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Sentido de perspectiva.

por Luís Menezes Leitão, em 03.05.14
Neste post, José Manuel Fernandes procura demonstrar que a queda do rendimento nacional não foi afinal tão acentuada em Portugal desde que a crise começou, considerando que o problema já vem de trás, atendendo ao magro crescimento do país desde 2000. Refere que "no período que vai de 2000 a 2013 só a Itália cresceu menos do que nós. O que significa que, se calhar, os nossos problemas não derivam só, nem sobretudo, da austeridade recente. Têm raízes mais antigas". E de facto têm. Não se pode esquecer o absurdo sistema de arrendamento, que só agora começa a ser paulatinamente resolvido, e que empurrou a dívida privada para valores estratosféricos. Mas também não se pode esquecer que nas décadas anteriores à de 2000, que não são citadas por José Manuel Fernandes, o país crescia a níveis muito razoáveis, tendo deixado apenas de o fazer precisamente a partir de 2000. Para "ver as coisas com algum sentido de perspectiva", conforme defende o autor, é precisamente necessário perguntar o que se passou em 1999 que levou a que a partir de 2000 as taxas de crescimento passassem a ser tão anémicas. Ora, a resposta é simples: a adesão ao euro. Está demonstrado por este estudo que se Portugal não tivesse aderido ao euro teria tido taxas de crescimento muito superiores.

 

Espanta por isso que, em alturas de eleições europeias, os políticos do arco da governação não discutam a questão que verdadeiramente interessa, que é a de saber se temos ou não condições para permanecer no euro. Na verdade, parece que o colete de forças do euro se estendeu de tal forma aos políticos portugueses, que eles não conseguem discutir nada de relevante. Paulo Rangel, depois dos seus tweets a lembrar os 101 dálmatas, discute agora coisas tão importantes como a nacionalidade do próximo Presidente da Comissão. Francisco Assis propõe uma "leitura inteligente" do Tratado Orçamental que o seu partido aprovou, julgando se calhar que os outros países europeus são estúpidos e não irão exigir a aplicação do tratado até à última linha. Passos Coelho, depois de ter sido obrigado pela troika a reformular o DEO, entrou agora em estado de negação e proclama que não está a aumentar impostos, enquanto não diz ADEO definitivamente. Já António José Seguro, estimulado pelas sondagens, entrou em estado de euforia tal que já propõe constantemente que sejam os alemães a pagar a crise, deixando o seu candidato Martin Schulz sistematicamente em estado de choque. É manifesto que isto não vai acabar bem.

Paraísos de crescimento económico e justiça social

por José António Abreu, em 14.02.14

Argentina is once again at the centre of an emerging-market crisis. This one can be blamed on the incompetence of the president, Cristina Fernández, but she is merely the latest in a succession of economically illiterate populists, stretching back to Juan and Eva (Evita) Perón, and before. The Chilean and Uruguayans, the locals Argentines used to look down on, are now richer. Children from both those countries – and Brazil and Mexico too – do better in international education tests.

[…]

On Europe’s southern fringe, both government and business have avoided reality with Argentine disdain. Italy’s petulant demand that rating agencies should take into account its “cultural wealth”, instead of looking too closely at its dodgy government finances, sounded like Ms. Fernández. The European Union protects Spain or Greece from spiralling off into autarky. But what if the euro zone broke up?

The Economist, número saído hoje.

 

Nada que assuste os populistas de esquerda, tão activos como os de direita mas com muito melhor imprensa. Das duas, uma: como a Sra. Fernández e, um pouco mais a norte, o Sr. Maduro, não vêem os riscos ou estão mesmo convencidos (e iludidos) de que será possível forçar parte da Europa a cobrir-lhes a demagogia.

 

(Para que conste, no final de 2012 escrevi: Em 2013 continuará a discutir-se por cá a relação custo/benefício do euro. Na Argentina continuará a discutir-se a relação custo/benefício da inflação.)

