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Blogue da semana

por Marta Spínola, em 19.03.17

Por hoje ser Dia do Pai, deixo como sugestão O Melhor Pai do Mundo, e aproveito para desejar um bom dia aos pais autores e leitores do Delito de Opinião.

 

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Das obras por Lisboa

por Marta Spínola, em 06.01.17

Deve dizer-se que na Fontes Pereira de Melo há três novas passadeiras, em locais onde as pessoas, durante anos, insistiam em tentar passar. Uma espécie de dor de membro fantasma invertida. 

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A Lena do bibe encarnado

por Marta Spínola, em 04.01.17

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

São loucos, estes americ... Romanos, pois!

por Marta Spínola, em 09.11.16

Vamos cá a ver: havia duas possibilidades e nunca houve uma maioria clara de Hillary Clinton. Não é que haja uma surpresa com Trump, a questão para mim não é tanto ele, que com o seu discurso desta manhã deixou em aberto um caminho para a moderação. Também é ele, que fez uma campanha de palhaço (literalmente) rico e venceu. Veremos o que por aí vem, que remédio.

Deixo a análise política para quem a sabe fazer, eu gosto (ou não) é de observar as pessoas. E o que continua a chocar-me é que as pessoas gostam de um bom circo, mesmo na vida real. Gostam ao ponto de levar circo ao poder para verem mais. Talvez também seja culpa dos canais pagos, pelo menos o presidente tem de dar em sinal aberto, e é entretenimento garantido. O que me preocupa de momento é que quem votou o fez ou porque crê naquela conversa da família americana - quando nem a dele o é! -, ou, e arrisco que pior, quem riu muito com ele, as suas alarvidades e grosserias. Isso não é frontalidade, é circo.

Já sei que a Hillary tem imensos defeitos e "ele é péssimo mas ela também é má" (e foi esta conversa que a vez perder, não tenhamos ilusões), e não sabemos, nem saberemos, como seria se fosse ela a eleita. Agora já está. Olho para trás e vejo como o meu choque com a reeleição do W Bush, parece tão ingénuo perto do de hoje.

Esta campanha foi só circo, e a minha fé na seriedade das pessoas está cada vez mais fraquinha. Sendo eu uma pessoa que adora rir e não reconhece limites ao humor, já vêem o que a ignorância me assusta.

Se falarmos no circo romano, há choque e horror, era um absurdo e uma barbárie. O pão e circo como campanha é uma coisa muito mal vista, mas só à distância de uns séculos. Vemos mal ao perto.

Em 2004 choraste, e eu, que nunca chorei com a selecção, tive vontade de chorar contigo. "É tão menininho..." pensava, dizia. Nunca te deixei, segui-te sempre, quis saber sempre mais, ver mais. Saber onde podias chegar. Ano após ano.

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Ontem, quando te vi no chão e depois em lágrimas, pensei "não chores. Não chores, que também choro". Voltaste, porque és o maior e não desistes à primeira, não desististe em 12 anos, nunca viraste a cara a tanta ingratidão que se viu e ouviu, não sei quantos teriam essa capacidade, mas tu tens.

Não deu para continuares, e vieram as lágrimas novamente. Porque vives para todos os jogos, mas aqui entre nós, uma final é uma final, e detestas não estar presente.

Depois o momento de um verdadeiro capitão. E deixa-me dizer já aqui que muitas vezes eu disse: "ser capitão é uma pressão de que ele não precisa", e hoje sei por que nunca deixaste de o ser. Cresceste, amadureceste, sabes ser capitão nos momentos cruciais. Quem me conhece sabe como gosto do capitão da Itália e - detesto admitir isto - vê-lo de costas nos penalties dos colegas, quando se apregoavam um grupo unido, custou-me. Podem ser superstições, crendices, pode ter sido para não dar um grito ao Zaza, mas esse gesto ficou-me. No prolongamento vieste dar ânimo a todos, dentro e fora de campo. Abraços, gritos ou sussurros, o capitão estava ali com eles. O mimado, o birrento (atenção, adoro essas pequenas birras), estava ali a dar de si aos restantes.

Mais lágrimas no golo do Éder. És maravilhoso quando choras de alegria. És o maior, o melhor do mundo mesmo a chorar,quero lá saber. Chorei contigo antes, chorei contigo agora.

