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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 06.02.15

«O que me confunde é que a União Europeia nada tenha a obstar a um Governo composto exclusivamente por homens [na Grécia]. Não custa um euro defender esse direito democrático evidente a uma representação governativa que cumpra os mínimos olímpicos, já não digo de paridade, mas pelo menos de justiça social. Mais extraordinário ainda é que tanta gente se apresse a dizer que isso agora não interessa nada, "é secundário", "irrelevante", "se calhar são elas que não querem". (...) Fossem os rapazes do Syriza de direita, engravatados e menos dotados pela natureza, estas mesmas vozes bradariam contra o escândalo da discriminação das mulheres. Sendo de esquerda, bonitinhos e pregadores de um amanhã cantante, vale tudo.»

Inês Pedrosa, no Sol

O primeiro muro derrubado pelo Syriza

por Rui Rocha, em 30.01.15

O primeiro muro derrubado pelo Syriza não é, ao contrário do que dizem, o da austeridade. Esse é um jogo de tabuleiro em que se estão ainda a fazer os movimentos iniciais. Mas, entretanto, está aberta uma brecha de significativa dimensão na paz podre do rame-rame político. Independentemente das consequências das medidas aprovadas pelo governo de Tsipras, há um facto incontornável: estão a ser cumpridos na frente interna os aspectos essenciais do programa apresentado a sufrágio. Não há muitos por aí que possam orgulhar-se de tal coisa. O curioso é que este primeiro impacto provoca danos sobretudo à esquerda. Não propriamente à direita, uma vez que a distância do discurso esbate a viabilidade da comparação. Nem, naturalmente, às áreas da esquerda que genuinamente assumem uma agenda próxima da defendida pelo Syriza. Mas, claramente, naquela zona da esquerda povoada por passageiros de circunstância que tentaram aproveitar de forma oportunista a onda Syriza. O problema para estes é que fica cada vez mais evidente que, apesar das proclamações de circunstância e da tralha demagógica em que se vão entretendo, jamais seriam capazes de concretizar decisões como as que o novo governo grego aprovou nos últimos dias. Não faltará por aí quem vá tentar passar entre os pingos da chuva nos próximos dias.

Aprender grego

por Pedro Correia, em 29.01.15

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Com o entusiasmo em torno da vitória do Syriza, há quem tenha começado a aprender grego. Eu já sei duas palavras: Peristera Batziana.

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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas -- algo nunca antes acontecido -- e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o "estrangeiro" inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de "soberania nacional".

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior "economia paralela" da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros - ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro -- uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

E depois há aquele provérbio chinês

por José Navarro de Andrade, em 29.01.15

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.01.15

«Agora, todos são e todos querem ser Syriza. Mesmo partidos como o Partido Socialista celebram alegremente a vitória da esquerda fingindo que não percebem que essa vitória também foi construída contra os partidos do centro, os que nos trouxeram - a todos, portugueses e gregos - até esta insustentável situação. Não, não somos todos Charlie. E também não somos todos Syriza. Felizmente. Sim, felizmente porque, no limite, quer o Charlie quer o Syriza lutam não para que sejamos todos uma e única mesma coisa, qual neo-carneirada penteadinha, mas para que possamos optar, ter alternativas, discordar. Hoje sou portuguesa.»

Joana Amaral Dias, no Correio da Manhã

A coligação dos extremos.

por Luís Menezes Leitão, em 27.01.15

Antes mesmo de saber da coligação que viria a ser formada na Grécia, já tinha aqui escrito que o apoio de Marine Le Pen a Alexis Tsipras demonstrava a facilidade com que os partidos extremistas se aliam se estiver em causa o combate ao seu inimigo comum que é o projecto europeu. Toda a gente aposta que Tsipras vai chegar a acordo com Merkel, achando que esta no máximo lhe vai dar alguns amendoins para o calar, o que Tsipras anunciará como uma vitória, salvando assim a face. Não creio que isso aconteça. Da mesma forma que Fidel Castro preferiu aguentar um embargo americano que só agora termina, e que foi desastroso para Cuba, a ceder um milímetro que fosse aos Estados Unidos, Tsipras preferirá a catástrofe à continuação da humilhação da Grécia. E neste aspecto a escolha dos Gregos Independentes (ANEL) como parceiro de coligação, um partido de extrema-direita nacionalista e xenófobo, em lugar dos partidos de esquerda moderada, é elucidativa. No combate à troika e à própria União Europeia, quando o SYRIZA disser "mata", o ANEL dirá "esfola". As revoluções precisam de inimigos e o ódio que esta política europeia atiçou na Grécia é demasiado elevado para que se pense que vai tudo acabar em bem. Oxalá me engane.

