Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Presidenciais (1)

por Pedro Correia, em 09.12.15

sidonio_pais2_large[1].jpg

 

Longe da fama e das espadas,

Alheio às turbas ele dorme.

Em torno há claustros ou arcadas?

Só a noite enorme.

Fernando Pessoa, À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

 

Numa entrevista hoje concedida à SIC, António Sampaio da Nóvoa - pessoa cuja cultura, naturalmente, está acima de toda a suspeita - invocou, entre os motivos que o levam a candidatar-se à Presidência da República, o desejo de ver o Norte finalmente representado no Palácio de Belém.

"Gostaria que os portugueses, pela primeira vez na história, elegessem um presidente acima do Douro. Ou mesmo acima do Mondego. Acho que nunca houve nenhum presidente eleito acima do Mondego. Gostaria muito que isso acontecesse", declarou Nóvoa, nascido há quase 61 anos em Valença do Minho.

O antigo reitor da Universidade de Lisboa anda mal informado. Certamente por falta de tempo, ainda não consultou as biografias sucintas dos Presidentes da República Portuguesa. Se o tivesse feito saberia que Sidónio Bernardino da Silva Pais (chefe do Estado entre 27 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918) era natural de Caminha - oriundo, portanto, do mesmo distrito que Nóvoa.

Além de ser tão minhoto como o candidato presidencial nascido em Valença, Sidónio Pais foi também o primeiro Presidente português eleito "por sufrágio directo dos cidadãos eleitores", a 28 de Abril de 1918, como esclarece a página oficial da Presidência da República.

António Sampaio da Nóvoa terá, portanto, de encontrar outro motivo para pedir o voto aos cidadãos. Compreendo que gostasse de ser o primeiro Presidente nascido "acima do Douro ou mesmo do Mondego", mas já chega tarde. Chega com quase 98 anos de atraso, concretamente.

"Tudo no meu corpo é Minho, todo o meu corpo é Norte".

Sampaio da Nóvoa

O léxico dos candidatos (1)

por Pedro Correia, em 04.12.15

img_999x556$2015_04_06_11_09_07_115598[1].jpg

 

ABRIL

«Este é o tempo do futuro. Não podemos aceitar retrocessos no caminho feito depois de Abril.»

AMORFISMO

«Lutarei contra o amorfismo, a indiferença, a resignação, a passividade, o conformismo e o pensamento único.»

ATENTO

«Estarei especialmente atento à celebração, no futuro, de compromissos que reduzam os poderes soberanos do nosso país.»

CONTEMPORANEIDADE

«Estarei atento à pluralidade e à diversidade, às diferentes maneiras de pensar e de estar na vida, sempre aberto à contemporaneidade e às grandes questões do nosso tempo.»

DAR

«Há momentos na vida em que precisamos de dar tudo. Esse momento é agora.»

DIFERENTE

«Farei uma campanha diferente, durante a qual me preocuparei sobretudo em ouvir e pensar com as pessoas, em conhecer as diferentes histórias que coexistem num mesmo tempo e num mesmo espaço.»

ENCONTRAR

«Temos de encontrar soluções para uma dívida que sufoca os Estados.»

EMIGRAÇÃO

«Não podemos aceitar a emigração da nossa juventude mais qualificada, da nossa ciência e do nosso conhecimento.»

ESCUTA

«Procurarei não ficar por um conhecimento superficial da realidade e inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta.»

ESPERANÇA

«Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal. Abriu-se o tempo da esperança.»

EXISTIR

«É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir.»

HUMANIDADE

«É preciso trazer a vida para dentro da política, com humanidade.»

IMPACIENTEMENTE

«Apoiarei sempre as iniciativas mais dinâmicas, as forças de inovação e de progresso que existem na sociedade portuguesa. Impacientemente.»

LEGADO

«Em tudo, procurarei honrar a confiança em mim depositada, dando continuidade ao legado dos mandatos dos Presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.»

PALAVRAS

«As palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro.»

PESSOAS

«É preciso que a política se faça com as pessoas, pelas pessoas, com sentido de Estado e de serviço público.»

PROPOR

«Tentarei antecipar os problemas, propor, agir para que se alcancem soluções sólidas e duradouras.»

SOLIDARIEDADE

«A minha magistratura será de solidariedade nacional.»

URGENTE

«É urgente reforçar a confiança da população na Administração Pública.»

VITALIZAR

«O Presidente da República ajuda a vitalizar e a aprofundar a democracia, como voz independente que ouve e dialoga com todas as pessoas.»

 

Da Carta de Princípios de António Sampaio da Nóvoa

Atirados borda fora.

por Luís Menezes Leitão, em 09.10.15

António Costa tinha uma estratégia que sempre achei absolutamente suicidária para o PS, mas que tinha alguma lógica política. A lógica passava pela repetição da velha FRS, uma ideia de Soares de abrir o PS à esquerda como contraponto à AD, sem, no entanto, fazer acordos com o PCP. António Costa imaginou assim fazer o PS apresentar-se a eleições com um discurso mais à esquerda, que seria apoiado por outros partidos de esquerda, mais colaborantes do que o Bloco e o PCP. Essa fórmula visaria dar ao PS uma imagem frentista que permitisse roubar algum voto aos habituais irredutíveis partidos da esquerda parlamentar, tradicionalmente incapazes de qualquer concessão ideológica a troco de lugares de governo.