A ruína do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 07.02.14

 

A visão que existe sobre a moeda europeia no estrangeiro é a de que não só o euro foi mal construído, como os europeus estão a fazer tudo para o destruir. E de facto a destruição do euro é o que parece ser o resultado mais provável da recente decisão do Tribunal Constitucional alemão que decidiu efectuar o reenvio prejudicial para o Tribunal de Justiça da União Europeia para esclarecer se considera a actuação do BCE de compra de dívida em conformidade com os Tratados, adiantando desde já a sua reprovação a essa actuação. Não sei qual será o pior dos resultados que daqui pode advir. Ou o Tribunal de Justiça da União Europeia declara a actuação do BCE em desconformidade com os tratados — e já se sabe que o BCE estará de futuro proibido de qualquer outra intervenção nesta área — ou dá a sua cobertura a essa actuação e o resultado pode ser a futura declaração de inconstitucionalidade dos tratados por contrariedade à constituição alemã. Em qualquer caso, estamos perante uma demonstração de que o Tribunal Constitucional Alemão se leva a sério e é imune a todas e quaisquer pressões. Este pode ser assim o dia da condenação definitiva do euro à ruína. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos.

Manias

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.02.14

Então e agora? Ninguém se queixa do Tribunal Constitucional alemão?

 

O que Nouriel Roubini disse sobre a crise em geral e Portugal em particular:

 

Julho de 2009

O pior da crise já está para trás: recessão acaba este ano.

 

Junho de 2011

Uma "tempestade perfeita" pode afectar a economia mundial a partir de 2013. (...) Dívidas da Grécia, da Irlanda e de Portugal precisam de ser reestruturadas o mais rápido possível. Adiar essa decisão pode resultar num processo de default mais desordenado.

 

Junho de 2011

A zona euro encaminha-se para uma ruptura, com a saída dos membros mais fracos, incluindo Portugal, com a actual abordagem à crise.

 

Setembro de 2011

Portugal e Grécia são os países da zona euro com maior probabilidade de abandonar a moeda única, podendo fazê-lo num horizonte de três a cinco anos.

 

Setembro de 2011

A zona euro é uma fonte de risco sistémico. Se existir uma situação de desordem na zona euro, será pior que o Lehman Brothers.

 

Março de 2012

A Grécia sairá da zona euro, talvez no início de 2013. Portugal também pode abandonar a moeda única.

 

Julho de 2012

Hipóteses de Portugal e Grécia saírem do euro é de 85%

 

Julho de 2012

Zona euro vai desmoronar-se dentro de seis meses

 

Setembro de 2013

Se o Tribunal Constitucional chumbar mais medidas no corte da despesa em Portugal, um segundo resgate pode ser inevitável.

 

Novembro de 2013

A dívida de Portugal precisará de uma reestruturação. A situação de Espanha é insustentável.

 

 

O que o mesmo especialista diz agora (teme-se o pior):

 

Janeiro de 2014

A zona euro já está no ponto de viragem no que toca à superação da crise das dívidas soberanas na região e os riscos de um país abandonar o euro são hoje menores. O pior da crise já passou.

 

Gravura: "quadradinho" do álbum Le Devin, de Astérix (Uderzo/Goscinny)

O fim do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 12.05.13

 

Parece evidente que os países do Sul da Europa precisam de imprimir dinheiro como de pão para a boca, sem o que vão continuar com um sufoco absoluto nas suas economias. Os Estados Unidos da América têm aliás dado o exemplo, uma vez que não têm parado de imprimir dólares desde que começou a crise, e não se têm dado mal com isso, não sofrendo o dólar da mesma desconfiança com que o euro é encarado a nível internacional. A Câmara de Nápoles já assumiu a dianteira e decidiu criar uma moeda própria, o napo, que faz circular em complemento com o euro, aumentando assim a massa monetária em circulação na sua cidade. Ora, é manifesto que se a moda pega, haverá imensas cidades a repetir a mesma iniciativa, a começar por Lisboa, onde António Costa não se deverá esquecer de lançar o lisbo, uma vez que, como se vê pelo amontoar de lixo nas ruas, Lisboa quase parece gémea de Nápoles. A questão é que os alemães, com a sua obsessão pela disciplina orçamental, acharão que os latinos os estão a tomar por "napos", inventando este tipo de estratagemas. É por isso manifesto que o euro não tem salvação possível.

