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Delito de Opinião

Hoje especialistas, ontem "especialistas"

João André, 17.03.20

Com a pandemia a todo o gás e as pessoas enfiadas (fechadas) em casa, começam a surgir por todo o lado as manifestações de agrado, os elogios, os aplausos a profissionais de saúde que tratam de quem está doente, vão para a frente da batalha (na actual analogia bélica), aconselham a população, investigam o problema e procuram soluções.

São os especialistas, aqueles que há anos e anos, décadas e décadas, avisam que esta situação aconteceria. Que avisam, mesmo enquanto o fogo alastra, que outros fogos virão e algum será com toda a probabilidade pior. São aqueles que disseram mutio antes de uma TED Talk de Bill Gates que as novas epidemias surgiriam, que não estávamos preparados e que muita gente morreria. Até avisaram, numa pele em que não se sentiam bem por não serem especialistas nessa área, que teriam consequências económicas.

Na altura eram alarmistas. Eram os "especialistas" com o termo a ser pronunciado com desprezo. Eram aqueles que exageravam durante a pandemia do H1N1 ou a epidemia de SARS. Eram os "especialistas". Hoje são os salvadores. Especialistas.

A agenda está carregada

João André, 15.03.20

Marcelo anunciou que convocou um Conselho de Estado para quarta-feira para decidir se convoca um Estado de Emergência. Para daqui a 3 dias. Sobre uma emergência nacional. Certamente que isto foi porque é uma emergência, se fosse assim apenas, sei lá, urgentezito, talvez o convocasse para depois das férias... do Verão... que ainda tem que ir lavar a louça e ler uns 145 livros antes de se deitar e amanhã tem que passar a ferro. É pá, o pessoal tem coisas pra fazer, né? Não pode ser assim do pé pá mão.

Hipotético diálogo em 1384:

- Ó sô presidente, os castelhanos invadiram Portugal!
- Ó pá, isso não pode ser. Mandem selar o meu cavalo que tenho que ir aos paços convocar as cortes e decidir sobre o estado de emergência. Mas esperem, primeiro tenho que lavar aqui esta tina de mantos e capas e tenho de ir ali à biblioteca do mosteiro ler uns manuscritos. E vistas bem as coisas os nobres e o povo têm mais que fazer, né?, não os vamos chatear. Mandem antes uns correios para descobrir quando têm uns tempinhos para falar.
-...
(Nuno Álvares Pereira) - já os despachei de volta.

Covid-19, um testemunho (2)

João André, 15.03.20

Em 3 dias muitas coisas mudam.

Canadá:

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Fotografias de ontem num Walmart em Toronto. Não tirei fotografias a todas as galerias que estavam desta forma. As zonas mais vazias eram as conservas e enlatados, papel higiénico e de cozinha, artigos de limpeza doméstica, massas e arroz, cereais de pequeno almoço e analgésicos/anti-inflamatórios. Também sumos e congelados estavam desta forma. Menos nos vegetais, mas aqueles que dá para manter mais tempo (batatas ou couves) também tinham prateleiras vazias.

O Canadá não decretou o encerramento de fronteiras, mas decidiu que voos originários de fora do país serão redireccionados para apenas alguns aeroportos seleccionados para poderem fazer avaliação. Tudo se mantém aberto, mas a situação pode ser reavaliada entretanto.

Holanda

O país anunciou hoje que escolas e creches e jardins-escolas fecharão até dia 6 de Abril (até ver). Apenas aceitarão crianças cujos pais trabalhem ambos em serviços fundamentais (p.e. serviços de saúde). As escolas estão a preparar formas de dar trabalhos para as crianças irem fazendo em casa.

Também os bares e restaurantes terão de fechar. O governo também vai disponibilizar 300 milhões de euros para ajudar PMEs. Neste momento ainda não vão fechar fronteiras.

Alemanha

O governo federal decidiu fechar as fronteiras com Áustria, Suíça, França e Luxemburgo, excepto para residentes, pessoas necessárias e pessoas que tenham que atravessar a fronteira para o trabalho. Outras fronteiras ficam para já abertas.

Ainda não há indicações a nível federal em relação a escolas e outros serviços.

Covid-19, um testemunho (1)

João André, 13.03.20

Trabalho na Alemanha e vivo na Holanda, perto das fronteiras com a Bélgica e Alemanha. A cerca de 30 km onde vivo está o principal foco alemão, na zona de Heinsberg. O principal foco holandês está a cerca de 60-80 km, a norte. Ambos estão relacionados com as celebrações de Carnaval, que são muito populares nestas zonas dos dois países. Eu pessoalmente tive de vir por motivos profissionais para o Canadá por algumas semanas e começo a perguntar-me como regressarei.

Medidas que vou vendo:

Na Holanda as medidas estão a ser tomadas a nível regional:

  • Fora da zona de Noord-Brabant, as escolas continuam abertas e as indicações são para as crianças ficarem em casa se tiverem qualquer tipo de sintomas, mesmo que seja apenas uma constipação.
  • Várias empresas na minha zona decidiram indicar aos seus funcionários que ficassem em casa. Fossem ao escritório apenas e só para ir buscar computadores, telefones, etc, para poderem continuar a trabalhar a partir de casa. Há funções que não podem ser executadas remotamente mas não sei como se está a lidar com estas. As medidas mais recentes pedem aos trabalhadores que fiquem em casa.
  • Os supermercados e demais lojas continuam a funcionar e não há açambarcamento claro. No entanto as pessoas estão a fazer as suas compras cedo e as prateleiras parecem algo despidas por algumas horas.
  • Alguns supermercados e cadeias de drogaria estão a limitar o número de analgésicos e anti-inflamatórios que se podem comprar. Os de dose adulta já estavam esgotados em alguns locais..*
  • Os eventos com mais de 100 pessoas são cancelados ou anulados.

