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Delito de Opinião

assim vale a pena ser deputado

Patrícia Reis, 08.06.18

No início de maio, a RTP, numa reportagem exclusiva, confrontou alguns deputados (de partidos à esquerda e à direita) sobre o facto de terem residência em Lisboa, viverem na capital, mas terem como morada oficial uma outra, longe bem longe de Lisboa, possibilitando incorporar no seu rendimento um subsídio de deslocação. Pese o escândalo da situação e da pouca ética demonstrada, a verdade é que não se ouviu dizer mais nada sobre o assunto. Esta questão dos deputados e das respectivas deslocações já tinha estado em debate por causa de viagens de avião.

O que a reportagem da RTP provou é que existem 159 deputados com subsídios de deslocação e, muitos deles, moram em Lisboa. Há mesmo quem more a 500 metros da Assembleia da República. Os subsídios dão, nos casos abordados pela reportagem, uns confortáveis, decerto bem vindos, dois mil e tal euros de acréscimo ao salário. Portanto, os deputados, com esta manobra, ganham mais, muito mais, do que seria de esperar e, pior ainda, os ditos subsídios não estão sujeitos a tributação.

Sempre defendi que os deputados, como representantes eleitos, deveriam ganhar o melhor possível. Uma das razões que leva a que algumas pessoas se afastem da política é precisamente a questão financeira. Mudei de ideias. Porque uma coisa são os salários e outra, completamente diferente, é a realidade que se reflecte em cada recibo de vencimento do deputado ou deputada que considera que ainda vive no norte do país, porque tem aí uma mãe com 95 anos e é aí que se desloca quando a agenda permite.

Qual é ordenado de um deputado? Tomem nota: 3.624, 42 euros. A este valor acresce uma maquia se não trabalharem em mais lado algum, outra por serem deputados, só porque sim, e ainda o tal subsídio de deslocação se, claro, tiverem mandado dizer que moram em Viseu, em Braga, em Faro e outro abono ainda por estarem eventualmente longe de casa, da família.

 

 

O subsídio de deslocação não é igual, calcula-se ao quilómetro. São 69,19 euros por dia para quem more fora de Lisboa; 23,05 euros para quem more na capital. A mim não me pagam para ir da minha residência para o meu emprego, mas claro que eu não fui eleita e tal e não conto para este campeonato.

Além da remuneração principal que recebem por serem eleitos, os deputados recebem também uma quantia para exercerem essa função na Assembleia da República, em Lisboa (a ver se não desmoralizam, coitados, um incentivo para um entusiasmo extra, será?); recebem outra parcela caso não trabalhem em mais nenhum sítio (o regime de exclusividade vale um abono fixo de 370,32 euros mensais) e ainda recebem outra parcela fixa simplesmente por serem deputados da Nação e “representarem todo o país”. A tudo isto acrescem subsídios com deslocações que variam consoante o local de residência e a sua distância até ao Parlamento e por se deslocarem ao respectivo círculo eleitoral. Estes valores somados estão isentos de impostos. Um deputado ou deputada, assim, pode ter um salário e cinco abonos? Pois pode.

Querem-me explicar como se fosse mesmo muito burra ou temos aqui um problema? Talvez seja de pedir ao Presidente da Assembleia da República que tome os deputados como alunos na escola e faça o favor de fiscalizar quem é que tem mais dinheiro por mês por morar ficcionalmente numa outra ponta do país, embora mantenha residência em Lisboa, faça aqui a sua vida, tenha família com vínculos vários a empresas, a escolas, a instituições. De resto, lamento, um esquema é um esquema, a falta de ética comportamental não atinge apenas o comum dos mortais, é praticada pelos grandes da nação.

Quanto tempo o tempo tem

Patrícia Reis, 24.05.18
Vivemos na absurda velocidade furiosa, não temos tempo. Não temos para a família, para os amigos, para pensar em estratégias, não temos tempo para nós. A vertigem das redes sociais, do estar permanentemente ligado, incapazes da solidão, é um dos maiores males do século XXI. Porquê? Porque tudo é feito pela rama, num esquema superficial que garante a sobrevivência, mas não dá felicidade, mergulhando em ilusão de sabedoria, sem ler com concentração, sem espaço de debate construtivo.

Enchemos os horários das crianças. Creio que a maioria já não brinca o que eu brinquei. Outros tempos, dizem-me. Não são tempos para as coisas básicas, sendo que uma delas é a leitura. Diz-se que os jovens lêem, não deixaram de ler. Lêem com o dedo a deslizar pelos ecrãs, a luz branca a garantir ligação ao universo. Não lêem "O Jogador" de Fiódor Dostoiévski, não mergulham com entusiasmo na "Tragédia da Rua das Flores" ou nos "Maias". Os Maias podem ser entendidos através de um pequeno livro de apoio à leitura que resume a história e personagens. Como ninguém entende o que quer dizer “apoio à leitura”, por isso serve perfeitamente.

Não temos tempo para ler, porque não temos condições para aguentar o silêncio. Precisamos de barulho. Precisamos de verificar o nosso smartphone com frequência, talvez tenhamos perdido alguma coisa. Como aquelas pessoas que abrem o frigorífico sabendo que não foram ao supermercado, mas na esperança de que alguma coisa se materialize. E, por isso, estamos atentos a esta ligação constante ao mundo, lemos as gordas, conseguimos a proeza de ver pequenos vídeos já sem som. E o som é crucial por ser o maior condutor emocional que temos, mas também isso parece não importar muito. Diz-se que os livros são caros. São menos caros que jogos, que bilhetes de festivais e, para mais, encontram-se verdadeiras pechinchas em alfarrabistas e há ainda livros à borla nas bibliotecas. É difícil promover a leitura. Existe um pretexto permanente que diz sim-importa-mas-agora-não-dá.

Se considera que a educação é cara, experimente a ignorância, afirmou Derek Bok, antigo presidente da universidade de Harvard. Ora, tentem substituir a palavrinha educação por cultura e o resultado é o mesmo.

Isaac Asimov, um dos mais importantes escritores de ficção científica de sempre, escreveu: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”. Não conseguir ler, não ter tempo, é uma forma de não conhecimento, logo de fracas soluções. Tudo isto vem a propósito do quê? Vem aí a feira do livro de Lisboa, em Setembro teremos a do Porto.

Vá lá comer uma fartura, pois é a tradição, mas vá também comprar livros para si, para as suas crianças, para oferecer no natal. Para ler. Com tempo. Desligado do resto, na certeza de que os livros são o melhor bilhete de viagem que existe. Podemos ir ao espaço, ao século XIX, à lua, andar de submarino, subir às pirâmides, enfrentar uma guerra. O livro é a melhor forma de entendermos o mundo e de reflectirmos. Para reflectir, lá está, é preciso tempo. E quanto tempo tem o tempo que temos nos dias que correm? Parece que é curto. Demasiado curto para o que é manifestamente urgente.

Um ataque terrorista, foi isto que aconteceu na academia do Sporting

Patrícia Reis, 17.05.18
Um grupo de homens armados com objectos que causam danos concretos entraram num local onde estão homens sem os mesmos objectos. Foi isto, não foi? Chama-se terrorismo. E não vale a pena dourar a pílula. O infeliz episódio na academia do Sporting não tem outra classificação.
 

A minha avó, que tem 85 anos e sempre foi leoa no seu coração, não merecia isto. Nenhum adepto merecia. Mas sobretudo a equipa técnica e os jogadores, de que clube forem, não merecem nada disto, porque ninguém merece um acto de terrorismo.

Não faço ideia se a equipa terá condições psicológicas para jogar este fim-de-semana, um jogo importante que, afinal, será assombrado por esta violência e pela controvérsia em volta do presidente. Mesmo que o dito cujo presidente seja uma espécie de ditador – há quem lhe chame o Kim Jon-un-Carvalho – o clube não tem condições para manter esta situação e polémica.

O clube não é apenas um clube, é uma instituição, são mais de cem anos de história. Isso exige respeito de qualquer um. Podem dizer-me que o senhor foi eleito, que ninguém pode garantir que os terroristas tenham sido mandatados para aquele ataque, sim, sim, ataque, leram bem, mas continua a ser insustentável ter um presidente que diz e faz o que diz e faz.

Sou insuspeita nesta matéria, quem me conhece sabe que não aprecio futebol, digo que sou do Belenenses por me parecer um clube simpático, ter um estádio bonito e um logótipo invencível. Dito isto, não sou imune aos ataques de terrorismo e não consigo dizer que a minha vida seja isenta de futebol, tenho marido, filhos, amigos e uma avó adepta do desporto-rei.