Claro como a água

por José Navarro de Andrade, em 04.05.13

O exemplar de hoje do Expresso gratifica-nos com uma conversa protagonizada pela magistral Clara Ferreira Alves que por uma vez, excepcional e extraordinariamente, se coíbe de tratar o entrevistado tu cá tu lá com’ós caldeireiros. Do outro lado da mesa assentou João Ferreira do Amaral (JFA), mais um prócere da economia, uma ciência cujas benesses e maravilhas temos vindo a experimentar e sobre a qual uns certos espíritos contumazes ultrajam ser mais aparentada com os princípios da alquimia do que com as exactas chatezas newtonianas.

JFA não hesita em desqualificar o actual rumo das finanças públicas: “O grande erro desta política foi exagerar na austeridade. É possível aplicar uma política com menos austeridade e melhores resultados orçamentais.”

A receita para tão suave milagre anda JFA a bradá-la há anos neste deserto: sair do €. Limpo, cirúrgico e indolor, ou pelo menos sem austeridade exageradas como a que hoje penamos – certo?

Vai daí e Clara, senhora de grande astúcia, pergunta pelas consequências de tão elegante e airosa magicação segregada pelo auspicioso cérbero de JFA:

Como seria pagar a dívida externa nesse cenário de saída ordeira?

Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior seriam os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem… a dívida externa, a pública só me preocupa na media em que é externa, é brutal.”

Persiste Clara:

Mas as prestações sociais teriam sempre de aumentar, o que aumenta o risco de hiperinflação.

E aí, o que me preocupa mais são os medicamentos, que são quase todos importados. Teria de ser feito um programa especial para isso. A despesa também não seria por aí além.”

Ou ainda:

As pessoas fazem perguntas concretas sobre a vida delas. Se tiverem uma dívida ao banco de uma casa, como é que essa dívida vai ser paga? Em euros? Em escudos?

Acho que o Estado se deve substituir ao devedor na proporção que resulta da desvalorização cambial. Pode fazer um empréstimo junto do banco de Portugal. A outra hipótese é a bonificação da taxa de juro. Ou se reduz o capital ou se reduz a taxa de juro.”

Temos assim que o remédio para nos livramos das diabólicas privações deste último par de anos, seria portanto mergulharmos em mais dois anos de caos absoluto. Os quais minusculamente perturbam o intrépido JFA e tão só “do ponto de vista da democracia.” Quanto às reles aflições dos cidadãos, mesquinhamente mais preocupados com as suas vidinhas do que com a democracia, quer os velhotes medicamentados, quer os vaidosos com casa própria, o Estado haveria de vir, suponhamos, a tapar o buraco precisamente com o dinheirinho de que tanto carece. Lógica perfeita: sair do € para pagar a dívida, de tal modo que se tenha de endividar brutalmente mais.

O resultado do questionário é ficarmos na dúvida acerca do género de avareza que tolhe JFA, se é uma pura avareza de espírito que o torna incapaz de medir como puro horror o resultado por ele mesmo explicado das suas maravilhosas teses, e então teremos que o ter na conta de alvar; ou se é uma avareza das que são inatas aos cândidos que de tanto contemplarem o firmamento caem num poço cavado a seus pés, o que nos obrigaria  infelizmente a reputá-lo como ridículo.

De qualquer modo estamos esclarecidos quanto à bondade da saída do € como alternativa aos tempos que correm.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.03.13

«O princípio de confiança [na União Europeia] foi agora quebrado. A partir deste momento, o euro já não é uma só moeda. Só por retórica se poderá dizer que Berlim e Nicósia têm a mesma moeda. Haverá bancos sediados em 'zonas' mais seguras do que outras. A confiança dos mercados não poderá também ser igual na zona euro.»