Na Alemanha:

  • A zona de Heinsberg está essencialmente fechada. Os habitantes na região têm de ficar em casa porque os filhos estão desde há 3 semanas sem escola.
  • Os supermercados estão com mais problemas que na Holanda. Parte da razão é um atraso da parte dos supermercados alemães em adoptar compras por internet. Sem possibilidade de fazer estas compras, as pessoas são obrigadas a ir aos supermercados.
  • As empresas estão a começar a fazer planos para ter os seus trabalhadores a trabalhar a partir de casa.
  • Alguns estados começaram a fechar escolas. Também há casos de se removerem as horas de visita em hospitais.
  • Há medidas para garantir crédito ilimitado a empresas que dele precisem em resultado da situação.

No Canadá, em Ontário:

  • A medida mais notória foi a suspensão das ligas profissionais norte-americanas. Em Toronto houve um impacto psicológico forte especialmente com a medida da NHL (hockey no gelo).
  • Também o diagnóstico de Covid-19 da mulher do primeiro-ministro e a decisão deste de se isolar e trabalhar a partir de casa tiveram um impacto psicológico.
  • A maior parte das medidas são na direcção de educar e dar indicações. O número de casos no Canadá é ainda reduzido e não há medidas específicas.
  • Quando cheguei no início do mês não houve qualquer controlo no aeroporto. Isso terá mudado entretanto.

Não digo que qualquer dos casos seja um exemplo ou não. Apenas os deixo como testemunho.

 

* - actualizado.

Covid-19, mau para a sociedade, individualmente assim-assim

João André, 11.03.20

Com esta pandemia do Covid-19, vulgo Coronavirus, tem havido muita confusão, especialmente no que respeita à ideia que existe exagero na forma como se está a lidar com a situação e ao pânico ou pseudopânico que se tem gerado com a situação. Um dos problemas é porque a mensagem ou não está a ser correctamente transmitida ou está mal adaptada para o público em geral.

Há um risco considerável para a população em geral com o Covid-19? Sim, e é por isso que se tomam determinadas medidas. Há um risco considerável para cada indivíduo? Não. Há um risco acrescido relativamente à gripe sazonal (ou gripes sazonais, não existe uma gripe sazonal), mas é relativamente pequeno e normalmente específico para pessoas com problemas de saúde pré-existentes. A grande maioria parte das pessoas ou não terão sintomas, ou terão sintomas iguais às de outras gripes, ou terão sintomas mais chatos mas sem necessidade de qualquer tratamento adicional, apenas um período mais prolongado de recuperação do que o normal.

Porquê então estas medidas? Existem duas razões, interligadas, semelhantes, mas um pouco diferentes.

 

 

Joker - Are you talking to me?

João André, 10.03.20

Em 2001 saiu o filme Uma Mente Brilhante, de Ron Howard e com Russel Crowe. Venceu na altura o óscar de melhor filme do ano, mas sendo um veículo para Russel Crowe, este acabou por não receber a estatueta (que tinha recebido no ano anterior por Gladiador). Isto veio-me à memória com Joker, um filme que parece ter sido feito, à semelhança com Uma Mente Brilhante, para o seu actor principal receber o prémio de melhor actor. Ao contrário de Crowe, Joaquin Phoenix recebeu o seu óscar. Ao contrário do filme de 2001, Joker não ofereceu mais nada.

A principal coisa que me fica na memória depois de ver Joker é a performance de Phoenix. Não é simplesmente um desempenho, uma interpretação, é antes uma performance artística, só tangencialmente associada ao cinema. Joker não tem uma história, uma mensagem para transmitir. Tem um actor numa performance. Não tem personagens (nem mesmo a de Joker/Arthur Fleck). Tem um actor numa performance. Não tem uma linha sequencial. Tem um actor numa performance. Não tem princípio e não pretende ser um fim. Tem um actor numa performance.

Phoenix neste filme transmitiu-me duas imagens: a de freestylers, aqueles artistas que são capazes de imensos malabarismos com uma bola de futebol, de dar voltas e cambalhotas com a bola, de a fazer parar no pescoço e no peito, de dar toques quando sentados ou deitados ou de fazerem parecer que têm a bola colada ao corpo. Mas isso não é futebol. Outra imagem que me ficou foi a de João Grosso no palco de um teatro a declamar textos da Geração d'Orpheu, por volta de 1995. Ele estava sozinho em palco e declamava um ou mais textos de um dos autores, numa performance também muito física. Era um prazer ver, mas não havia qualquer interacção com o palco, outros actores ou espectadores (tenho a certeza que ele discordaria deste ponto). João Grosso bastava-se a si mesmo.

E foi isso que se passou com Joker. Joaquin Phoenix disse em entrevistas que tentou criar uma personagem com a qual ninguém se conseguisse identificar. Tentou que, sendo humano, o seu Arthur Fleck não pudesse ser definido de forma nenhuma, que fosse desfasado de um perfil completo. Isso nota-se claramente. Fleck tem problemas mentais e psicológicos, mas não parece ser essa a sua força motriz. A injustiça social afecta-o mas ele não a abraça como causa. Confessa querer fazer o mundo rir, mas cria piadas que só ele aprecia. A sua principal característica parece ser o egoísmo, mas só se manifesta nos seus momentos de sanidade.

Mais ninguém recebe traços mais que grosseiros. A sua vizinha é apenas um objecto. A sua mãe serve de Mcguffin. Thomas Wayne é um alvo para os seus desejos e serve apenas de arquétipo do bilionário que se julga benfeitor. Mesmo Murray Franklin parece ser não mais que uma chave para finalmente destrancar as psicoses mais violentas de Fleck. Escolher de Niro para o papel é apenas um piscar de olho nada subtil ao seu trabalho em O Rei da Comédia e Taxi Driver. Nenhuma destas personagens tem motivações, medos, desejos, inseguranças, felicidades. São apenas cones de trânsito para Phoenix navegar. Nada acrescentam à história. Se os autores tivessem escolhido uma criança, um vagabundo, um vendedor de rua ou um advogado, nada mudaria.