O que aconteceu deve ser denunciado, deve ser punido e alvo de muita reflexão. O futebol, como outros desportos, serve muitas vezes de exemplo aos mais novos. Estes terroristas podem dizer às famílias que fizeram o que fizeram pelo clube, pelo amor à camisola, para mim será o mesmo que o Estado Islâmico dizer que fazem o que fazem porque têm uma religião que sustenta as suas acções.

"Não faz mal, este mês tomas tu os comprimidos. Para o próximo mês tomo eu."

Patrícia Reis, 10.05.18

São quase 2,4 milhões de pessoas em risco de pobreza, assim o atesta o Inquérito às Condições de Vida realizado pelo Instituto Nacional de Estatística. Menos 196 mil pessoas que em 2016. Eu nunca gostei de números por não terem, na minha opinião, sensações, caras, olhares. São uma espécie de coro de vozes, mas vozes invisíveis.

O ditado diz que olhos que não vêem, coração que não sofre, e a estatística toma esta verdade por boa, quase que nos protege de entendermos a realidade.

Este número - 2,4 milhões - é esmagador e inadmissível e conta histórias reais. Deste número, 18,8% refere-se a crianças ou jovens, menores. Quantos são? 451 mil, diz quem sabe de números. Quase meio milhão de menores que vivem sem o básico.

Ninguém se pode orgulhar destes números e tão pouco das histórias envolvidas: pessoas que não conseguem emprego, que perderam o emprego, que abdicaram dos estudos para ajudar os agregados familiares. Sim, Mário Centeno diz-nos todas as semanas que estamos muito melhores.

Uma das coisas boas dos números é que podem ser interpretados e virados ao contrário. Podem mesmo ser atirados como areia para os olhos. Estes números, de um inquérito que começou em 2004 com entrevistas pessoais, prova que temos muito para andar, porque, caramba, não podemos ser festa e glamour, não podemos ser cumpridores face à Europa e as suas regras, e depois descartar esta informação concreta sobre a forma como as pessoas vivem. Pessoas para quem o rendimento de inserção social chega? Não chega? Encaixam nos critérios, não encaixam?

Com esta realidade bem viva na minha cabeça, fui hoje à farmácia e assisti a uma cena de partir o coração. Um casal já com alguma idade não tem como pagar a medicação toda e a senhora, vestida de forma muito modesta, diz: "Não faz mal, este mês tomas tu, para o próximo mês tomo eu".

Saíram dali com a dignidade de quem enfrenta todos os dias um limiar de indignidade. Podia escrever mais vinte linhas sobre isto, mas não adianta. Este mês, a saúde do marido é a que vale. No próximo mês é a dela.

Fala-se muito de acção e responsabilidade social. Fazem-se muitos inquéritos, até se fazem comissões parlamentares todas as semanas, parece-me. Há uma queixa constante face ao sensacionalismo de alguns órgãos de comunicação social que, afinal, espelham o que é o país, para o bem e para o mal. A pobreza e a exclusão social são questões apartidárias, e precisam de ser combatidas. Com eficácia. Não através de um quadro com curvas ascendentes e descendentes que provam que estamos muito melhor.

Podemos estar muito melhor, mas não estamos bem.

"dou-te liberdade", disse ele. O tanas, deveria dizer ela

Patrícia Reis, 03.05.18
A violência no namoro não é uma ficção espelhada pela sétima arte em filmes e afins, com contornos mais ou menos perversos. É uma realidade e portuguesa. A ideia de que a pessoa com quem se namora é propriedade, logo está presa a padrões de comportamento e de discurso que devem, obrigatoriamente, cumprir os desejos do outro é, dir-se-á, retrógrada, não se discute. Temos de discutir e de formar pessoas para o futuro das relações que serão, não só familiares e profissionais, mas também amorosas.
 

Um rapaz que tenha visto a mãe submeter-se ao pai talvez vá replicar o comportamento e exija da namorada o que nenhum ser humano deve exigir seja a quem for.

“Eu dou-te a liberdade para fazeres...” Há frases que são mortais e esta é reveladora do posicionamento face ao outro/a. Significa que aquela pessoa considera que, por estar envolvida numa relação amorosa, pode aprisionar e condicionar comportamentos, “certas liberdades”. Neste discurso cabe muitas vezes a palavra respeito e, como se sabe, o respeito implica liberdade, a tal que não se dá a ninguém e tão pouco se autoriza.

Ainda hoje conheço casais cuja relação não é paritária. Na maioria dos casos que conheço, são as mulheres que são desfavorecidas. Conheço maridos que controlam o smartphone da sua cara metade ou até mesmo a conta bancária. Conheço jovens que entendem que o namoro implica obrigações e até um dress code. “Vais assim à rua? Comigo não”. Também existe a variante do amuo que se presta muito a esta afirmação: “Tu é que sabes”.

Assim ​se fragiliza alguém, assim se destrói a auto-estima, assim se desvaloriza e diminui uma pessoa.

Uma relação amorosa digna desse nome impõe a ideia de compromisso, mas isso não significa deixar de se fazer o que se gosta e, muito menos, limitar a outra pessoa. Podia citar a tal canção do Sting, mas não vale a pena. Parece uma coisa óbvia. Insisto: não é.

“Tu não percebes que estás errada?” Talvez em tempos alguém entendesse a frase com candura. Não tenho como.

Importa educar os jovens na forma como se relacionam amorosamente. Importa dizer que o ciúme não é prova de amor, mas sim de posse.​ Que um namoro não é um ferro em fogo quente queimado no braço, como uma marca. Um casamento também não​. As pessoas que se amam, confiam.

a liberdade não se faz com ordenados de 600 euros

Patrícia Reis, 28.04.18

Ontem celebrámos a liberdade, mas a que liberdade podem aspirar aqueles que hoje não têm nem memória do 25 de Abril, nem condição económica para ter direito ao sonho?

Há uns dias, a celebrar a liberdade, com o sol a dizer-nos que há esperança, repletos de sonhos por cumprir e sem se atreverem a tanto, dois jovens almoçavam num pequeno café de bairro. O almoço era composto pelo menu da casa, no valor  de seis euros: pataniscas de bacalhau com arroz de legumes, garrafas de água. Um dos homens não deveria ter mais de 23 ou 24 anos, percebi que tinha uma licenciatura e mestrado e que fazia um estágio numa empresa ligada à engenharia civil. Dizia: “Pois, acho que vou ficar a fazer estágios até aos 30 anos”. E o outro, de idade similar, acrescentava com desgosto: “Não vamos sair de casa dos nossos pais. Nunca conseguiremos”.

Sim, a ganhar 600 euros nunca conseguirão, pensei eu enquanto fazia contas rápidas. Mesmo que optem por ir viver para os arredores da grande cidade – não lhes resta mesmo qualquer outra hipótese –, a verdade é que não têm como assegurar renda, transportes, comida para o frigorífico. O rendimento não chega.

A educação que nos distinguia, pelo menos na minha geração, não faz qualquer diferença nos dias que correm. Três anos de licenciatura, dois anos de mestrado, fluentes em inglês e com vontade de liberdade, de autonomia, os jovens ficam em casa dos pais num esforço inglório de conseguir “fazer-se à vida”. Um destes jovens explicava que a namorada estava nas mesmas circunstâncias e que o rendimento conjunto não ia dar para nada. “E agora pensa: queres ter filhos? Deve ser idiotamente caro!”. Sim, ter filhos não é barato. Nada o é, nos dias que correm (nunca foi, na realidade).

Na televisão do dito café mostravam-se sucessivas imagens da Revolução de 1974, as comemorações, as cerimónias solenes. Os jovens não espreitaram nenhuma das reportagens, estavam alheados do mundo, um pouco deprimidos, diria, disponíveis apenas para não comemorar a pouca liberdade de um ordenado que não cumpre com as expectativas criadas. E, um deles, rejeitando a oferta de café do empregado, adianta em tom sarcástico. “Nem sei por que carga de água fui tirar a carta de condução. Foi dinheiro atirado à rua”. Depreendi que não tem carro, nem possibilidades de o ter. Pagaram a conta, cada um o respectivo menu, e foram pela rua, lambidos pelo sol, a ver se conseguiam ir mais longe.

Ontem celebrámos a liberdade, mas há quem seja demasiado novo para ter memória do que foi viver a ditadura e esteja apenas focado nos dias que correm, na forma como a vida se desenha agora.