Pedro Lomba, no Público

Take the money and run!

por Luís Menezes Leitão, em 25.03.13

 

Foi mais ou menos o que acabou de dizer aos depositantes dos bancos europeus Jeroen Dijsselbloem, este rapaz com ar simpático, que ostenta o título, atribuído sabe-se lá por quem, de Presidente do Eurogrupo. Se o euro sobreviver a este Eurogrupo será um milagre, a agradecer a Deus e a todos os anjinhos.

Os assassinos do euro

por Pedro Correia, em 18.03.13

Uma espécie de vitória póstuma da União Soviética, este confisco dos depósitos bancários dos cipriotas - totalmente inimaginável, totalmente inaceitável. Burocratas que nunca se submeteram a uma eleição, no conforto climatizado dos seus gabinetes em Bruxelas, tomam decisões em nome de estados soberanos que afectam irremediavelmente os povos desses estados, despromovidos de cidadãos a súbditos. São assassinos em potência. Os assassinos do euro. Os assassinos do projecto europeu, que se arrisca a repetir o destino de Lenine: glorificou-se em formato múmia.

 

Um desastre.

por Luís Menezes Leitão, em 18.03.13

  

Enganaram-se os loucos do Eurogrupo que aprovaram este confisco, julgando que bastava fazer umas declarações de que a medida seria excepcional e apenas aplicável a Chipre para que nada mais se passasse. O argumento de que se visava punir apenas os depositantes russos não convence ninguém quando se vê aqui que os depósitos de estrangeiros correspondem a menos de 1/3 do total de depósitos existente em Chipre. O que se passou foi que os países do Norte estão cansados de resgatar os países do Sul e só conseguem vender esses resgates às suas opiniões públicas se os mesmos foram acompanhados de dolorosas punições para esses países. Por isso é que o resgate a Chipre ainda é mais doloroso que os outros resgates já realizados à Grécia, Irlanda e Portugal. Mas neste momento, as opiniões públicas já perceberam que não faz sentido continuar nesta deriva louca. Como bem diz Richard Quest, ninguém pode subestimar a capacidade da União Europeia em dar um tiro nos dois pés. Estou convencido que depois de Chipre esta União Europeia já não tem pernas para andar.

 

 

O "corralito" europeu.

por Luís Menezes Leitão, em 17.03.13

 

A imagem de cima mostra bem o desespero dos cipriotas, recorrendo a um bulldozer para abrir à força um banco depois da exigência do Eurogrupo em confiscar parte dos depósitos bancários em Chipre como contrapartida da aprovação do resgate. Neste momento os europeus ficaram a saber que para os eurocratas de Bruxelas vale tudo e que não há qualquer respeito pelos direitos das pessoas. Depois do confisco de salários e de pensões, da tributação das pensões a taxas expropriatórias, da sobretributação dos imóveis, agora sabe-se que também os depósitos bancários se podem facilmente evaporar por decisão de qualquer eurocrata bruxelense a que os governantes fantoches dos países resgatados facilmente dirão Amen.

 

Torna-se cada vez mais evidente que o euro foi um colossal embuste e que a União Europeia é neste momento uma ditadura sem qualquer suporte democrático. Quando os países decidiram aderir julgavam que se estava perante um espaço de segurança e liberdade, em que a propriedade das pessoas fosse respeitada. Se neste momento é possível na Europa confiscar os bens das pessoas e decretar um "corralito" como em qualquer república sul-americana, é manifesto que a União Europeia já não está em condições de resolver os problemas dos cidadãos europeus. E se é assim mais vale que a mesma acabe depressa.