 

É assim que surge o Livre de Rui Tavares, a partir de uma cisão do Bloco de Esquerda, que propugnava o apoio ao PS. O Livre chegou mesmo a ser convidado para os congressos do PS e, se tivesse eleito deputados, faria um grupo parlamentar totalmente alinhado com o PS, imitando a relação do PEV com o PCP.

 

Ao mesmo tempo, qual cereja em cima do bolo, o PS apoiaria um candidato presidencial que encabeçasse essa nova frente de esquerda. Sampaio da Nóvoa, com o seu discurso gongórico e o seu inexistente passado político, era a pessoa ideal para o efeito, podendo atrair as esquerdas desavindas e tapar o caminho a Marcelo. Foi assim que Sampaio da Nóvoa foi estimulado a avançar por António Costa, com o apoio de três anteriores presidentes da república e era convidado habitual em todas as sessões públicas organizadas pelo PS.

 

Esta estratégia era, no entanto, absolutamente assustadora para o eleitorado do centro, que nesse cenário iria obviamente apoiar a coligação, e nas presidenciais irá todo direitinho para Marcelo. E a verdade é que também foi ferozmente combatida pelos partidos à esquerda do PS. Catarina Martins encarregou-se de reduzir o LIvre a zero, e agora Jerónimo de Sousa, ao mesmo tempo que promete apoio a um governo PS, já apresentou um candidato presidencial próprio "para a primeira volta", o que reduz a nada as hipóteses de Sampaio da Nóvoa ser eleito. E o próprio PS mostrou que não se deixava arrastar desta maneira para o desastre, tendo surgido a candidatura de Maria de Belém, que obviamente tem muito mais hipóteses do que a de Nóvoa.

 

Perante isto António Costa esqueceu-se do apoio que deu ao Livre e a Sampaio da Nóvoa, avisando agora que vai dar liberdade de voto "na primeira volta", ao mesmo tempo que os próprios iniciais apoiantes de Nóvoa lhe dão indicações para desistir. Este, no entanto, parece que ainda não percebeu o que lhe aconteceu e deu ontem uma conferência de imprensa a avisar que não desiste, salientando que as eleições legislativas reforçaram a "urgência da candidatura" e apelando ao "compromisso histórico" com os partidos que ainda não tiveram oportunidade de formar governo, parecendo assim querer liderar uma coligação PS+PCP+BE. Só se estivesse tudo doido no PS é que os seus militantes alinhariam num disparate semelhante.

 

Neste momento António Costa só quer salvar a pele como líder do PS e já atirou pela borda fora Rui Tavares e Sampaio da Nóvoa. O Livre provavelmente irá acabar, estando hoje reduzido a fazer peditórios para pagar as despesas da campanha. Já Sampaio da Nóvoa está muito enganado se julga que vai a algum lado sem o apoio do PS. Alguém que lhe explique como é que vai acabar o filme em que deixou que o colocassem como actor principal. É que a história da sua candidatura arrisca-se a ser a triste demonstração de que a política é um campo minado, e que não vale a pena alguém que nada sabe de desminagem, nem sequer onde as minas estão, entrar nesse terreno. 

Frases de 2015 (43)

por Pedro Correia, em 08.10.15

«Vou bater-me por um país com uma nova visão geoestratégica.»

Sampaio da Nóvoa, hoje

A implosão do PS.

por Luís Menezes Leitão, em 18.08.15

550[1].gif

Depois do Bloco de Esquerda, que literalmente implodiu em pequenos partidos, o que estamos a assistir agora é à implosão do PS. Efectivamente, o derrube de Seguro por António Costa causou imensas feridas, que se acentuaram com o disparatado posicionamento do PS à extrema esquerda, e ainda mais com o patético apoio a Sampaio da Nóvoa, que obviamente iria fracturar o partido em dois. Se alguém tem dúvidas sobre o posicionamento ideológico de António Costa, que veja a sua última declaração: é contra os contratos de trabalho a prazo. Só que o contrato de trabalho a prazo foi uma invenção de Mário Soares em 1976 para tornear a rigidez da legislação laboral. O que António Costa pretende é assim voltar a 1975, o que também constitui um tempo áureo para o seu candidato presidencial. Na verdade, o que se vê em Nóvoa, para além de uma absoluta ausência de currículo político, é uma ideologia muito marcada, o que naturalmente constitui um grave óbice para uma candidatura a Belém. E não são os seus passeios de bicicleta no Algarve, por baixo de um sol arrasador, que o transformarão num bom candidato.

 

Maria de Belém pode não ser uma candidata muito forte, mas não assusta o eleitorado do centro, ao contrário do que Nóvoa e pelos vistos o próprio António Costa estão a querer fazer. Não admira por isso a multiplicação de apoios que está a ter no PS, a que se associa o ódio declarado dos apoiantes de Nóvoa. Durante a campanha para as legislativas, o que o PS discute acaloradamente são assim os seus candidatos presidenciais, o que demonstra um partido em implosão. E o único responsável por isso é António Costa. Mas em bom rigor, ele está a colher a tempestade dos ventos que semeou. Tivesse Seguro continuado no cargo, e o PS estaria calmamente a caminhar para a vitória. Com António Costa, passou a ficar tudo em causa.