Há 44 anos, no dia extraordinário “inicial inteiro e limpo” sobre o qual escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, tínhamos em nós todos os sonhos do mundo. Hoje, quem tem vinte e poucos anos, dificilmente consegue alimentar os seus desejos, porque a vida é madrasta e as condições de empregabilidade são o que está à vista de todos. Só não vê quem não quer.

vasco graça moura

Patrícia Reis, 28.04.18

no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é sua a vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.

(Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001)

campeão português precisa de tapete com 10x 10 metros, alguém tomou nota?

Patrícia Reis, 19.04.18
Esta é uma crónica para quem gosta de desporto. Para quem, perante uma vitória, grita Portugal, divulga nas redes, diz-se orgulhoso, não se cansa de ver o feito.
 

É uma crónica sobre um menino açoriano que subiu ao pódio da Taça do Mundo no Open Internacional de Ginástica no escalão juvenil. Ganhou a competição com 19.250 pontos. Ao lado de Tomás estavam Damir Manacof da Rússia, com 19.200 pontos e Leonor Manta da Roménia com 18.600 pontos.

O sorriso de Tomás Amaral na vitória é quase comovente, diz tudo. Está ali o seu momento, é grande, é imenso, é o seu nome, o hino do seu país, os pais a morrer de orgulho, de certeza, a treinadora, Alexandra Barroso, de lágrimas nos olhos, os amigos a torcer para que tudo tenha valido a pena. Um corpo de rapazinho, pequeno e esguio, a voar num tapete de dez por dez metros. Vence o ouro para Portugal e deveríamos estar histéricos de felicidade, deveríamos abençoar o século XXI e a evolução dos nossos atletas e respectivas condições de trabalho.

Tomás Amaral só pode treinar duas vezes por semana, porque não há condições em Ponta Delgada para este ou outros campeões e, apesar disso, como a estrada em tempos para Rosa Mota, os atletas persistem. O Tomás Amaral treina no Clube de Actividades Gímnicas de Ponta Delgada. A treinadora diz que as condições que têm são más, que precisa de uma área oficial de 10 metros por 10 metros mais do que duas vezes por semana.

Quem nasceu a ver Nadia Comăneci e afins a voar nos tapetes, com o arco, a bola, a fita, nas paralelas assimétricas, só pode dizer: incrível, ganhámos, ganhámos aos russos, aos outros, aos do costume. Nós, o povo de feitos incríveis em tantas áreas, sim, nós, mas caramba na ginástica e sem condições.

O sorriso de Tomás Amaral fez o meu dia, fez o dia de muita gente, mas não de um país. Há modalidade e modalidades, já se sabe. As atenções estavam no futebol, dizem-me. Vão dizer isso ao Tomás, sim? Talvez até seja do adepto ferrenho de futebol este o nosso campeão, mas isso nem interessa para nada.

O que importa mesmo dizer é que precisamos de dar condições aos nossos atletas, jovens ou menos jovens, olímpicos ou paralímpicos (e se formos para o universo dos paralímpicos, pois devíamos ter vergonha como país, porque as medalhas chegam-nos em barda, mas esses são os atletas do não-apoio). E em Ponta Delgada estas condições não existem. O que existe é uma enorme vontade de vencer, de ser melhor.

Depois de escrever estas linhas, soube que Diogo Ganchinho é campeão da Europa de Trampolim. Ok, não tem o glamour de outras coisas, pois, mas parabéns Diogo, parabéns Tomás! E parabéns Portugal.

Joãozinho ou as perguntas que as crianças fazem

Patrícia Reis, 12.04.18

Faltam 22 milhões de euros para as obras na unidade pediátrica do Hospital de São João no Porto. Digo que faltam porque estão aprovadas há um ano e nunca apareceram, portanto estão em falta.

O Parlamento e a Oposição caíram – e bem – em cima do Governo; o Governo, na pessoa de Mário Centeno, o todo-poderoso ministro das Finanças, esteve no Parlamento, numa audição conjunta das comissões de Saúde e Finanças, solicitada pelo PSD e pelo CDS a propósito do sector da saúde e da cativação de verbas para o sector.

Mário Centeno disse muita coisa, revelou números atrás de números, afirmou que a unidade pediátrica hospitalar tinha sido anunciada pelo Governo anterior sem verba para tal e bateu-se  - ferozmente - para explicar aos senhores deputados que, afinal, está tudo bem e que eles é que parecem não entender o que lhes é dito.

Bom, sobre o Hospital de São João e crianças com cancro a serem tratadas em corredores e contentores, o senhor tem razão para dizer que o anterior Governo tem responsabilidades concretas. E este governo? Também.

Não está tudo bem, é evidente, e não deixou de estar tudo bem no início desta semana quando as palavras de um responsável  daquele hospital classificaram as condições  existentes como miseráveis e indignas. Há muito tempo que não está tudo bem.

O Governo assegura que a verba, os tais 22 milhões de euros, será libertada e que as obras se farão. Ninguém perguntou, mas deveriam ter perguntado: então, quando Pedro Passos Coelho foi inaugurar a primeira pedra de uma unidade pediatria oncológica em 2015, sem verba, apoiando-se numa associação que iria angariar mecenas dispostos a levar a carta Garcia, era só para fazer parangonas de jornais? Good press? E o que aconteceu à dita cuja associação liderada por um tal de Pedro Arroja?

E, já agora, depois deste Governo ter assumido funções ninguém se ralou com o que estava a acontecer no dito hospital? Tantas perguntas, eu sei.

Acrescento outras para a realidade do dia de hoje: uma vez chegado o guito a quem de direito, que trâmites burocráticos faltam resolver? O orçamento de 22 milhões de euros tem um ano, mantém-se? O concurso para as obras afinal é válido? Ainda há mecenas? Onde foi parar a Somague, por exemplo, que assumiu que doaria uma quantia anual por dez anos? Quem não quer ajudar as crianças com cancro? Eis uma pergunta que o responsável pelo mecenato nos tempos do governo de Passos Coelho fazia certamente com um sorriso.

Enfim, talvez alguém tenha perguntado estas minudências e procedimentos e eu não tenha visto na televisão, não tenha lido nos jornais. Pode ser. O que me faz assaz confusão é que, como todos sabemos, as obras tendem a perpetuar-se, nunca são o que se espera, raramente se cumprem os prazos inicialmente previstos quanto mais o orçamento. Ninguém fiscalizou? Desde 2015?

Bom, e agora chegámos aqui. Uma vez em obras, que condições tem o Hospital de São João do Porto para dar respostas aos tratamentos de oncologia? Para onde irão estas crianças? Para outros corredores? Qual é a logística? Não consigo descortinar respostas para questões singelas.

Um pai de um doente diz que há outros espaços no hospital, que os contentores onde estão as crianças com cancro não são uma fatalidade. Diz mais, diz que tentou convencer a administração que era possível encontrar uma solução imediata e o interesse foi nulo. O Presidente do Hospital, que veio dizer que as condições eram miseráveis e indignas, pois não deve querer deslocar a administração do hospital para os contentores.

Não ouvi, nem ouvirei, um qualquer responsável dizer algo idiotamente básico e que as famílias com crianças com doença oncológica mereciam ouvir: pedimos desculpa. O pedido de desculpa, se existisse decência, seria do Governo actual e do anterior.
Esta situação não se gerou espontaneamente esta semana, tem muito, muito tempo. Mas neste país não se pede desculpa por nada, porque  seria a admissão de uma qualquer culpa e isso não é, politicamente, aceite como de bom tom, por isso faz-se o costume, culpa-se o anterior governo. Neste caso, está certo atribuir culpas, mas não chega.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista juntam-se aos protestos, exigem que a luta pelo queda do défice seja mais branda e que o dinheiro seja aplicado onde é preciso. No Hospital de São João? Pois, por exemplo. Recordam que a maioria governativa não existe sem o seu apoio.

Está bem, de acordo, mas, de novo, além de se matarem com retórica uns aos outros no Parlamento e nos jornais, quem é que está a tratar de arranjar uma solução para as crianças da unidade Joãozinho enquanto as ditas cujas obras começarem? Quem é que efectivamente se preocupou com as crianças e respectivas famílias desde a operação mediática do lançamento da primeira pedra? Pois, parece que ninguém.

