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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

Perdidos no labirinto

por José Gomes André, em 20.06.14

O Partido Popular Europeu reuniu-se no Algarve para discutir “crescimento e emprego”, procurando anunciar um novo ciclo na política europeia. Após anos de austeridade, é altura de enviar uma mensagem de esperança aos deprimidos povos europeus, ainda que ninguém saiba qual a receita milagrosa capaz de reactivar o mercado europeu e dinamizar as débeis economias da periferia, já para não falar de problemas crónicos como a crise demográfica, a imigração ilegal ou o futuro da Segurança Social.

A verdadeira agenda dos conservadores deverá pois concentrar-se em desafios mais prementes. Um deles é saber como lidar com o novo mapa político da União Europeia, mais fragmentado do que nunca e habitado por um número crescente de nacionalistas xenófobos, eurocépticos tradicionais e esquerdistas radicais, cujas intenções são bem conhecidas: enfraquecer (ainda mais) o que resta do projecto europeu.

A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire por isso grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel...

[publicado no Diário Económico]

O declínio do Ocidente.

por Luís Menezes Leitão, em 18.06.14

 

Enquanto anda tudo entretido com o Mundial há alguma coisa de novo a Leste. Em primeiro lugar, depois dos seus sucessos na guerra civil síria, a Al-Qaeda ameaça agora tomar conta do Iraque, pretendendo construir desde já um Estado islâmico radical nesse território, denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na versão inglesa). Será algo absolutamente novo e que demonstrará uma derrota absoluta dos Estados Unidos na denominada guerra contra o terrorismo. Na verdade, o que era até há pouco tempo apenas uma organização terrorista, com recursos consideráveis, é certo, mas sem qualquer base territorial, pode a partir de agora começar a gerir um Estado, a partir de território sírio e iraquiano, iniciando a realização da sua ambição de reconstituir o califado. Trata-se de algo muito mais ameaçador do que qualquer Saddam Hussein, mas a verdade é que Barack Obama não se mostra disposto a nova intervenção militar no Iraque, preferindo deixar os iraquianos à sua sorte. Aposto que vão ser presa fácil para a Al-Qaeda e que em breve um país com a importância estratégica do Iraque estará a servir para o desenvolvimento do terrorismo.

 

 

Na Ucrânia as coisas não estão melhores. Poroshenko, legitimado pela sua vitória eleitoral e estimulado pelo apoio da União Europeia, achou que uma situação altamente complexa como a que herdou podia ser resolvida com uma simples bravata. Garantiu resolver a questão no Leste numa semana, através de uma ofensiva brutal contra os rebeldes russos. A iniciativa era ridícula, uma vez que a manutenção do Leste ucraniano depende muito mais de concessões aos rebeldes, depois da desconfiança criada pelo golpe de Estado, do que de uma ofensiva militar. Era evidente que a Rússia não toleraria um massacre dos rebeldes pró-russos. Mas a reacção de Putin, apesar de curiosamente contida, foi extremamente eficaz. Limitou-se a cortar o gás à Ucrânia, matando com isso dois coelhos de uma só cajadada. Efectivamente, não apenas a Ucrânia vai ser economicamente muito prejudicada, como especialmente a Europa vai morrer de frio no Inverno, o que seguramente lhe vai arrefecer os ímpetos de intervir em zonas que Putin considera de influência russa. Naturalmente que, depois dessa resposta, a Poroshenko nada mais restou do que ir negociar com Putin, engolindo assim a bravata inicial.

 

 

De tudo isto resulta que estamos a assistir neste século XXI a um profundo declínio do Ocidente, associado a um ressurgimento islâmico e ao regresso da Rússia. E neste aspecto ter uma União Europeia exclusivamente dominada pela Alemanha é altamente contraproducente. Uma União Europeia só poderia ter força se efectivamente congressasse os povos europeus. Mas hoje, quando os líderes europeus acham que podem ignorar os votos dos cidadãos e escolher o Presidente da Comissão numa canoa num lago sueco, parece evidente que a Europa está neste momento a meter muita água. Por este caminho arrisca-se a ir ao fundo.

Prostituição e droga no combate ao défice

por Teresa Ribeiro, em 10.06.14

Genial! Como é que ainda não se tinha pensado nisso?

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 08.06.14

 

«Estas coisas da União Eueopria podem ser vistas na sua semelhança com o funcionamento interno de um país.
Todos os países têm desequilíbrios económicos nas suas regiões. Umas mais industrializadas do que outras, umas que souberam retirar dividendos pelo turismo, pelos serviços, etc.
A Alemanha não é excepção, e o norte recebe muitas transferências de fundos pela zona mais produtiva a sul, tal como o leste ainda recebe do oeste.

