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Comungar ou não comungar, eis a questão

por Teresa Ribeiro, em 18.01.14

Digamos que do ponto de vista católico, D. Januário considera algumas das práticas deste governo "anticonstitucionais".

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Allah-o-Akbar!

por Fernando Sousa, em 30.10.13

O xeque Ali al Hemki, membro do Conselho dos Estudiosos da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa, um decreto islâmico, proibindo as viagens a Marte, noticiou o jornal Ah Hayat, citado pela EFE - e o DN. Allah-o-Akbar! Quem comprou bilhetes, aconselho que os devolva. 

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A caminho do céu

por Rui Rocha, em 10.10.13

A deslocação da imagem de Nossa Senhora de Fátima a Roma é bem o exemplo da complementaridade necessária entre ciência e religião. A viagem de avião propriamente dita está, convenhamos, bem mais dependente do efeito de Bernoulli do que de manifestações do Divino. Todavia, tratando-se de um voo da TAP, só mesmo a intervenção do Altíssimo poderá evitar que a estátua chegue significativamente atrasada.

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Violação do espaço aéreo

por José António Abreu, em 15.08.13

É claro que hoje em dia a assunção de Nossa Senhora seria imediatamente travada por um míssil Patriot.

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Blogue da semana

por Fernando Sousa, em 29.07.13

O tema religião continua  limitado entre nós a uns quantos colunistas, por exemplo Frei Bento Domingues, no Público, aos domingos, Fernando Calado Rodrigues, no Correio da Manhã, às sextas, e Anselmo Borges e Tolentino Mendonça, respectivamente no Diário de Notícias e Expresso, aos sábados. Não é ainda parte da nossa cultura, tradicionalmente laica e republicana. Nem - infelizmente - uma especialidade jornalística a cultivar. Por isso escolhi como blogue da semana o Religionline, um trabalho colectivo de Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, do jornalista António Marujo, ex-Público, com anos de experiência acumulada, e de Joaquim Franco. Contra o que possa parecer não é um blogue proselitista, é um espaço voltado para o “sentido da vida, a dimensão religiosa e a cultura”, com “notas, notícias, procuras e interrogações”, abrangente, atento e crítico. 

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Imagem de Nossa Senhora de Fátima analisada ao detalhe.

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Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

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Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).

Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.

Entretanto, na última parte do século XX inicia-se  um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.


Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.


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Só isso justifica que tenha prescindido da vaca e do burro e que deixe ficar o Gaspar.

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EUA: a hora dos católicos

por Pedro Correia, em 05.09.12

 

Pela primeira vez na História bissecular dos Estados Unidos, não há nenhum protestante branco entre os candidatos à presidência e à vice-presidência, o que constitui um significativo sinal dos tempos. No campo republicano, o candidato à Casa Branca, Mitt Romney, professa a religião mórmone. O seu braço direito, como candidato à vice-presidência, é Paul Ryan, um católico assumido - tal como Joe Biden, recandidato ao lugar de vice-presidente pelo Partido Democrata.

Mas o recuo dos protestantes na vida pública norte-americana tem muitos outros sinais visíveis. O democrata que preside ao Senado, Harry Reid, é mórmone. A Câmara dos Representantes tem um presidente republicano: John Boehner, católico. E entre os nove membros do Supremo Tribunal federal há seis católicos e três judeus. Algo sem precedentes nos EUA.

Resta nas hostes protestantes o próprio Presidente Barack Obama, que cresceu sem educação religiosa e se baptizou já adulto, em 1988, aos 27 anos. Mas por ser afro-americano também ele foge ao padrão clássico. Estamos muito longe dos tempos em que John F. Kennedy - primeiro e até agora único presidente católico dos EUA - teve de proclamar solenemente, num discurso marcante, que jamais se deixaria influenciar pelas opiniões de bispos ou até do Papa. E mesmo ele escolheu para vice-presidente o senador Lyndon Johnson, um protestante oriundo do sul do país.

A verdade é que o mapa sociológico norte-americano está a mudar rapidamente. Os protestantes não ultrapassam hoje 51% da população, a nível nacional, enquanto os católicos são já cerca de 25%, o que corresponde a quase 70 milhões de fiéis - a quarta maior comunidade nacional católica a nível mundial, após o Brasil, o México e as Filipinas. Mas assumem o primeiro lugar enquanto confissão religiosa autónoma, uma vez que as diversas igrejas protestantes estão muito fragmentadas. E em estados como Rhode Island e a Pensilvânia ultrapassam 50% da população.