Este é um filme que tenta ser dos anos 70 sem ter a envolvência social desses tempos. Taxi Driver, Raging Bull, O Rei da Comédia, Mean Streets, etc, eram todos filmes que funcionavam nesses tempos porque eram imbuídos do espírito do tempo. Não são datados porque são filmes poderosamente humanos. Em Taxi Driver, Jodie Foster e Cybill Shepherd tinham personagens de carne e osso. O mesmo para Jerry Lewis em O Rei da Comédia ou Keitel em Mean Streets, Joe Pesci em Raging Bull ou outras personagens noutros filmes desses anos. Havia uma teia humana que sustentava os personagens principais. Em Joker, é como se Joaquin Phoenix passasse o filme em variações do “Are you talking to me?”, cena que também merece a sua referência directa.

No fim, sobra a performance de Joaquin Phoenix. Não é uma actuação em si mesma, antes um momento de arte abstracta. É brilhante e merece todos os elogios, mas não faz um filme. Lembrando a polémica dos filmes da Marvel, não sei se Scorsese chamaria a isto cinema.

Pensamento da semana

João André, 08.03.20

O mundo moderno cria especialistas em tudo e mais alguma coisa sem criar seres humanos. Não é uma questão de a cultura geral ser insuficiente, é o facto de o conceito de cutura geral ser bastas vezes incompreendido. Ler Shakespeare demonstrará cultura, mas desconhecer a segunda lei da termodinâmica, talvez mais grave que não conhecer o Bardo, não é vista como uma falha grave de cultura.

Não só deveríamos todos investir em saber mais, como deveríamos investir em saber pensar melhor, melhorar o espírito crítico e aplicá-lo a tudo o que vemos, ouvimos, lemos, sentimos. E deveríamos depois ter as ferramentas para poder raciocinar e argumentar as teses em discussão.

Nesse aspecto, além de falhas pessoais e da sociedade, há uma falha na escola, ao insistir num mundo de especialistas que ficam depois mancos de outras formas de conhecimento e razão. As humanidades deveriam manter sempre cadeiras de matemática e ciência (mesmo que geral). As ciências deveriam sempre insistir em línguas estrangeiras, literatura e filosofia.

Urge reverter o desconhecimento que vem na forma de conhecimento ultra-específico e absoluto. Só conhecendo mais, saberemos o pouco que conhecemos. E questionaremos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Em favor de quotas

João André, 27.02.20

Este penso rápido do Pedro lembra-me um problema: numa sociedade igualitária, onde toda a gente tem as mesmas oportunidades e não há descriminação de nenhum tipo (não vou listar as diferentes possibilidades, são demasiadas), porque razão não temos uma sociedade menos dominada por homens brancos?

No título tenho a palavra "quotas". Durante muito tempo me perguntei se são boas ou más. Já fui contra, a favor, contra de novo, indecidido e agora sou francamente a favor (deixei passar provavelmente mais umas estações e apeadeiros nestas reflexões e este é um estado de espírito actual). Para falar em quotas tems que começar com uma pergunta: são os homens brancos mais capazes que mulheres e homens não-brancos? Deixo de lado as subdivisões de escandinavos, mediterrânicos, eslavos, etc e tal. Fiquemo-nos pela cor aproximada da pele.

Creio, espero que correctamente, que a esmagadora maioria das pessoas responderá com um sonoro NÃO! Então fica novamente a pergunta: porque não estão tais pessoas igualmente representadas em cargos superiores? Porque não têm o mesmo nível de educação (eu sei que mulheres até têm maior probabilidade de ter cursos superiores que os homens, mas iso apenas amplifica a minha questão)? Porque razão existe tal diferença salarial entre pessoas com a mesma educação e responsabilidades e experiência quando a única diferença é um cromossoma ou o tom de pele? E não falo apenas de Portugal, naturalmente, falo de todo o mundo.

A resposta é, para mim, óbvia: o racismo e machismo existem, estão vivos e muito bem de saúde. Não falo de racismo ou machismo pessoal, onde os indivíduos pensam que o outro é de facto inferior só por ser mais escuro ou ser mulher (embora o machismo seja muito mais aberto). Todos nós os teremos um pouco, mas isso será um resquício da nossa evolução, que favoreceria os nossos grupos (tribos), os quais durante a maior parte da nossa história eram constituídos por pessoas parecidas connosco. A suspeita de estrahos estará entranhada no nosso código genético, mas não é inultrapassável, longe disso. Penso que o racismo e machismo são essencialmente estruturais e legados de um passado onde eram claros, abertos, assumidos e até marcas de honra. Li esta semana que Churchill sugeriu o lema "Keep England White" em 1955, o que se não é suficiente para manchar a imagem do estadista, certamente dá uma nova perspectiva e um período tão recente. Isso só demonstra como séculos de história terão deixado uma sociedade tão entranhada de homens brancos que abrir as portas a outros se torna difícil.

Repito: não é uma questão de racismo ou machismo pessoal. Duvido que na maioria dos casos alguém que escolha um homem branco em deterimento de outro tipo de candidato no papel igualmente qualificado o faça por esses motivos. Será normalmente por questões de ter um perfil pessoal mais adequado, ou algo do género. Em inglês refere-se a isso como "better fit" e é aquilo que normalmente se chama de "similarity bias", ou seja, uma preferência por pessoas semelhantes a nós. Numa sociedade onde os homens brancos dominaram, isso significa que a preferência, mesmo que não intencional, será por outros homens brancos.