Quando levantaste a taça, senti as lágrimas chegarem. Talvez por tudo o que ouvi e li de 2004 para cá, em cada europeu e mundial, sempre a mesma conversa, sempre os mesmos argumentos idiotas e ressabiados. Ou talvez me tenha voltado simplesmente a emocionar com Portugal.

Doze anos, esperei 12 anos para te ver ali, assim. E vi. És o maior, meu ric'menine.

Pela não vulgarização das reticências

por Marta Spínola, em 26.05.16

Li ali, não interessa onde (foi no Facebook, pronto), uma pessoa defender o seu discurso pontuado exclusivamente por reticências com o argumento "é.. Para fazer... Pausas... Na conversa..."

Vamos lá a ver uma coisa: a gramática prevê pausas, chamam-se vírgulas e pontos finais. As reticências, para quem sabe ler, deixam uma ideia no ar, ou arrastam o discurso. Que ideia é esta de que são pausas? Se... Eu... Escrever um post... Assim... Isto não irrita ler?

De repente, há esta convicção de que pontuar tudo e um par de botas com três pontinhos está certo. Conta os três pontos de exclamação já, e bem, indignação. E este abuso das reticências? Ridículo, no mínimo.

Eu assumo que nem sempre ponho uma vírgula no lugar certo, se calhar faço parágrafos que podiam estar num só, mas... Esta... Coisa... Aborrecida... Das reticências... A... Fazer... Uma frase... Não, tenham paciência, mas as reticências eu sei bem quando usar.

As reticências são maravilhosas para a ironia e o sarcasmo, por exemplo. São óptimas para um flirtzinho ou uma picardia. Não as banalizem, se faz favor.

Fora de série (3)

por Marta Spínola, em 17.05.16

Lembro-me de quando à terça ao serão havia sempre uma série policial. O "Polvo" dava às terças, "Modelo e Detective",  "Dempsey and Makepeace", "Crónica do Crime". Todas deram à terça.

Havia um padrão no serão da TV: concursos às segundas, filmes à quarta, debates à quinta, filmes à sexta. A terça era o dia das séries policiais e foi assim que conheci a minha favorita: "A Balada de Hill Street". Ou "Hill Street Blues", se preferirem.

Na esquadra de Hill Street acompanhávamos os agentes, individualmente ou em duplas no seu dia a dia, desde o carismático roll call ("let's be careful out there", mais tarde "let's do it to them before they do it to us") à cerveja ao fim do dia no bar onde todos se encontravam.

Eu era criança quando dava à noite, mas revi mais tarde numa reposição, e voltei a adorar, agora com mais atenção e noção. Fui apaixonada pelo officer Renko e o seu companheiro Bobby Hill, adorei cada rosnar de Belker, respeitei e chorei o sargento Esterhaus.

Gosto muito de séries e filmes do final dos anos 70, início dos 80. É série que se vir à venda não hesito em comprar.

Deixo o genérico, um hino.

 

O blogue da semana

por Marta Spínola, em 10.04.16

Esta semana escolhi o blogue do Gato, The Cat Run, cuja apresentação fica feita logo à entrada: 

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

Numa escrita que sabe bem ler, num tom que faz sorrir e querer saber mais, é descrito um dia a dia com uma intersecção com o nosso, e todo um outro lado que gostávamos de viver como nos é contado. Ao mesmo tempo há um olhar sobre o mundo que comove e diverte.

Como apresentação para quem não conhece, deixo o post "Acidente em passo de corrida".

Boas leituras!