"Acredito numa América onde a separação entre a Igreja e o Estado seja absoluta. Acredito numa América que não seja oficialmente católica, protestante ou judaica - onde nenhum membro da administração pública solicite ou aceite instruções do Papa, do Conselho Nacional das Igrejas ou de qualquer outra fonte eclesiástica", declarou o então jovem candidato Kennnedy nessa memorável alocução, proferida a 12 de Setembro de 1960, a menos de dois meses de derrotar Richard Nixon na corrida à Casa Branca.

Se fosse hoje, tenho a certeza, não precisaria de fazer esse discurso. Joe Biden que o diga. E Paul Ryan também.

 

Imagem: John F. Kennedy, o primeiro presidente católico dos EUA, em visita à Irlanda (Junho de 1963)

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De retorno

por Helena Sacadura Cabral, em 20.08.12

Para retorno de férias aqui está uma apresentadora que não tem medo de dizer o que pensa, nem de enfrentar as consequências. Embora o estilo tenha algo de agreste - que, pessoalmente, não aprecio -, o conteúdo merece reflexão. Sobretudo para Estados que não são laicos, o que, felizmente, não é o nosso caso.

A religião não deveria ser, nunca, poder político. É algo profundamente pessoal, que deverá constituir uma escolha e jamais uma imposição. E os ateus têm tanto direito a sê-lo como aqueles que o não são.

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Corte na aldeia

por Laura Ramos, em 13.07.12


Por esta altura decorrem as festas da cidade. É fácil alhearmo-nos. O som e a alacridade são os mesmos de sempre, as procissões de ida e volta entre as margens do Mondego agregam, inexplicavelmente, os milhares de caminhantes do costume. O kitsch desfila em apontamentos repetidos de diversos tamanhos, às centenas, erráticos e sem um trilho cénico, alienígenos, incompreensíveis e pungentes: são as Rainhas Santas de todas as idades, desde as que vão ao colo às que percorrem a pé as pedras tortas da calçada, novas, maduras, gordas, magras. De negro ou rosa vivo, emolduradas em véus de tule hirto e vestes com galões de debrum de ouro, baratucho.
Nem faltam Dons Dinises…

Mesmo assim houve este ano o bom gosto de reduzir o tempo dos fogos-de-artifício: nem se deu pão, nem circo, quando a austeridade assola todos por igual.

E até o anfitrião temporário  da imagem (aquela belíssima escultura de Teixeira Lopes) não se furtou a invectivar os tempos, pondo os dedos nas feridas sem dó nem piedade.

Tudo pesado, neste culto, vejo que há coisas - coisas ditas menores - que são de facto maiores do que todos nós.

E eu gosto de ter por padroeira uma mulher.

Isabel de Portugal, à parte o seu carisma milagreiro herdado, enredo incluído, da sua tia-avó Isabel da Hungria, foi uma pessoa admirável.

De carne e osso, incansável obreira, recidiva infractora, incorrigível na sua liberdade de, como hoje se diria, ser solidária.
Provocadoramente, até merecer castigo e a reprovação do clero que enfrentou, desafiando sem medo a cristandade oficial, foi compassiva, sim, mas foi activa, interventora e até diplomata ao evitar, de facto, diversas guerras fratricidas.

 


"Levava uma vez a Rainha Santa moedas no regaço para dar aos pobres, / Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas".

Por mim, prefiro ver nesta lenda o registo de uma falsa candura que a sua inteligência soube apresentar à oficialidade assim, desta maneira:

- Tomem lá o que querem, a minha passividade. Vede rosas, Senhor...
E foi à sua vida.

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Sobre os encantos desta vida

por José António Abreu, em 08.04.12

Jesus ressuscitou mas não ficou cá por baixo.

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Bom senso ou double standards?

por Rui Rocha, em 16.03.12

Em 9 de Março, o New York Times publicou um anúncio colocado pela Freedom From Religion Foundation. No anúncio, apelava-se a que os respectivos fiéis abandonassem a Igreja Católica. O principal fundamento apontado foi o dos escândalos sexuais com envolvimento de padres e a cumplicidade da hierarquia da Igreja. Uns dias depois, Pamela Geller, líder do movimento Stop Islamization Now (conhecida, é bom dizê-lo, por posições radicais e inaceitáveis) solicitou ao jornal a publicação de um anúncio "simétrico" em que se apelava ao abandono do Islão com fundamento principal na falta de respeito pelas mulheres e pelos não islâmicos. 