Back to basics

por Pedro Correia, em 26.01.15

Por vezes, no meio da balbúrdia comunicacional, há que fazer um ponto de ordem. É tempo de ser feito relativamente à Grécia: Syriza é um acrónimo de Coligação da Esquerda Radical. Uma esquerda situada muito à esquerda da chamada "esquerda" social-democrata ou trabalhista, a cuja família pertence o Partido Socialista português. E que nada tem a ver também com a família comunista europeia, de que um dos expoentes é o nosso PCP.

Por outras palavras: o equivalente ao PS na Grécia é o PASOK, que nas legislativas de ontem não recolheu mais de 5%. E o o Partido Comunista grego, homólogo do  PCP, quedou-se nos 5,5%.

"O sucesso tem muitos pais, mas a derrota é órfã", dizia John F. Kennedy. Bem sabemos que é assim. Mas convém não abusar. Por muito que, por cá, socialistas de vários matizes -- de Ana Gomes a Isabel Moreira, de Inês de Medeiros a Elisa Ferreira,  passando por Manuel Alegre -- celebrem a vitória eleitoral do Syriza como se fosse um triunfo da sua própria família política, há que dizer com toda a clareza que isso é um enorme equívoco.

Quem venceu as legislativas na Grécia não foi a esquerda reformista: foi a esquerda radical. O que faz toda a diferença.

A grande ilusão.

por Luís Menezes Leitão, em 26.01.15

Perante a vitória mais que previsível do Syriza, imensos comentadores esforçaram-se por salientar que iria ficar tudo na mesma, com Angela Merkel a continuar a mandar na Grécia e Alexis Tsipras a vergar-se às posições alemães. No fundo é a repetição do velho TINA (There is no alternative) que até na Alemanha levou à criação de um partido radical Alternativ für Deutschland, que defende a saída imediata da Alemanha do euro. Parece-me um colossal erro de perspectiva. Tsipras é ambicioso, tem convicções ideológicas marcadas, tanto assim que até deu ao filho o nome do Che, e não vai querer ficar na história como o Hollande grego. Se seguir um padrão, será o de Lenine, que não hesitou em repudiar os compromissos russos, alegando que o novo estado soviético não tinha que os cumprir. E não me parece que neste momento os gregos encarassem mal uma declaração de bancarrota, pois provavelmente chegaram ao ponto em que acham que nada pode ficar pior do que já está. Os primeiros sinais que chegam, com Tsipras a proclamar que a austeridade acabou, e os eurocratas habituais a dizer que a Grécia tem que cumprir os seus compromissos levam a concluir que a ruptura é inevitável. Desiludam-se assim aqueles que julgam que tudo vai ficar na mesma.

 

Outros julgam, porém, que a bancarrota grega e a saída da Grécia do euro pode até ser positiva para os outros Estados-Membros que já se resguardaram para esta situação. Mais uma grande ilusão. A bancarrota grega terá um impacto mundial tão elevado que fará a queda do Lehman Brothers parecer uma brincadeira. E o resultado, a curto ou a médio prazo, será o descrédito do euro, com muito especulador a apostar qual é o próximo país a sair, com Portugal em excelente lugar na lista de apostas. 

 

Dir-se-á que tudo isto é irracional e que uma negociação séria permitirá limar arestas. Mas a verdade é que o comportamento dos Estados nem sempre é racional. Em 1914 ninguém de bom senso acreditaria que um crime político pudesse arrastar o continente europeu para uma guerra, mas de um momento para outro foi isso o que se passou. Em 2015 corremos o risco de assistir a uma bancarrota grega com ondas de choque inevitáveis em todo o continente. E julgo que agora é tarde para a evitar.

Quem é mais Syriza?

por André Couto, em 25.01.15

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Começou a disputa sobre quem é mais Syriza. A análise dos factos é fácil: apenas o Bloco de Esquerda pode reclamar ser camarada político de luta reconhecido na Grécia. Ainda assim, em Portugal, não consegue unir o que o Syriza uniu na Grécia. Nos últimos meses muito menos. Para além dos laços de sangue a vitória do Syriza é, também, de todos aqueles que têm lutado por uma mudança política na Europa, não interessando o partido político, até porque muitos são independentes. Esta noite, por exemplo, vibro com o Syriza como amanhã com o Benfica. A mudança na Europa, uma nova confiança e agenda, não é propriedade de ninguém, é de todos os que a desejam, anseiam e lutam por ela há muitos anos.

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