As regiões só têm que ser economicamente equilibradas quando se querem completamente independentes. Com independência, essa região pode controlar os desequilíbrios naturais, usando mecanismos pouco liberais e mais proteccionistas, com restrições ou estímulos direccionados.
Por exemplo, em Portugal, ninguém espera que Trás-os-Montes tenha uma balança equilibrada, e ninguém no seu correcto juízo achará que os transmontanos tenham um defeito congénito ou cultural.

O processo de formação da união europeia teve esse carácter federalista, de aceitar regiões em diferente grau de desenvolvimento, e de patrocinar o fim dos seus equilíbrios económicos produtivos, estimulando o fim dessa produção independente, com a ideia de concentrar a produção no centro da Europa, mais em particular na França/Alemanha, onde já era dominante.

Assistimos assim ao fenómeno das zonas industriais, que em Portugal estão centradas na costa litoral de Lisboa ao Porto, e que na Europa estão na zona central, circundante aos Alpes.
Não passaria pela cabeça de ninguém fazer uma regionalização de Portugal e dizer que as zonas interiores tinham que se "amanhar" para serem economicamente equilibradas, e sem lhes dar sequer mecanismos de independência económica.

Pois bem, depois de promoverem essa ideia de federalização que destruiu sectores produtivos a sul, a UE mudou de ideias e fez justamente isso... disse que as regiões a sul tinham que ter contas certas, sem independência económica.

Ora isso é quase impossível de se conseguir, por se partir de bases desiguais.
Por muito queijo da Serra que se produzisse nas Beiras, não iria haver equilíbrio. E se os beirões se lembrassem de produzir a sua própria cerveja, apanhavam com a Unicer e a Centralcer em cima. Para evitar os desequilíbrios teria que haver um proteccionismo mínimo.

Nós pagamos a autonomia de Açores e Madeira, e ninguém deve ter problemas com isso. É assim que funciona uma economia ligada num objectivo comum.
Se Açores e Madeira se tornassem independentes arranjariam maneira de equilibrar as suas contas... mas não seria a deixar entrar os produtos do continente como se fossem os grandes amigos de antes. Não, teriam que colocar barreiras, sob pena de estarem sob constante défice.

Por isso se a UE quer brincar a esse jogo... só há uma resposta em bom português:
- Puta que os pariu!»

 

Do nosso leitor da Maia. A propósito deste texto do Rui Hebron.

O conflito entre a União Europeia e a Rússia.

por Luís Menezes Leitão, em 15.05.14

 

A crise na Ucrânia evoluiu de tal forma que está em risco de ocorrer uma guerra civil prolongada, que só não levará a uma intervenção externa se a Rússia não quiser. Sempre achei que foi uma grande ingenuidade a União Europeia ter-se envolvido nesta questão com o apoio precipitado a um grupo de manifestantes, que desencadearam um golpe de Estado para depor um governo hostil à União Europeia. O resultado foi a sua substituição por um governo hostil à minoria russa, que desencadeou a sublevação das regiões do país em que esta minoria reside. Depois da Crimeia, são agora as regiões de Donetsk e Lugansk que decidem em referendo a secessão da Ucrânia. Actualmente bem se pode proclamar a ilegalidade destes referendos, mas esta proclamação soa a estranho vinda de um governo eleito numa praça, e sabendo-se que a própria Ucrânia se proclamou independente da URSS graças a um referendo.

 

Como bem salientou Gerhard Schröder, a União Europeia nunca poderia assinar um tratado de associação com um país tão dividido como a Ucrânia sem acautelar os interesses da minoria russa. Por vezes as pessoas vivem em países tão etnicamente unidos que não compreendem que noutros países há questões muito sensíveis com minorias, que se vêem como próximas de Estados vizinhos, e que não aceitam uma política hostil a esses Estados. Neste momento, na Ucrânia a Europa é sinónimo de Alemanha, e o actual Governo é visto como um Governo pró-alemão e hostil à Rússia, que até inclui grupos nacionalistas radicais, como o Sector Direito e o Swoboda. Aliás, a sua primeira decisão foi proibir a língua russa no país. Só uma grande insensatez dos actuais dirigentes europeus é que podia levar à assinatura de um Tratado de Associação com um governo destes. O resultado disto vai ser a implosão da Ucrânia, e provavelmente não se vai ficar por aqui, uma vez que a Moldávia pode ser o próximo país a ser objecto de uma revolta da população russa.

 

É preciso ter consciência de que neste momento há uma clara disputa de zonas de influência entre a Rússia e a União Europeia. Esta ambiciona estender a sua influência até às fronteiras da Rússia. Por sua vez a Rússia ambiciona construir uma união euro-asiática, onde manteria as suas tradicionais esferas de influência. Já houve guerras que começaram por menos.

