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Colaboradores estagiários - à borla

por João André, em 23.10.14

A Teresa escreveu este post e lembrei-me deste texto sobre as ideias de alguns "empreendedores" "amaricanos" de ter gente a trabalhar de borla. É ideia praticada há muito em Portugal, onde o conceito de trabalhar para aquecer, apesar do nosso ameníssimo clima, pegou há já uns bons tempos. Normalmente o corolário acaba por ser a felicidade de novos trabalhadores em receber «pelo menos o salário mínimo».

 

Obviamente que visionários como Mark Cuban defendem a sua visão sob o conceito de "liberdade", onde cada pessoa deveria poder trabalhar de borla se o quisesse. Naturalmente que podemos encontrar gente de todos os tipos, mas desafio qualquer um a encontrar uma meia dúzia de pessoas entre o seu círculo de pessoas que estivessem dispostas a trabalhar sem nada receber. Não falo de voluntariado ou de causas, falo de trabalho a sério, com prazos, objectivos, horários e chefes.

 

Para ser claro sobre a minha posição: o trabalho não deve ser pago. O trabalho tem de ser pago. É uma obrigatoriedade no mundo moderno civilizado. Conceitos como o trabalho não pago deveriam desaparecer e ser classificados como aquilo que são: exploração. Os estágios não remunerados já são, a meu ver, um abuso, mas desde que haja vantagens reais para educação de um estudante (os quais têm que ser verificados pela instituição de ensino) e a instituição de acolhimento incorra com despesas extra (deslocamento, alojamento, eventuais custos extra com alimentação), até nem os rejeito de imediato.

 

O mundo está já excessivamente cheio de "colaboradores", "estagiários" e outros títulos que servem para esconder abusos da parte do sector empresarial. As melhores empresas para trabalhar são também frequentemente aquelas que obtêm maiores índices de produtividade. Infelizmente, enquanto existirem "tubarões" como Cuban por aí, a mentalidade feudal não desaparecerá.

Luto de três dias decretado no Insurgente

por Rui Rocha, em 03.07.14

Alemanha vai ter salário mínimo de 8,5 euros por hora.

O trabalho mais difícil do mundo!

por Helena Sacadura Cabral, em 20.04.14

 

O trabalho mais difícil do mundo pertence-nos. E nós honramo-lo. Agora que se aproxima o dia em que celebramos o trabalho destas grandes artesãs, saibamos agradecer-lhes. Porque, por muitas vezes que o façamos, nunca será demais! 

Máquina do tempo

por João André, em 14.04.14
 
Imagine-se que um dia se inventava uma máquina do tempo. De um momento para o outro seria possível avançar ou recuar no tempo (e recuar é precisamente a ideia, claro está). Seria possível revisitar aquele dia fantástico de há 7 anos, ir ao concerto que se perdeu, passar mais um bocadinho de tempo com o avô, etc. Tudo óptimo? Nem por isso.

 

Imagine-se: seria também possível voltar três dias atrás e fazer aquele trabalho que nos foi pedido com urgência mas que, por falta de tempo, acabámos por entregar atrasado. Como sabemos, toda a gente quer tudo com urgência e, de preferência, para ontem. Com uma máquina do tempo isso seria possível. Seria possível entregar ontem o trabalho que nos foi pedido hoje para ontem. Seria até possível entregá-lo antes de ser pedido. Com máquinas no tempo o trabalho seria avançado a limites inimagináveis. Claro que o problema seria que as exigências mudariam. O trabalho deixaria de ser pedido para ontem e seria pedido para anteontem. Ou para o ano passado, é irrelevante. Os dias passariam a ter muito mais de 24 horas e seria necessário fazer tudo nesse espaço de tempo. A certa altura o dia seria preenchido na máquina do tempo para poder terminar o trabalho antes de ser pedido, passar tempo com a família, etc.

 

Como o manifestante na imagem acima indica, é irrelevante quando chegaria uma máquina do tempo. A ciência indica que seria ou pouco prática ou impossível. Não o sei. O que sei é que, pelo simples facto de ainda não termos visto qualquer visitante do futuro, parece-me certo que mesmo que a máquina do tempo venha a existir (ou já exista/tenha existido), o seu inventor provavelmente usa-a para fins puramente individuais. Para evitar ter mais trabalho e para, quem sabe, simplesmente ler.