Euro e Itália

por José António Abreu, em 13.12.12

Já que no post anterior mencionei um artigo da Prospect, aproveito e aconselho quem ainda tiver ilusões sobre as consequências de uma saída do euro a ler no site da revista este artigo de Wolfgang Munchau, publicado a 25 de Abril, onde elas são explicadas de forma bastante clara – sendo que uma delas (ah, a ironia da data de publicação) é a absoluta necessidade de ignorar Constituições e suspender a democracia. Mas talvez os parágrafos mais actuais sejam os seguintes:

The only country that could conceivably exit unilaterally, and still breathe afterwards, is Italy, which has a primary surplus. It could afford to default on its foreign debt and still function. But it would be an incredibly violent act against the rest of the eurozone, triggering a potential collapse of the financial system, especially given German and French exposures.

There is no way that Mario Monti, Italian prime minister and a former European commissioner, would take such a step. He could have threatened to do so when Merkel imposed an austerity regime on everybody. But he did not. He could have extracted eurobonds as a quid pro quo for accepting a German-style fiscal regime.

Só que Monti já era. Avance ou não Berlusconi – no primeiro caso, é uma certeza –, a situação ameaça ficar interessante.

Chegou a vez da França.

por Luís Menezes Leitão, em 20.11.12

 

Esta reportagem da revista The Economist já tinha sido o tiro de partida. Agora a Moody's vem logo atrás iniciando o processo de descida do rating da França. Neste momento os mercados consideram que a moeda única foi um embuste e que nenhum país do sul da Europa, nem sequer a França, tem capacidade para isoladamente pagar as dívidas que contraiu. Como não parece que os países do Norte, com a Alemanha à cabeça, tenham a mínima intenção de assumir essas dívidas, seja através de eurobonds, seja por outra via qualquer, é evidente que todos estes países irão cair como peças de dominó. E a sua queda no  abismo ocorrerá, independentemente das inúmeras medidas de austeridade que todos os dias lançam sobre os seus cidadãos, em ordem a ficar bem vistos perante os mercados. Os mercados não se tranquilizam com a austeridade. Tranquilizam-se sabendo que há dinheiro disponível para pagar aos credores. E esse dinheiro só existirá enquanto a troika o emprestar. É por isso que cada vez mais me convenço que o euro tem os dias contados, pelo menos na sua actual versão.

"É inevitável Portugal sair do euro".

por Luís Menezes Leitão, em 16.11.12

Quem o diz é um ex-director adjunto do FMI, que acha que Portugal deveria tomar a dianteira e sair do euro quanto antes. Curiosamente esta semana eu próprio já tinha defendido aqui a mesma posição. Estes programas de ajustamento são totalmente irrealistas e só servem para agravar a recessão nos diversos países em que são aplicados. O mais tardar daqui a dois anos ver-se-á que nada conseguiram e a saída do euro será a única opção viável. Mas os Governos que alinharam nisto terão prestado um péssimo serviço aos seus povos e serão responsabilizados por terem embarcado neste processo. Há uma regra de ouro na política segundo a qual o que tem que acontecer é melhor que aconteça já.

Isto não vai acabar bem!

por Luís Menezes Leitão, em 08.11.12

 

O Parlamento grego, apesar de se ir constantemente esboroando, lá conseguiu aprovar à tangente mais um pacote de austeridade. Os deputados da própria maioria que votaram contra são naturalmente expulsos das fileiras do partido, numa eloquente concepção de democracia. Entretanto, surgem manifestações de 100.000 pessoas em frente ao Parlamento, protestando contra os cortes. O que não admira. Eu já perdi a conta à quantidade de vezes que os funcionários públicos e pensionistas gregos viram os seus rendimentos cortados, enquanto os outros cidadãos são massacrados com sucessivos aumentos de impostos. Espantam-me que ainda tenham dinheiro para comer. O próximo passo será o corte do salário mínimo ou a semana de seis dias. No futuro atingiremos se calhar as 18 horas de trabalho diário a troco de tostões, tal como descrito nos romances de Charles Dickens. Aí a Grécia será verdadeiramente competitiva, um exemplo para Portugal que, como várias vezes tenho referido, dela só se distingue por ter um ano de atraso.