Deprimente

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.08.15

17427040_770x433_acf_cropped-770x433.jpg

Não tenho por princípio ser contra ninguém por ser de direita ou de esquerda, antes mesmo de se saber o que as pessoas pensam, o que dizem, quem são, de onde vêm, para onde querem ir e por que meios. Porque é no campo das ideias e da acção que as coisas devem ser discutidas, sem preconceitos nem complexos. Do Prof. Sampaio da Nóvoa, candidato presidencial assumido e apoiado por três ex-Presidentes da República, tirando algum voluntarismo discursivo, confesso que tinha uma impressão razoavelmente boa, não querendo com isto dizer que o considerava um bom candidato presidencial. Com um bom perfil académico, uma carreira, bons princípios, possuindo alguma desenvoltura no discurso e uma bagagem cultural muito acima da média, até poderia ser um candidato aceitável e vir a dar um Presidente da República à altura das nossas necessidades e das exigências do cargo. Sampaio da Nóvoa pode ser, e será com toda a certeza pelo que tenho visto e ouvido e pelo aval que lhe é conferido por Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, um excelente homem. Mas depois de ler a sua entrevista ao Expresso, de registar a forma pouco simpática, diria mesmo aflitiva, como se referiu a outras candidaturas na mesma área política e como fugiu às respostas que poderiam fazer a diferença, sem que eu percebesse se não respondia para não se comprometer ou se para ser politicamente correcto, o que em qualquer um dos casos seria mau, cheguei ao fim da sua leitura com uma ideia formada. É triste dizê-lo, só que a impressão razoavelmente boa que ainda poderia ter do candidato desapareceu. Esfumou-se. Mantenho a mesma impressão em relação ao homem, não tenho dificuldade em dizê-lo, mas em relação ao candidato perdi as dúvidas que ainda tivesse. Politicamente, o candidato Sampaio da Nóvoa é muito mau.

Para se sair da mediocridade em que estamos não basta ser sério, ter boa formação, preparação académica, uma carreira profissional, e chegar com as melhores intenções. A entrevista que o Prof. Sampaio da Nóvoa deu este sábado ao Expresso dá cabo de qualquer candidatura. Não sei se a culpa será só dele, se também do PS e de alguns amigos da onça que lhe vão dando gás e palmadas nas costas. Em qualquer caso, Sampaio da Nóvoa devia ser o primeiro a ver que as suas hipóteses de chegar a Belém são agora mais fracas. E, vendo isso, gerir uma saída de cena que não cause mais danos à sua pessoa. Para se ser um cidadão exemplar não é preciso fazer papel de mártir.

As frases infelizes

por Helena Sacadura Cabral, em 15.08.15

Há frases infelizes. É o caso da proferida por Sampaio da Nóvoa, quando diz ao Expresso: “tenho dificuldades em perceber como é que as pessoas que fracturam tudo, mesmo dentro dos próprios partidos, se podem propor para lideranças agregadoras do conjunto dos portugueses”.

Será que o académico não reconhece a Maria de Belém o direito de se candidatar à Presidência da República? É este o seu conceito de liderança agregadora?

Maria de Belém já tem um movimento de apoio à sua candidatura. Frases deste tipo só servem para o reforçar!

Frases de 2015 (26)

por Pedro Correia, em 08.07.15

«Apoio do PS é muito importante para mim.»

Sampaio da Nóvoa

Costa tira o tapete a Nóvoa.

por Luís Menezes Leitão, em 03.07.15

Desde o início, logo que Costa empurrou Nóvoa para Belém, que tenho vindo a afirmar que com essa iniciativa Costa se suicidava politicamente, arrastando todo o PS com ele. É evidente que o apoio a um candidato radical de esquerda vai assustar o eleitorado de centro, que é onde se ganham as eleições. Que seria do PS se alguma vez tisse apoiado Otelo em 1976 ou Pintasilgo em 1986? Nessa altura, por muita simpatia que esses candidatos suscitassem na sua ala esquerda, os socialistas souberam ter juízo e não embarcar em cantos de sereia.

 

António Costa manifestamente não tem a mesma ponderação e mergulhou de cabeça no desastrado apoio a Nóvoa. Mas pelos vistos ainda há gente no PS com algum senso e já desafiaram Maria de Belém a avançar. Faz todo o sentido, pois dificilmente o PS poderia ter um nome mais adequado para o palácio de Belám. Já imagino os slogans: "Para Belém, Maria de Belém".

 

E perante isto o que faz António Costa? Naturalmente tira o tapete a Nóvoa, dizendo que afinal o PS pode não apoiar nenhum candidato. Temos aqui claramente um padrão de comportamento político. Depois de ter tirado o tapete a Seguro, Costa tira o tapete a Nóvoa. Resta saber quantos mais tapetes vai tirar nesta campanha alegre.

 

Em consequência, Nóvoa vai ser lançado às feras, logo agora que ele tinha alcançado uma vitória retumbante no referendo do Livre, tendo alcançado nada menos que 87% de 867 votos! Como se pode compreender então que António Costa se queira ver Livre dele?