Não é uma pouca vergonha, é uma imensa vergonha.

para acabar de vez com a cultura

Patrícia Reis, 05.04.18
Não sei se é intenção deste governo assumir que, afinal, o partido socialista agradece o apoio de artistas e agentes culturais em campanhas e afins, mas não está nada interessado em mudar o panorama nacional e entender que a cultura é a identidade do país e, por isso, merecedora de muito mais do que 0,02 por cento do Orçamento de Estado. Não sei se será politicamente correcto dizer que esta gente da cultura, afinal, é uma grande chatice, mas certamente que passará algo de semelhante pela cabeça de quem governa estas matérias.
 

O ministro da Cultura e respectivo secretário de Estado têm prestado pouco, pouquíssimo, para garantir que, por fim, num governo liderado por António Costa, a cultura tem o que na verdade merece. A dupla terrível sofre de um mal, ou de vários, e não tem qualquer salvação. Quando a coisa corre pior para o seu lado perde a autoridade e os agentes culturais, artistas, gestores, etc., batem a porta, e apelam directamente ao primeiro ministro.

Foi assim com o cinema, é assim com o resultado do concurso da Direcção das Artes para apoio financeiro para a área do teatro, música, circo contemporâneo e artes de rua, artes visuais e cruzamentos disciplinares.

Numa carta aberta a António Costa, a tal gente da cultura que, na verdade, deveríamos ser todos nós, diz que a política cultural do Governo “falhou por completo e de forma transversal”. O Governo, perante tanta lamúria, manda dizer que afinal há reforço financeiro: tomem lá mais dois milhões de euros. A ver se a coisa acalma.

O secretário de Estado, que demorou muito tempo a definir os moldes deste concurso e que perante a sua ineficácia mantém a ideia de que o modelo de concurso é bom, pasme-se, parece dizer que ainda há espaço para rever algumas coisas. E, de repente, é uma coisa juvenil, ou mesmo uma disputa infantil: ah, os meninos querem mais e vão fazer um grande alarido? Esperem, esperem que nós mandamo-vos doces.

Desta vez, doces não chegam, as manifestações estão marcadas para amanhã em Lisboa, Porto (o presidente da Câmara Municipal do Porto tem esfregado as mãos com esta polémica e posiciona-se para ficar num pódio de solidariedade e cultura como nenhum outro dirigente), Évora, Coimbra (cidade que ficou sem nenhuma estrutura cultura apoiada pelo concurso para financiamento) e Funchal, às 18h00.

Nunca entenderei a razão que faz com que a cultura seja o parente pobre do governo, deste ou de qualquer outro, sendo que este nem consegue assegurar algumas das condições do passado e mete os pés pelas mãos com o duo fantástico que preside a estes destinos.

O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda mostram-se acérrimos defensores dos queixosos. Até há quem volte a dizer que a Cultura deveria beneficiar de um por cento do PIB do país. Há cronistas que pedem a demissão de Castro Mendes, o ministro diplomata e poeta, e de Miguel Honrado. Para mim, vale pouco.

Importa dizer ao primeiro-ministro que não pode contar com os artistas para fins meramente políticos, é preciso dar-lhes condições para servirem melhor o país, enriquecendo a nossa identidade, mostrando como não somos iguais a mais nenhum povo deste planeta. A Cultura como parente pobre num país que tem níveis aclamados de turismo ainda faz menos sentido.

Bom, estou a magicar coisas: imagine-se o que seria uma aposta concertada na Cultura como investimento económico. Isso é que era. Mas não será com este governo, nem com qualquer outro governo. Não importa realmente a ideologia, o mecanismo de funcionamento face à cultura repete-se e é, no mínimo, triste.

A América que muda

Patrícia Reis, 29.03.18

Milhares de pessoas, em especial jovens, saíram à rua e fizeram uma revolução. Não foi apenas um acto isolado, e isso é evidente para quem ouviu os diferentes discursos nas diversas cidades.

Este movimento veio para ficar e para mostrar a Donald Trump que talvez seja derrotado por quem é mais jovem, por quem é capaz de pisar um palco e, com tão pouca idade, dizer de sua justiça, invocando palavras sábias, relatando episódios traumáticos de violência, exigindo que os políticos sejam melhores. É uma revolução.

“É um novo Maio de 68”, disse a escritora Inês Pedrosa no twitter. É é verdade. Um Maio de 68 em Março de 2018 cujo enfoque não é apenas a questão da venda de armas, a falta de controlo (os jovens exigem a proibição da comercialização de armas de fogo, da venda livre de carregadores para armas semiautomáticas e o reforço dos controles de antecedentes das pessoas interessadas em comprar armas). É uma revolução pela vida, pela segurança, pelos direitos elementares, pela liberdade de expressão. Não são “jovens corajosos”, como refere o comunicado da Casa Branca, de forma condescendente. Nada disso: são jovens com voz, com ideias, com discurso, com capacidade de mobilização, com ideias, com objectivos. Tal e qual como eram os estudantes que mudaram o mundo à sua maneira em 1968.

A geração das redes sociais, do século XXI, não é comodista e preguiçosa, é informada, articulada e tem coisas para dizer, em especial quando se sente ameaçada. Estes jovens norte-americanos estão fartos, cansados de ter medo de quem possa ter uma arma e atacar. Os ataques a liceus não são ocasionais, são constantes. O poder que o negócio das armas detém nos EUA reside no esquema mafioso de benefícios financeiros para políticos para quem os eleitores, na verdade, são um pormenor de somenos na equação da democracia. Estes milhares de jovens de provenientes de diferentes meios sócio-culturais, de ambos os sexos, habitantes de vários estados norte-americanos, não querem mais conversas e subterfúgios, querem uma solução. Não podem – nem devem – ser encarados com condescendência. É a eles que o futuro pertence, são eles os leitores que Trump deve temer.

Estes jovens pensam pelas suas cabeças e não são, como explicou Naomi Wadler, de 11 anos de idade, “manipulados por adultos”. São capazes de perceber a diferença entre o certo e errado e não têm medo de enfrentar o mundo para dizer de sua justiça.

Com uma organização exemplar, a Marcha pelas Nossas Vidas foi uma iniciativa de estudantes sobreviventes do tiroteio numa escola em Parkland, na Florida, um tiroteio que ocorreu no mês passado, durou seis minutos e vinte segundos e resultou na morte de 17 pessoas. Emma González, uma das estudantes sobreviventes, de origem cubana, assumidamente bissexual, surgiu no palco principal do evento em Washington, com um casaco a lembrar o universo militar, cabelo rapado, e tornou-se o rosto de uma geração, de uma geração com direitos e exigências, uma geração que exige que sejamos melhores enquanto sociedade, na forma como nos comportamos, como lidamos uns com os outros. Emma Gonzalez anteve-se em silêncio durante quatro minutos e vinte segundos, um tempo infinito, as lágrimas a espreitarem, a rosto cerrado. Podia ser uma cena de um filme de Hollywood a puxar ao sentimento, mas é a vida real e é impossível ouvir e ver esta jovem sem qualquer comoção, é obrigatório chorar com ela.

Cameron Kasdy, outro estudante de Parkland, disse: “Desde que o movimento começou, as pessoas perguntam-me: ‘Pensas que isto vai provocar alguma mudança? Olhem à vossa volta. Nós somos a mudança”.

Christopher Underwood, de 11 anos de idade, falou sobre o irmão, baleado em 2012. Tinha 14 anos. “Na altura, eu tinha apenas cinco anos. Transformei a minha dor e raiva em acção (...) As nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecermos em silêncio sobre as coisas que importam”. A citação de Martin Luther King é exemplar do que acontece(u) na Marcha Pelas Nossas Vidas. A neta de Martin Luther King, de nove anos de idade, Yolanda Renne King pediu "um mundo sem armas". Tem o mesmo sonho do avô. Não está sozinha.

Em Los Angeles, Edna Chavez, também ela estudante de 17 anos, declarou: “Sou uma sobrevivente. Vivi no centro de Los Angeles a minha vida toda e perdi muitos dos meus entes queridos por causa da violência. Isto é o normal. (...) Eu perdi mais do que o meu irmão naquele dia, perdi o meu herói. Também perdi a minha mãe, a minha irmã e a mim mesma para o trauma e ansiedade”.

Desde Janeiro deste ano foram registados 49 tiroteios, já morreram 3 mil 159 pessoas em incidentes com armas nos Estados Unidos. Destes, 737 tinham menos de 17 anos de idade. Os jovens gritaram: “Já chega!”