Hábitos de trabalho e família

por João André, em 08.04.14

Henrique assinou no Expresso um texto onde avança como razão para a baixa natalidade em Portugal o facto de os portugueses começarem a trabalhar, segundo ele, a «meio da manhã» em comparação com alemães e holandeses. Tivesse ele referido suecos, finlandeses ou japoneses e os meus comentários seriam menores. Trabalhando e vivendo eu em ambos os países, tenho maior familiaridade e decido comentar.

 

O primeiro ponto é simples: independentemente da hora a que se começa a trabalhar, o dia tem o mesmo número de horas em todos os países: 24 (talvez não na Coreia do Norte ou Venezuela, países de prodígios). Isso significa que se se trabalharem o mesmo número de horas sobra o mesmo tempo para a família. Deixemos no entanto este ponto de lado e olhemos para o resto dos argumentos que demonstram como a comparação é forçada.

 

O primeiro ponto é a geografia. Quem estiver interessado em ver as horas de nascer do sol nos três países pode usar este site. Seja como for, em países onde o sol nasce mais cedo(mais a Alemanha, menos a Holanda), é normal que se comece a trabalhar mais cedo.

 

Quanto ao hábito de chegar e começar a trabalhar de imediato, não sei onde trabalhou Raposo, mas não foi nas empresas onde eu ou os meus amigos trabalharam. Na Holanda o dia começa invariavelmente com o café e tem interrupções a meio da manhã e da tarde para outro (tudo entre 15 a 30 minutos). Os alemães começam também com um café mas mais curto. Compensam isto com um almoço mais longo que o de meia hora dos holandeses.

 

Onde Raposo tem alguma razão é na insistência da vida familiar. Há pressão da parte dos empregadores para não se trabalhar demais. Isso está ligado à pressão que recebem dos sindicatos e das regras dos contratos colectivos de trabalho. Os horários não são um objectivo em si, mas o resultado da influência dos sindicatos. Talvez Raposo pudesse dedicar um pouco mais de atenção a este aspecto. Seja como for, a maior parte dos meus colegas chegam ao escritório entre as 8 e as 8 e meia. Muitos fazem-no mais tarde.

 

E a razão para isso são os horários de jardins de infância e creches. É aqui que os horários são feitos. Se uma creche aceitar crianças até às 9, o trabalhador não terá incentivo para começar mais cedo. Se a criança tiver de chegar até às 8, então a coisa pia mais fino. O mesmo se passa com a hora de ir buscar os filhos.

 

E falta então a protecção às famílias que querem ter filhos. Na Alemanha e Holanda há (em modelos diferentes) protecção de emprego para os pais durante 2 a 3 anos após o nascimento. Isso ajuda a planear o crescimento da família. Por outro lado há maior pressão social para que as mães se mantenham em casa para cuidar dos filhos.

 

Como uma amiga minha referiu em resposta a estas  minhas objecções ao texto de Henrique Raposo, «resume-se tudo a isto: não sei em que país vive Raposo, mas não é em Portugal». No fundo trata-se de mais uma das inúmeras variações do famoso lá fora.

Os rendimentos e a revolução tecnológica

por João André, em 21.01.14

A Economist desta semana traz um trabalho sobre o impacto da tecnologia no trabalho e nos rendimentos. O impacto em questão é o do poder dos computadores e da forma como vão tomando conta de tarefas que sempre vimos como sendo do domínio humano. No artigo,e ste impacto é equiparado ao da Revolução Industrial, sendo que a comparação mais comum é com a do desaparecimento dos tecelões em favor dos teares mecânicos.

 

O artigo aborda, do ponto de vista dos trabalhadores, dois aspectos: o primeiro é o desaparecimento (ou pelo menos redução drástica) de alguns postos de trabalho tradicionais; o outro é o impacto desta nova revolução tecnológica nos rendimentos dos trabalhadores. Sobre o segundo ponto, o artigo faz referência à dinâmica da Revolução Industrial, a qual indica que os primeiros ganhos do impacto da tecnologia são favoráveis às pessoas com rendimentos mais elevados, mas que depois os trabalhadores de rendimentos mais baixos tendem a ser favorecidos. Isto faz perfeitamente sentido na lógica que o artigo apresenta: quem tem rendimentos mais elevados são pessoas habitualmente com educação superior e como tal mais capazes de responder de imediato ao novo paradigma. Mais tarde, com a educação das pessoas de rendimentos mais baixos, também estas ganham. Simples e claro.