Sinais de esperança, diz o Presidente da República

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.14

"Quarta-feira, num encontro informal em Berlim com jornalistas, Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, afirmou que os programas de ajustamento da troika são demasiado rígidos e com pouca flexibilidade, criticando Durão Barroso por não ter nomeado um comissário europeu para a Grécia. Já Angela Merkel, que também participou na reunião, defendeu que o pacote de 6 mil milhões de euros para promover o emprego jovem na UE deveria antes ser utilizado para pagar reformas, de forma a serem criadas vagas nos empregos já existentes.

As afirmações dos dois dirigentes alemães surgiram no mesmo dia em que foi tornado público que o produto interno bruto (PIB) da zona euro contraiu 0,2% nos primeiros três meses de 2013, o que representa a sexta queda trimestral consecutiva, naquela que é a maior e mais longa recessão desde a criação do euro. Nove destas 17 economias recuaram enquanto o PIB no conjunto dos 27 estados-membros contraiu 0,1%."

 

Entretanto, na China, o Presidente da República esclareceu que houve uma leitura truncada das suas declarações no Facebook. Portugal vai ganhar mais seis condecorados, dois dos quais, ontem, ainda não tinham sequer sido contactados e de nada sabiam, enquanto outro pediu para receber a condecoração numa cerimónia separada. Esta parte não estava truncada.

De caminho, o "Consulado Geral de Portugal informa que, tendo sido atingida a lotação máxima nos dois espaços, não há mais convites e bilhetes disponíveis, respetivamente, para a recepção que Sua Excelência o Presidente da República oferece no próximo domingo, 18 de maio, à Comunidade Portuguesa de Macau e Hong Kong e para o concerto com Kátia Guerreiro que se lhe segue ..." - tudo, como se vê, conforme o novo Acordo Ortográfico. Por clarificar ficou a dúvida, idiota, de se saber quantos dos que levantaram os convites lá iriam sem a oferta do espectáculo gratuito de Kátia Guerreiro. Mas lá que são "sinais de esperança", lá isso são. Quanto a esse aspecto não há dúvidas, estamos todos de parabéns.

Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (III).

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.14

 

Este texto do Pedro Correia e este texto do Luís Naves justificam que volte ao assunto do que considero ser a irresponsabilidade europeia na Ucrânia e cujo resultado está à vista de todos. É muito fácil demonizar a Rússia como agressor, mas tal implica esquecer o óbvio: que a União Europeia apoiou um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que incluía partidos fortemente hostis à minoria russa. Ora, era manifesto que esta não deixaria de pedir auxílio a Moscovo e que a Rússia não iria ficar quieta. Basta olhar para o mapa acima para perceber o risco de guerra civil que o golpe poderia causar, ainda mais quando estimulado por uma União Europeia que prometeu mundos e fundos à Ucrânia, os quais não tem para dar a Portugal ou à Grécia.

 

 

A comparação com a II Guerra Mundial, ao contrário do que se afirma é bem elucidativa. O mapa acima demonstra, ao contrário do que se julga, a força com que a Alemanha saiu do tratado de Versalhes. É que anteriormente tinha vários impérios em seu redor, e depois passou a ter pequenos Estados, que facilmente poderia influenciar. Kissinger já uma vez escreveu que o grande erro de Hitler foi ter estado obcecado em travar uma guerra enquanto era novo. Bastar-lhe-ia esperar e conseguiria o domínio alemão na Europa, não por força das armas mas pelo poder económico.

 

Neville Chamberlain sabia perfeitamente disso, e acreditou ingenuamente que Hitler não precisava de uma guerra. Mas fê-lo por razões pragmáticas. Disse pura e simplesmente perante o ataque à Checoslováquia que, por muito que respeitasse a fraqueza de um Estado europeu perante um vizinho forte e poderoso, não podia envolver todo o Império Britânico numa guerra por esse motivo. A Inglaterra não estava disposta a uma guerra por causa da Checoslováquia, mas já estava por causa da Polónia. É assim que a guerra se inicia quando Hitler invade a Polónia, coisa que ele muito estranhou, pois quem queria combater no futuro era a URSS. E a intervenção da França e da Inglaterra na II Guerra foi um desastre, como se viu logo em Dunquerque, que levou a que a França fosse ocupada e logo a seguir a Inglaterra sistematicamente bombardeada. O que provocou a viragem na guerra foi a entrada dos EUA depois de Pearl Harbor e especialmente o ataque de Hitler à Rússia, que na altura pareceu um erro estratégico, mas que constituía o objectivo de Hitler desde o início. 