A História mostrará que têm a capacidade para mudar o mundo e que nada os deteve.

carneirada? sim, somos nós

Patrícia Reis, 22.03.18
Lembra-se daquele filme no qual Dustin Hoffman fabricava uma guerra porque o negócio da guerra é apetecível e porque politicamente era interessante para certas pessoas? Não tem importância se não se recorda, o que importa realmente é que a ficção foi largamente ultrapassada pela realidade, facto inegável perante notícias como as que dizem que o Facebook permite que os dados dos seus utilizadores sejam manipulados.
 

Há empresas especialistas em manipulação e propaganda política que, não apenas nos filmes com teorias de conspiração, prevêem comportamentos e tendências e encaram a população como... não há outra forma de o dizer, portanto aí vai, uma carneirada capaz de se deixar enganar com os engodos mais simples. Todos achamos que somos inteligentes, bem formados, temos bom gosto e somos moralmente corajosos e esclarecidos e, por isso mesmo, iremos negar essa possibilidade de manipulação.

Ontem alguém me dizia: “eu uso as redes sociais mas não embarco naquilo”. A mesma pessoa, há cerca de duas semanas, lamentou a morte de Umberto Eco, a circular por aí como uma novidade, apesar de ser uma postagem com mais de um ano. Não abriu a informação, leu as gordas e lamentou a morte do autor de O Nome da Rosa. Desde que frequento as redes sociais, o Vasco Granja já morreu uma dez vezes. Há sempre quem se comova e apresente as condolências com um sentido de oportunidade digamos que estranho.

Estes episódios são exemplos quase que inocentes de como não filtramos nem analisamos a informação distribuída nas redes sociais. Lemos as gordas e comentamos. Publicamos fotografias da nossa vidinha feliz e partilhamos notícias que nos importam e que podem ajudar a criar um perfil de quem somos, do que gostamos, no limite, daqueles em quem podemos votar. Se nos atirarem areia nem coçamos os olhos. Aceitamos.

Assim mesmo se explica que a campanha para a Presidência dos Estados Unidos tenha conquistado tantos adeptos, os mesmos milhões que votaram no senhor Trump. Teriam as pessoas a noção exacta daquele em quem estavam a votar? O mais certo é a resposta ser: não. Só assim se entende a percentagem de latinos e afro-americanos que votaram neste 45º Presidente dos EUA. É inegável que o senhor não é fã de nenhuma destas componentes da sociedade.

O Parlamento Europeu convidou Mark Zuckerberg a explicar como se podem – ou não – manipular os dados pessoais dos cerca de 500 milhões que utilizam o Facebook. Até ao momento em que escrevo esta crónica, o senhor todo-poderoso das redes sociais não deu uma resposta. O convite surge por causa das notícias (divulgadas pelo London Observer e pelo New York Times) que correram mundo rapidamente: uma empresa com sede no Reino Unido, a Cambridge Analytica, usou informação do Facebook para auxiliar a eleição de Donald Trump, em Novembro de 2016. Há uma violação clara dos direitos das pessoas? Pois.

A dita cuja empresa que, alegadamente, terá manipulado os dados, recusa as acusações (Então? Estavam à espera do quê?) e afirma-se disponível para ajudar em qualquer investigação. A verdade é que existem relatos – embora indirectos – de que a empresa se especializou em criar situações online com objectivos específicos, seja fazer ganhar eleições, seja fazer cair políticos corruptos. As investigações levarão a eternidade do costume, entretanto, as redes sociais - e outras empresas às quais damos os nossos dados, bancos, lojas, etc, etc - continuarão a dar-nos de comer e nós iremos comer às suas mãos, obedientes e de olhos fechados.

É do inimigo? Raul Solnado ainda está aqui

Patrícia Reis, 15.03.18
Há quase uma década que não rimos com Solnado. Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado e sempre quis fazer a sua homenagem, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês.
 

A história é quase comovente. Telmo Ramalho não tinha imaginado ser actor. Natural de Figueira de Castelo Rodrigo (não precisa de ir ao mapa, é no distrito da Guarda), Telmo Ramalho viu a sua vida transformada por uma cassete (uma espécie de CD mas um pouco mais primitivo, ver referências na internet, por favor) que o pai comprou numa estação de serviço. A cassete trazia os monólogos de Raul Solnado. Não o entusiasmou à primeira, precisou de um pouco de tempo, e depois rendeu-se ao poder quase hipnotizante de Solnado, a sua capacidade única de dizer um texto.

Vou contar-lhes a história da minha ida à Guerra de 1908.
Eu trabalhava numa fábrica de produtos farmacêuticos, e, um dia sem querer, parti um comprimido e despediram-me. Fui então lá para casa sentar-me numa cadeira que nós lá temos para quando somos despedidos. Estava-me a baloiçar, quando entrou o meu tio Gustavo com o jornal que trazia o anúncio da guerra.
Precisa-se de Soldado que mate depressa!
E diz a minha tia:
Porque é que tu não respondes a esse anúncio?
E diz a minha mãe:
Isso, isso o que era preciso era comprar-lhe um cavalo!
e diz a minha tia:
Mas eles na guerra dão cavalos.

A vida de Telmo Ramalho prosseguiu, com um novo morador no coração, mas sem grandes vontades de palco ou de representação. Estudou turismo e animação turística, foi para o Porto e, em 2002, ingressou no Corpo de Vigilantes da Natureza. Estava nisto de ver a Natureza, de prevenir fogos e mirar animais selvagens quando, em janeiro de 2007, participa no concurso televisivo Aqui Há Talento na RTP1. Não ganhou o concurso, já se sabe, mas acabou por conhecer o mestre. E o bicho ficou cada vez maior dentro de si que isto de ser actor não é um dado conquistado tão somente, é uma coisa que nasce dentro das pessoas. Decide estudar, fazer um curso de teatro e descobre que Raul Solnado dá aulas.

Fomos para casa, e a minha mãe preparou me umas papas de sarrabulho para o caminho, tomei um táxi e fui para a guerra. Cheguei à guerra eram sete horas da manhã, estava ainda fechada. Estava também uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra e eu perguntei:
“Minha senhora, faz favor? Diga-me, aqui é a guerra de 1908?”
E a senhora disse-me:
Não! É mais acima! Aqui é a guerra de 1906.
Repliquei um
Muito obrigado.
Subi dois anos. Cheguei lá cima, e estavam já a abrir as portas onduladas da guerra, eram já nove e tal, e o sentinela perguntou-me se eu vinha ao anúncio, e eu, disse que sim, e perguntou ele:
E matas depressa?
E eu disse,
Por enquanto ainda mato assim-assim… preciso de treino.”
Respondeu-me:
Então, anda ao capitão.
Fomos ao capitão, e o capitão perguntou-me se eu trazia a espingarda ao que eu disse:
Não, pensei que a ferramenta davam cá vocês. O que eu trago é uma bala, que um vizinho meu guardou como recordação da guerra dos cem anos.
E diz o tenente:
Como é que você mata só com uma bala?
E eu expliquei:
Disparo a espingarda, e depois, vou lá a correr buscar a bala.

Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado, ouviu-o atentamente, entendeu as críticas, as sugestões e, fascinado pelo grande actor, sempre quis fazer a sua homenagem, encarnar Raul Solnado, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês. Depois, se o resto do país perceber este tesouro que temos em palco, talvez o espectáculo chegue a outras paragens.

Aqui o humor é único, com sub-texto, sem nada de brejeiro. O actor segue o mestre e está lá tudo, os tiques, as mãos a dançar, as pausas típicas de Solnado e uma história para contar que é, afinal, a história de todos nós com o actor que nos deixou fará, para o ano, uma década. Há uma década que não rimos com Solnado, apesar disso temos incorporado algumas das suas saídas, algumas partes do que disse em palco, pequenas tiradas que importámos para a nossa vida.

Fui ver o espectáculo com a minha mãe. Há muito que não a ouvia rir tanto. Voltou atrás no tempo e antes do Telmo Ramalho dizer o texto, em surdina, com imenso gozo, a minha mãe completava-lhe as frases.

Bem, fizeram uma conferência e deram-me seis balas, mandaram-me depois matar. Estava então eu, a matar, muito quentinho, quando veio o capitão e mandou-me ir vestir de espia. Deram-me um vestido de orgândicos com uns laços cor-de-rosa na cabeça e mandaram-me de espia. Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta e o sentinela espreitou pela frincha e perguntou:
Quem é?
E eu:
Sou a Maria Albertina, malandrice!
Ele disse:
O que é que queres?
E eu disse:
Eu venho cá buscar os planos da pólvora.
E ele disse:
Trabalhas de espia há muito tempo?
E eu disse:
Trabalho desde as 11!