Para mim a solução passa por quotas, mas não nas direcções das empresas ou nos cargos mais altos seja de onde for. Tem que ser em todos os níveis em carreiras de todos os tipos, públicas ou privadas. Só assim se elimina essa tendência de escolher alguém semelhante ou, pelo menos, se colocam outras pessoas para a equilibrar o suficiente. Funcionaria? Não sei, mas é a melhor solução que imagino, já que a igualdade de oportunidades já falhou completamente. Haveria muitas outras medidas a tomar, mas apenas falo desta.

Há um benefício adicional: assumindo que a percentagem de pessoas com talento será idêntica independentemente de cor ou sexo, isso significa que num mundo onde os homens brancos são favorecidos, haverá muitos profissionais que estão subvalorizados. As empresas que praticarem alguma discriminação em desfavor de homens brancos poderão colher benefícios inesperados ao pescar num mar essencialmente livre de outros pescadores.

Estaremos simplesmente a ficar velhos?

João André, 27.02.20

Uma das coisas que mais me fascinam são os textos pessimistas. Não falo de textos como os do falecido Vasco Pulido Valente, que apesar de invariavelmente pessimista, tinha esse pessimismo como resultado de um pensamento apurado e meticuloso. Eu discordava frequentemente dele e não me agradava a acidez dele, mas o seu brio intelectual era quase sempre inatacável.

Quando falo de pessimismo, falo daquele que, na maioria das vezes, assume de forma directa ou indirecta um cunho de "no meu tempo..." ou "já não se fazem como antes", ou até de "os tempos mudaram muito". Esta última instância é normal: os tempos de facto mudaram muito. Temos a Indústria 4.0  - ou a 4ª revolução industrial, mas hoje em dia (cá estamos) as coisas só são levadas a sério com um ".0" algures no nome. Temos Internet. Temos redes sociais. Temos internacionalizações e viagens facilitadas. Temos notícias na ponta dos dedos com uma velocidade e variedade incomparável na história humana (mesmo quando a precisão e a minúcia sofrem). As mudanças são muitas, mas são essencialmente tecnológicas ou derivadas de tecnologia.

Só que não são novas. Um dos tipos de textos que mais gosto de ler na The Economist são aqueles que traçam paralelos das queixas presentes com as do passado. É frequente esses textos fazerem referência a alterações (jornais, cafés, comunicações, automóveis, etc) especialmente do final do século XIX e notarem as preocupações que tais alterações induziam nessa altura. Por vezes os textos começam com excertos de (por exemplo) 1895  e nós somos levados a pensar que se escreve sobre algum caso actual. O texto do Sérgio, sem fazer juízos específicos sobre ele, lembra-me isso. Leio-o e, dos temas que acompanho, concordo em traços gerais. Pergunto-me no entanto se tal texto, com uma ou outra modificação, não poderia ter sido escrito em 1950, ou 1920 ou 1880.

Lembro-me com frequência de quando a RTP1 e RTP2 eram as únicas televisões e os telejornais não excediam a meia hora (que a seguir vinha a novela e depois o filme). Não vou queixar-me da qualidade da informação, mas antes de como hoje temos informação sobre tudo e mais alguma coisa. Se um homem matar a mulher em Cabeça Gorda no Alentejo, teremos em algumas horas directos do local, com os repórteres a repetirem as mesmas coisas de hora a hora e a dizer o estado do tempo só para encher chouriços. Em 1991, esse assassinato seria provavelmente ignorado, dado que não se podia enviar o repórter lá e isso só seria um problema se sequer se soubesse de tal caso. A realidade é que há hoje muito mais abundância de notícias e, com a natureza humana inalterada, "if it bleeds it leads", as notícias más serão sempre amplificadas nos noticiários e nas nossas mentes.

Estamos melhor hoje ou antes? Pessoalmente não creio que haja demasiada diferença, mas prefiro saber de mais um caso de violência doméstica, de insegurança rodoviária em Abrantes ou de falta de cuidados médicos em Sátão. Com essa informação sempre se pode exigir alguma coisa. De outra forma ficamos no nosso "vamos andando".

Há lados maus? Claro que sim, isso é inevitável. No entanto penso que, levando tudo em conta, o mundo continua, como sempre terá continuado desde há séculos, dois passos à frente e um atrás, a melhorar e a progredir. Teremos umas pestilências, guerras, fomes e mortes pelo caminho? Por algum motivo já vêm desde o Novo Testamento. São parte da natureza humana.

Por isso, mais que um regredir dos tempos, creio mais num avançar dos anos de quem profere (proferimos) estas palavras. Não é o mundo que está pior, mais perigoso ou mais feio. Creio que somos nós que estamos mais velhos. E o Restelo não está (pelo menos para mim) aqui nada perto.

E quando tinhas 16 anos?

João André, 20.12.19

A Time escolheu Greta Thunberg como pessoa do ano. Penso que ela não liga muito a isso e que se ligar será só pela forma como irão falar da sua causa.

Haverá muitas pessoas, incluindo neste blogue, que menorizarão a escolha. Falarão em como ela é obcecada, ou que devia ir para a escola, ou que isto ou aquilo.

A única coisa que lembro é: começando por se sentar no passeio com um cartaz, esta miúda de dezasseis (16!) anos colocou milhões de jovens envolvidos numa causa que lhes é importante: o seu futuro. Falou com líderes políticos, económicos e discursou, fluentemente, nas Nações Unidas. Conseguiu ainda atrair o ódio dos ogres políticos deste mundo (sim, como Trump ou Bolsonaro - os Putins ou Kims são piores).

Para quem ainda lhe cause urticária o que Thunberg conseguiu, deixo a pergunta: e tu, o que fizeste aos 16 anos?