 

Por cá, o Primeiro-Ministro descobriu finalmente que ele é que tem que fazer os cortes na despesa, sendo patético que o Governo tenha andado a estender a mão à oposição para que o ajudasse a fazer o que já deveria ter feito há muito tempo. Entretanto, prepara-se para receber em apoteose quem verdadeiramente manda na Europa e consequentemente também em Portugal. Mas toda a gente já sabe que o Memorando da troika é inexequível e que um segundo resgate é inevitável. Resta saber durante quanto tempo os nossos "parceiros" europeus estarão dispostos a continuar a meter o seu dinheiro numa solução que na Grécia já provou não ter qualquer sucesso, sendo que Portugal estará a curto prazo na mesma situação.

 

Acho que é altura de os cidadãos se perguntarem se vale mesmo a pena continuar no euro. Não são os alemães que dizem que mais vale um fim com horror a um horror sem fim? Se o euro não é a moeda da Europa no seu conjunto, mas apenas a moeda da Alemanha, então a Alemanha que fique com ela.

Sair do Euro? Jamé...

por Rui Rocha, em 02.10.12

É bem possível que o Jaa tenha razão. Mas tem-na antes de tempo. E ter razão antes de tempo é não ter razão. A solução final pode, de facto, vir a ser a saída do Euro. Mas não é indiferente o momento e a forma como isso se faz.

 

Vejamos então. Portugal tem hoje uma dívida externa bruta de mais de 250% do PIB e uma dívida externa líquida que se prepara para ultrapassar os 120%. Entretanto, com essa dívida predominantemente denominada em Euro, uma desvalorização do novo Escudo (a propósito, proponho que a nova moeda se chame Sócrates, porque a memória é curta e convém não esquecer) que seria sempre na ordem dos 30% (ou dos 40%), teria como consequência imediata que esta disparasse para valores astronómicos e absolutamente insustentáveis.

 

Por outro lado, na perspectiva das famílias e das empresas o tempo não é um factor indiferente. Os últimos indicadores demontram que o consumo privado diminuiu mais do que proporcionalmente à queda do rendimento e que a poupança aumentou de forma significativa. Isto é, os portugueses estão a fazer um esforço de ajustamento sério. A actual situação representa pois uma oportunidade de adaptação a uma realidade dura. Prolongá-la na medida do possível é comprar tempo para que as pessoas se ajustem a um novo perfil de consumo muito mais austero de uma forma, apesar de tudo, gradual. Entretanto, pode acontecer que consigam pagar as prestações do automóvel. E do frigorífico, e do LCD e das férias de sonho em Cancun. Ou que encontrem emprego lá fora. E quando o céu lhes cair definitivamente em cima da cabeça o impacto será severo, mas poderá já não ser mortal.

 

Da mesma maneira, as empresas, com todas as dificuldades, estão a dar respostas positivas no contexto extremamente exigente e competitivo da moeda única. Conscientes de que o mercado interno trará péssimas notícias nos próximos anos, é fundamental comprar-lhes tempo para acentuarem o seu perfil exportador, procurarem novos mercados, reflectirem e colocarem em prática novas estratégias que não poderão passar por vender em Portugal. Sair agora do Euro seria sair cedo de mais, impedindo empresas e particulares de aprofundarem um esforço de ajustamento que já iniciaram.

 

E se o tempo em que se faz a saída é importante, o modo não é menos. Portugal não pode voltar ao Escudo com o nível actual de dívida. O endividamento nacional tem de ser diminuído. Para isso, para além do esforço de particulares e empresas, era necessário o contributo do Estado. Através de um programa sério de racionalização da sua estrutura e da sua actividade. É por isso que nos últimos tempos me tenho manifestado de forma dura e impaciente com o governo de Passos Coelho. Porque o governo não está a fazer a sua parte. O problema fundamental das contas públicas relativas ao 1º semestre de 2012 não é a diminuição da receita e a parte da despesa que diz respeito a juros, pois isso era razoavelmente previsível. A questão está no facto, por exemplo, de os consumos intermédios continuarem a aumentar. Entretanto, era fundamental que o Governo fizesse a sua parte antes da saída do Euro e não depois. Porquê? Pois porque o esforço de redução da dívida, por si só, dará escasso resultado. Mas trará uma credibilidade que permitirá negociar um haircut de dimensão bem razoável que tornará viável uma saída controlada do Euro.