A grande ilusão.

por Luís Menezes Leitão, em 21.06.15

 

António Costa acusa Passos Coelho de criar a ilusão de que o país está melhor. Trata-se de uma ilusão tão grande que até António Costa foi iludido. Afinal não foi ele que há quatro meses foi dizer à comunidade chinesa que Portugal está melhor hoje do que há quatro anos? Mas António Costa não é ilusionista e por isso não faz promessas que não pode cumprir, como a abolição ou redução das portagens na via do Infante. António Costa limitou-se a descobrir a solução para a crise. A solução não está nem "na saída do euro, nem na prossecução da austeridade". Está na "coesão e convergência das economias europeias". Acho que o Syriza fez mais ou menos a mesma promessa, de que iria abolir a austeridade sem sair do euro, apostando na coesão e convergência dos restantes países europeus. Os quais, diga-se de passagem, não lhe têm faltado com o seu apoio nesta fase crítica.

 

Mas António Costa tem todas as garantias para conseguir ter sucesso nas suas promessas eleitorais. Para isso conta com o seu candidato presidencial que já avisou que, se for eleito (longe vá o agoiro), vai exigir que as promessas eleitorais sejam cumpridas. Isto porque, como bem salienta o candidato, "um Presidente da República pode exigir que as promessas sejam cumpridas. Pode exigir e vigiar e se entender que as promessas não estão a ser cumpridas, deve usar todos os meios ao seu dispor para encetar uma renovação política". Ficamos assim a saber que Sampaio de Nóvoa admite demitir o governo e dissolver a assembleia, se chegar à conclusão que as promessas feitas na campanha não estão a ser cumpridas. Se calhar alguém já lhe chamou a atenção de que a assembleia pode nesse caso renovar a confiança no governo, ou o país reeleger novamente o mesmo partido, caso em que ao presidente só resta renunciar ao cargo. Mas isso não preocupa nada o candidato. "Serei um Presidente da República despojado porque não tenho nenhuma carreira política ou outra qualquer pela frente. Não hesitarei nunca em tomar as decisões que eu ache que devem ser tomadas”. Teríamos assim um Presidente cheio de iniciativa. Como o próprio assume: "Todos os dias acordarei a pensar e a mobilizar os portugueses para as grandes causas”.

 

Estes dois precisam rapidamente de um profundo mergulho na realidade.

Uma campanha alegre.

por Luís Menezes Leitão, em 02.06.15

Não consigo resistir ao bom humor que provoca a pré-campanha de Sampaio da Nóvoa. Agora teve uma intervenção no Comedy Lisboa, que de facto pelas notícias mais parecia uma stand up comedy do que uma sessão política.

 

O candidato apresentou três ideias, qual delas a mais absurda. A primeira ideia é aproveitar "os movimentos de renovação artística" para inspirar uma mudança profunda. Segundo o candidato, “andamos o tempo todo a ouvir os mesmos, a falar com os mesmos". Por isso, o debate público faz-se com as “ideias de sempre, um bocadinho gastas” o que deixa os portugueses “prisioneiros de um pensamento que vem de trás”. Por isso, Nóvoa defende que “é preciso chamar pessoas improváveis e grupos improváveis”. Já sabemos assim que se for eleito Presidente, Nóvoa formará um governo de improváveis. Resta saber como é que esse governo passa na Assembleia...

 

A segunda ideia resume-se numa frase: “Portugal tem tudo para ser um país diferente”. Isto de ideia não tem nada, mas é capaz de ser bem verdade. Se Nóvoa fosse eleito, Portugal seria de facto um país muito diferente, gerido pelos tais improváveis. Arrisca-se a não fica pedra sobre pedra.

 

E para demonstrar que Nóvoa nada aprendeu com a quase-bancarrota nacional, defende "investimentos estratégicos continuados, sustentados”, criticou os “últimos quatro anos” em tudo parece ter parado. “Se eu num determinado momento da minha vida venho para a política é por não aceitar esse corte na escola, na educação, nas artes, na segurança social”.

 

Aqui até os apoiantes de Nóvoa vacilaram. Uma apoiante achou que ele seria melhor candidato a primeiro-ministro. Outro apoiante, Elísio Summavielle, que fora responsável pela cultura nos tempos de Sócrates, e portanto um dos autores dos cortes que Nóvoa tanto critica, achou que ele tinha que se deixar de conversas e passar à campanha, designadamente aos outdoors. Sugeriu até que ele fosse como Soares à Marinha Grande sujeitar-se a "duas bofetadas". Imaginar Nóvoa a ser atacado na Marinha Grande, ele que é de uma esquerda ainda mais radical que os operários que lá andam, é de facto o non sense político absoluto.

 

Mas o candidato rejeita manobras eleiçoeiras deste género e até diz: "Eu não quero a minha cara nos outdoors". Mais vale tirá-la também dos boletins de voto.

Será o Benedito?

por Luís Menezes Leitão, em 26.05.15

Da apresentação da declaração de princípios de Sampaio de Nóvoa retive que o mesmo se compromete a dar continuidade ao legado de Eanes, Soares e Sampaio, deixando naturalmente Cavaco de fora, talvez pela singela razão de que este não o apoiou. Na verdade, trata-se de mandatos presidenciais absolutamente contraditórios, que vão desde o total intervencionismo (Eanes) à omissão absoluta (Sampaio), pelo que obviamente não resulta dali qualquer legado comum. Nóvoa bem podia por isso ter acrescentado o legado dos Reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques a D. Manuel II, que o resultado prático seria o mesmo. É por isso que Nóvoa já acrescentou mais uma frase memorável ao rol com que nos costuma presentear ao dizer que "o Presidente da República não deve agir nem contra nem a favor dos governos ou das oposições".