Trump 2.5 (anos)

João André, 25.07.19

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Ao fim de sensivelmente dois anos e meio de uma presidência Trump, estamos agora em plena viagem de pré(?)-campanha presidencial nos EUA. É de lamentar que nos ciclos noticiosos de hoje em dia mal haja tempo para uma administração americana começar a funcionar antes de começar a campanha seguinte.

Que dizer ao fim deste período de era Trump? Independenetemente de quaisquer juízos de valor, tem que se aceitar que Trump tem sido altamente eficaz na forma como tem cumprido as suas promessas de campanha. A sua mais emblemática, a do muro na fronteira com o México, não se concretizou. Aqui terá falhado de forma estranha, especialmente quando teve quase dois anos de maioria no Congresso e Senado, mas teve também uma oposição interna no Partido Republicano que terá complicado a implementação esta promessa. Hoje tem o Partido Republicano (quase) completamente controlado mas o Partido Democrata controla o Congresso, pelo que o muro, se vier a ser construído, terá que esperar pelas próximas eleições intercalares. Na ausência do Muro (não que faça muita diferença, existe muro em larga parte da fronteira, construído por presidentes republicanos e democratas no passado), Trump aumentou as medidas dissuasoras para imigrantes e pessoas em busca de asilo. O Muro não existe, mas dificilmente os apoiantes de Trump se podem queixar.

 

 

Sinal fechado

João André, 02.07.19

Hoje estava a ouvir música e passou a minha versão preferida de Sinal Fechado de Chico Buarque, gravada num concerto ao vivo com Maria Bethânia (todo o álbum é fantástico). Mais que no original, esta versão, encurtada, dá a noção clara da urgência da letra e da forma como tratamos certas relações. Na era de Facebook, e-mail, skype e tantos outras redes sociais, a música continua a ressoar com intensidade. Algumas das pessoas com quem mais me relaciono no Facebook não serão aquelas que mais pensaria em visitar quando vou a Portugal, mesmo que tenha saudades delas. São pessoas que me alegraria ver, encontrar para beber um café e saber alguma coisa mais deles. Se "pegar(am) o lugar no futuro", como vai o "sono tranquilo", mesmo que por apenas alguns minutos.

Sei no entanto que, mesmo que não seja vão, que possa reencontrar essas pessoas, será num quase equivalente de num sinal fechado, com a pressa, "alma dos nossos negócios", num momento em se "anda a cem" (mil?). A maior probabilidade, no entanto, é que se os voltar a ver, eles acabem por se "sumi(r) na poeira das ruas" (ou dos electrões). A realidade é que, de todas as pessoas que terei conhecido ao longo da minha vida, mesmo daquelas com quem terei partilhado pedaços mais pessoais, mais ou menos íntimos, com quem terei partilhado experiências, vivências ou lições, das pessoas que ficaram com algo de mim, por ínfimo que terá sido, a realidade mesmo é que provavelmente não as voltarei a ver.

São pessoas que levam uma parte de mim com elas para o resto das suas vidas, talvez a partilhem com outros, completamente inconscientes disso, seja essa parte boa ou má. E eu farei o mesmo. Sem as ver. E fico feliz que assim seja, porque por muito que não as volte a ver, fizeram parte da minha vida, fizeram parte de momentos bons ou maus, ou bons e maus. E eu delas.

E, quem sabe, pode ser que um sinal fechado, ou o seu equivalente, as traga até mim, ou a mim a elas. Antes de eu "beber alguma coisa rapidamente" terei a possibilidade de lhes dizer:

"- Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
- Por favor, não esqueça, não esqueça...
- Adeus!
- Adeus!
- Adeus!"

Estatísticas e evolução do basquetebol

João André, 24.06.19

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Apesar de já algumas vezes ter escrito sobre desporto aqui, habitualmente debruço-me sobre futebol. O curioso é que nunca o joguei de forma oficial, apenas com amigos. O desporto que pratiquei um total de cerca de 10 anos (entre adolescência e depois a partir dos 28) foi o basquetebol. Comecei a jogar basquetebol quando a RTP começou a mostrar aos domingos alguns resumos da NBA, com o seu clipe ao som de Joe Cocker a cantar You are so beautiful e que capturava o fascínio que o desporto e a liga ofereciam. Não comecei a jogar basquetebol por causa disso. Tinha apenas, a convite de um amigo, ir experimentar um treino e fiquei agarrado.

 

 

A morte do bloguismo decente

João André, 16.06.19

O jpt postou abaixo um texto sobre a falta de qualidade do jornalismo desportivo dando múltiplos exemplos (que subscrevo, pelo menos na descrição dele). A certa altura escreve:

«19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana»

Assim mesmo. Uma "prostituta americana". Não é engano. Nas notícias sobre as acusações de violação a Neymar, a acusadora é simplesmente "mulher". No passado escrevi sobre o assunto e não o quero fazer agora. Até pensei que pudesse ser citação directa do que escreveu o Record, mas depois de procurar a mais recente notícia sobre o assunto no site, encontrei uma onde Mayorga aparece identificada como "modelo", coisa que já não será há muito.

Parece-me então que Kathryn Mayorga foi automaticamente qualificada por jpt como prostituta. O crime? Pelo que vejo, e isto é conclusão minha, ter tido a audacidade de acusar Ronaldo, já que no caso de Neymar a acusadora não recebeu igual rótulo.

Fico esclarecido sobre a qualidade do bloguismo neste caso. De nojo.

