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Velhos? Só os novos!

por Teresa Ribeiro, em 21.12.17

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- Fazes quantos anos?

A aniversariante respondeu, com voz sumida, quase envergonhada: "27". Família e amigos, percebendo o desconforto, começaram com as piadas  de circunstância: "Já só faltam 3!". E riam, enquanto espetavam os dedos.

A cena aconteceu há dias, mas nada tem de invulgar. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25 e a cultura instalada sobrevaloriza tanto a juventude, que ninguém quer deixar essa zona de conforto. Mas experimente alguém, que já passou os 45, mostrar-se incomodado com o envelhecimento. Caem-lhe logo em cima, com clichés como  "o que interessa é manter o espírito jovem", ou "a vida começa aos 40".

Acho normal que não se goste de perder as formas, nem o contorno das linhas do rosto e ainda mais natural reagir com desconforto ao aparecimento de dores de costas, insónias ocasionais, enfim, os achaques que nos lembram que nunca se escapa impune à passagem dos anos. Mas lamentar a perda da figura em que nos reconhecemos durante a vida inteira e a falta de vigor que o envelhecimento implica, agora é tabu.

Comentar algo do género é habilitarmo-nos a sessões espontâneas de aconselhamento psicológico, a diagnósticos sumários de depressão e a toda uma série de equívocos que o melhor mesmo é não arriscar, ou então alinhar no discurso que não por acaso agora faz escola e que é o do elogio do envelhecimento feito por "raparigas" de meia idade.

O que elas dizem? Invariavelmente que se sentem jovens, pois não se reconhecem na idade que têm. Ou seja, mudam de assunto: para contornarem a parte incómoda da questão, a da indesmentível degradação física e respectivo desconforto,  falam da discrepância entre o ritmo de envelhecimento do corpo, que é mais rápido, e o do espírito. E fazem-no como se essa não fosse a regra que se aplica a toda a gente. 

Manobras de diversão à parte,  a verdade é que a mesma sociedade que leva jovens a sentirem-se absurdamente velhos, impõe aos que já começam a sê-lo a lei da rolha. Como se o envelhecimento fosse uma falta demasiado grave, para ser discutida sem filtros, à frente dos outros.

 

Web Summit

por José António Abreu, em 08.11.17

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Há a parolice do presente, soberbamente corporizada no primeiro-ministro e demais membros do governo, e depois há o futuro. Sendo que, acerca deste, lá bem no íntimo, cientes que estamos da gravidade das ameaças tecnológicas, políticas, económicas, demográficas e ambientais, bem como das exigências destrutivas que queremos ver satisfeitas no curto prazo - dinheiro, fama, poder, beleza, juventude, «felicidade» -, até já desistimos dos humanos, não foi? Na sua inocência, o cão é que ainda consegue suscitar pena - e alguma militância.

Famílias fora de prazo

por Teresa Ribeiro, em 21.09.17

 

 

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Num país onde o desemprego atinge sobretudo os maiores de 50 e os que procuram o primeiro emprego, os casos de pais desempregados a coabitar com filhos adultos que ainda não entraram no mercado de trabalho aumentaram exponencialmente. Mesmo assim o fisco, quando os descendentes chegam aos 25 anos, não perdoa e declara-os... independentes.

Quando tanto se fala de apoio à família, esta realidade é varrida para debaixo do tapete. Maior de 25 que viva à custa dos pais é uma não-pessoa. Não conta para o agregado familiar, nem pode apresentar despesas para incluir no IRS dos pais. A regra já existia, mas ao contrário de outras que também existiam e já foram mudadas, nesta não tocaram nem com uma flor.  Era o mínimo a conceder às famílias que se tornaram disfuncionais em consequência do esbulho fiscal e destruição de emprego. 

 

É um mistério!

por Teresa Ribeiro, em 19.09.17

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Não é de agora, nos últimos anos observo o mesmo, nos mais variados sectores de actividade. As pessoas com mais de 50 anos parecem ter desaparecido do mapa. Muitas estarão desempregadas, ou com pré-reformas, mas por mais elevada que seja a percentagem dos que se encontram fora do mercado de trabalho, não explica esta ausência de cabelos brancos nas empresas. Aos 50 anos está-se ainda longe da idade da reforma, além de que o país está a envelhecer, portanto a percentagem de população activa dentro desta faixa etária só pode ser elevada.