 

Uma vez que Nóvoa tanto gosta de citações talvez pudesse recordar a inspiração dessa frase numa célebre boutade do político brasileiro Benedito Valadares, que dizia: "Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário!". Na verdade, tudo em Nóvoa lembra a história de Benedito Valadares. Da mesma forma que António Costa não tinha candidato presidencial, Getúlio Vargas não tinha candidato a governador de Minas Gerais, tendo tomado a decisão de escolher Benedito Valadares por um motivo singelo: "Todos tinham candidato e queriam apenas que eu adoptasse as preferências alheias. Só eu não podia ter candidato, e pensei que deveria tê-lo. Escolhi esse rapaz tranquilo e modesto, que me procurou antes, sem nunca pensar que seu nome pudesse ser apontado como interventor". A decisão causou de tal forma surpresa na população que surgiu em todo o Brasil uma célebre frase: "Será o Benedito?". A reacção geral em Portugal à escolha de Sampaio da Nóvoa por António Costa será seguramente de teor semelhante. Quanto ao candidato promete-nos "ser um Presidente presente, próximo das pessoas, capaz de ouvir, de cuidar, de proteger". Acredito que também acabe a dizer como Benedito Valadares: "Estou rouco de tanto ouvir!".

Os apoios de Sampaio de Nóvoa.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.15

Há um sintoma preocupante que atinge os políticos portugueses de esquerda, principalmente a partir dos 75 anos de idade: uma tendência irresistível para o apoio a Sampaio da Nóvoa. Quem pode resistir afinal a um candidato que lhes recorda as suas maiores paixões da juventude, a luta intransigente pelos gloriosos amanhãs que cantam? Quem pode resistir a um candidato que participou na LUAR, nas comissões de moradores e de trabalhadores, e que fundou o glorioso movimento do TMUPA, Trabalhadores Moradores Unidos para as Autarquias, que arrasou tudo e todos nas eleições para a Assembleia de Freguesia da Parede em 1976? Quem pode resistir a um candidato que considera abominável o "arco da governação", porque logo à partida exclui 20% dos portugueses, que deveriam naturalmente ser a vanguarda da classe operária?  É por isso que, como Presidente, se propõe fazer consensos em torno de projectos, que é de todas as coisas a que faz melhor. Mas desde que não seja ao centro, que essa amálgama do centro é uma coisa muito irritante em Portugal. Nóvoa nem sequer está muito preocupado com a estabilidade governativa, admitindo dar posse a um governo minoritário (se calhar dos tais 20%…), já que para ele estabilidade não é ficar tudo na mesma. Por isso também não quer um governo de bloco central, já que o seu ponto de partida é a crítica às políticas de austeridade. Este discurso recorda-me Vasco Gonçalves, o saudoso companheiro Vasco, que após as eleições de Abril de 1975 garantiu que não podia permitir que fossem perdidas nas urnas as conquistas revolucionárias tão duramente obtidas pelo povo português.

 

Os apoios de Sampaio da Nóvoa são inteiramente justificados. Da mesma forma que o candidato considera aqueles momentos dos anos revolucionários os mais importantes da sua vida, quando tinha a sensação de que tudo era possível, os seus apoiantes aspiram também pelo regresso a esses tempos heróicos. Se calhar também já estou afectado pelos discursos de Sampaio da Nóvoa, pois só recordo a propósito uma citação do poema de Casimiro de Abreu, As Primaveras, de 1859: "Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras/ Debaixo dos laranjais!". Mas o problema é que Sampaio de Nóvoa também defende a não assinatura do Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio, um referendo aos tratados europeus e a renegociação da dívida até ao limite do possível. Parece-me por isso que ele e os seus apoiantes vão ter um duro choque com a realidade. Tão duro que provavelmente acabarão mas é a cantar o Que reste t'il de nos amours?, de Charles Trenet.

Os candidatos.

por Luís Menezes Leitão, em 10.05.15

 À Direita já se percebeu que vai haver dois candidatos às presidenciais. Um é Marcelo Rebelo de Sousa, que já disse de si próprio que é como o código postal: "meio caminho andado". Na verdade, fez muito mais de meio caminho, andando há anos a preparar a sua candidatura, através de um processo metódico de reconstrução televisiva da sua persona pública. Hoje já ninguém se lembra do Marcelo mefistofélico e criador constante de factos políticos, mas não se sabe se essa personagem não vai regressar, logo que ele se veja em Belém. É por isso que nem nos seus maiores pesadelos Passos Coelho admite Marcelo Rebelo de Sousa na presidência e tudo fará para que ele não seja eleito. O mesmo dirá Portas, que ainda se lembra de como terminou a segunda AD, que construiu com Marcelo. Este só poderá assim avançar em caso de derrota da coligação.

