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Delito de Opinião

A playlist de AMN (5)

Adolfo Mesquita Nunes, 25.11.14

Hoje temos Chava Alberstein e a canção Chad Gadya.

A canção que vamos ouvir agora vem de Israel e chama-se Chad Gadya. Foi lançada no início de 1989 e entrou directamente para a lista de músicas mais vendidas. Depois de algumas semanas, o governo de Yitzhak Shamir proibiu a canção de ser tocada, e ficou proibida até ao início dos anos 2000.

A letra é uma alegoria da política externa de Israel naqueles tempos, especialmente a frase, que traduzo livremente, que diz o seguinte: "Eu costumava ser uma ovelha e um cordeiro pacífico, hoje eu sou um tigre e um lobo à caça”. No fundo, trata-se de uma profunda crítica política utilizando para o efeito vários motivos pascais.

A proibição não impediu esta música de fazer o seu caminho; é uma das canções pacifistas mais conhecidas e cantadas em Israel, de tal forma que é hoje um clássico, tenho feito parte da banda sonora de Free Zone, com Natalie Portman, acompanhando a cena mais emotiva do filme, e que está no vídeo que seleccionei.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida há uns bons dias, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

A playlist de AMN (4)

Adolfo Mesquita Nunes, 24.11.14

Hoje temos Cat Stevens e a canção Sad Lisa.

A primeira vez que ouvi o Tea For Tillerman de Cat Stevens era ainda uma criança. Fui atraído pela desconcertante capa do álbum, com desenhos de crianças e um velho ruivo a beber chá, pensando que era um álbum de música infantil. Não era, claro, e foi uma enorme desilusão.

Voltei ao álbum uns poucos anos depois, porque o meu pai gostava muito de Cat Stevens e as canções dele apareciam de quando em vez nas cassetes que ouvíamos nas insistentes viagens entre Lisboa e a Covilhã, e a sensação foi totalmente diferente.

Hoje olho para trás e não percebo sequer porquê. A viragem espiritual e religiosa de Cat Stevens, que está suficientemente perceptível neste álbum, não era tema que me tocasse aos 17 anos. Talvez por isso, aliás, tenha sido o Sad Lisa, para mim a mais neutra das canções do álbum, a ficar como favorita. E é essa mesmo que vamos ouvir.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida há uns bons dias, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

A playlist de AMN (3)

Adolfo Mesquita Nunes, 20.11.14

Hoje temos Blur e a canção The Universal.

Pelos anos 90 andava eu pela Covilhã quando me dei conta, com atraso, do que se passava pelo terreno da brit pop. Vivia-se então uma tão aliciante quando desnecessária disputa entre os Oasis e os Blur.

Tomei instintivo partido pelos Blur, talvez pela construção metafórica de algumas das suas letras, e confirmei o acerto da escolha quando, já a estudar em Lisboa, os Blur lançaram o álbum The Great Escape. Não tanto pelo álbum, penso que menos interessante do que Parklife, mas por causa de The Universal, a canção que escolhi para ouvirmos agora e que é, ainda hoje, uma das mais inspiradoras baladas que conheço.

Mas foi o teledisco que primeiro me chamou a atenção para a canção, já que imediatamente nos transporta para o Korowa Milk Bar de A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, e que por isso mesmo recomendo. A música e o teledisco valem por si, mas vistos em conjunto ganham, sobretudo para os que se deslumbram com Kubrick, um peso especial.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida na semana passada, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

A playlist de AMN (2)

Adolfo Mesquita Nunes, 19.11.14

E hoje proponho Benito Lertxundi e Gaua eta Ni.

Gosto muito de música de intervenção. Há nela uma solidão melódica que me interessa muito e um recuperar de alma que, mesmo quando triste ou muito triste, me convoca a uma sensação de esperança.

Bem sei que, sendo de direita, gostar de música de intervenção soa quase a provocação. Mas é um facto de que gosto, e de que gosto muito, independentemente de não me rever, para além da poesia, nas motivações da maior parte das canções de que gosto. O que de certa forma, perdoem-me a nova provocação, demonstra como, à direita, a tolerância tem um papel especial na fruição cultural.

Para não ser demasiado provocador, escolho um cantautor não português, mas basco. Benito Lertxundi, numa extraordinária canção, Gaua eta Ni, aqui cantada com a mulher, Olatz Zugazti. Trata-se da versão musicada de um poema do poeta libanês Kahlil Gibran, A Noite e o Louco, e que portanto não está directamente ligada às causas do cantor Basco.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida na semana passada, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

A playlist de AMN (1)

Adolfo Mesquita Nunes, 18.11.14

 

Começo com Bebo & Cigala e La Bien Pagá.