Quando não havia tanto desequilíbrio populacional entre velhos e novos não se observava isto. É estranho. Onde estão eles? No front office é que não, claro está, mas mesmo nas fileiras mais discretas onde pára esta geração, porventura a mais invisível de sempre?!

Esse irresistível sentimento colectivo...

por Teresa Ribeiro, em 29.08.17

O caso dos livros da Porto Editora chamou mais uma vez a atenção para o fenómeno do pensamento de manada, que as redes sociais vieram instituir quase como pensamento único e a que desgraçadamente nem os profissionais da Comunicação Social escapam. 

Sempre que acontece uma história assim pergunto-me por que é que pessoas reconhecidamente inteligentes se deixam enredar tão facilmente, precipitando-se a replicar as opiniões que circulam. O mesmo acontece na política, onde encontro tantos que apesar de não terem interesses ou carreiras a defender nesse sector, não hesitam em apoiar acriticamente os líderes partidários da sua simpatia. 

E a resposta que encontro é sempre a mesma: Porque o pensamento independente priva-as de tudo o que é bom no pensamento "clubístico". Dessa componente lúdica não querem prescindir, nem mesmo em nome das causas mais nobres. 

Padronizados como nunca

por Teresa Ribeiro, em 23.08.17

Espero num lobby de uma torre de escritórios. À minha frente também esperam três raparigas que, não se conhecendo entre si, parecem coreografadas. Todas seguram o telemóvel, todas com unhas de gel, todas com pestanas postiças, todas com pernas traçadas, cabelos compridos e lisos e dentro da mesma faixa etária. Uma das portas do lobby dá para um gueto de fumadores onde de momento só se avistam homens e então reparo neles. Também com idades aproximadas, em grupos ou separados apresentam-se com fatos semelhantes, os mesmos modelos de sapatos, a mesma barba aparada. É certo que a moda masculina é mais monótona, mas talvez porque todo este cenário é enquadrado por tecnologia (eles também olham obsessivamente para o telemóvel enquanto fumam), ou porque falta um toque de humanidade em tudo isto, parece que estou a vê-los através de um ecrã. 

Vacinação: a única escolha civilizada

por João André, em 19.04.17

Li hoje, atrasado como costumo estar no que respeita a notícias vindas de Portugal, que uma jovem de 17 anos morreu devido a sarampo, contra o qual não estava vacinada. De permeio leio também que contraiu a doença devido ao contacto com uma bebé de 13 meses igualmente não vacinada. Aqui é importante realçar que nem a bebé nem a jovem foram vacinadas por motivos não pessoais: a jovem tinha tido uma reacção alérgica quando vacinada em criança e a família escolheu não mais avacinar. A bebé não foi vacinada por «motivos clínicos», de acordo com o hospital onde ainda está internada.

 

É importante fazer esta distinção. A reacção alérgica às vacinas é rara mas existe. Poderia provavelmente ter sido controlada e não significaria que a jovem não podia ser vacinada. Antes que a sua vacinação (provavelmente parcial) deveria ter sido acompanhada por um médico. Não sei se poderia ter sido protegida contra o sarampo, mas talvez pudesse ter tido outras protecções imunitárias. Não sabemos. No caso da bebé, os motivos clínicos são provavelmente devido a um sistema imunitário mais frágil e que não suporta mesmo as vacinas com os seus agentes em forma mais atenuada. A morte (e a doença da bebé) é um azar na sua mais pura forma mas não deixa de ser uma tragédia.

 

É no entanto uma tragédia que coloca o país a falar dos movimentos anti-vacinação. Estes movimentos argumentam muita coisa, mas baseiam-se essencialmente numa coisa: ignorância. Há o velho argumento (completamente falso) da ligação entre vacinas e autismo. Há o argumento do uso de químicos nas vacinas (até eu tenho reservas em relação ao uso de monóxido de dihidrogénio) que demonstram pura ignorância (e estupidez na forma como rejeitam argumentos) sobre aquilo que é química (tudo o que vemos é "químico"). E quando os argumentos são, todos eles e sem excepção, desmontados, os antivaxx simplesmente escolhem outro tema, usam argumentos ignorantes ou falsos e voltam a gritar.

 

Infelizmente isto está a causar um aumentos dos surtos de doenças que há muito tinham quase desaparecido. Sarampo, tosse convulsa e outras começam cada vez mais a reaparecer, quando estavam já a caminho de erradicação (pelo menos em determinadas áreas). Se há área da medicina onde o sucesso é completa e absolutamente indiscutível é o das vacinas. Sabemos porque razão as vacinas funcionam e sabemos porque razão a vacinação de uma população é eficaz. Os vacinados ficam protegidos (a quase 100%, dependendo da doença) e protegem-se uns aos outros e aos (idealmente muito poucos e por razões clínicas) que não são vacinados.