 

Em caso de vitória da coligação, já se sabe que o candidato é Rui Rio. E será uma boa escolha. É um candidato que deixou uma imagem de seriedade na gestão da Câmara do Porto e tem condições de imparcialidade para assumir a presidência. Curiosamente não é muito bem visto na entourage de Passos Coelho que, vá lá saber-se porquê, sempre preferiu Luís Filipe Menezes. Talvez por esse motivo, Rui Rio apareceu nos últimos tempos muito próximo de António Costa, o que pode ser uma vantagem para as presidenciais. Já não o será, porém, em caso de derrota da coligação, pois aí naturalmente disputará a liderança do PSD e esta proximidade a António Costa pode lhe ser fatal.

 

À Esquerda está tudo definido. É Sampaio da Nóvoa o candidato único, já que até Carvalho da Silva desistiu de o defrontar. Não admira. Como se vê nesta entrevista, mais do que o candidato do PS, Nóvoa é o candidato dos sectores à esquerda do PS. O seu baptismo político foi na LUAR e numa entrevista televisiva recusou-se a assumir que votaria PS. Na verdade, o discurso político de Nóvoa faz lembrar o discurso de Lurdes Pintasilgo, parecendo que recuámos trinta anos no tempo. Diz que é independente e até acha que essa independência será apreciada pelos sectores militares, como se os militares tivessem um voto diferente do de qualquer outro cidadão. É contra o "arco da governação" e só a contragosto é que daria posse a um governo do Bloco Central, já que acha que é capaz de forjar outros entendimentos contra a austeridade. Mas em qualquer caso, dará posse a um governo minoritário, sem problemas com a estabilidade, já que estabilidade para ele "não é ficar tudo na mesma". E de tal forma o assume que quer referendos aos Tratados Europeus e defende a renegociação da dívida "até ao limite do possível". Quanto ao fracasso desta política na Grécia, ainda não o consegue ver. Pelo contrário, até acha que "estamos aqui e agora, para poder construir um projecto de mudança em Portugal e darmos um contributo para a mudança na Europa".

 

Como bem lembrou João Gonçalves, num célebre debate entre Soares e Pintasilgo, aquele respondeu a este tipo de discurso sonhador com a afirmação de que "nem um castiçal cá ficava se a senhora fosse eleita". Mas o Soares de hoje já não é o mesmo desses tempos. O que espanta, no entanto, é que António Costa empurre o PS para um apoio a um candidato com este perfil e que, felizmente para todos nós, não tem a mínima hipótese de ser eleito. A não ser que o objectivo de António Costa seja o de apresentar este candidato para satisfazer a ala esquerda do seu partido,  permitindo a eleição de Rui Rio, com quem facilmente pode estabelecer pontes. Neste enquadramento a estratégia faz sentido. Só que, como acima se salientou, para Rui Rio ser candidato é necessário que Costa perca igualmente as eleições legislativas…

Assentar praça em general

por Pedro Correia, em 07.05.15

SAMPAIO[1].jpg

 

A entrevista de António Sampaio da Nóvoa à RTP Informação - muito bem conduzida por Vítor Gonçalves, um dos melhores entrevistadores actuais da televisão portuguesa - permitiu mostrar enfim ao País o candidato presidencial apoiado por uma parte do PS.

Confirma-se: é uma solene vacuidade.

Sampaio da Nóvoa surge como emanação directa do brilhante "laboratório de ideias" pessoais de Mário Soares, de onde na última década já haviam saído o próprio Soares, em marcação cerrada a Manuel Alegre (o que entregou a Presidência de bandeja a Cavaco Silva em 2006), e Fernando Nobre (novamente para travar o passo a Alegre). Mas Alegre e Nobre - como Almeida Santos, que Soares em vão planeou lançar, como sucessor de si próprio, nas presidenciais de 1996 - tinham percurso e biografia. Nóvoa, pelo contrário, nada tem para exibir além das suas respeitáveis credenciais académicas e de umas quantas frases grandiloquentes mas vazias de conteúdo político, como a que rematou a entrevista de ontem: «Os livros são a vida, está lá tudo.»

 

A frase, de algum modo, revela o candidato. Até ao momento em que decidiu apresentar-se na corrida a Belém, após conversar com «milhares de pessoas» (das quais apenas menciona Soares), Nóvoa notabilizou-se na vida pública por dois discursos: um pronunciado no 10 de Junho de 2012, a convite de Cavaco, e outro em Novembro de 2014, no congresso do PS, a convite de António Costa.

Tinha 19 anos quando aconteceu o 25 de Abril: o que fez na altura? O mesmo que já fazia na véspera da revolução: estudava e jogava futebol em Coimbra. E durante o febril processo revolucionário? E na ressaca do PREC? E militou antes, de algum modo, contra a ditadura?

Tudo na mesma linha, tão vaga como nevoeiro.

 

Durante décadas, nada dele transpareceu fora das opacas paredes da Academia. É especialista em História (como Pinheiro Chagas, vergastado por Eça numa das mais célebres polémicas de que há memória cá na terra) e sempre foi «de esquerda». Sem no entanto revelar aos compatriotas que ignoram tudo sobre ele quais foram as suas opções de voto nestas quatro décadas.

Entende que «há uma democracia que vai para além dos partidos», frase que já Otelo proclamava em 1975 e pouco grata vinda de um candidato que se prepara para ter um aparelho partidário a fazer-lhe a campanha.