Vi Bowie em 1990

por Marta Spínola, em 12.01.16

Raramente ganhei alguma coisa em concursos ou sorteios. Aos 13 anos tudo o que tinha ganhado foi um sumol num arraial, numa corrida de cavalos de pau ou coisa que o valha. Até aos 13 anos diria que foi tudo. Em 1990 amava Mick Jagger, os Stones e David Bowie. Isto tem explicação: tinha sido enganada pela Brosmania no ano anterior, e talvez pela longevidade tivesse optado por nomes com mais da minha idade no meio.  Assim garantia que não acabavam em meses, e tinham obra consagrada. Além disso, eram as influências de mamãe e um primo (também ele antes influenciado) a tomar o devido lugar. Nessa altura David Bowie vinha cá com a sua Sound and Vision tour, eu tinha uma Super Som a oferecer bilhetes ali à mão, e as respostas às perguntas na ponta da língua. Concorri e ganhei! Dei saltos, juro. No dia do concerto - ainda me lembro da sweat Ton Sur Ton de riscas que levei - os meus pais levaram-me a Alvalade, sentei-me na bancada perto de uma família, e vi dali o concerto. Adorei tudo, claro está. A saída, tão crescida, sozinha num concerto a sério - a propósito disto uma tola das amigas da altura dizia "ahahah vais ser uma drogada, a Christiane F também foi sozinha ver o David Bowie aos 13 anos!", todas tínhamos lido o livro nesse ano (ela tinha visto o filme). Sobrevivi sóbria, posso garantir. No palco, sem surpresas, Bowie era enorme na sua puffy shirt e poupa loira. Não foi o concerto mais concorrido a que assisti, mas nunca me esqueci dele. É o que importa.

"Não vejo novelas"

por Marta Spínola, em 28.08.15

Sou, confesso, alérgica a rótulos e frases absolutistas do tipo "Não vejo novelas". Cansam-me as ideias pré-concebidas e a falta de ginástica mental. Dito isto, avancemos.

Esta é a frase que para muita gente é uma garantia de que não são ignorantes. Quem não vê novelas não é certamente burro e fala bem, pensam. Pensam mal. A música pimba, as festas na terra e o vestir mal são de novela para baixo, por isso o "não vejo novelas" coloca-as nesse patamar seguro, de quem não entra em bailaricos ou ouve Tony Carreira. Errado.
É como aquele dress code de multinacional em que "não vale calças de ganga", porque chinelos de praia, calções e tops pelo umbigo estão para lá dos jeans, então garante-se que ninguém vai mal vestido. Ui, a ingenuidade de quem pensou isto chega a ser quase fofa.

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Tentar que um conceito que é só nosso passe para o mundo resumindo-o numa tirada pateta devia ser acompanhando de um downer button de tão ridículo que é. Não temos de ser todos formatadinhos, não há um muito certo ou um muito errado nesta coisa dos gostos. Cada um de nós é como o nosso smartphone, e não há dois iguais. Ver novelas não é incompatível com beber gin, praticar paddle não implica nunca mais podermos ouvir Lionel Ritchie, ter um selfie stick não tem de impedir alguém de fazer parte da sociedade. Cada um escolhe as suas próprias aplicaç... características, gostos e manias. Ou, numa comparação mais analógica, seremos como aqueles jogos mix and match, de corpos divididos em três, em que podemos conjugar cabeça, pés e tronco das mais díspares personagens. Eu sou assim, assumo-o. Pior, gosto muito de ser assim. 

Um dia destes, num almoço, o rapaz ao meu lado disse-me: "sabes que é que vejo agora? O 'Mar Salgado'. Chego a casa sem cabeça, vejo aquilo sem pensar, e até me sabe bem". Cá está, ele não passou a ver novelas ou deixou de ser inteligente. Vê esta, sabe-lhe a descanso. É muitas vezes por aqui. O que não quer dizer que toda a gente tenha de as ver. Eu neste momento não vejo nenhuma, já vi algumas, muitas na minha infância. 
Não, pessoas, não ver novelas só faz de alguém isso mesmo, uma pessoa que não vê novelas. Se continuam a comer de boca aberta, a só saber falar dos preços das coisas, interessa pouco que conheçam o melhor gin do país. A mim pelo menos. Além disso, mal comparado, é como um suicida. Quem o faz não apregoa.

O sol está mais quente

por Marta Spínola, em 01.07.15

Pois está, e não são precisos estudos para o saber. A mim basta sair da praia e escaldar os pés todos no processo.
É um facto, nos últimos anos sinto a areia muito mais quente muito mais depressa que quando era pequena. Ou tinha pezinhos de amianto, ou não sei. Talvez haja estudos sobre os pés de crianças dos anos 80 e a areia da praia. 

Já nem é só a areia do fim da praia, nem é preciso ser um grande areal. O sol aquece e a areia ferve com ele. Se vou descalça queimo-me, se calço chinelos às vezes a areia mete-se entre eles e um dos dedos, um tormento até os poder tirar.
Sair da praia pode ser uma dor, o que podia ser poético mas não é. Não deixo de ir, naturalmente, mas dói.