 

Não vacinar por opção não é só estupidez: é um acto potencialmente perigoso e mortal, não só para a criança não vacinada mas também para os outros. Ao não se vacinar uma população, as pessoas não vacinadas deixam de receber a protecção da vacina nem a imunidade colectiva, mas permitem aos agentes patogénicos trocar informação e adaptar-se à existência de vacinas. Ou seja, a não vacinação aumenta o risco de forma directa a quem não é vacinado, de forma indirecta a quem não pode ser vacinado e de forma mais subtil a toda a população, inclusive a vacinada.

 

É por isso que, ao contrário do Ministro da Educação, eu sou da opinião que as escolas deveriam exigir a vacinação aos seus estudantes. Um rastreio deveria obviamente ser feito para saber se a vacinação é possível, mas nos cerca de 99% dos casos em que o é, as crianças ainda não vacinadas deveriam sê-lo sob pena de não poder frequentar a escola.

 

Haverá muita gente que considerará isso um ataque à liberdade individual. Infelizmente tais pessoas demonstram igualmente ignorância. A vacinação, como expliquei acima, não é um escolha pessoal, que afecta apenas a pessoa não vacinada. É uma questão de saúde pública. Mais, a escolha não afecta directamente a pessoa que a faz, mas habitualmente os seus filhos. Da mesma forma que pais de uma criança que viage sem cinto no assento da frente de um carro podem ser responsabilizados criminalmente no caso de morte por acidente, os pais deveriam ser igualmente responsabilizados no caso dos filhos contraírem doenças contra as quais poderiam ser vacinados.

 

Poucas invenções fizeram tanto para melhorar o mundo. O lado da vacina é o da civilização inteligente e solidária. O lado anti-vacinação, seja pelas razões que for, é o da barbárie. É nosso dever lutarmos pela primeira. Por nós, pelos nossos filhos e por toda a gente que vemos.

 

Adenda importante:

Leitura complementar, obrigatória e muito melhor e mais informada: Moda anti-vacinas é chorar de barriga cheia, de David Marçal. A sério, leiam, fazem a vós mesmos um favor.

Façam apps, não automóveis

por José António Abreu, em 10.03.17

2014: Facebook compra WhatsApp por 19 mil milhões de dólares.

2016: Microsoft compra LinkedIn por 26,2 mil milhões de dólares.

2016: Nissan compra 34% da Mitsubishi Motors por 2,2 mil milhões de dólares.

2017: Grupo PSA (Peugeot, Citroën, DS) compra a totalidade do braço europeu da GM (Opel e Vauxhall) por 2,3 mil milhões de dólares.

 

Note-se a diferença de valores. Num mundo de relações online, de expectativas e impaciências desmesuradas, de taxas de juro negativas, de dinheiro nascido da concessão de crédito, talvez seja natural que os bens tangíveis percam importância e que a riqueza (a global como a dos famigerados ricos-que-continuam-a-enriquecer) seja cada vez mais virtual - e volátil. A própria inflação transferiu-se dos bens transaccionáveis para as bolsas e, dentro destas, em especial para as empresas que poucos ou nenhuns bens físicos produzem. Compare-se a evolução dos principais índices bolsistas com a evolução da economia dos respectivos países e o resultado só pode suscitar preocupação. Que percentagem da riqueza mundial se perderia hoje com um - bastante provável, de resto - crash bolsista? Quanto dinheiro desapareceria com a assumpção da incapacidade de pagamento de tantas dívidas gigantescas, públicas como privadas?

Mas este mundo também tornou a riqueza mais acessível às pessoas com as ideias certas e a coragem de as levar por diante. No fim de contas, fazer uma app custa muito menos do que projectar, construir e comercializar um automóvel. Talvez este facto explique em parte a insatisfação (a raiva, mesmo) que grassa nos países ocidentais (e utilizo o termo de forma abrangente, não geográfica). Por muitos defeitos e distorções que existam, por muitas ameaças que se perspectivem, nunca ao longo da história das sociedades organizadas (e hierarquizadas) as oportunidades perdidas o foram por motivos tão auto-atribuíveis.

Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

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Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.