 

Há, contudo, um aspecto que me parece desprezado e esquecido nesta história. Aquando da Revolução Industrial, os trabalhadores deixaram o campo e migraram em massa para as cidades para poder trabalhar na indústria. Ou seja, saíram de zonas pouco povoadas e mudaram-se para zonas de elevada densidade populacional (e acabaram por a aumentar ainda mais). Dadas as condições miseráveis que estes trabalhadores inicialmente conheceram (salários baixos, insalubridade, sobrelotação, etc), os trabalhadores uniram-se e começaram a criar sindicatos para lutar pelos seus direitos. Isto não será "conversa de comunista", mas um facto histórico. Com o tempo, essa luta (que incluíram naturalmente melhor educação para os trabalhadores) acabou por melhorar as condições dos trabalhadores, nomeadamente os seus salários (o artigo faz uma pequena referência acerca dos movimentos sociais e políticos).

 

E é este o ponto que me parece falhar no artigo da Economist: a melhoria dos rendimentos não adveio apenas e só porque a educação melhorou ou porque faça parte da dinâmica natural de novos paradigmas. Adveio como resultado de um conjunto de circunstâncias, entre as quais a emergência dos sindicatos não foi - de longe - a menor. Ora, no presente caso as coisas provavelmente não se passarão da mesma forma. A tecnologia que permite esta nova revolução também impõe a separação física entre as pessoas. Se a Revolução Industrial colocou os trabalhadores em contacto uns com os outros, esta nova revolução promove essa separação. Seja porque é possível fazer o trabalho a partir de outras localizações, seja porque as empresas promovem a mobilidade, a verdade é que os trabalhadores cada vez passam pouco tempo uns com os outros. O resultado disto é que os laços de amizade, camaradagem ou simples confiança não são estabelecidos.

 

E a verdade é que sem confiança nenhuma luta do tipo sindical terá sucesso. Um trabalhador vê-se essencialmente perante o Dilema do Prisioneiro: sem confiança que os seus colegas tomem parte, terá menos incentivos para lutar por direitos. Os sindicatos poderão beneficiar da tecnologia no que diz respeito ao número de adesões, mas a separação física não ajuda à organização de uma greve (por exemplo, uma vez que continua a ser a principal arma negocial de um sindicato). Sem esta forma de pressão, é improvável que os rendimentos dos trabalhadores beneficiem a prazo, pelo menos ao nível do que se passou após a Revolução Industrial. Certamente que a educação ajudará e não há dúvida que o talento será sempre bem remunerado, mas a esmagadora maioria dos trabalhadores não é talentosa: é simplesmente mediana.

 

O resultado, a meu ver, será um aprofundar do fosso entre ricos e pobres. Poderão existir mecanismos inovadores que os sindicatos (ou seus sucedâneos facebookianos) criem, mas do meu ponto de vista está tudo dependente das relações interpessoais de confiança. Estas, ao invés das tecnologias, dos métodos de trabalho ou das fábricas, não mudam facilmente: existem como resultado de evoluções biológicas e sociais ao longo de muitos séculos e possuem inércia a mais.

66 anos para que reforma?

por Patrícia Reis, em 19.12.13

Aqui onde estou chove.

Leio as notícias no computador, abençoada internet (para umas coisas, não tanto para outras), e fico a saber que a reforma será então aos 66 anos.

Até eu chegar aos 50, decerto que passará para os 70. E assim sempre em frente até eu morrer sem reforma.

Como desconto desde os 17 anos, tenho 43, não sou de nenhum partido, não sou da maçonaria ou do opus dei, tenho por garantido que não terei reforma ou um emprego com um ordenado estrambólico.

A opção por ter uma empresa - mínima, mas de saúde controlada - deve-se à maternidade. Trabalhava uma média de 16 horas por dia nos jornais. Perdi algumas gravidez (não há plural). Pensei que tinha de mudar de vida se queria uma família e assim fiz. Fui para a Marie Claire, engravidei, tive um filho antes do tempo e, depois da baixa, no dia em que voltei, o dono da Marie Claire em Portugal, um senhor chamado Carlos Barbosa, acho que agora é presidente do ACP, decidiu fechar a porta à revista e inviabilizar o negócio entre a casa-mãe francesa e o grupo Lusomundo.

Fomos para a rua. Valeu-nos o sindicato dos jornalistas e a directora, Inês Pedrosa, que foi incansável.