A mescla de jazz cubano, nas mãos do Bebo Valdez, e do flamenco, de Diego Jimenez Salazar (Cigala), foi uma ideia de génio que deu origem a Lágrimas Negras, um dos melhores álbums de world music que conheço, e a um extraordinário concerto filmado por Fernando Trueba.

Gosto particularmente de world music e de me perder por sons que demoram a entranhar-se e palavras que custam a entender-se, como se de um desafio se tratasse. No campo da world music, o flamenco está no topo das minhas preferências e a verdade é que Portugal lhe tem sido fiel nos últimos anos, recebendo cantores pouco imediatistas como Estrella Morrente. Neste caso, temos uma notável junção de jazz e flamenco, que não se transforma num exercício de experimentação. Ela resulta logo, imediata, como se estivesse apenas há décadas à espera de ser descoberta. Do álbum, escolhi La Bien Pagá.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida na semana passada, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

Notas à margem (2)

Adolfo Mesquita Nunes, 19.08.14
"A vida ser-nos-ia insuportável, mesmo nas condições mais felizes, se nos estivesse vedada a possibilidade do suicidio", diz-nos Endriade do Grande Retrato de Dino Buzzati, que tenho trazido comigo. Fiquei nesta frase por algum tempo, procurando ir além do deleite aforístico, e descobri-lhe uma interessante ilustração da liberdade enquanto valor primeiro e anterior a qualquer outro. O valor da vida, assim como o valor do bem, existe na medida em que esta se funda também numa escolha. O que seria de nós, como nos provoca Endriade, se soubéssemos que não díspunhamos da nossa própria vida? Que sentido lhe encontraríamos? 

Delitos poéticos (7)

Adolfo Mesquita Nunes, 07.07.14

Andy Warhol, Eggs (1982)

 

 

Omeleta

 

Quando se mis­tu­ram gema e clara,

se trans­forma o branco em ama­relo e o ama­relo

em branco, e a púr­pura do meio se con­funde

com um raio de sol, invento um canto

para que o ovo se não que­bre. Então, vejo-o

ficar sus­penso no equi­lí­brio do poema. De

um lado, dá-lhe a luz do sol; do outro, a pali­dez

da lua rouba-lhe o bri­lho. Gira

sobre si pró­prio: e a sua rota­ção sobrepõe-se

ao movi­mento da terra. Depois, com um gesto brusco,

parto-o: para que a sua gemada se espa­lhe pelo chão.

e o som do poema se mis­ture com os seus pedaços

- ali­te­ra­ções duras como as cas­cas, vogais

divi­di­das pela sime­tria do ovo.

 

Nuno Júdice

Blogue da semana

Adolfo Mesquita Nunes, 07.07.14

Se tivesse de descrever a minha relação com a escrita da Maria Gabriela Llansol não me ocorreria outra imagem que não a de uma boca fria apressando-se para uma chávena de chá a escaldar (quase apetece que de um chá possa dizer-se que é fulgurante). Procurarei um dia elaborar sobre isso, que hoje é dia de escolher o blogue da semana. Aí fica ele, então: Espaço Llansol.

Modo de Vida (42)

Adolfo Mesquita Nunes, 11.04.14

Lá de onde eu venho não há quem a não conheça, que tratamos por tu o que no frio encontra conforto para crescer. E de tal forma ali existe, ou persiste, que nunca imaginei que não fosse de conhecimento geral. Só me apercebi do segredo bem guardado quando, chegado a Lisboa para estudar, a não encontrei em lado nenhum. Já lá vão 20 anos e ainda recordo a peregrinação pelas mercearias. Não bastava que nenhuma a tivesse, nenhuma - ou ninguém, melhor dizendo -, sequer parecia saber de que falava eu quando perguntava pela cherovia. As coisas mudaram, bem se vê, e hoje a cherovia vai aparecendo, num ou outro supermercado, com um ou outro nome, que os há. Mas a noção de segredo, de uma coisa de covilhanenses, resiste, e ainda bem. 

 

 

 

 

revolutìo,ónis (5)

Adolfo Mesquita Nunes, 11.04.14

A revolução tem um sentido instrumental, derradeiro. A sua transformação em fim, em método, não trouxe nunca um bem comum ou geral. De certa forma, a institucionalização da revolução é já outra coisa que não esse momento de revolta que agrega aspirações gerais - há aí uma degeneração que não pode deixar de incomodar aqueles que querem decidir de si e por si e que desautorizam a que se catalogue de revolução uma comum tentação autoritária.  

revolutìo,ónis (4)

Adolfo Mesquita Nunes, 10.04.14

Uma revolução que não devolva as liberdades aos indivíduos não deixa de ser uma revolução, mas não merece mais do que um súbito frémito. E ainda que dela resulte uma melhoria comparativa, estamos ainda no campo de uma apropriação indevida, porque as liberdades devem ser reconhecidas e não atribuídas. É por isso que o reino das revoluções acaba por ser o reino das expectativas, porque são estas que as alimentam e, faltando estas, as abortam ou deixam morrer. 