Só por insistência do entrevistador, já no final, introduziu na sua prédica a necessidade de combater a corrupção - matéria essencial na política portuguesa. E jura que, se fosse Presidente da República, teria dissolvido a Assembleia da República em Julho de 2013, a pretexto da saída de Vítor Gaspar e do momentâneo arrufo de Paulo Portas - apesar de haver uma sólida maioria parlamentar e o País, sem acesso aos mercados financeiros, se encontrar então sob assistência externa de emergência. Transformando assim, por contraste e certamente sem intenção, Cavaco Silva num estadista.

 

Ao escutar Sampaio da Nóvoa, dei por mim a lembrar uma expressão que ouvia muito quando era miúdo: «Este quer assentar praça em general.»

Envolto em névoa, é mesmo isso que pretende Nóvoa: assentar praça em general. Sem tirocínio político, sem percurso cívico conhecido dos eleitores que serão convocados às urnas em Janeiro, chega aos 60 anos confessando que tremeria perante a primeira crise séria se estivesse em Belém, lançando o País numa aventura irresponsável.

É pouco como cartão de visita. E, francamente, não se recomenda.

O candidato.

por Luís Menezes Leitão, em 30.04.15

 

Se alguém tinha dúvidas sobre a absoluta vaguidade de Sampaio da Nóvoa, corporizada na total ausência de ideias e propostas concretas, ficou esclarecido com o seu discurso de ontem. Qualquer candidato a Presidente da República, na apresentação da sua candidatura, deve responder a algumas questões básicas. Este candidato respondeu assim:

— Por que é que se candidata?

— Pela "obrigação de não ficar em silêncio, não me esconder num tempo tão duro".

— O que é que vai fazer na Presidência?

— "Se for eleito Presidente da República não serei o espectador impávido perante a degradação da nossa vida pública".

— Mas então o que vai fazer de concreto?

— Vou ser "presente, capaz de ouvir, cuidar, proteger e promover a inclusão".

— Mas de que forma?

— Vou "unir os portugueses e fazer pactos para o futuro" "Tudo na mesma é que não".

— Mas não nos consegue dizer nada de mais preciso?

— O meu compromisso para Presidente ficará selado numa carta de princípios a ser apresentada "dentro em breve".

— Mas o que é que acha de que facto pode fazer um Presidente da República?

— Um Presidente da República "pode fazer a diferença". "Não governa nem legisla", mas deve ser "um moderador, um regulador". "É por isso que aqui estou". Proponho-me dizer o que penso sobre as grandes questões de Portugal e "agitar".

 

O candidato questionou: "Que política é esta, sem uma única ideia de futuro para Portugal, que país é este que parece sem vontade, sem pensamento e sem rumo?". Acho que deveria começar por olhar para si próprio, já que não apresentou nenhuma ideia nem nenhum pensamento em concreto, tendo até contraditoriamente assumido a posição simultânea de moderador e de agitador. Talvez seja essa a razão por que foi escolhido para candidato pelo PS, em detrimento de Henrique Neto que, esse sim, tem falado de coisas concretas, como o número de políticos a contas com a justiça.

 

Em qualquer caso, está visto que a candidatura de Sampaio da Nóvoa não entusiasma ninguém. Não é por acaso que foi lançada no Teatro da Trindade, com uma capacidade para 400 pessoas, quando o lógico seria que fosse na Aula Magna da Universidade de Lisboa, da qual foi Reitor, com uma capacidade para 1600 pessoas, e que foi onde Jorge Sampaio apresentou a sua candidatura. E mesmo no Teatro da Trindade, os lugares tiveram que ser preenchidos com gente do PS. Já António Costa, que empurrou o candidato para Belém, convenientemente nem sequer compareceu, limitando-se a mandar a família. Na verdade, o candidato não existe sem o PS, e se este não lhe tivesse manifestado apoio, estaria ao nível dos outros candidatos folclóricos que têm surgido. Mas o apoio de um partido não chega para eleger um candidado anódino, como ficou demonstrado em 1980 quando a AD apoiou um general desconhecido, Soares Carneiro, para Belém. Sampaio da Nóvoa já começou a tomar consciência disso, quando disse que "vai ser difícil". Não me lembro de ter ouvido essa frase em nenhum outro lançamento de candidatura.

Frases de 2015 (14)

por Pedro Correia, em 20.04.15

«Seria ilusório pensar que, passada esta crise, vamos ter políticas de crescimento. Mas, num certo sentido, isto pode não ser totalmente negativo.»

Sampaio da Nóvoa

Uma arrancada fulgurante.

por Luís Menezes Leitão, em 18.04.15

Vá lá saber-se porquê, o Expresso decidiu arrancar como órgão oficioso de apoio à candidatura de Sampaio da Nóvoa. É assim que interpreta as suas próprias notícias, absolutamente desastrosas para o candidato, em sentido favorável ao mesmo. Ontem os resultados da sondagem que publicou indicam que 48% dos portugueses ignora totalmente quem é Sampaio da Nóvoa e só 44% ouviu alguma vez falar dele. Precisamente por isso só 16,5% acham que ele tem alguma hipótese de ganhar as presidenciais. O que é que conclui o Expresso disto? Numa "análise benigna, constata-se que o caminho de Sampaio da Nóvoa até poder chegar a Belém é longo mas não impossível". Eu diria antes que, face a estes resultados, Sampaio da Nóvoa tem tantas hipóteses de chegar a Belém como a Torre Eiffel de dançar o samba.