Imaginemos uma fila para aquisição de bilhetes para um espectáculo muito concorrido e com os ingressos prestes a esgotar. Um idoso ou um portador de deficiência passa à frente de quem chegou primeiro?

Obviamente.

(...)

Porque é que o Governo entendeu legislar sobre esta matéria? Haverá uma generalizada falta de bom senso entre os portugueses? Porquê legislar e ter força de lei aquilo que por muitos é visto como bom senso?

A razão é exactamente essa. Esta é uma situação que é vista como bom senso e o bom senso como se costuma dizer é algo como o oxigénio ou o ar que respiramos: só sentimos a falta dele quando de facto não está lá.

Entrevista da Renascença à Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. 

 

Houve um tempo em que a esquerda afirmava acreditar na bondade humana; hoje, prefere desconfiar, controlar e punir. Bom senso seria legislar sobre o essencial e deixar em paz tudo o resto. Mas não apenas organismos públicos diversos e secretarias de Estado para a «Inclusão» têm de justificar a sua duvidosa razão de ser como o Estado vive da imposição e do controlo de regras. Quanto mais existirem, mais Estado pode existir.

Repare-se que a lógica da secretária de Estado é extensível a quase tudo. O bom senso também recomenda que não se ande pelas ruas em fato de banho durante o Inverno, que não se vá engripado a locais onde esteja muita gente, que se ajudem indivíduos à procura da rua x ou da praça y, que se modere o humor diante de desconhecidos, que não se ingiram (e que não se disponibilizem) produtos com elevados teores de açúcar, gordura ou álcool. Mas será necessário legislar sobre estes assuntos?

Os defensores da hemorragia legislativa acreditam que ela torna a sociedade mais justa e solidária. Na verdade, é mais provável que contribua para o aumento do nível de acrimónia. Em primeiro lugar, o excesso de legislação faz com que as pessoas sintam, justa ou injustamente, que os outros estão mais protegidos do que elas: há legislação conferindo privilégios a tantos grupos específicos e até a animais; que legislação se preocupa comigo? Em segundo, leva-as a sentirem-se menorizadas: ao Estado não basta informá-las de que determinado comportamento é preferível a outro; força-as a ele, plasmando-o em lei (a qual, reconheça-se - até um Estado gargantuesco tem limites -, fica muitas vezes por aplicar). Finalmente, converte gestos de boa vontade em imposições - e enquanto ceder voluntariamente o lugar numa fila gera satisfação, ser obrigado a fazê-lo dá azo a reservas e desconfianças. Não pode ser coincidência que, nas sociedades ocidentais, a leis cada mais «perfeitas» pareçam corresponder níveis de individualismo e de falta de cortesia cada vez mais elevados. Num ambiente em que todos os comportamentos se encontram legislados, a única liberdade reside no egoísmo.

É desta forma que, perante o aplauso de muitos e o silêncio indiferente, ignorante ou cobarde de muitos mais, o politicamente correcto se vai transformando em ditadura. Proíbem-se actos, proíbem-se palavras e, quando for possível ler pensamentos, proibir-se-ão todos os considerados impróprios. Sempre em nome de magníficos princípios, numa sociedade cada vez mais crispada.

Oposição criativa é isto

por Teresa Ribeiro, em 22.12.16

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Cada vez gosto mais deste "beau toujours" com cara de safado. É assim que se toureiam os mentecaptos que chegam ao poder. Bravo, Leo!

Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

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Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

Sobre os direitos dos animais

por Teresa Ribeiro, em 19.05.16

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Acho justa a classificação, face à lei, dos animais como "seres sensíveis", por duas razões: porque são, indiscutivelmente, seres e porque a experiência já me deu suficientes provas de que sentem.

A acrimónia que as iniciativas do PAN tem provocado espanta-me. Não falo dos caçadores e dos aficionados, pois esses, naturalmente, vêem a instituição de medidas de protecção animal como uma caixa de pandora que a prazo poderá ameaçar rituais que os apaixonam. Mas sei de muita gente que não se encaixa nesse perfil e mesmo assim trepa às paredes quando se fala de "direitos dos animais". Desde logo argumentam que os animais não são sujeito de Direito, logo não podem ter direitos. Entrincheiram-se nesta lógica e daqui não saem esquecendo que uma das principais funções da lei é criar fundamentos de justiça e contribuir para a civilidade num Estado de Direito.