Modo de Vida (41)

Adolfo Mesquita Nunes, 09.04.14

Pela manhã, marcava a mim próprio uma tarefa mínima de setecentas e cinquenta palavras do romance, e conseguia habitualmente por volta das onze horas ter umas mil. O poder da esperança é extraordinário; o romance, que se arrastara por todo o ano passado, aproximava-se do fim.

 

O Fim da Aventura, Graham Greene (Ed. Asa, Tradução de Jorge de Sena)

revolutìo,ónis (3)

Adolfo Mesquita Nunes, 09.04.14

Uma revolução não pode ser traída, no sentido em que nela cabem tantas aspirações quantas pessoas nela tomaram directa ou indirectamente parte. Pode haver um mal-estar geral, um despeito que se impõe, mas esse sentimento declina-se em tantas motivações que quem ousar decretar a traição não está senão a falar de si. E ainda que todos se sintam traídos - o que implica uma quase impossibilidade -, tal não basta para que todos se sintam traídos da mesma forma e se autorizem estados de alma gerais.   

revolutìo,ónis (2)

Adolfo Mesquita Nunes, 08.04.14

A revolução pressupõe uma confluência de muitos, ainda que os actos materiais que a confirmam sejam praticados por poucos. De certa maneira, esses actos materiais, a que não podemos retirar heroísmo, herdam uma legitimidade que não têm só por si, e que lhes é conferida por esses muitos que confluem, ou permitiram que se confluísse, para esse momento de superação.     

revolutìo,ónis (1)

Adolfo Mesquita Nunes, 07.04.14

As palavras, que haviam circulado apenas entre elites, ainda vagas, ainda delicadas, encorpavam e tornavam-se fáceis de entender. Nascera uma amizade entre a linguagem dos ideais e aquele mal-estar sem nome com que os pobres dormiam e acordavam.

 

Adoecer, Hélia Correia (Ed. Relógio d'Água)

 

Há uns largos meses, quando li o Adoecer, sublinhei esta frase, que me pareceu uma precisa noção de revolução. Relembro-a agora, que passam 40 anos da nossa, sem obviamente querer identificar a Hélia Correia com qualquer uma das minhas ideias, e como forma de iniciar uma série de reflexões sobre revoluções ou sobre a nossa revolução. 

Modo de Vida (39)

Adolfo Mesquita Nunes, 06.04.14

Há quem chegue ao calor antes de tempo, comportando-se como se as ameaças fossem já uma confirmação. Uma espécie de dança da chuva, mas ao contrário - uma dança da luz, feita de linho e pele e por vezes mar, que eu confundo com superstição. 

Modo de Vida (38)

Adolfo Mesquita Nunes, 04.04.14

Gostar muito de um escritor ainda vivo permite a expectativa, e sou dos que valoriza esse estado. Gostar muito de um escritor já desaparecido, sobretudo quando não foi assim tanto o que escreveu, encerra, de certa forma, o caso. Bem sei que as releituras oferecem algum espaço, todavia nada que possa comparar-se com a possibilidade de algo nos ser trazido como novidade. Mas de quando em vez descobrimos que o caso não está tão encerrado assim: Flannery, ela mesma, a ler-nos o 'A Good man is hard to find'.  

Modo de Vida (37)

Adolfo Mesquita Nunes, 03.04.14

A reaprendizagem da noção de começo, a que imprevistamente me dedico, fez-me procurar ‘O começo de um livro é precioso’, que comprei, aliás, num dia inicial. E dei-me conta que passaram já seis anos, mais precisamente seis anos e um mês, da morte da Maria Gabriela Llansol.

 

Dei-me conta assim, só assim, que nada houve, nem ninguém, que a tivesse trazido às páginas que lamentam a morte dos grandes (excepciono, claro, o Espaço Llansol). Não fará grande mal. Suspeito até que assim se faça melhor. E penso no ‘encontro inesperado do diverso’, que acaba por ser, destacando essas palavras do corpo que subtitulam, uma boa noção de turismo.

Modo de Vida (36)

Adolfo Mesquita Nunes, 01.04.14

O tempo vai passando de tal forma que a noção de começo quase nos parece antiga e, de certa forma, desaprendida. Num tempo de começos, volto aqui.

 

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

 

O começo de um livro é precioso, Maria Gabriela Llansol (Ilustrações Ilda David', Ed. Assírio & Alvim)