 

 

Ao contrário do que se refere, quem especialmente ganhou com a II Guerra foi a URSS, como se pode ver pelo mapa acima, que descreve a cortina de ferro de que Churchill se queixava, a qual aliás ainda foi prolongada com a adesão da Jugoslávia e da Albânia ao bloco comunista. A Inglaterra não só não conseguiu a libertação da Polónia, como também teve que dar o Império Britânico como perdido no momento simbólico em perdeu Singapura para o Japão, como Churchill também reconheceu. Já a URSS não cedeu um milímetro de território conquistado, empurrando a Polónia para Ocidente e dividindo a Alemanha. É assim que se dá por decisão dos EUA o ressurgimento alemão. Qualquer pessoa poderia olhar para este mapa e ver que não seria possível parar o avanço russo sem a Alemanha.

 

Quando se inicia a guerra da Coreia, o avanço comunista parecia imparável. Foi parado apenas por MacArthur, que com uma estratégia militar brilhante chegou a tomar Pyongyang. Só que isso desencadeou a entrada da China no conflito e ele viu que não podia derrotar o exército chinês. MacArthur pediu então a Truman para lançar bombas atómicas sobre a China, o que este recusou, por saber que isso implicava uma guerra nuclear com a Rússia. Na altura afirmou que a estratégia americana era limitar a guerra à península da Coreia e que MacArthur era demitido por não concordar com a estratégia. Ficou-se a saber que a URSS e a América travariam guerras ao domicílio mas não um conflito nuclear global. Mais uma estratégia de apaziguamento que não deixou libertar o quinto cavaleiro.

 

A excepção a esta regra era a Europa. Todos sabiam que não se podia ganhar uma guerra convencional na Europa contra o exército soviético, que em 36 horas podia ocupar todo o continente. Por isso ficou estabelecido que qualquer avanço russo teria como consequência uma resposta nuclear. Na altura foi dito que bastava um polícia da Alemanha de Leste perseguir um ladrão em Berlim Oeste, ou um carro de bombeiros do Leste vir ajudar a combater um incêndio em Berlim Oeste, para os EUA responderem com o nuclear. Kruschev dizia que Berlim eram os testículos do Ocidente, já que podia atacar em todo o mundo excepto em Berlim.

 

A queda do muro de Berlim permitiu a reunificação alemã e os governantes alemães, de Kohl a Merkel, não quiseram mais repetir o erro de Hitler. A conquista de influência já não precisava de ser militar, pois podia ser apenas económica. Só que isso podia implicar o desmantelamento de Estados, o que não deixaria de levar à guerra. Foi assim que a Europa, por influência alemã, apoiou a independência da Eslovénia e da Croácia, sabendo-se que a Sérvia iria reclamar os territórios ocupados pelos seus habitantes com uma inevitável guerra civil. Apoiou depois a indepedência do Kosovo, desde sempre um território sérvio, embora esmagadoramente ocupado por albaneses. A Rússia, tradicional aliada da Sérvia, e pela qual tinha travado uma guerra sangrenta em 1914, não reagiu.

 

Mas em 2008 tudo mudou. Quando a Geórgia decidiu pôr em causa a autonomia das suas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia a Rússia reagiu pela força militar, pelo que era óbvio que não deixaria de o fazer na Ucrânia. Por isso quando a União Europeia, especialmente por influência alemã, decidiu apoiar a colocação na Ucrânia de um governo hostil aos russos, Putin resolveu responder da mesma forma que a União Europeia tinha feito na Jugoslávia: apoiar a secessão de sucessivas regiões da Ucrânia, onde a população russa é considerável. Pelo caminho, propõe-se uma "federação", que depois facilmente se dissolve, como aconteceu na Jugoslávia.

 

É por isso que antes de a União Europeia se ter posto a apoiar golpes e governos extremistas na Ucrânia, devia considerar que a Rússia não é hoje a mesma que aceitou pacificamente o desmembramento da Jugoslávia e da Sérvia. A Rússia de hoje não vai abdicar de ter uma zona de influência própria e não vai aceitar a expansão da União Europeia para Leste. Quanto à União Europeia, o facto de ser um gigante económico não afecta o facto de continuar a ser um anão político, e pior ainda, um anão militar, que ainda por cima deixou de ter o guarda-chuva americano. Como bem escreveu Vasco Pulido Valente, "o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje)". Uma vez tive um encontro com um juiz do Supremo Tribunal Americano, que me confessou não acreditar na União Europeia, dizendo que a bandeira europeia só teria significado no dia em que aparecesse alguém disposto a dar o seu sangue por ela. A verdade é que continua a não haver ninguém disposto a esse sacrifício. Eu queria ver aqueles que agora criticam a Rússia pela sua intervenção na Ucrânia dispostos a alistarem-se num exército de defesa da Ucrânia contra a Rússia. No tempo da guerra civil espanhola houve muitos voluntários internacionais que combateram em Espanha. Hoje, não havendo nada disso, era preferível que a União Europeia tivesse algum sentido da realidade. Porque as pífias sanções económicas não assustam ninguém.