Europa: o outro sítio

João André, 27.05.19

Nasci em 1975, num país mal saído da ditadura. Não passei pelo Verão Quente, senão no conforto do útero. Cresci num país a melhorar aos poucos, com momentos piores que outros mas que a minha idade não me permitia lembrar. A maior parte das minhas memórias vêm de 1985-86, pelo que qualquer memória que tenho associa Portugal à União Europeia (na altura a CEE). A minha vida activa apanha-me quase exclusivamente com Portugal como parte do EURO, que afortunadamente eliminou o termo ECU. A minha primeira viagem fora do país que não envolvesse comprar caramelos em Ayamonte foram umas férias a limpar escritórios em Londres. A entrada não requereu mais que um bilhete de identidade. O meu primeiro passaporte foi pedido já com uns 22 anos de idade e terá recebido um carimbo. Não visitei todos os países da UE nem do espaço Schengen, mas já visitei uns quantos. Vivo num país que não é o do meu nascimento e trabalho noutro, sendo que sou obrigado a deslocar-me a vários países da UE/Schengen com frequência. A Europa não é para mim um conceito ou um objectivo: é uma realidade diária.

É por isso que tenho dificuldade em conceber tanta gente a votar em partidos que, por ideologia ou populismo, estejam contra a UE. Isto não quer dizer que seja uma posição inválida ou errada por si mesma, apenas que tenho tanta dificuldade em concebê-la como em compreender que há pessoas que se mutilem extensivamente por motivos estéticos. Há bons argumentos contra a UE, contra uma integração mais profunda ou em favor de manter a UE mas reduzir a sua influência na vida dos estados membros. Infelizmente raras vezes vejo esses argumentos apresentados de forma séria. Em geral são-no conjuntamente com falsidades referentes à ingerência que a UE tem na vida dos países individuais (como em todo o debate em torno de Brexit).

Mas o maior falhanço da Europa provém dos seus partidos mais tradicionais, do centro ou não. Confrontados com a estridência dos partidos populistas ou extremistas (e nos extremos faz pouca diferença se de direita ou esquerda), esses partidos têm optado por cooptar parte dos argumentos para os tentar esvaziar. Casos há em que funciona, mas habitualmente é por pouco tempo e faz sempre lembrar a fábula da rã e do escorpião. A verdade é que as cópias são sempre piores que os originais e, quando temos os países tradicionais ou do centro a copiar os argumentos anti-Europa ou anti-imigração, normalmente soam ocos e falsos. Porque o são.

A Europa é para mim uma realidade diária, escrevi eu. É também um objecto da Evolução, tão real quanto a biológica. Nao há uma meta para um projecto Europeu, é um projecto cujas balizas estarão sempre a mover-se e, se as alcançarmos, teremos que procurar novas. A natureza humana é uma de descontentamento e será sempre necessário adaptar a Europa para que continue a ser um ideal em vez de realidade.

Em tempos a série The Twilight Zone teve um episódio chamado A Nice Place to Visit. Nele um ladrão morria depois de um assalto e acabava num lugar onde tudo lhe corria bem. Recebia o dinheiro que quisesse, ia ao casino e vencia sempre, com a bola da roleta a cair nas suas escolhas e as suas mãos nas cartas a serem sempre perfeitas. Ao fim de algum tempo comçava a odiar o lugar e pedia para ir para "o outro sítio". Claro que o twist é óbvio: ele já estava no outro sítio. Se a Europa não evoluir, se apenas for o melhor sítio do mundo para viver, não tardará muito a que seja também "o outro sítio". Nesse aspecto, introduzir imperfeições é boa ideia. Talvez possamos almejar, em vez de definhar.

Rebolar na lama

João André, 14.02.19

«Nunca lutes com um porco na lama. Ficas sujo e o porco gosta»

Esta frase vem-me frequentemente à cabeça quando leio caixas de comentários (aqui ou noutros locais, especialmente Facebook). A quantidade de pessoas que pululam nas mesmas para fazer avançar as suas agendas anti-liberais, quando não mesmo fascistas (a níveis diferentes) é elevada e, mais importante, são extremamente activas. São pessoas que ou compram quaisquer teorias, por mais disparatadas que sejam, desde que se oponham ao establishment e recusam quaisquer provas ou dados ou lógica que lhes desmontem a argumentação. Nisto caem as conspirações anti-semitas, negacionistas das alterações climáticas, anti-migração, liberais extremistas, antivaxxers, extremistas raciais (habitualmente brancos) ou culturais (habitualmente judaico-cristãos europeus e brancos e embora também os haja árabes e islamistas, não andam nas mesmas caixas).

Com eles não há discussão. Há apenas gritos e rejeição de toda e qualquer argumentação que lhes negue as opiniões. E preciso rejeitar ciência? Faça-se. É necessário demonizar outros povos ou culturas? Vamos a isso. Relativizar sofrimentos ou riscos? Fácil. Mentir? Uma constante.

Na Europa vemos cada vez mais disso. Salvini é neste momento o mais destacado representante na forma como está a controlar completamente o seu parceiro-fantoche de coligação e toma atitudes que estão contra qualquer decência. Orban na Hungria parece querer fazer avançar tudo o que lhe convenha, mesmo que tenha que avançar conspirações anti-semitas, obrigar trabalhadores a ficar no trabalho sem salário, proibir a entrada de imigrantes que nem sequer o almejam, dar contratos e proteger subsídios da família e amigos. Na Polónia Kaczyński tenta seguir o conceito Orban. Na Turquia Erdogan caminha para a ditadura usando o espantalho Güllen. Fora da Europa, na Venezuela felizmente o ditador é incompetente (sem Cuba já teria deaparecido). Nos EUA Trump continua a denegrir toda e qualquer pessoa que discorde dele (até tenta levar Bezos para a lama referindo-se à sua vida privada). No Brasil Bolsonaro agita o espantalho inexistente da ameaça do comunismo. O casos surgem quase todos os dias.

E depois temos os trolls deles. Muitos deles serão pagos, outros simplesmente idiotas úteis. Veremos nos próximos meses o resultado das suas acções nas eleições europeias.