Há nove anos que não rimos desta forma, que não somos tocado pela magia de Raul Solnado. Obrigada Telmo Ramalho por nos devolveres um bocadinho do Raul.
* As partes reproduzidas pertencem ao sketch "A minha ida à Guerra de 1908", passou na censura e subiu ao palco em 1961 integrado na revista "Bate o Pé", em cena do Teatro Maria Vitória.

Seria mais fácil se fosse homem? Sim, mas não seria melhor

Patrícia Reis, 08.03.18
Podia debitar as estatísticas sobre CEO de empresas mulheres, mulheres sem ordenados equiparados, progressões de carreira a sofrer de lentidão e afins, mas não vale a pena maçar-vos com informação que é, nos dias que correm, dado adquirido e que, tantas vezes repetida, provoca, em algumas mentes estafadas de profundo cansaço, certa irritação. 

Não conto pelos dedos as vezes que me disseram que “isso já se está a tornar cansativo”. Não conto pelos dedos por não os ter em número suficiente. Confesso que o meu feminismo não é pop, nem fundamentalista, é talvez básico, mas atento. A minha luta, e a de muitas mulheres e homens de boa vontade, é pela paridade, pelo tratamento equiparado, pelo ordenado igual.

Uma coisa é certa: se eu fosse homem teria feito uma carreira no jornalismo - e na literatura! - com maior ligeireza e sem tantas provas de esforço. Não podem dizer que peco por excesso, podem apenas dizer que falo por mim, tendo em conta os meus 30 anos de vida profissional. Seja, falo de mote próprio, afinal é o meu nome no cabeçalho, a minha fotografia aqui especada. Se quiserem cingir o que vos escrevo à minha pessoa e vidinha, pois estão apenas a enganar-se, mas vamos lá a isto.

Em 2017, José Luís Peixoto, num encontro na feira do livro do Porto, disse: “A minha vida é mais fácil do que a vida da Patrícia, não sou mulher”. Sorri e comecei a pensar nas histórias que tenho acumulado ao longo da vida: a Maria Teresa Horta a dizer que coloca um alarme quando está a cozinhar para ter a certeza de que não deixa queimar nada, ela a tentar escrever poesia e a fazer comida para a casa; a Sophia de Mello Breyner que terá dito que escreveu muitos poemas enquanto fazia bacalhau com batatas; a Agustina Bessa-Luís a rir, os homens não são para levar a sério; a Inês Pedrosa a explicar que, como reivindicou Virginia Woolf (leiam o livro Um Quarto Só Para Si, edições Relógio d’Água, é maravilhoso), é preciso ter liberdade financeira e um quarto só nosso, um escritório como têm tantos homens.

A estes grandes vultos da literatura posso juntar quase todas as escritoras com quem me cruzei em Portugal e fora de portas. A nossa vida não é fácil. Ser escritora mulher significa ser uma mulher de sete ofícios, pela simples razão de termos inúmeros afazeres que, por uma razão quase estranha e maléfica, nos impedem de fechar a porta do escritório e dizer: vou escrever, não me perturbem, não me interrompam.

Não. É certo que a porta do “quarto só nosso” mantém-se aberta e corremos o risco de ter um filho a berrar lá ao fundo da casa: Mãeeeeee, preciso de papel higiénico! Tens 50 cêntimos? O que é o jantar? Ou outra coisa qualquer, porque a uma mulher não passa pela cabeça fechar a porta e dizer que vai escrever e está desligada para o resto do mundo. Sim, teria sido mais fácil ser homem enquanto criava os meus filhos, decerto que teria conseguido ir a festivais literários e sessões em bibliotecas com maior frequência.

Hoje sou uma privilegiada, sou uma mãe-livre, no sentido em que os meus filhos são adultos e, portanto, posso escrever e ouvir músicas estranhas, posso fugir para dentro de casa sem ter de me preocupar com escolas e actividades. E ainda tenho, cereja no topo do bolo actual, um marido que me diz: vai, vai escrever, eu trato. Ah, de que me queixo eu?

Se tivesse nascido rapaz e me chamasse João ou Manuel ou Francisco ou António ou Xavier, eu seria uma escritora com pergaminhos. Podia manter uma dose de mistério, mas os meus livros venderiam muito mais. Sim, está provado que os melhores compradores de livros são as mulheres e está igualmente provado que compram maioritariamente livros escritos por homens. E, lá está, peço desculpa pela repetição, mas é já um fetiche: se uma mulher escreve uma história que tenha um enredo amoroso, é somente uma história de amor; se um homem escreve uma história de amor, ah, é sobre a condição humana.

Mas há mais: se eu fosse um homem e escrevesse umas coisas lamechas, quem sabe?, podia vender mais livros e atingir o céu em termos de números de fãs (ou devo dizer, adeptos? fiéis?). Não, nada disso. Se estivesse numa televisão a apresentar qualquer coisa e fosse um rapaz garboso de fato azul escuro e bela gravata grená, podia escrever mistérios e até episódios eróticos de mau gosto, ninguém se importaria, sobretudo a minha conta bancária.

Sim, bem sei que estou a ser irónica e mazinha, mas o que querem? Parece que este é o nosso dia, o da mulher, porque o dos homens será todos os outros e nós, criaturas frágeis a precisar de protecção, temos de aproveitar este dia para falar alto e bom som das nossas dores tamanhas.

Ora, nós não precisamos de protecção, o que não significa que não possamos apreciar os gestos cavalheirescos, precisamos que nos encarem com a mesma seriedade com que encaram o sexo oposto, reconheçam o nosso valor, nos paguem os mesmos salários, nos dêem oportunidade de chegar aos mesmos cargos. Precisamos ainda que nos oiçam e percebam que o que se fez anos a fio, práticas seculares, não justificam o que continua a passar-se.

São vários os movimentos que tentam chamar a atenção para a causa feminina, já se sabe. Infelizmente, não são suficientes e, por isso, eu, cansativamente feminista, repito e volto a repetir as informações que cansam tantas mentes estafadas de ouvir estas mulheres que não sabem senão queixar-se. Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.

Portanto, pergunta para queijo: acham que nos temos queixado o suficiente? Olhe que não, caro colega, olhe que não.

A pornografia como educador? Se calhar era melhor falarmos de sexo com os nossos filhos

Patrícia Reis, 01.03.18
Num jantar de pais livres, como gosto de lhes chamar (pais com filhos em idade para ter vida social própria), falava-se de sexo. Será que os nossos filhos viram, ou vêem, pornografia? Não queremos falar de sexo com os nossos filhos e tão pouco pensar que têm acesso a pornografia com a maior facilidade do mundo, mas é um facto, real, fácil de comprovar, estudado e analisado.
 

Com acesso a smartphones ou tablets, os jovens podem aceder a sites pornográficos gratuitos com uma facilidade quase, digamos, obscena. Os pais não têm como saber? Não têm. Uma das mulheres que jantava naquela mesa de gente crescida disse que via o histórico do computador dos filhos (eu seria incapaz, confesso), mas que não tinha como aceder ao dos telemóveis sem “dar nas vistas”.

Os pais continuaram a conversar animadamente: os homens a recordar uma publicação de nome Gina e os lugares onde a podiam comprar (algumas eram herdadas dos irmãos); as mulheres a confessar como informações sobre sexo tinham chegado via amigas, e não pela família e, na sua maioria, concordavam que a informação chegara tarde demais. Hoje, os adolescentes ainda não iniciaram a sua vida sexual e já podem ter visto tudo. E o tudo é, muitas vezes, pornografia, sexo entre duas ou mais pessoas, tantas vezes com posições de dinâmica de poder favorecendo os homens, com práticas e discurso que podem surgir como “naturais” para quem é menos informado.

Para saber um pouco mais, leiam o artigo do The New York Times de Maggie Jones, traduzido Luís M. Ferreira e que foi publicado na última revista do semanário Expresso. São seis páginas muito elucidativas e preocupantes. Eu sei que são seis páginas de texto, sem qualquer imagem, porém garanto-vos que o artigo vale todos os vossos minutos, em especial se são mães ou pais.O sexo faz parte da vida, é saudável e de louvar, não tem discussão. Implica, numa prática saudável, reciprocidade, um princípio de prazer mútuo que é totalmente esquecido na maioria dos filmes pornográficos.Há uns anos, ouvi – procurem na internet – uma Ted Talk de Erika Lust, realizadora de filmes porno, que me ensinou em 15 minutos algumas coisas e aniquilou uns tantos estereótipos. Erika Lust gere um negócio porno altamente rentável. A diferença? A procura de uma narrativa sexual que não diminua a mulher, que possa ser entendida de outra forma, para, diz a realizadora, se perceber que nem todas as mulheres têm mamas gigantes nem os homens são todos dotados de pénis com 30 ou mais centímetros.

