-análise. Dias, horas depois, regressa a indignação por tudo aquilo que não parece bem ter sido dito, ou feito, ou até pensado. Na política, isto tem consequências preocupantes: como já foi escrito, Churchill (inconveniente, irónico, fumador, gordo)  nunca seria eleito nos dias que correm. Em contrapartida, Hitler ou Estaline (convictos, sem pinga de humor inconveniente - quase um pleonasmo -, tão indignados quanto a generalidade da população) poderiam muito bem ganhar eleições. Paulo Tunhas escrevia no Observador há um par de semanas: A seguir ao futebol, o desporto da indignação é certamente o desporto mais noticiado em Portugal. É também o mais praticado, mesmo fora das redes sociais e dos meios de comunicação (em ambiente familiar ou laboral, por exemplo). E podia ao menos servir de catarse (J. G. Ballard defendia que não se procurasse eliminar a violência associada ao desporto porque fazê-lo levaria a explosões menos previsíveis) mas creio que nem isso sucede. Revela-se apenas esgotante, para todas as partes envolvidas, e faz com que muitos prefiram não se expor. Subsistem, por um lado, os clichés e, por outro, o ruído e os especialistas no mesmo.

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Intolerâncias

por José António Abreu, em 25.03.15

Alastram, são cada vez mais assumidas, tornam-se moda. Quem, há vinte ou trinta anos, ouvira falar da intolerância à lactose ou ao glúten?

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Estou com ela

por Teresa Ribeiro, em 22.03.15

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Quem está contra a lista de pedófilos alegando que impõe medidas que na prática funcionam como a prorrogação de penas já cumpridas, certamente não ignora que estes criminosos por regra reincidem.

Numa situação em que não é possível proteger com igual eficácia vítimas e agressores, é razoável privilegiar os direitos das primeiras, sobretudo se forem, como é o caso, especialmente vulneráveis. Fernando Negrão, presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República, disse a propósito desta polémica que "o Direito não pode ser imóvel, tem de apresentar soluções novas". Assino por baixo.

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O sucesso orwelliano

por Teresa Ribeiro, em 21.02.15

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Valoriza-se muito o acesso à cultura no seio familiar para justificar as desigualdades que existem à partida entre crianças em idade escolar e nunca se discute o acesso a competências funcionais que, mais que os livros, são determinantes para a sua evolução.

Agora que tanta importância se atribui à inteligência emocional, algo que se determina muito precocemente na vida, devíamos estudar melhor esse campo para perceber porque é que alguns aplicam com êxito nas relações que estabelecem com os outros os princípios que defendem os livros de auto-ajuda sem alguma vez os terem consultado e outros se afogam nessa literatura, em sessões de psicoterapia, pílulas da felicidade e sabe-se lá que mais sem nunca alcançarem os efeitos desejados.

A prova de que motivações para alcançarem o sucesso não faltam a estes falhados é que o negócio dos livros de "aprenda-você-mesmo-a-ser-o-máximo" é um negócio de milhões. A conclusão que muitos tiram depois de anos de psis, prozacs e leituras do género é que a dificuldade não está em assimilar a teoria, mas em levá-la à prática com autenticidade. Não há nada mais patético do que ver um triste a tentar ser engraçado ou um tímido a dar-se ares de predador. A autenticidade fareja-se.

Não é preciso ensinar a crianças da pré-primária quem são os líderes naturais da turma. Os traços de personalidade identificam-se na primeira infância. Nascemos com tendências comportamentais genéticas que rapidamente desenvolvemos ou atrofiamos conforme o teatrinho familiar em que nos achamos inseridos. O optimismo, o pessimismo, o sentido de humor, a autoconfiança, a insegurança, a coragem, o medo, a violência, a inveja ensinam-se. E são esses ensinamentos que ficam, que nos ficam para a vida. Nestes tempos de facebook constatamos invariavelmente que pessoas que não víamos há décadas "não mudaram nada" e é a essa massa de pizza que nos referimos, não aos ingredientes que lhes juntaram ao longo dos anos.

Tal como as diferenças de acesso à cultura, também estes diversos níveis de acesso precoce à alegria, à tristeza, ao medo, à confiança, etc, deviam ser estudados para não se cometerem tantas injustiças na avaliação que fazemos dos outros. Quando não existia tanta pressão para sermos iguais na resiliência, optimismo, pro-actividade e competitividade, os falhados ao menos podiam levar uma vida mais sossegada. As diferenças aceitavam-se com naturalidade e conviviam bem. Não duvido de que o aumento exponencial de casos de depressão que se verifica nos últimos anos no mundo ocidental tem a ver com o sentimento de exclusão que a "felicidade" orwelliana inspira nos que por natureza não são tudo o que hoje se deve ser, ou pelo menos parecer.