Depois desta experiência, estive na Elle em part-time durante um ano e uns meses nos projectos especiais do jornal Público. A seguir, por causa da Expo98 (fiz a pesquisa em 1989 que deu origem ao primeiro documento oficial sobre a exposição), comecei a 004 com mais 4 pessoas. Ao fim de seis meses, fiquei com a empresa nos braços, sem saber mais do que sabia: sabia de jornais, de fechar páginas, de escrever e entrevistas.

Aprendi sobre impostos e pagamentos por conta, subsídios e muito sobre a natureza humana, ainda hoje aprendo, felizmente.

Nunca pensei que queria um emprego. Queria, e quero, trabalhar. Ponto.

Nunca pensei na reforma e chapa ganha é chapa gasta.

Os miúdos cresceram e eu consegui apanhá-los na escola às 16h20 durante anos. O mais novo só foi para a escola com três anos. É certo que nasceu numa sexta-feira e, por causa de uma exposição, na segunda seguinte estava a trabalhar comigo na Cordoaria.Quem tem uma empresa não tem 22 dias úteis de férias, não tem feriados ou fins-de-semana. Tem dias.

A reforma passou para os 66 anos. Ok.

Não faço ideia se vivo até lá, quem sabe?, posso morrer a qualquer momento.

O que me importa não é maldizer os políticos e as decisões, nada disso. Devo, aliás, dizer que me enerva muito quando se despreza o sistema político só com fel e não se contribui com uma ideia, uma acção. Dizer mal é tão fácil, não é?

Os meus filhos não querem ir viver para fora. Mesmo que não tenham reforma. Querem mudar o mundo. E eu, aos 43 anos, não quero mudar o mundo, mas acho possível ir mudando o país. Ter uma cultura de empresa saudável. Acabar com as bestas com aquelas coisas de plástico de matar moscas e mosquitos. Acho possível ser justo. Escrever e refilar para todas as entidades e, muitas vezes, para espanto de várias almas, ver mudanças, ter respostas.

Em resumo? Quem está à beira da reforma não terá grande simpatia, nenhuma simpatia, por este post e tem a minha compreensão. Quem tem menos idade do que eu, faria melhor em estar-se nas tintas com este tipo de decisão e continuar a trabalhar. É o que vou fazer.  

Tenho de aprender...

por Helena Sacadura Cabral, em 16.12.13

Tenho um grande defeito que vou tentar corrigir em 2014: não sei preguiçar. E eu julgo que também há um direito saudável à preguiça, desde que tenhamos trabalhado o que devíamos.

Não é o mesmo que o descanso. É diferente, porque eu posso descansar a fazer um trabalho diverso do habitual, se isso me der prazer.

Aquilo de que falo é mesmo de não fazer nada, não pensar nada, não me ocupar de nada. A família critica-me e diz que sou uma workaholic. Eu reconheço que é verdade e com a morte do meu filho já consegui alterar muito o meu ritmo de vida. Passei a "ver" e a "ouvir" melhor e a saber "desligar". Foram grandes, enormes progressos mesmo. Mas ainda não sei "parar" pelo simples prazer de o fazer. Vai ser o meu projecto para o Novo Ano, antes que os que nos governam se adiantem...

Sinto que é importante aprender a fazê-lo, para poder dar o devido valor ao trabalho. É que este, em mim, é tão natural que nem me dou conta de que a vida é muito mais do que ele, e também é preguiça. Da saudável, da que não rouba nada a ninguém e apenas representa um lado justo da vida. A ver vamos se conseguirei... 

No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 29.11.13

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 28 de Maio de 2012

40 horas

por Rui Rocha, em 04.05.13

De entre todos os sacrifícios pedidos e suportados nos últimos anos, este de aumentar o horário de trabalho da função pública para 40 horas de trabalho semanais parece ser dos mais suportáveis. Trabalhar mais tempo pode não ser agradável mas, nos tempos que correm, é o menor dos males. Para além disso, é uma solução difícil de contestar tendo presente o princípio constitucional da igualdade tantas vezes invocado nos últimos tempos. Mais, se até agora alguns acusavam os funcionários públicos de viverm numa realidade à parte e de não serem solidários, por exemplo, com as centenas de milhares de trabalhadores do sector privado que foram empurrados para o desemprego, isso agora mudou. De facto, nunca se ouviram tantas declarações de servidores públicos e seus representantes tão genuinamente preocupados com o desemprego como as que, a propósito deste aumento de horário, foram proferidas nos últimos dias. 