Quem como eu tem acesso regular a informação sobre o que aparece em clínicas veterinárias e associações de proteção animal, só pode congratular-se com estas iniciativas, porque entendo que o sadismo, mesmo o que é exercido sobre animais, deve ser punido. Quem não quiser fazer como a avestruz veja no google, de preferência com o estômago vazio, o que acontece a alguns "animais de estimação".

As leis servem para, à falta de melhor, nos civilizar. Já li que "a sensibilidade não se decreta por lei". Nada mais falso. As leis também educam, porque criam massa crítica, e sobretudo funcionam como aceleradores de bons costumes, que o digam as mulheres que num passado recente nem sequer podiam votar ou abrir uma empresa.

A palavra eu vence a palavra nós

por Pedro Correia, em 19.03.16

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"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito.

Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou um banco em crise. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.

Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

O início da era pós-impostos

por José António Abreu, em 22.02.16

O BE quer alargar a aplicação da tarifa social de energia, que neste momento beneficia cerca de 120 mil pessoas. A ideia é dar acesso automático à tarifa social a todos os beneficiários do abono de família do 1º e 2º escalões, complemento social de idosos, pensão social de invalidez ou de velhice, subsidio social de desemprego e rendimento social de inserção. O partido liderado por Catarina Martins propõe ainda que os custos desta tarifa passem a ser integralmente suportados pela EDP Produção, deixando de onerar o Estado em cerca de seis milhões de euros.

 

Há um momento na descida para a paralisia económica em que ao Estado já não basta cobrar impostos. A solução? Colocar empresas privadas a garantir o pagamento de benefícios sociais. Como a mentalidade da «verdadeira esquerda» (Bloco, PCP, actual PS) exclui o conceito de relação causa-efeito, fazê-lo não implica obrigar essas empresas a distribuir os custos da medida por todos os seus clientes ainda não suficientemente pobres para terem eles mesmos direito aos benefícios mas apenas diminuir-lhes o nível «obsceno» de lucros (é sabido: para a esquerda, uma empresa privada ou tem lucros obscenos ou gestão criminosa). Começa-se pela EDP, entidade fornecedora de um bem que muitos, consciente ou inconscientemente, acham que devia ser gratuito (ei, a electricidade é uma espécie de download, certo?) e que todos apreciam odiar. E abre-se caminho para ir mais longe. Para, sei lá, tornar obrigação do Continente, do Pingo Doce e do Lidl a distribuição mensal de cento e tal mil cabazes de compras; para tornar obrigação da Galp, da BP e da Repsol a oferta mensal do combustível correspondente a cento e tal mil depósitos; para tornar obrigação da McDonald's, da Pizza Hut e da H3 a entrega mensal de dez (ou talvez quinze) vezes cento e tal mil menus; para tornar obrigação da Fidelidade, da Tranquilidade e da Allianz a subscrição anual de cento e tal mil apólices de seguro; para tornar obrigação da MEO, da NOS e da Vodafone a disponibilização de cento e tal mil pacotes de telemóvel, televisão e internet (sem período de fidelização); para tornar obrigação da Zara, da Cortefiel e da H&M o fornecimento de cento e tal mil vales de trezentos euros em roupa e calçado (bastará por estação, que os beneficiários da medida não pertencem à esquerda-caviar); para tornar obrigação da Mota-Engil, da Teixeira Duarte e da Soares da Costa a construção e oferta de cento e tal mil habitações (mantenhamos os pés na terra e digamos em cinco anos). Ou, melhor ainda, por que não obrigar que todas as empresas privadas desviem cinco (e, mais tarde, dez) por cento da facturação para apoios que o Estado, gordo e deficitário (pudera), será cada vez mais incapaz de providenciar?

O maravilhoso país que emergirá de toda esta consciência social é, evidentemente, um país sem competitividade mas também sem empresas privadas. No fundo - e aqui se encontra afinal uma relação de causa-efeito bem delineada -, o sonho da esquerda.

Em nome de que vida?

por Teresa Ribeiro, em 17.02.16

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Como é óbvio, para quem defende a eutanásia e o suicídio assistido, o que está em causa é o direito a acabar com o sofrimento, quando é reconhecidamente atroz e irreversível. Quem é contra, defendendo o princípio da inviolabilidade da vida, certamente não o ignora. Então porque há-de invocar invariavelmente o recurso aos cuidados paliativos como uma alternativa, sabendo que nos casos limite, em que a questão da eutanásia e do suicídio assistido se colocam, a medicina não consegue reduzir o sofrimento para níveis suportáveis?