Desta vez, o New York Times recusou a publicação apesar de Geller estar disposta a pagar os mesmos 39.000 USD cobrados pela colocação do primeiro anúncio. De acordo com as explicações prestadas pelo jornal, não se trata de uma recusa definitiva, mas de um adiamento da publicação, motivado pela violência desencadeada no Afeganistão na sequência do episódio em que foram queimados exemplares do Corão e pelo temor de que vidas fossem postas em causa por novas reacções exacerbadas. A matéria é delicada. Mas, o que a decisão tem subjacente é o entendimento de que a liberdade de expressão deve ser limitada a partir de uma avaliação da perigosidade dos fiéis das duas religiões. Terá o NYT agido correctamente? Ou demonstrou apenas que utiliza inaceitáveis double standards editoriais?

 

* Mais detalhes sobre a notícia podem ler-se aqui.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 26.02.12

«Como dizia José Régio, os que falam da religião como alienação suprema não podem compreender de quantas alienações ela nos liberta. A esperança de que a própria morte é trânsito misterioso para o grau mais evoluído da existência é profundamente humanista.»

Frei Bento Domingues, no Público

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Imagem do Papa Bento XVI retirada de campanha

por Cláudia Köver, em 17.11.11

Percebo a revolta contra o uso  comercial da imagem do Papa. É coerente e uma atitude que já se esperava do Vaticano. Agora, chamar-lhe ofensiva. Porquê?

Não é uma campanha que pretenda gozar a igreja, a fé e os crentes. É uma campanha que tem como base uma mensagem de paz e muitas roupas coloridas. Quem nos dera a nós que as imagens propostas pela Benetton fossem reais.

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Uma chave para decifrar o mundo

por Pedro Correia, em 27.09.11

    

 

Ouço com alguma frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões - e da religião cristã em particular. São opiniões que fazem tábua rasa de dois mil anos de história da Humanidade e que, se fossem levadas à letra, conduziriam ao desconhecimento generalizado de uma das nossas bases civilizacionais. A história da pintura, da escultura, da arquitectura e de parte significativa da música ocidental torna-se incompreensível a quem ignora os fundamentos do cristianismo e as inúmeras personagens dos livros da Bíblia. Isto nada tem a ver com crença -- tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.

A ignorância das religiões -- em nome do princípio da laicidade levado ao extremo -- conduz até à incompreensão e à irrelevância de boa parte dos maiores autores ateus, agnósticos e anticristãos -- de Voltaire a Nietzsche. Leio, de momento, uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx: está cheia de alusões bíblicas, provavelmente ininteligíveis para todos os apóstolos da "indiferença", que fogem da religião como o diabo da cruz em vez de procurarem entender a importância da religiosidade e da espiritualidade como parte integrante da condição humana, da criação artística e do pensamento filosófico através de todas as épocas - incluindo a nossa.

O Moisés, de Miguel Ângelo, a Última Ceia, de Leonardo, a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, a catedral de Chartres ou a de Brasília (criada pelo ateu Óscar Niemeyer), para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) nos proporciona. Isto vale também para a Mesquita Azul de Istambul, o Buda Reclinado de Banguecoque, Machu Picchu ou Angkor Wat.

Ao criticarem o estudo das religiões, os arautos desta tese estão no fundo a fazer a apologia da ignorância. Assumi-la em nome da "laicidade" é ainda mais grave. Por constituir uma perversão da genuína laicidade - a que vem expressa, pela voz de Cristo, nos Evangelhos: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus."

É uma frase muito antiga -- e tão "moderna" como se tivesse sido impressa no jornal desta manhã. Conhecê-la -- e saber por que foi proferida e os efeitos devastadores que causou numa concepção teocrática do poder político -- ultrapassa em muito o reduto da fé: é um acto de cultura. Da mesma forma que alguém sem o menor conhecimento bíblico é incapaz de interpretar esta extraordinária frase, contida num dos romances de Graham Greene: "Prefiro ter sangue nas mãos do que água como Pilatos."