Há dias encontrei na net a reprodução online de uma entrevista que a conceituada professora de Neurologia Teresa Paiva deu em 2010, à revista das Selecções do Reader's Digest. Não duvido que se deve à sua formação científica e longa experiência profissional ter falado de si e do seu sucesso nos seguintes termos:

"Como não me fiz a mim própria, como não me escolhi, não tenho uma particular vaidade de dizer que sou assim ou assado. Não sei se devemos ficar muito orgulhosos por ter feito uma coisa; no fundo temos essa potencialidade. Esta humildade é importante tê-la".

Pois. Quanto mais se estuda o cérebro, mais se percebe até que ponto o "hardware" e o "software" se condicionam mutuamente. Onde começa e acaba o verdadeiro mérito de se ser assim ou assado é certamente uma das questões que ficam no ar para quem mergulha nesta área do conhecimento.

Ela disse "humildade"? Aí está uma palavra proscrita. Deviam dizer-lhe que na novilíngua orwelliana é um conceito que não existe.

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A violência mais cobarde

por Teresa Ribeiro, em 03.02.15

São machos traídos pela vida e que descontam na mulher e nos filhos todo o ódio acumulado desde a infância por culpa dos pais, dos tios, dos irmãos, dos colegas, dos professores, dos vizinhos, das namoradas, dos patrões e do raio que os parta.

Mais do que acusá-los, puni-los e dar visibilidade aos seus crimes era importante chamá-los pelos nomes. Um macho que gosta de arrear na mulher e nos filhos chama-se cobarde. Em todas as línguas.

Depois da censura social dos actos - coisa ainda tão inacreditavelmente recente - era importante avançar para o enxovalho social dos sujeitos, usando a terminologia que melhor entendem. Ora a um macho que é macho o pior que podem chamar é cobarde. Gostei da campanha que passou no Verão sobre o abandono dos animais, em que várias figuras públicas diziam o que pensavam sobre esses donos. Não tenho dúvidas de que uma campanha feita em moldes semelhantes sobre violência doméstica ajudava a estigmatizar os agressores, o que seria bom. Porque o estigma tolhe.

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Fazer filhos por dever é triste

por Teresa Ribeiro, em 22.01.15

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Não fosse o ditame "crescei e multiplicai-vos" e a sexualidade jamais seria tolerada pela moral cristã. Mas como para povoar a Terra é absolutamente necessário ceder aos prazeres da carne, não há outro remédio senão abençoar o acto, mediante certas condições, como se sabe. Uma é o casamento, outra é a cópula espiritualmente assistida, ou seja, estritamente orientada para a procriação.

Tudo o mais é luxúria, egoísmo, concubinato. Felizmente vivemos numa sociedade livre, em que até os católicos podem aligeirar estes preceitos e constituir família com muitos, poucos, ou filhos alguns. Não se livram, os casais menos férteis, é de levar com o epíteto de egoístas, só porquepreferem juntar dinheiro para comprar um jeep ou para ir de férias, do que para aumentar a prole.

Mas se vamos a falar de egoísmos também podemos considerar o dos casais que têm filhos por capricho, ou por uma questão de afirmação social, ou para preencher vazios existenciais. Esses egoísmos geram muitas famílias disfuncionais, por isso quando não se tem condições para assumir uma paternidade responsável por razões profissionais, psicológicas ou outras igualmente respeitáveis, mais vale comprar um jeep do que trazer ao mundo crianças infelizes.

Nos tempos que correm, parece-me muito mais adequado pregar o amor e disponibilidade que se deve aos filhos que se planeiam e não o dever de os ter, até porque ter filhos por dever é triste.

A paternidade responsável passa pela gestão controlada do número de crianças. Pode ter consequências graves para a demografia, só que esse não é um problema das populações, mas de quem as governa. Por isso a pressão deve ser feita sobre as políticas sociais e não sobre as pessoas. Ninguém faz filhos por causa da demografia. 

 

(foto de Dorothea Lange (Migrant Mother, de 1936)

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    141. O
    142. N
    143. D