 

Europa

por Teresa Ribeiro, em 23.09.13

Já foi uma ideia. Agora parece apenas um mau pretexto.

Detroit

por José António Abreu, em 19.07.13

Como sabemos, os problemas da periferia europeia devem-se exclusivamente à inexistência de uma verdadeira união política e financeira.

O carburante da extrema-direita.

por Luís Menezes Leitão, em 24.06.13

 

Em 2002, a França entrou em estado de choque quando Jean-Marie Le Pen conseguiu passar à segunda volta das eleições presidenciais, ultrapassando o socialista Leonel Jospin. Todos os partidos democráticos aliaram-se então a Chirac, que foi reeleito com 84% dos votos. Nessa altura, no entanto, Jean-Marie Le Pen não conseguiu mais do que 16% dos votos, só tendo passado à segunda volta em virtude da divisão do campo socialista, que posteriormente passou a ser resolvida com a criação de uma espécie de primárias socialistas nas presidenciais.

 

Ontem, no entanto, a Frente Nacional obteve 47% dos votos numa eleição parcial, só não tendo conseguido a eleição do seu candidato em virtude de todos os outros partidos se unirem contra ela. A França já percebeu, por isso, que nas próximas europeias corre o risco de assistir a uma vitória da Frente Nacional. Para tal contribuem dois factores: Primeiro, a personalidade de Marine Le Pen, bastante mais perigosa do que o seu pai, e que tem feito crescer paulatinamente o seu partido. Em segundo lugar, a incompetência total da Comissão Barroso, cujo liberalismo radical ameaça fazer cair a Europa nos braços do nacionalismo. Tem toda a razão o Ministro francês Arnaud Montebourg quando avisa que Durão Barroso é o carburante da extrema-direita. Efectivamente, a política da Comissão Europeia só tem tido como efeito o crescimento dos partidos nacionalistas e xenófobos em toda a Europa.

 

Só que a irresponsabilidade da Comissão Europeia ameaça virar-se contra si própria. Efectivamente uma das propostas eleitorais de Marine Le Pen é a saída da França do euro. Como o euro não subsistirá sem a França, se a Frente Nacional alguma vez ganhar as eleições, é certo e seguro que o euro acaba e com ele a União Europeia. E Durão Barroso será o principal responsável por este descalabro.

 

A estranha surpresa

por José António Abreu, em 21.06.13

O texto que Helena Sacadura Cabral colocou no Delito há três dias pertence a uma categoria de textos que me confunde não pela informação apresentada, não pelas conclusões a que esta permite chegar, mas pela estranheza que os autores parecem revelar (e muitos leitores partilhar) perante uma e outras. É evidente que os governos alemão e francês quiseram dar tempo aos seus bancos para estes minimizarem a exposição à dívida dos países periféricos e, em particular, à dívida grega. Antes de qualquer outra, era obrigação dos governos alemão e francês protegerem as suas instituições, as suas economias, os seus cidadãos. Pode discutir-se se escolheram o modo mais eficaz de o fazer (os alemães, que são quem tem de avaliar a acção de Merkel, parecem achar que sim; há um ano, os franceses, que eram quem tinha de avaliar a acção de Sarkozy, pareceram achar que não e hoje parecem não saber o que pensar) mas é absurdo estranhar que tenham agido com tal motivação. Nenhum líder nacional, ainda que dentro de uma «união» de países «amigos» como a União Europeia, deverá defender os interesses de outras nações, expressos directamente ou por interpostas entidades, a não ser que coincidam com os interesses da sua própria.(*) Mais absurdo do que achar ilógico ou criminoso que Merkel tenha subalternizado os interesses dos gregos aos interesses dos alemães, só mesmo fazê-lo logo após recordar-lhe que não foi eleita pelos primeiros.