Não posso respeitar quem recorre a argumentos falaciosos para defender o seu ponto de vista. Quem se opõe à legalização da eutanásia deve ter coragem para assumir que o que defende pode ser de uma tremenda crueldade para alguns. 

O futebol e a fuga de cérebros

por João André, em 02.02.16

Ontem andava a tentar fazer o apanhado das notícias do dia e surgiram duas notícias em simultâneo e que de certa forma se fundiram (coisas de ouvir noticiários televisivos quando se lêem jornais online): a notícia sobre as transferências de futebol e sobre as fugas e movimentos de cérebros. Inicialmente não compreendi por que razão juntei os dois temas, mas após reflexão tive uma ideia meio louca. Passo a explicá-la.

 

No futebol, quando um jogador termina o contrato, pode transferir-se para outro clube sem que o clube que deixa tenha que ser compensado. Isto está de acordo com as regras de um mercado laboral livre e é perfeitamente correcto. Há algumas regras em certos países (por exemplo na Inglaterra) onde o clube que adquire o jogador tem que pagar uma compensação ao clube que o forma. Uma regra semelhante existe no caso de transferências durante contratos, em que 5% do valor da transferência é pago aos clubes envolvidos na formação do jogador até este ter 23 anos de idade. É a chamada "contribuição de solidariedade".

 

E foi aqui que comecei a pensar se um sistema destes não seria interessante para o mercado laboral em geral. Aviso desde já que não sei que consequências teria nem como poderia ser implementado. A ideia seria simples: quando um profissional fosse trabalhar para outro país que não o da sua formação profissional (não necessariamente o da sua nacionalidade), o país de acolhimento poderia pagar uma compensação ao país de formação. Esta deveria estar dependente do número de anos de escolaridade e do nível da mesma. Um doutorado em física levaria a uma compensação diferente da de um electricista. Essa compensação deveria ter lugar uma única vez - aquando da entrada do profissional no país de acolhimento - mas poderia ser repetida se este profissional voltasse a mudar de país. O pagamento deveria ser feito pelo empregador (o próprio no caso de empregados por conta própria) mas até um montante máximo. Os valores deveriam ser tais que pudessem levar a uma compensação real para o país formador mas não tão elevados que dificultassem a empregabilidade dos profissionais.

 

Sei que esta ideia apresenta desde logo a dificuldade de se configurar como mais uma taxa para empresas e ser desde logo um obstáculo à empregabilidade. É essa a minha maior dificuldade com ela. Parto apenas do princípio que uma empresa que recrute um profissional fora do seu país o faz por ter necessidade, por não lhe ser possível encontrar profissionais adequados dentro do mercado interno. É o que vemos, por exemplo, no mercado da saúde inglês ou mercado tecnológico alemão, onde as empresas têm que ir recrutar ao estrangeiro.

 

A medida seria uma forma de entregar alguma compensação aos países que formaram as pessoas e incentivar a educação. Desta forma os custos na educação não seriam vistos como completamente a fundo perdido e permitiria aos países reinvestirem esses fundos no seu país.

 

Os principais riscos para os países recrutadores seriam os obstáculos ao mercado de trabalho. Para o país de formação o maior risco seria ser transformado num exportador de mão de obra em prejuízo do desenvolvimento do próprio país. Em termos morais, ainda que pudesse potencialmente ajudar a corrigir assimetrias, seria o risco de transformar os profissionais num produto que possa ser comercializado.

 

Como escrevi acima, a ideia é meio louca e consigo imaginá-la atacada à esquerda, direita e centro. Nem faço ideia se alguém alguma vez a propôs no passado. Confesso no entanto que estaria muito interessado em ler alguma análise teórica à implementação da mesma. Haverá algum economista interessado? Basta um agradecimento no artigo final e um convite para a cerimónia em Estocolmo.

Passo a passo

por Teresa Ribeiro, em 08.01.16

 

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Depois dos hijabs serão os nikabs e depois dos nikabs as burkas a inspirar os estilistas ocidentais? Todos sabemos que estas vestes não são  inocentes. Foram concebidas por homens que segregam mulheres e agora temos que levar com isto, com dress codes humilhantes a desfilar nas passerelles das nossas mecas da moda? Era só o que faltava! 

Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

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A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

Quando a má consciência se torna viral

por Teresa Ribeiro, em 30.11.15

É impossível ficar indiferente a este vídeo natalício, da cadeia de supermercados alemã Edeka. A maioria de nós lá saberá porquê...

 


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