No tráfego de consumo de pornografia, Portugal está no 41º lugar, portanto não podemos dizer que não é um assunto. É um assunto. A maioria dos consumidores de pornografia são homens (78%), as mulheres ficam nos 22%. Estes dados são da Pornhub que, há três anos, decidiu analisar o mercado português. Chegaram a conclusões interessantes, então partilhadas pelo Jornal de Negócios. Um dado a reter: como o acesso aos sites porno antes dos 18 anos é ilegal, os dados sobre o consumo não contemplam idades inferiores. Outro dado a ponderar são as categorias de palavras mais procuradas em Portugal neste âmbito. A saber: “teen” e “milf” (Mother I want to fuck).

No artigo de Maggie Jones, encontramos o subtítulo: tudo começa aos 13. E a afirmação é sustentada por um estudo da Escola de Media da Universidade do Indiana (EUA) que aponta para que o consumo de pornografia em adolescentes comece aos 13 anos, no caso dos rapazes, e aos 14 anos, no caso das raparigas. A mesma universidade fez um inquérito a pais e filhos e concluiu que mais de metade dos pais não acredita sequer que os filhos vejam pornografia. Já 93% dos inquiridos masculinos e 62% femininos, no âmbito de um estudo da Universidade de New Hampshire (2008), admitem ter visto pornografia online antes dos 18 anos.

A pornografia como educador ou guia de orientação pode ter servido, ao longo dos tempos, vários propósitos. Nos dias de hoje, além de todas as questões relacionadas com sexo seguro e doenças sexualmente transmissíveis, importa que os adolescentes entendam as limitações do negócio que é o sexo. Um filme pornográfico não implica prazer, muitas vezes apresenta gestos de violência (asfixia, para dar um exemplo), linguagem mais agressiva e, classicamente, ejaculação para o rosto da parceira.

Replicar o que se vê não é boa opção na vida real. Vamos, então, falar sobre sexo com os nossos filhos? É capaz de ser ajuizado.

 

Tenho dois cães. Não vão a restaurantes.

Patrícia Reis, 22.02.18

Gosto muito de animais, sempre gostei. Já tive gatos, agora tenho cães. Em tempos que vão, tive uma égua. Esforço-me muito por não impor os meus animais a terceiros. Não vou de elevador com eles à rua, vou de escadas. Se alguém vai jantar lá a casa, pois faço por não os ter em casa, vão ali passar umas horas com alguém que os trate bem. Apanho dejectos na rua e não os solto nunca. Esforço-me para os educar e nunca, nunca mesmo, vou dizer a uma criança (ou adulto) com medo de cães: não sejas parvo, ele não morde. Respeito o medo dos outros.

Não vou levar os meus bichos para os restaurantes, da mesmo forma que não os levo para a praia, para o bar, para a piscina, para os jardins cheios de crianças. Não gosto menos dos meus bichos por causa disto. É uma forma de estar. Sei que muitas pessoas considerarão que a nova lei é uma boa coisa. Ficará ao critério de cada um, já se sabe, e também dos donos de restaurantes.

Há, contudo, um aspecto crucial que creio não ser de somenos: os animais sofrem em espaços nos quais não se podem movimentar e sofrem mais ainda com cheiro de comidas que lhes estão interditas. Este é, como dito de início, o meu entendimento e ajo de acordo com esta ideia. Da mesma forma que, pese o amor que lhes tenho, reconheço-lhes a origem, logo não os visto, não lhes meto ganchos ou roupinhas e lenços à Xutos & Pontapés. São animais. São bons animais e excelente companhia, mas não são comparáveis com seres humanos. É que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Dirão que há animais que são tão importantes – ou mais – que muitos familiares. De acordo. Mas há mínimos olímpicos de higiene que me afligem nas idas aos restaurantes e afins. A minha cadela larga mais pelo quando se deita do que aquele que a cabeleireira atira para o chão sempre que me corta o cabelo. Os cães largam pelo. É um facto. Então, caso encontre um restaurante que o permita, com tanta fiscalização e afins, vou levar o meu animal e conspurcar o sítio? Ou vamos pensar que os donos de restaurantes têm de estar preparados para tal? E, já agora, para necessidades fisiológicas inesperadas?

Enfim, sei que para muitas pessoas esta questão é sensível e, decerto, alguém se encarregará de me colocar na ordem. Eu sou teimosa e vou manter os meus cães em lugares onde possam ser felizes e farei por ser o mais civilizada possível, apanhando dejectos da rua com um saco para o efeito, afastando os cães de crianças e idosos, de sítios que possam ser perigosos (cuidado com os vidrões, por perto estão inexplicavelmente vidros mínimos que se enfiam nas patas) e nunca os deixando andar a vaguear livremente. Não sei o que pode acontecer, creio que tudo pode acontecer e é para isso que existem trelas e, por outro lado, espaços específicos para cães correrem.

vivemos num país só para jovens? parece que sim

Patrícia Reis, 15.02.18

Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.

Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.

Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.

Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.

E tudo isto importa porquê?

Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.

Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.

Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.

Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.

Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.

As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

A minha morte é um assunto meu

Patrícia Reis, 08.02.18
A eutanásia nunca será um tema consensual? Porquê? Parecem perguntas simples, mas não o são.
 

A sociedade gere-se por regras e as mesmas são impostas por uma maioria forte, predominante e, muitas vezes, cingida a uma moral que deriva da religião. Fala-se muito em amor, em vida, direito à vida e ainda outras coisas como a invocação divina. Estamos no século XXI, há coisas que já perderam validade. Ora, em Portugal, alguns partidos políticos elaboraram, ou estão no processo de elaborar, projectos de lei de legalização da eutanásia. Só pecam por ser tão tarde. Sou completamente a favor. Haverá quem seja contra, não tenho a menor dúvida.

Dirão que serão necessárias limites e fronteiras, pois seja. Até porque importa acautelar a possibilidade de familiares demasiado ansiosos por eventuais heranças, ou desejosos de se verem livres do peso daquela pessoa doente, se apressarem a antecipar a sua morte. É, portanto, crucial que a lei seja claríssima e eficazmente explícita quanto aos mecanismos de confirmação inequívoca do desejo do doente. É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. E é para isso que votamos e temos partidos a pesquisar para produzir decretos-lei com pés e cabeça.

O que me importa, contudo, é a possibilidade de ver eliminada esta indignidade que a evolução da medicina permite: estendemos a vida do corpo sem qualquer preocupação com a dignidade individual, com a qualidade de vida de cada um. Há sempre o argumento do instinto de sobrevivência, ninguém quer morrer (ora pois, então!), não sabemos ao que vamos e, mesmo os mais religiosos, com promessas de céu e salvação, virgens e outras coisas, têm grande dificuldade em digerir este momento biologicamente inevitável.

A morte não é simpática, mas a vida faz-se com alegrias e percursos mais árduos, numa presunção de que vamos envelhecendo, mas não ficamos apenas ali num canto a dizer que estamos vivos sem capacidade para nos mexer. Se não quero cá estar, se o corpo me trai, por que será que não posso colocar fim à minha vida?

Em casos de sofrimento, devo dizer que não tenho qualquer reticência. Os fundamentalistas dos movimentos pró-vida, irão invocar argumentos que não tenho como entender: e se um adolescente se quiser matar com assistência? Bom, a adolescência é uma espécie de construção e destruição diária, os adolescentes pensam na morte e os que se querem matar, matam-se, não será para isso que servirá um decreto-lei certamente. Existe sempre também quem veja o aspecto financeiro da coisa. Em tempos, noutra matéria sensível, ouvi um argumento contra o referendo do aborto que era surreal: se matamos as crianças por nascer, não estamos a garantir contribuintes para o futuro, logo estamos a lesar as pensões (sem comentários). Portanto, também teremos quem pergunte porque razão deverá o Estado financiar a morte.

Ora, todos os dias, em todos os hospitais do mundo, existem pessoas que viveram vidas cheias, umas melhores do que outras, não tenho dúvida, e que chegaram ao fim para estar no tal canto que a medicina proporciona, com comprimidos para o coração, para a tensão, para dormir, para ter fome, para o colesterol, para a insuficiência cardíaca, para ... e para.... Valerá a pena? Os moderados irão reclamar e bradar aos céus que cada caso é um caso.