 

Assente este ponto, poder-se-á discutir se a reacção dos vários governos foi (é) a que melhor serviu (serve) os interesses das respectivas populações. E aqui, sim, há ampla margem para debate, discordância e estranheza. Por exemplo: teria um default grego, com subsequente colapso dos bancos alemães e franceses e quase inevitável desmembramento do euro, sido melhor para a Grécia? Ou: teria sido melhor para Portugal recusar o plano da Troika, anunciar um default que atingiria essencialmente instituições nacionais e acabar fora do euro? Ou ainda: é hoje do interesse da Alemanha avançar com as medidas de estabilização de mercados (a união bancária, os eurobonds) e de estímulo ao crescimento económico? Mas debatamos conscientes de que, por mais instituições e burocratas que amontoemos em Bruxelas, com esse pudim flan designado «Comissão Europeia» à cabeça, a União Europeia não é uma federação. (E ainda que fosse: há diferenças de rendimento gritantes entre estados de federações e até a reunificação alemã, processo interno de um único país, esteve longe de ser rápida ou indolor.) Debatamos conscientes de que o conceito de solidariedade faz pouco sentido, uma vez que a solidariedade ou é voluntária ou não é solidariedade; nenhum governo (como nenhum povo) pode forçar outros à solidariedade. Pensemos em termos de interesses. Os nossos. Os dos gregos. Os dos alemães. Os comuns. Tudo fará mais sentido, muitas desilusões serão evitadas e quiçá a economia até passe a funcionar melhor.

 


(*) É por isto que a «narrativa» que por aí corre tentando sacudir a responsabilidade da bancarrota portuguesa para os ombros da Comissão Europeia, devido às opções que esta defendeu na sequência da crise financeira de 2008, não convence: o governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) deveria ter percebido não possuir margem para fazer disparar défice e dívida; deveria ter percebido que era mantendo-os em valores razoáveis que melhor servia os interesses dos portugueses. O governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) seguiu entusiasticamente a opinião da Comissão Europeia porque era um mau governo, actuando num mundo onírico onde as fontes de dinheiro nunca secariam.

Chipre, take 2

por José António Abreu, em 25.03.13

A proposta actual:

The country’s second-biggest bank, Laiki, would be wound down. Viable assets and insured deposits would be put into a “good bank”. Another €4.2 billion worth of uninsured deposits would be placed into a “bad bank”, to be disposed of, with no certainty that big depositors will get any money back.

The treatment of the biggest bank, Bank of Cyprus, was a bit less harsh. It is to be restructured severely by wiping out shareholders and bailing in bondholders, both junior and senior. Uninsured depositors would probably incur haircuts of the order of 35%, said senior sources involved in the negotiation. The “good bank” emerging from Laiki would be merged with Bank of Cyprus.

 

Dos erros da semana passada:

After the upheavals of the past week, and months of earlier negotiations, the euro zone has ended up with a deal that is similar to the solution first proposed by the IMF, which was backed by Germany but rejected by Cyprus (and to some extent by the European Commission). The IMF had suggested winding down both Laiki and Bank of Cyprus and splitting them into good and bad banks. Now Mr Anastasiades has salvaged the shell of the Bank of Cyprus, but at the cost of encumbering it with bad assets. The scale of the bail-in that will be required to bring it to the target capital-ratio of 9% remains unclear.

It took a popular protest, and a threat by the European Central Bank to cut off liquidity to Cyprus by March 25th if a deal were not reached, to change Mr Anastasiades’s mind about trying to protect those big foreign depositors at the expense of small domestic savers.

[…]

Even France, usually the champion of “solidarity”, could not summon the will to bail out Cyprus’s “casino” banking, as Pierre Moscovici, the French finance minister, put it.

 

E para que não restem ilusões:

Nobody doubts that, after such a severe blow to its lucrative banking sector, Cyprus will be pushed into a harsh recession. Some sources in the troika tentatively estimate that GDP will shrink by about 10% before any hope of recovery.

 

Do Economist.

Os assassinos do euro

por Pedro Correia, em 18.03.13

Uma espécie de vitória póstuma da União Soviética, este confisco dos depósitos bancários dos cipriotas - totalmente inimaginável, totalmente inaceitável. Burocratas que nunca se submeteram a uma eleição, no conforto climatizado dos seus gabinetes em Bruxelas, tomam decisões em nome de estados soberanos que afectam irremediavelmente os povos desses estados, despromovidos de cidadãos a súbditos. São assassinos em potência. Os assassinos do euro. Os assassinos do projecto europeu, que se arrisca a repetir o destino de Lenine: glorificou-se em formato múmia.

 

Insanidade em Bruxelas

por José Gomes André, em 17.03.13

Pela calada, o Euro e a União Europeia sofreram hoje um abalo terrível. O resgate de Chipre levou o Eurogrupo a impôr condições muitíssimo severas, que não só lançaram os cipriotas em desespero como produzirão ondas de choque muito além do Mediterrâneo. Os dirigentes europeus demonstraram, mais uma vez, uma completa indiferença pelas regras do jogo democrático e pelos enquadramentos legais. Qual é a legitimidade da UE para levantar impostos sobre os depósitos bancários individuais? E como podem os responsáveis cipriotas enganar a população desta forma, negociando uma jogada de bastidores que constitui um autêntico assalto às poupanças dos cidadãos? E talvez pior ainda: que mensagem envia a UE aos restantes povos europeus? Que o (pouco) dinheiro que têm nos bancos não está a salvo em nenhumas circunstâncias? Quem achou uma boa ideia aterrorizar os depositantes, num momento de crise generalizada como este? Querem acabar com a pouca credibilidade que ainda resta no sistema bancário? A insanidade grassa em Bruxelas.