Vivemos tempos - sinto que já posso usar expressões como "vivemos tempos", depois dos 35 anos dei comigo a dizer coisas assim - em que muito se aponta o dedo e pouco se sugere. Sempre se fez isto, com as redes sociais só ficou mais evidente. Eu frequento mais o twitter que o Facebook, mas é neste segundo que vejo mais vezes acontecer. Bom, agora que penso nisso no twitter também haverá comportamentos semelhantes... mas a timeline desce, desaparece e a coisa passa, não se presta tanto ao forum e ao ódio em escalada. 

Alguém toma uma iniciativa, e logo vem o dedo em riste "eu já vi isso, isso já foi feito na Islândia, assim não vale". Um jornal, uma empresa, alguém copiam assumidamente uma ideia porque acharam boa, e logo alguém se insurge "ah, não não. Isso era muito giro, mas imitado já não, lamento".

Diariamente tropeço em inquisidores de sofá. Imagino-os muito aborrecidos, entre um candy crush e um like, a destilar os seus ódiozinhos e irritações. Talvez seja terapêutico, não sei. E são assim no humor, nas séries, na vida: "Isso já foi feito, eu vi muito primeiro, não contem comigo para gostar". Acho cansativo e redutor, mas que sei eu. 

E sugerem alternativas, têm ideias, perguntam-me. Não, têm zero. Se eles estão aborrecidos temos de o estar todos. Toma lá que já te apontei o dedo, perdi tempo num comentário azedo, e arrumei-te. 

Se querem sobressair podem apenas fazer um comentário com uma referência inteligente "ah muito giro, tinha visto *inserir pessoa/local/plataforma/marca* e achei boa ideia também", boa? Eu não sou nada de andar sempre com o discurso "na vida é preciso sorrir", mas claramente precisamos. De sorrir e usar mais português. Também acho que passa muito pelo não se saber escrever mais que o vulgarzinho de Lineu (também posso usar esta).

As greves do metro na óptica do utilizador

por Marta Spínola, em 18.06.15

Agora que já passei por diversas greves de metro - há mais de dez anos que o utilizo diariamente -, desde as só até às dez às de 24 horas, de quando havia uma de vez em quando até às regulares, posso dizer com propriedade: façam greves para aí, já contorno de forma relativamente simples a questão.

Já sei que é um direito, que nem sempre se percebe para o que ou para quem são e isso nem importa muito porque, lá está, as pessoas têm direito e podem fazer greve.

Muito bem, mas para quem usa no dia a dia, para quem tem de chegar a algum lado e depende do metro para isso, não é imediata a solidariedade e a compreensão. Somos assim, pronto, não é por mal. Isto também é pouco relevante para os números da greve, deixem-nos ter este amor/ódio por elas e desabafar redes sociais e blogues fora.

Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 05.04.15

Para esta semana sugiro o blogue Danos Colaterais. São posts assertivos e incisivos como a sua autora, a Sophia.

Vale a pena espreitar, e destaco este post, de entre os mais recentes. 

IPO. Pediatria. Falemos disto (agora já) sem medos

por Marta Spínola, em 04.02.15

Em dia de luta contra, deixo isto. E um abraço a todos, não só a quem luta, a quem tem alguém próximo que luta, não só aos mais pequenos, a todos, porque todos o tememos de uma forma ou outra e devemos luitar contra o cancro.

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Eu - como tanta gente - pensei muitas vezes o que seria a pediatria num sítio como o IPO. Todos queremos distância de tal sítio - do IPO todo, não só da pediatria - por todos os motivos e mais algum, se a pudermos ter. Nunca tinha lá entrado, nunca tive de lá ir. 

Ouvi muitas vezes e provavelmente também o terei dito que a ala pediátrica devia ser dura, que voluntariado sim mas ali não. Falamos muito, nós. 

O ano passado dei comigo a ir ao IPO com uma criança de pouco mais de um ano, a Carlota. Acompanhei dias de análises, consultas e exames e várias horas de espera de resultados, quer no Hospital de Dia quer no piso do Serviço de Pediatria. Vi crianças em tratamento, umas pacientemente à espera do fim, outras mais agitadas. Vi pais mais resistentes que outros, vi pais permitirem-se um desabafo lá fora para aguentar mais um pouco junto dos filhos. 