Não conheço a solução. Sei que entrar nessas discussões é inútil. Regulação para evitar a propagação de falsidades nas redes sociais (ou caixas de comentários de media) seria útil, mas não suficiente. Discutir como lidar com o uso de mentiras em campanhas eleitorais seria boa ideia. Não falo de promessas que niguém irá cumprir (não há inocentes nesse aspecto), antes do uso de mentiras óbvias. Entretanto, o melhor seria evitar dar-lhes um megafone maior que o que têm. Ignorar esta suinidade não resolve o problema, mas não piora e não suja mais ninguém.

A vingança de Malthus

João André, 11.02.19

Em 1798, Thomas Malthus escreveu o seu "An Essay on the Principle of Population", onde, de forma muito resumida, previa que a disponibilidade de recursos levaria a um aumento de população até um ponto onde os primeiros não sustentariam a segunda, isto é, os recursos seriam insuficientes para a população. Os recursos a que se referia eram essencialmente a produção de alimentos e a sua visão foi influente o suficiente para se falar em catástrofe malthusiana ou em pensamento malthusiano.

 

Malthus não tinha (penso) uma previsão para o momento em que o crescimento da população seria restringido pela disponibilidade de alimentos, mas seja como for, as suas previsões não se cumpriram até à II Guerra Mundial. Malthus tinha no entanto apontado guerra, peste e fome como instrumentos de controlo do crescimento populacional. Neste contexto, a Grande Fome (Great Famine, no original) na Irlanda em meados do século XIX, a I Guerra Mundial e a Gripe Espanhola de 1918 apoiariam as suas teses. Ainda assim, após a II Guerra Mundial, no período de desenvolvimento económico e científico que se seguiu à catástrofe, a produção agrícola disparou, especialmente através da Revolução Verde. Alguns neo-malthusianos apontaram que tal apenas reforçaria as teses de Malthus, dado que este apontava a sobre-abundância de alimentos como a causa para o aumento rápido da população.

 

Houve no entanto dois aspectos que contrariaram a tese de Malthus. Por um lado, a tecnologia continuou a permitir um aumento da produção de alimentos ao ponto que, hoje, seria teoricamente possível alimentar toda a população do planeta, mesmo sendo esta consideravelmente mais vasta que em 1960. O segundo aspecto é o facto de a prosperidade, inicialmente nos países ricos e mais tarde nos restantes, leva a uma redução da taxa de natalidade, especialmente quando a prosperidade vem associada a uma maior educação das mulheres. A população tem continuado a aumentar, mas a ritmos variáveis e, nos países ricos, só aumenta devido ao influxo de imigrantes e a um aumento da esperança de vida. Num livro recente, os autores argumentam que, ao contrário do que se espera, este fenómeno relacionado com a educação feminina levará a uma diminuição da população mundial já dentro de 3 décadas (não li o livro, apenas deixo o link para o artigo).

 

Parece então que a catástrofe malthusiana pode ser evitada. Pelo menos do lado dos alimentos. Mas será completamente evitável?

 

2018 viu um aumento da consciência social um pouco por todo o lado. Foi a questão dos plásticos; foi o aviso que poderá já ser quase tarde demais para evitar aumentos de temperatura catastróficos; foi a informação que metade da Great Barrier Reef, bem como 15-30% (as estimativas variam) dos corais do oceano estarão a morrer de forma acelerada (e o IPCC estima que se o aumento de temperatura ficar apenas nos 1,5 ºC, 70-90% dos corais desaprecerão); foi a notícia recente que pelo menos um terço dos glaciares do massivo Hindu Kush-Himalaias estarão a desaparecer; foi o aparente aumento da frequência de episódios de tempo extremos (calor na Austrália, frio nos EUA, tufões e tempestades tropicais em alturas incomuns e em zonas onde não sucedem frequentemente); é a seca em múltiplas partes do mundo; são os insectos a desaparecer, etc, etc, etc.

 

Tudo isto está relacionado com uma coisa: uma voracidade pelos recursos do planeta que não tem par em qualquer outra altura dos 4,5 mil milhões de anos da Terra. Não se trata só das alterações climáticas induzidas pelo aquecimento global causado pela actividade antropogénica. O problema dos plásticos está também relacionado com isto: os recursos naturais (vidro, papel, madeira, etc) são limitados e não têm a variedade de usos que os polímeros (no caso, com à base de petróleo) oferecem. O declínio das populações de insectos está correlacionada com as revoluções verdes e o uso extensivo de insecticidas que permanecem no solo durante anos e que destroem as larvas de onde oclodiriam os novos insectos. As populações animais estão em declínio, em parte pela desflorestação e em parte pela caça. Em alguns casos a caça, especialmente de herbívoros de grande porte ou de predadores de topo, é tão ou mais responsável quanto desflorestação intensiva.

 

Isto reflecte uma realidade muito malthusiana. Não tanto pelo lado dos alimentos, mas pelo lado do desenvolvimento ou conforto ou luxos. O aumento do consumo de carne nos países em via de desenvolvimento é responsável por muitos dos actuais problemas climáticos. O desejo de ter os mais recentes brinquedos electrónicos (o iPhone 234.2 ou o iPad ou o Tesla ou a nova TV plasma-LCD curva a 360º ou as luzes LED que iluminam permanentemente por baixo da sanita para o caso de ser necessário apanhar a escova de dentes. Tudo isto, bem como todos os outros bens que poderiam ser mencionados, exigem recursos para a sua produção (ou para fornecer os serviços envolvidos), sendo que muitos deles não estarão ligados directamente ao produto (o plástico ou o metal do produto que teremos na mão) mas serão essenciais para a sua existência, na forma das cadeias de produção, nomeadamente no transporte, construção do equipamento envolvido na sua produção, equipamento auxiliar ou outros recursos (no limite até na produção do balcão da loja que vende o produto).