30% dos eleitores italianos votaram no partido do palhaço rico, 25% escolheram o do palhaço pobre. Ou, vá, menos rico.

 

A economia europeia pode estar em queda mas o mercado das ilusões continua em alta. 30% dos italianos escolheram Berlusconi, sem dúvida na esperança de poderem voltar ao regabofe a que ele os habituou. E dos 35% que, compreensivelmente, optaram por um voto de protesto em relação aos partidos tradicionais (ou tão tradicionais quanto é possível hoje encontrar na política italiana), 7 em cada 10 preferiram um humorista que, garantindo falar a sério, se propôs criar um rendimento mínimo garantido de 1000 euros mensais e reduzir a semana de trabalho para 20 horas a um tecnocrata honesto com provas dadas. A Itália fica à beira da ingovernabilidade e, por essa Europa fora, o último a rir que pague a conta.

Notas sobre o orçamento da (des)União

por José António Abreu, em 14.02.13

1. Tem o seu interesse que, vinte e sete anos e incontáveis projectos de investimento depois, permaneçamos à espera de «fundos» da União Europeia e encaremos qualquer corte não apenas como uma desilusão mas como uma tremenda injustiça. Quando ela existiu desde o início, durante quantas décadas se pode reclamar solidariedade?

 

2. Evidentemente, torna-se forçoso reconhecer que, desde a adesão, vários governos portugueses aceitaram reduções de produção em troca de dinheiro comunitário. Foi um erro que devia ter-nos aberto os olhos para a evidência de que, a prazo, injecções de dinheiro público raramente compensam cortes – forçados ou não – na capacidade produtiva (maioritariamente privada).

 

3. Não abriu. No caso em apreço, inúmeras vozes clamam pelo desvio de mais recursos dos bolsos dos contribuintes para o orçamento comunitário e, através deste, para os governos em dificuldades. Por cá, até se compreende. Seriam outros contribuintes a pagar a factura.

 

4. Pelo menos até as políticas de «incentivo ao crescimento» falharem outra vez e se descobrir – com genuína surpresa e indizível horror – que estava criado mais um monstro insaciável. Na verdade, é possível que já esteja.

 

5. Existem razões válidas para se desejar um orçamento comunitário mais elevado. Todas aquelas que decorrem de uma vontade genuína para aumentar a união política. Mas esta não pode significar apenas um acréscimo de verbas no orçamento. Tem – para quem a defenda  – de significar também a transferência efectiva de poderes do nível nacional para o nível europeu, com a consequente redução de cargos políticos e de verbas orçamentais a nível nacional. O que exige cidadãos europeus disponíveis para verem as políticas fiscais, de investimento, de emprego, de educação, de saúde, etc, serem decididas a partir de Bruxelas. Sem eleições, isto é impensável. Com eleições, provavelmente também mas trata-se de um cenário com o qual nem vale a pena perder tempo: as probabilidades de, a curto/médio prazo, elas virem a existir são menores do que as de apanhar David Cameron cantando La Marseillaise com o punho cerrado e a voz embargada de emoção (e daí, talvez não seja assim tão improvável: eu faço-o durante o Casablanca).

 

6. No fundo, tendo em conta as limitações do xadrez actual, é simples. Quem acreditar que, na situação de défices e dívidas em que quase todos os países europeus se encontram mergulhados, uma correcção é inevitável e que os governos – incluindo o arremedo sediado em Bruxelas – devem conter gastos porque a aplicação dos recursos que teriam de retirar da economia privada (ou inventar através do BCE – mas, ei, todos detestamos especulação, certo?) não geraria efeitos suficientes e duradouros, só pode apoiar um aumento das verbas orçamentais na perspectiva enunciada no ponto 3 (a curto prazo, para alguns países, entre os quais Portugal, seria positivo, uma vez que a conta seria paga alhures). Quem acreditar que o aumento das transferências de dinheiro dos bolsos dos cidadãos dos países «contribuintes líquidos» para os governos dos países que, décadas de fundos mal utilizados pelas costas, ainda clamam por auxílio pode não apenas resolver a crise em que estes se encontram mergulhados mas ser conseguido sem perguntar a esses mesmos cidadãos sobre a sua disponibilidade para realizar o esforço, defenderá um orçamento comunitário reforçado. Muito mais reforçado. Cada vez mais reforçado.