Testemunhei como o pessoal é dedicado e orientado para as crianças, vi os doutores palhaços acocorados cantar para a Carlota enquanto ela comia e não sabiamos se a sopa ía ficar ou voar no minuto a seguir. Não é um mundo de que se queira fazer parte, mas estando lá as coisas são feitas para que seja o nosso mundinho enquanto for necessário. E bem. E é.

Não, nunca me "fez impressão", no dia em que entrei pela primeira vez no Hospital de Dia o drama da minha cabeça foi-se. Não por não ser dramático o que lá se passa, naturalmente que é, mas o meu drama e o de tanta gente estava deslocado, não era por ali.

Vi muitas crianças, muitas. Uma que fosse já era demais, mas vi várias. E foi ao ver estas crianças que percebi como quando dizemos que não éramos capazes não podíamos estar mais longe da verdade. Eu acredito que muita gente não fosse capaz de ali estar, respeito a resistência de cada um. Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles. Comigo foi automático, sem esforço. Entrei e ali contavam só aquelas crianças, eu não, não as impressões, não os dramas de conversas ditas sem saber na pele sobre as coisas. Eu poderia eventualmente ajudar no que pudesse e não atrapalhar. A Carlota e os outros meninos é que importavam ali dentro.

Outra coisa de que as pessoas têm receio é de ver crianças em sofrimento. É claro que haverá níveis e casos para tudo, é claro que em pediatria há pré-adolescentes e é bem diferente com eles, sentem tudo de outra forma e torna-se mais duro nesses casos, admito. Mas muitas das crianças que vi temiam as "picas" - viam um enfermeiro e de beicinho queixavam-se "não... tu dás pica" (e o meu coração desfazia-se mais um bocadinho) ou de tirar adesivos, do repelão na pele. Isto comoveu-me de uma maneira que não sei explicar, problemas tão piores as levavam ali mas os medos delas são muitas vezes estes. A verdadeira e mais pura inocência. A mesmo inocência que as faz pedir aos pais para irem mais cedo e poderem ir brincar no Lions antes das análises, exames e tratamentos. 

O meu fantasma de fazer voluntariado num lugar assim foi-se. Não seria fácil, não tenho essa ilusão, mas hoje sei que teria a força que um dia achei não ter. Eles não choram o que lhes aconteceu, quem sou eu para me sentir fraca perante isso?

 

Originalmente publicado aqui.

Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 02.11.14

Esta semana o blogue por mim escolhido é o all about little lady bug, o blogue pessoal da Joana onde se pode acompanhar a versatilidade da autora. Por outras palavras, as da própria Joana, é: "onde falo de mim, das minhas coisas, do meu mundo. há filosofia, há tony carreira... há de tudo. há kizomba e wittgenstein, tb."

Seguindo o perfil  existem outras pepitas deixadas pela hiper-dinâmica Joana por essa blogosfera (que é dinâmica fora dela também, muito).

 

Laterpost - Só uma teoria. Ainda a Jessica

por Marta Spínola, em 30.10.14

Deixo hoje este post já um pouco datado. Escrevi-o quando se falou no desfile/comentários /post da Jessica Athayde. Nessa altura li alguns posts sobre o assunto e lamento que os de maior destaque acabassem por cair na asneira de referir que a fotografia em questão era infeliz ou não era a actriz no seu melhor. Tudo o que tinha sido antes pelas autoras desses posts caiu por terra no momento em que o fizeram. Tal coisa nem me ocorreu, mesmo não tendo tido a pretensão de empunhar o estandarte da mulher real e essas coisas muito bonitas mas depois regra geral ocas que se dizem.

Segue então o que disse na altura ali no Vida de Pi.

 

O problema não são as gordas. Não são as magras. O problema é, como sempre, estarem mal resolvidas. O problema são os preconceitos, o não conseguirem mostrar pele por ideias pré-concebidas ou não receberem um elogio ou piropo de vez em quando. Mesmo que o recebessem não saberiam o que fazer com ele, ficariam trapalhonas com ele nas mãos como quando o telemóvel quase se nos escapa, quase quase, mas afinal não chega a cair. O problema é também, admito, a convenção à escala mundial, de que o magro é que é perfeito. Mas isso é secundário perto da mesquinhez das pessoas.