 

Todos estes recursos, além disso, são de via única, ou seja, não são recuperáveis. Há elementos nos sistemas de reciclagem ou reuso que ajudam a evitar esta armadilha, como o ciclo da água ou do carbono (por exemplo o CO2 libertado na queima de combustíveis é capturado por árvores que depois morrem e se afundam no subsolo acabando por dar origem a mais combustívei fósseis). A dificuldade é que não só a reciclagem nunca pode ser perfeita (a 2ª lei da termodinâmica impede-o) mas em termos de engenharia actual (ou prevista para o próximo século) não é possível sequer estar perto de 100% de eficiência. Isso significa que mesmo um hipotético cenário Soylent Green não permitiria sustentabilidade.

 

Isso significa que de um ponto de vista matemático, iremos sempre acabar por consumir mais recursos do que recuperamos num sistema fechado. No caso do nosso planeta, este problema pode ser resolvido devido aos sistemas implícitos de reciclagem do planeta (água, CO2, sais, temperatura, etc), mas estes são tão lentos que exigem uso ponderado dos recursos. No entanto a população continua a crescer e a pedir mais recursos per capita. Isso significa que continuaremos a usar mais recursos do que os que temos disponíveis e atingiremos um momento em que a procura ultrapassará a oferta. E não vale a pena defendermo-nos falando em tecnologia porque esta resolve os problemas utilizando mais de outros recursos. A revolução verde é um excelente exemplo: foi possível graças a novos fertilizantes e pesticidas, mas estes têm também os seus custos em termos de recursos de outro tipo (outras matérias primas, energia...).

 

Isto significa que, no fim das contas, Malthus acabará por ter razão. O planeta terá recursos limitados, mesmo contabilizando as entradas (energia solar, gravidade...) no sistema. O nosso ritmo de consumo, seja de forma directa (comida) ou indirecta (recursos para fertilizantes) será sempre mais intenso que a capacidade de reposição dos mesmos no planeta. Em alguns aspectos, estaremos pior (água, biodiversidade, clima) que noutros e teremos que fazer mais e mais depressa, mas em todos os aspectos o nosso desenvolvimento está a ultrapassar a capacidade que o planeta tem de o sustentar. A vingança, mesmo indesejada, acabará por chegar.

Apos um momento #metoo (final)

João André, 15.10.18

Há pouco mais de uma semana decidi colocar uma série de posts com o título "Após um momento "metoo". Continham apenas uma frase com que as acusações/declarações de mulheres são frequentemente confrontadas. Não enquadrei, justifiquei, não me coloquei de qualquer dos lados. Deixei apenas a frase.

 

Houve quem tenha notado isso. Notaram também que deixei os comentários abertos, algo que nunca faço. Eliminei apenas um por grosseria*. De resto fui deixando e nem sequer intervi nas conversas. Não era minha intenção ser foco de nada, antes deixar a discussão avançar. Também não reflectirei sobre os comentários (no momento em que escrevo são 159 no total, média de quase 20 por post). Estão lá para qualquer pessoa ler e não vou pronunciar-me sobre eles. Cada um que tire as suas ilações sem comentários da minha parte.

 

Não é obviamente acidente que esta sequência tenha surgido após o caso Mayorga-Ronaldo, embora as declarações acima tenham surgido apenas da minha memória e não tenham sido levantadas de qualquer texto de opinião ou comentário específico. Podiam ter sido após as declarações contra Aziz Ansari ou Harvey Weinstein. Podiam ter sido após declarações de Jimmy Bennet contra Asia Argento, apenas se mudando o sexo das pessoas.

 

A razão de eu ter iniciado esta lista foi para ressalvar o tratamento a que as mulheres que acusam homens (mais ainda que homens que acusam, seja outros homens ou mulheres) são sujeitas. Uma acusação não é obviamente equivalente a uma condenação nem o pode ser. Uma mulher que tenha a coragem de fazer tal acusação não merece automaticamente ser considerada acima de suspeita. No caso de Kathryn Mayorga, só ela e Ronaldo estiveram naquele quarto naquele momento. Só eles poderão saber o que se passou. Se o souberem: a memória prega partidas tramadas e ambos podem apresentar relatos distintos estando completamente certos do que dizem.

 

Cristiano Ronaldo, como qualquer outra pessoa, é inocente até ao momento em que um tribunal o declare culpado. Isto é do mais puro senso comum. A decência exige que o deixemos agora em paz, para preparar a sua defesa, judicial - perante a justiça, privada - perante os seus entes queridos, e pública - se assim o entender. Não merece que devassemos agora a sua vida e não merece que os media vão agora em busca de "provas" de inocência ou culpabilidade. Ronaldo sempre defendeu ferozmente a sua vida privada - não a devassemos sem razão. Há uma acusação, os media publicaram essa informação factual e a história que a sustenta, além de terem ouvido o lado de Ronaldo, como lhes compete.

 

Ronaldo, como escrevi, é inocente até ser julgado culpado. Só que isso não implica que Mayorga é culpada (de difamação/extorsão...) até ser julgada inocente. Merece exactamente o mesmo respeito da parte do público e dos media que Ronaldo. Não merece que se acredite piamente na sua história (que tem buracos, como seria normal em qualquer história com 9 anos, ainda mais se envolver eventos traumáticos reais) nem que seja acusada de mentir. Ronaldo não sairá incólume desta história, é certo. Ela também não. Mesmo que ela acabe a receber algum milhão de dólares de Ronaldo, ficará sempre com rótulos colados à sua testa. Ele o mesmo.

 

Nestas histórias há sempre vítimas. A minha série de posts quis apenas lembrar que algumas vítimas sâo-no antes, durante e depois de um processo de acusação/denúncia. Lembremo-nos disso quando, do conforto das nossas cadeiras nos tornarmos cruzados do São Facebook.

 

Posts: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

 

* - actualização: apaguei também os comentários de luckylucky pelas razões que lhe expliquei no passado. Nos meus posts ele não comenta nem para dizer bom dia.