Religião também é isto: uma chave para decifrar o mundo, uma pista para descobrirmos novos mundos. Às vezes longínquos, outras vezes situados bem próximo de nós.

 

Imagens: Voltaire e Nietzsche

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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.

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Existem várias formas de paralisar a argumentação sobre questões religiosas. Desde logo, há quem defenda que a religião não se discute. Esta posição vem, normalmente, de quem professa uma determinada religião. E significa, na verdade, que não se discute essa determinada religião que é professada. Já todas as outras são  passíveis de discussão. Do alto da superioridade moral da religião que não se aceita discutir. Uma outra forma consiste em manifestar uma intransponível equidistância relativamente a todas as religiões. É uma posição própria de quem está ou quer colocar-se fora do círculo religioso. Dela decorre, por exemplo, que quando existe um conflito extremado entre correntes religiosas, se possa sair airosamente dizendo que estamos perante radicalismo de ambas as partes. O que nos alivia do pesado fardo de tomar partido por uma delas. Ora, parece-me que nenhuma das duas posições é aceitável. Explico. A religião, para os que a professam, não constitui um mero caminho interior, individual, de ligação com o divino. A religião apela a uma ideia de comunidade e de prática. Nessa medida, de exteriorização. Que tem impacto na sociedade dos Homens. O respeito pela fé professada por cada um não pode ser entendido como dirigido à religião em si mesma. Pelo contrário, resulta do respeito pela radical liberdade e dignidade  do indivíduo nas suas múltiplas expressões: artísticas, culturais, profissionais e, naturalmente, religiosas. Daí que a religião possa e deva ser discutida sempre que as suas manifestações contendam ou se desviem do projecto social comum. Por outro lado, a equidistância acaba por levar à mesma consequência de não questionar o essencial. Queira-se ou não, o fenómeno religioso é uma das manifestações mais evidentes do ser humano. Mesmo os que se colocam de fora, devem admitir este facto como dado histórico inquestionável. Como dado inquestionável é a importância da religião na conformação do substrato social de valores. Deste modo, não se deve prescindir de comparar religiões pelas consequências que estas têm nas sociedades humanas. Como não se pode deixar de comparar o estado de evolução das diversas sociedades, sempre tendo presente que a sociedade perfeita não existe e que o valor fundamental é a dignidade humana. O que está aqui em causa é que a única forma de dar resposta a quaisquer actos de violência religiosa é uma intervenção  que garanta a liberdade e a igualdade dos cidadãos. De todos eles. Mas, isto não significa neutralidade. Significa uma defesa sem quartel de todos os que são acossados pela sua crença religiosa. E um ataque igualmente intransigente a todas as formas de perturbação da liberdade de expressão, religiosa ou outra, dos cidadãos. Neste particular, não podem ser colocados em pé de igualdade os que condenam qualquer forma de violência e aqueles outros que, perante actos violentos como os ocorridos em Alexandria em 31 de Dezembro de 2010, se remetem a um ensurdecedor silêncio. Da mesma maneira que não merecem o nosso silêncio todos os que têm da convivência religiosa a interpretação estrita que resulta do versículo 5:5 do Corão: O you who believe! do not take the Jews and the Christians for friends; they are friends of each other; and whoever amongst you takes them for a friend, then surely he is one of them; surely Allah does not guide the unjust people. Precisamente a interpretação que é negada por tantos muçulmanos mas que se ouvia nos últimos tempos na boca de certos Imãs em algumas mesquitas de Alexandria. Tal como não se pode calar a condenação a representantes da Igreja copta que afirmaram que os muçulmanos são convidados no Egipto. Perante situações como estas, ou quaisquer outras em que seja questionada a tolerância e a convivência pacífica, não serve calar. Importa afirmar os valores da dignidade humana. Os únicos relativamente aos quais se justifica uma defesa activa e radical. Que deve sobrepor-se a uma certa moda do religiosamente correcto. E que, se não vejo mal, só podem ser protegidos no contexto de uma organização social laica e interventiva em que, como diz Savater, as crenças filosóficas ou religiosas sejam um direito de cada um. Mas, não o dever de ninguém e menos ainda a obrigação geral da sociedade no seu conjunto. O que é precisamente o contrário de ser-se anti-religioso.

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Em Teerão: luzes, câmara... condenação

por Rui Rocha, em 23.12.10

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 - "I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,"

- "If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,"

- "My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,".

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

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