 

Por isso, a melhor posição é a de comprar tempo. Permitindo ao sector público e ao sector privado que se ajustem de forma decidida, mas faseada, exigindo naturalmente que todos façam a sua parte de forma séria e empenhada. Devemos dizer, portanto, tal como Mário Lino fez em relação ao aeroporto, que sair do Euro, jamé, sabendo de antemão que essa é uma possibilidade séria e que todo o nosso esforço deve ser orientado para que, se não houver alternativa, não aconteça de forma desordenada.  É claro que tempo é dinheiro e que o dinheiro paga juros. E que os juros aumentam a dívida. Mas, relativamente a esse ponto, creio que já vos referi a necessidade de um belo corte de cabelo... No fundo, e concluindo, o caminho que ainda nos pode levar a permanecer no Euro é, em boa medida, também aquele que melhor nos prepara para sair dele.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.09.12

«O euro vive da Europa, não o contrário. Mas estamos tão consumidos nos problemas orçamentais que não vemos o retrato largo de um continente a desfazer-se. Os radicais temeram a guerra entre povos, mas não previram a ruptura dentro dos povos. Mas o que se está a passar em Espanha é muito mais que um aproveitamento político de líderes regionais em manobras de diversão.
Até os tecnocratas estão aterrorizados com o protesto violento em Espanha, com o descontrolo na Grécia, com as manifestações tomba-políticas em Portugal. Num editorial há dois dias, o Financial Times dizia que Portugal atravessa um caminho estreito entre democracia e reformas. É uma perigosa dualidade: ou democracia ou reformas. É disto que estamos a falar.

(...) Democracia não pode ser o oposto de reformas e, se o for, que prevaleça a democracia. Essa é apenas uma das perfídias deste tempo. Não há erros de comunicação, há falta de política. As nações são mais que devedores. A sociedade é mais que a economia. A paz nunca é troca de uma moeda. Mas quem não perceber que a Europa está a viver um tempo histórico de desagregação, impiedosa e incontrolável, só acordará quando ouvir a sua vidraça estalar.»

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios

Egoísmos e lições inúteis vindas do frio

por José António Abreu, em 03.09.12

As causas.

Bancos subprovisionados e, em boa medida devido à existência de incentivos fiscais, concedendo demasiado crédito (a taxa de crescimento atingiu quase 50% em 1988); boom no sector imobiliário; queda nas exportações (em parte resultado da desintegração da União Soviética, em parte de uma moeda excessivamente forte); resistência à implementação de reformas.

 

Os efeitos.

Em 1991, o PIB caiu 6,5% e, entre 1991 e 1993, mais de 10%. Cortes na despesa (dos sectores privado e público) fizeram subir a taxa de desemprego para quase 18%. Os bancos foram salvos pelo governo, o que representou um custo fiscal líquido (isto é, já consideradas as receitas da venda das participações) de 5,3% (em relação ao PIB de 1997). O crédito tornou-se muito mais difícil (em dois anos consecutivos, a queda no montante concedido foi na ordem dos 10%) e, no final da década, após as reprivatizações, o sistema bancário encontrava-se substancialmente alterado: os bancos de poupança haviam desaparecido, dois grandes bancos comerciais tinham-se unido e sessenta por cento das instituições financeiras eram controladas por capital estrangeiro.

 

O local.

A Finlândia, essa terra de gente egoísta que não quer ajudar a pagar as nossas dívidas. De gente que se meteu no buraco sozinha e se extraiu dele sem o nosso dinheiro (o qual, nem se questiona, teríamos tido todo o prazer em emprestar). Que – quão estranho! – parece ter aprendido com os erros.

 

A aprendizagem.