Emerge uma concepção da empresa e do trabalho como lugares e espaços de cooperação. Trata-se, se quisermos, da visão simétrica da que resulta da  luta de classes marxista. Marx estava, é claro, enganado. Falta, na sua análise redutora e para dar só alguns exemplos, e se nos quisermos manter apenas na dinâmica do conflito, a perspectiva da luta entre o norte e o sul, entre insiders e outsiders do mercado de trabalho e o sentido da ironia histórica que viria a deslocar o epicentro da luta de classes como ele a entendia para a China. E, se quisermos ir mais longe, a percepção dos múltiplos sentimentos e formas de ser humanas que não se explicam na estreiteza da ideologia, seja ela marxista ou outra. Entre as quais se incluem o altruísmo, a solidariedade, a compaixão, o egoísmo e outras virtudes e vícios, adquiridos ou de fabrico, que dão origem a lutas sem classe. Muitas vezes, a lutas sem classe mesmo nenhuma que são capazes de minar as relações entre pessoas estejam elas ligadas por uma qualquer hierarquia ou sejam pares de uma mesma função. Mas, se isto é assim, deve admitir-se que a dita concepção da empresa como local de cooperação é igualmente falaciosa pelas exactas e mesmas razões. Aliás, para perceber que assim é, basta levar as consequências do argumento até ao fim. No tempo das empresas colaborativas, dizem, não faz sentido ver consagrado o direito à greve que, pela sua natureza conflitual, está completamente ultrapassado. Pois muito bem. Demos então todos os passos em frente ao mesmo tempo. E expurguemos da legislação do trabalho, também, a possibilidade de despedimento individual com justa causa. Pois se a empresa é local de cooperação... No fundo, o que temos de concluir, para marxistas e teóricos da cooperação, é que podes saber tudo sobre os vários pilares da sociologia. Mas, se não te conheces a ti mesmo, com todas os teus méritos, defeitos e limitações, isso é sinal de que ainda não sabes nada do mundo.

Minijobs

por Rui Rocha, em 03.09.12

Os minijobs alemães são um daqueles temas que regressa periodicamente à discussão pública. Os minijobs são uma relação laboral atípica que apresenta como características essenciais a isenção de contribuições para a Segurança Social e de pagamento de impostos a cargo do trabalhador (as obrigações da entidade patronal mantêm-se) nos casos em que a remuneração não supera 400€ mensais. Apresentados como a grande medida que permitiu concretizar o milagre da recuperação do emprego na Alemanha, é natural que sejam discutidos em reputadíssimos fóruns académicos lusitanos. Entre estes conta-se, naturalmente, a prestigiadíssima Universidade de Verão do PSD. Antes que cresça o entusiasmo pela solução, importa considerar alguns aspectos que têm a sua importância. Desde logo, a experiência alemã demonstra que os minijobs estão ligados a trabalho com baixa qualificação (limpezas industriais, restauração, grande distribuição, tarefas auxiliares no sector hospitalar, etc). Por outro lado, uma análise mais fria do aparente milagre de criação de emprego alemão poderá levar ao correspondente arrefecimento do entusiasmo. Na verdade, uma boa parte do aumento dos empregos disponíveis poderá ter ficado a dever-se à legalização de situações de emprego não declarado pré-existente e à conversão de falso auto-emprego. Mais, uma parte significativa dos novos empregos corresponde a situações de 2º emprego. Isto é, trabalhadores com primeiro emprego normal e correspondentes contribuições e protecção social, aproveitam a abertura legal para fazer mais umas horas, aumentando o seu rendimento líquido com o minijob não sujeito a descontos para a Segurança Social. Por último, importa responder a uma questão fundamental. Tendo em conta que o salário médio na Alemanha rondará os 3.500€ mensais e que 400€ do minijob representam, portanto, pouco mais de 10% do salário médio alemão, qual seria o valor a pagar pelo minijob em Portugal: os mesmos 400€ ou, num raciocínio de proporcionalidade relativamente à realidade alemã, cerca de 10% do salário médio português? É que se a resposta for a primeira, minijobs já cá nós temos, com cerca de 500.000 trabalhadores mais ou menos indiferenciados a receberem o salário mínimo (já isentos de IRS, embora sujeitos a contribuição para a Segurança Social). Se a resposta for a segunda, e se tivermos em conta que o salário médio português ronda os 800€ mensais, estamos a falar de uma remuneração de cerca de 80€ por mês… Importava pois que os entusiastas da medida esclarecessem este ponto para sabermos exactamente do que estão a falar.



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