 

Hoje a notícia do Expresso é que o PCP não afasta apoio a Nóvoa. Só que o texto da notícia diz precisamente o contrário. O PCP vai como sempre apresentar um candidato próprio, e só admite retirá-lo à boca das urnas se uma outra candidatura tiver hipóteses de vencer. O que está muito longe de ser o caso da de Nóvoa.

 

Entretanto, como não poderia deixar de ser, quem anda entusiasmadíssimo com o avanço de Nóvoa é Marcelo Rebelo de Sousa, que nem acredita na prenda da Páscoa que recebeu. É assim que faz apelos fulgurantes a que não lhe retirem o prometido despique com o candidato Nóvoa: "Apoiado por três ex-presidentes é um candidato fraco? Vou ali e já venho". Só que o apoio dos três ex-presidentes só significa três votos, permitindo por isso esse fortíssimo candidato a Marcelo ir-se embora e só regressar na véspera das presidenciais.

 

A esquerda está a cometer com o apoio a Nóvoa o mesmo erro que a direita cometeu em 1980 quando Sá Carneiro impôs um candidato absolutamente desconhecido, Soares Carneiro, para Belém. Qualquer analista político sabe que o primeiro teste a fazer a um candidato é o teste do reconhecimento: saber se os eleitores fazem a mínima ideia de quem o candidato seja. Nesse primeiro teste Nóvoa não passou. Mas provavelmente isso não interessa nada aos estrategas do PS, que já que devem estar a preparar os slogans da campanha: "Na presidência um desconhecido". Ou: "Vote em Nóvoa mesmo sem saber quem ele seja".

 

O problema desta candidatura é, no entanto, outro. É que vai multiplicar os candidatos presidenciais da direita, que já se imaginarão em Belém, sabendo que o adversário da esquerda é Sampaio da Nóvoa. Assim sendo, a prenda que Marcelo Rebelo de Sousa julga ter recebido pode revelar-se um presente envenenado. Passos Coelho não quer Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, pelo que só constrangido o PSD lhe daria apoio para evitar a vitória de um candidato de esquerda. Se o candidato for Nóvoa, o PSD pode muito bem optar antes por Santana Lopes, uma vez que até ele daria um banho eleitoral a Nóvoa. O resultado desta estratégia desastrada de António Costa pode ser assim a ida de Santana Lopes para Belém, algo que nem nos meus maiores pesadelos eu julgaria que fosse possível.

Outro que fuma mas não inala?

por Pedro Correia, em 12.04.15

51638882-e1346793153523[1].jpg

 

António Sampaio da Nóvoa, enquanto reitor da Universidade de Lisboa, presidiu ao júri que em 2007 chumbou José Luís Saldanha Sanches na prova de agregação que lhe permitiria tornar-se professor catedrático da Faculdade de Direito.

A prova realizou-se cinco dias antes das eleições autárquicas em Lisboa que dariam a primeira vitória a António Costa para presidente do município. Saldanha Sanches - um homem que sempre foi de esquerda - integrava a equipa do candidato socialista como seu mandatário financeiro.

Segundo testemunhos insuspeitos, Saldanha Sanches - já então considerado um dos mais reputados professores da faculdade, na sua especialidade de Direito Fiscal - foi alvo de um inaceitável achincalhamento durante essa prova devido a motivações políticas, acto facilitado pela cobardia do anonimato então vigente entre os avaliadores, que não necessitavam de tornar pública a respectiva decisão.

José Luís Saldanha Sanches morreu menos de três anos depois, com o prestígio intacto. A inédita reprovação de que foi alvo não o manchou a ele: manchou quem o avaliou. "Chumbaram-no de forma vil", garante João Taborda da Gama. Dizem agora testemunhas presenciais do evento que a coisa decorreu de tal forma que a sala se foi despovoando, em mudos sinais de protesto. "Chorei de raiva no dia em que Saldanha Sanches foi chumbado de forma persecutória nas suas provas de agregação", lembra Isabel Moreira.

Sampaio da Nóvoa, presidente do júri por inerência, terá ficado incomodado. Não consta, no entanto, que tivesse à época esboçado o menor protesto. Não saiu da sala, não deixou lavrado em acta qualquer sobressalto, não teve sequer um gesto simbólico que o demarcasse do ocorrido.

"É prerrogativa do presidente de um júri de provas de agregação interromper, ou mesmo impugnar, os trabalhos, se achar que o processo não é transparente. Ou achou que a avaliação foi limpa (coisa extraordinária), ou não teve coragem para contrariar os seus doutos colegas", acentua aqui André Pinto, assegurando que o reitor "tinha mecanismos estatutários que lhe permitiam pelo menos anular a infâmia praticada", algo que terá sucedido noutros casos.

Conclusão provisória (aguardando pronunciamento do visado): António da Nóvoa permaneceu em silêncio perante a iniquidade. Uma versão lusitana do outro que, lá por bandas norte-americanas, fumava sem inalar.

Será este um bom cartão de visita para quem ambiciona ocupar o Palácio de Belém?


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D