No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.

O génio de Ursula K. Le Guin

Patrícia Reis, 01.02.18
Na semana passada, morreu Ursula K. Le Guin. Confesso-vos já que fiquei com lágrimas nos olhos e, por isso, se acham que é lamechas, mais vale não ler esta crónica. Nunca conheci a autora de fantasia que me mudou a forma de ver o mundo era eu ainda adolescente, mas li tudo o que escreveu e tenho-a como uma amiga. Morreu-me. Como só nos morrem as pessoas que amamos. 

O meu primeiro encontro com Ursula K. Le Guin deu-se com o livro Feiticeiro Terramar e depois nunca mais parei. Aprendi imensas coisas com ela ao longo da vida. Sobre a forma de estar, sobre a escrita, sobre a importância dos dragões. Para mim, nunca foi uma autora de ficção científica, embora seja esse o rótulo no mercado dos livros e dos leitores. Sempre entendi que os seus livros eram reflexões sobre a vida e os relacionamentos. Reflectir é um dos bens maiores da Literatura e a razão pela qual acusamos a falta de pensamento prende-se com essa preguiça no exercício de ler e de pensar. Ler e interrogar, ler e entender, ler e incomodar. Agustina Bessa-Luís disse muitas vezes que escrevia para incomodar.

A autora norte-americana, casada com um francês, filha de antropólogos, mãe de três filhos, dispôs-se a fazer-nos pensar e construiu histórias que ficarão para sempre com quem as leu. Uma das suas leitoras, acredito que devota, será J.K. Rowling, a autora do famoso entendedor de serpentes, Harry Potter de ser nome. Se Ursula K. Le Guin bebeu em J.R.R.Tolkien, Rowling foi beber à obra de Ursula e sempre que me cruzo com Harry Potter penso em Gued, o Gavião de Terramar, ele que falava com dragões, a língua mais antiga do mundo. A autora afirmou: “Escreva o que deseja escrever. Adicione tantos dragões quanto quiser”.

Imaginar o possível, ou o impossível, para pensar a humanidade é um talento de génio que poucos possuem. E claro que ainda hoje se diz que H.G. Wells, autor da Guerra dos Mundos, é o pai da ficção científica. O pai parece importar sempre mais do que a mãe, vá-se lá saber porquê. Eu, que sou cansativamente feminista, pois torço por Mary Shelley e pelo seu Frankenstein. Coisas minhas, já se sabe.

Uma das facetas de Ursula K. Le Guin era o seu feminismo num mundo manifestamente dominado por homens. Ela dizia que não tinha gostado de ficção científica ou de fantasia imediatamente. O facto de a maioria das histórias terem como protagonistas homens bélicos com desejos de invadir ou conquistar algo pareceu-lhe redutor. Assim, como lhe pareceu redutor ser apenas mãe e esposa. “Não há motivo para que uma mulher casada com filhos não possa ser uma artista comprometida. (Isso parece evidente, mas não foi imediatamente claro para mim)”. E, assim, entendendo o universo ao seu redor e o domínio do patriarcado, a escritora tornou-se feminista acima de tudo, mesmo quando os personagens centrais das suas histórias eram do sexo masculino. “Os valores do patriarcado estão enterrados em muitos dos enredos das nossas histórias. São necessários novos enredos”.

Frontal. Bem-disposta, capaz de se manter num certo anonimato para preservar a sua vida privada, Ursula K. Le Guin foi convidada para a Academia de Letras Americana em 2017 e terá, de acordo com declarações suas, perdido ou deitado a carta para o lixo. Meses depois da formulação do convite, sem resposta, a Academia decidiu interrogar a agente da escritora e é assim que fica a saber do convite. Escreve a agradecer e a aceitar, dizendo que não recebeu nada por escrito, não “estava a dar numa de Dylan”, aludindo ao silêncio de Bob Dylan à Academia Sueca aquando do Nobel da Literatura. O seu sentido de humor pode ser apurado em alguns vídeos na internet. Os livros, a sua maioria não está traduzida para português, são procurados pelo mundo inteiro. Não apenas a ficção, mas também a poesia, a literatura infantil e, claro, o guia para escritores. O mesmo livro onde afirma que ler é mais importante do que qualquer outra coisa e, por isso, os outros escritores não são concorrência, são sustento. É aí também que se pode ler que o arrependimento faz parte do crescimento enquanto escritor e que corrigir é bom, mesmo que os erros anteriores sejam eternos e possam estar a um “Google de distância. Não há nada vergonhoso em se tornar uma pessoa melhor, uma pessoa mais sábia”.

Morreu Ursula K. Le Guin. Ela que estudou o taoismo e o budismo, na busca permanente de equilíbrio, e que teimava na ideia de que o trabalho diário era o mais importante porque, afinal, “a imortalidade nunca funcionou bem para ninguém”, acrescentando: “Evite isso a todo custo”. Não creio que tenha conseguido atingir este objectivo. Quem leu os seus livros irá passá-los a outros e, de geração em geração, a escritora será única e, portanto, imortal.

Tem algum Nobel da Literatura no seu país?

Patrícia Reis, 25.01.18
Todos os anos, temos a saga do Nobel e, como um bom relógio suíço, há quem torça por António Lobo Antunes e quem recorde José Saramago. O Nobel da Literatura é porventura um dos poucos prémios Nobel sobre o qual as pessoas discutem com à-vontade, discutem e criticam.
 

Afinal, de literatura sabemos todos um pouco? Parece que sim. Ora, a opinião pública conta pouco – ou mesmo nada – para esta corrida já que os putativos vencedores devem ser nomeados por antigos laureados, instituições e academias cujo perfil seja indiscutível.

A Academia Sueca, na sua sabedoria imensa, gere uma pequena fortuna do senhor Alfred Nobel e tem alguns objectivos a cumprir. Não se rala com a opinião dos meros mortais, é preciso ser especial.

A corrida para os prémios de 2018 já começou. Podemos torcer por este ou aquele, pouco adianta. A Academia Sueca segue as suas normas e, apesar da maioria ignorar, existem candidaturas designadas por outras academias (não vinculativas) e requisitos que são inultrapassáveis. Um exemplo? Não estando traduzido para sueco, nenhum escritor(a) terá hipótese de ganhar. E não basta um livro, terão de ser dois no mínimo. No caso de Bob Dylan, que ganhou o Nobel da Literatura em 2016 por obra e graça da sua poesia, não foi preciso mais. Dois livros traduzidos para sueco e uma obra inteira que faz parte da banda sonora de muitos milhões de pessoas. Muitos ficaram boquiabertos. Poesia? Música? E isso é literatura?

O que é literatura? A pergunta impõe-se, porque anteriormente o prémio já tinha sido atribuído, em 2015, a Svetlana Alexiévitch, jornalista e escritora bielorussa. Muitas vozes identificaram a obra de Alexiévitch como jornalismo ficcional ou ficção a partir de jornalismo e a polémica durou o tempo que tinha de durar. E a literatura?

Bom, o Nobel não foi entregue a Jorge Luis Borges, a Virginia Woolf, a Marguerite Yourcenar, e por aí fora, a lista é extensa. Tem sido entregue a muitos, mesmo muitos autores, de que nunca mais ouvimos falar. Autores que ganharam o Nobel, mas não ganharam um lugar na História.

Desde 1901, o início da atribuição deste prémio, cujo valor financeiro é muito elevado e a projeção internacional é garantida, os diferentes prémios foram atribuídos 834 homens e 48 mulheres. Quando olhamos para o Nobel de Economia existe apenas uma mulher agraciada. No Nobel da Paz temos 16 mulheres e na Literatura temos 14 vencedoras (a primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015). 
A partir dos dados oficiais é possível perceber outras pérolas: 94 % dos vencedores são brancos, 88% são homens e 69% europeus. Negros e asiáticos? Representam 3% respectivamente. But who’s counting?

Discretamente, saiu a notícia de que a Academia Sueca terá pedido formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura. Assina a carta de pedido Per Wästerberg, o presidente do comité Nobel. «Em nome da Academia Sueca [...] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018».

Perante o convite, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram dois nomes: Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre. Ora, o eterno candidato, Lobo Antunes, não terá apreciado grandemente este gesto, mas terá de o aceitar, porventura terá sido indicado no passado. Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís. A Academia Sueca irá surpreender-me decerto e o gesto será entendido, outra vez, como um “sinal de abertura”.