Em 2008, ano do início da crise do subprime, a Finlândia tinha um excedente orçamental de 5,3%. Em 2009, ainda tinha um excedente de 4,3%. Em 2010 e 2011, quando o défice português rondava os 10% (após décadas sem passar para o lado positivo da escala), teve défices de 2,5%. Este ano, deverá apresentar um défice de 0,5%.

Em 2009, a Finlândia tinha uma dívida pública de 33,9% do PIB, a qual subiu para 43,5% em 2010 e para 48,4% em 2011, prevendo-se que fique este ano por valores similares. A nossa era de 71,6% em 2009, de 83,1% em 2010 e aproxima-se alegremente dos 110%.

(Antes que alguém mencione a Nokia, refira-se que, embora o crescimento da empresa tenha ajudado a Finlândia a sair da crise, vão longe os tempos em que ela representava 4% do PIB; hoje não chega a 1%.)

 

Os egoísmos.

Depois de passarem por estas dificuldades (relembre-se: eles sabem o que é uma taxa de desemprego de 18% e uma queda no PIB de 6,5%), tendo compreendido (pelo menos até ver) os benefícios da disciplina orçamental (Portugal encontra-se sob intervenção externa pela terceira vez em pouco mais de três décadas mas muitos portugueses, incluindo quase todos os políticos, continuam a recusá-los), estando conscientes de um grave problema de envelhecimento da população, o qual vai exigir recursos significativos a curto/médio prazo, é assim tão estranho que aos finlandeses não agrade a hipótese de terem de pagar os défices dos países do Sul? Claro que sim. Para gregos, portugueses, espanhóis, italianos, tudo isto é irrelevante. Importa apenas o curto prazo; a circunstância de existirem países com alguma margem orçamental e países à beira da falência onde se deseja evitar a austeridade. Fala-se, pois, em egoísmo – dos primeiros. Por exemplo, fala em egoísmo o Presidente da República Portuguesa, no meio de um apelo ao BCE para que ignore as opiniões dos recalcitrantes e avance para decisões por maioria. Tão fácil, dispor do dinheiro alheio. Mas talvez Cavaco venha a obter mais do que deseja. Talvez um destes dias constate, e todos nós com ele, que a maioria pró-intervenção no BCE se transformou em unanimidade. Acontecerá logo após a Finlândia, a Alemanha, a Holanda, a Áustria, o Luxemburgo – enfim, os «minoritários» – abandonarem o euro. O que, no fundo, constituirá um alívio: quem gosta da companhia de egoístas?

 

(Dados retirados daqui e daqui.)

A desunião europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 03.08.12

 

Cada vez se torna mais evidente que os diversos países do euro vão sucessivamente cair como peças de dominó, arrastando a União Europeia para o colapso. A razão principal para isto é que todas as instituições comunitárias praticamente se apagaram, desde o início da crise enquanto a Alemanha põe e dispõe. Durão Barroso há muito que se fechou no seu gabinete em Bruxelas, raramente fazendo uma declaração, a não ser para alinhar com as posições alemãs. E Mário Draghi, que há dias dizia que iria "fazer tudo" para salvar o euro, acaba de se vergar também ao Diktat alemão, exigindo um pedido de resgate de Espanha e Itália apenas para comprar dívida destes dois países.

 

Com esta deriva na Europa o colapso do euro é inevitável. Mas está à vista o que se vai passar depois: um sucessivo apontar de culpas entre os diversos países com exigências de responsabilização mútuas. Na Grécia há muito que se fala em exigir as indemnizações de guerra que a Alemanha nunca lhe pagou. Agora na Polónia houve um deputado que se lembrou de exigir o pagamento de um empréstimo feito à Espanha há 400 anos que nunca foi liquidado. Se começamos a entrar neste tipo de contabilidades na Europa, ninguém sabe onde isto vai acabar. Pode ser que Portugal também se lembre de exigir a Espanha a indemnização pelos 60 anos de ocupação do país. Ou reclamar já a França todos os inúmeros danos causados pelas invasões napoleónicas. Se calhar no fim ainda ficávamos a ganhar.

 

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