Pendências

por José Navarro de Andrade, em 26.11.12
 
É bem possível que o mundo não acabe em 21 de Dezembro de 2012 conforme tem sido previsto por astrólogos e “maiólogos” (vem de Maia, não de Maya) de melhor reputação e ainda por alguns xamanes Hopi de impecável currículo. Isto não vai acontecer, presumo, porque já toda a gente sabe que a Europa só acabará em 2014.

É em 2014 que a Escócia votará no referendo para a independência. Se o “sim” vencer, acontecerá aquilo que o status quo europeu, ou seja o diretório da EU, tem andado a evitar há alguns anos talvez imitando o pequeno Hans Brinker. Para que não fiquem desiludidos os adeptos das teorias da conspiração, gente de ideias irrefutáveis, cá vai a perguntinha misteriosa a que ninguém respondeu, sequer ousou formular:

Como foi possível e tolerável que no próprio coração da Europa um país seríssimo e maduro como a Bélgica estivesse desde 13 de Julho de 2010 nada menos do que 535 dias (!!!) sem governo? (E ninguém os tivesse chamado de irresponsáveis, antidemocráticos, incapazes ou selvagens, que são mimos geralmente reservados aos trigueiros meridionais?)

O assunto foi assobiado para o ar à espera que apodrecesse, porque a única solução referendada, pragmática e óbvia, seria aceitar a divisão da Bélgica nas duas nações antagónicas e irredutíveis que a constituem, acabando com a pura ficção política que sempre foi o país da batata frita. Estava tudo parvo? Não, estava tudo com medo e o medo às vezes traz a prudência.

O fim da Bélgica produziria um efeito de dominó que a breve trecho varreria a Europa, extinguindo as nações actuais, rasurando os mapas desenhados em Yalta, que bem ajudaram aos 60 anos de quietação e relativa paz que temos gozado, e fazendo a Europa regressar à fragmentada configuração tardo-feudal anterior a Vestefália, mas agora sem os impérios continentais, multitudinários e agregadores. Este formidável retrocesso, acrescentado à patética debilidade económica e ao desnorte financeiro do velho continente, seria decerto a sua irremediável certidão e óbito.

É com este fogo que os – desculpem a precisão – idiotas dos catalães andam a brincar e que os escoceses irão atear. Só que os celtas de saias são ultraperiféricos e não passam de um punhado de castiços, assaz irrelevantes salvo no râguebi, ao passo que os catalães estão entalados entre nós e as linhas de caminho-de-ferro decentes. Ou seja, neste roda-bota-fora, nenhum proveito obteríamos de nos tornarmos de facto a maior região autónoma numa península acantonada, porque acabaríamos ainda mais desligados do centro, como se estivéssemos no meio do mar.

E aí, nessas líquidas paragens, apenas sobreviveria a Madeira, que num esfregar de olhos também ela declararia a independência e se tornaria na única micro-região economicamente viável ao converter-se num gigantesco off-shore e capaz de capturar o negócio que tem feito as delícias da Guiné-Bissau.

A questão até que faz sentido: porque diabo Barcelona, Edimburgo, Funchal, Milão, Ajaccio, Namur e Antuérpia, não hão de poder falar directamente com Bruxelas, sem ter que passar por Madrid, Londres, Lisboa, Roma e Paris? Haverá outra solução que não a catástrofe?

Enquanto faltar resposta a esta questão, o que irá demorar enquanto a UE tiver barriga para ir empurrando o assunto, qualquer português que rejubile com os devaneios da Catalunha é um grandessíssimo tolo, salvo se que tiver um qualquer comércio que lhe traga lucro imediato.

Poder absoluto

por Teresa Ribeiro, em 24.07.12

Este é um exemplo gritante do impacto político das notações das agências de rating, os bonecreiros que nos têm nas mãos, cujo poder não tem limites. Quando é que isto acaba?

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Dificuldades de comunicação

por Ana Lima, em 29.06.12
Perante esta imagem duas hipóteses se colocam: ou, numa tentativa de tornar mais compreensível a linguagem hermética das explicações dos homens de Bruxelas, Durão Barroso tem aproveitado o seu tempo para aprender língua gestual (tendo começado pela LGA, a alemã) e, a partir de agora, nas conferências de imprensa, enquanto Van Rompuy se exprime verbalmente, o presidente da Comissão Europeia acompanha-o, utilizando este outro sistema de comunicação; ou, por analogia com a publicidade a uma marca de iogurtes destinados ao público infantil, e num assomo de optimismo, embora desmentido pela sua expressão, mostra que "falta um bocadinho assim" para que se chegue a um acordo exequível.
Seja como for, nem com esta ajuda extra parece possível, ao cidadão comum, entender como vai este pacto contribuir para o crescimento e o emprego.
  
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