O problema é quando há muito elogio a alguém, tanto piropo que quase as ensurdece e não conseguem ficar indiferentes. São ciumeiras e eu percebo alguma coisa de ciumeiras. Mas dessas não tenho, não é o meu mundo mesmo. É nessa altura, em que alguém está a ter toda a atenção, que saem os "mas ela até é gorda", "olha para aquela celulite". E uma pessoa olha e olha e pensa que ou precisa de óculos ou não estamos a ver a mesma coisa.
Pessoas gordas bem resolvidas, e eu sei do que falo, não olham para Jessicas Athaydes a apontar defeitos, a esfera é outra, não pairamos no mesmo planeta, portanto não venham com "as gordas" que até podemos ser, mas não somos todas iguais. 
Dá vontade de rir, não fosse triste ver mulheres assim umas contra as outras por motivos idiotas, apontarem algum defeito à fotografia que vi. Dispam-se, vistam-se como quiserem, vivam um bocadinho, comam só alface se assim o entenderem, e acima de tudo não chateiem.

Delitos Poéticos (18)

por Marta Spínola, em 18.07.14

 

Rapto de Proserpina, Bernini (1621–1622)
 
O que eu desejei às vezes 
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
 
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje-que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe.

De tudo quanto nós fomos,
 
Apenas sei que sou triste.
 

António Botto

Do estar desempregado

por Marta Spínola, em 10.06.14

Eu já não estou, é a primeira novidade. Apareceu finalmente o meu emprego e eu acredito com alguma força que vai correr bem. Mas não é disso que venho falar. Tentarei em poucos posts descrever alguns aspectos do lado de quem está nessa terrível posição.

Enquanto se está desempregado passa-se pelas mais diversas situações, observações e opiniões. Mas o pior de tudo é quando o telefone toca, é um contacto para uma eventual entrevista, um teste de idioma, uma hipótese "que pode vir a acontecer, mas ainda sem certezas". Não me interpretem mal, não é o interlocutor ou o que/quem nos levou até ele que está mal, as pessoas fazem o que podem ou está ao seu alcance, e eu tenho algumas a agradecer por terem ajudado na minha busca de trabalho, ainda que sem sucesso.

O pior é mesmo o outro lado, o nosso. O que procura, tenta, ouve e espera uma oportunidade e uma segunda chamada. Sabe que é capaz, pode fazer aquele trabalho sem problemas ou se lho explicarem, deixa-me lá pensar o que levo vestido para a entrevista. E o novo contacto tarda, e acaba por não chegar. Mas sempre que há um novo, toda a esperança se renova e recomeça, vai ser bom, aquela zona até é boa e eu não me vou atrapalhar, eu faço o que for preciso. É como se o que está para trás não importasse já, deixa lá, alguma coisa havia de haver para ti caramba, já chega de esperar. E foram algumas vezes em que afinal ainda não era desta.

Comigo foram dois anos. Não estive parada e tive experiencias enriquecedoras, estive em lugares onde não me imaginei, vi o lado bom de muita gente. O mais difícil foi mesmo esse jogo esgotante da energia para começar de novo e a desilusão de ainda não ser dessa vez.

Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 18.05.14

Eu leio muito menos do que já li, confesso. E leio menos do que planeio retomar a ler. Mas gosto muito quando um livro me preenche os dias, os personagens me acompanham e tenho pena de deixar de os ter comigo depois de o acabar e acima de tudo a sensação de fazer o que tenho a fazer para ir a correr ler mais um bocadinho. Este para mim é o maior encanto dos livros. 

Mas há quem não só leia, como se dedique com verdadeira paixão ao livros e que é contagiante. É o caso da Célia do Estante de Livros que alimenta o seu blogue há sete anos com opiniões sobre os livros que vai lendo. Há um Reading Challenge anual que a Célia vai superando ano após ano e imagens de estantes enviadas pelos leitores do blogue. Esta é uma sinopse desleal, só uma visita ao blogue poderá mostrar com justiça de que falo. 

Conheci a Célia no twitter e o seu gosto pelos livros deve ser a primeira caracterísitica que se salienta. É por isso que hoje destaco este blogue. 


O nosso livro






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