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E tão poderoso não será

por Rui Rocha, em 10.01.15

Se precisa que outros matem por Ele.

Religião é incomodidade

por Teresa Ribeiro, em 04.01.15

 C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Sendo cristã, mas tendo feito a minha formação religiosa numa igreja evangélica baptista, sempre tive uma relação distante com o catolicismo, tanto quanto se pode ter quando se nasce e vive num país católico. Até hoje nunca nenhum Papa me conquistou ao ponto de me reconhecer nele sem reservas. A Francisco, que mais uma vez foi eleito em diversos meios da comunicação social uma das Figuras do Ano, vejo como um cristão, muito mais do que como o chefe da ICAR. Um cristão como eu imagino que seriam os pioneiros, destemido e apostado em erguer a bandeira do cristianismo muito acima da igreja, pois que esta é apenas - não podemos esquecer - obra dos homens.

Muitos católicos, ciosos do que consideram ser as marcas da sua identidade, não estão a aceitar a forma desassombrada com que o seu líder supremo coloca à discussão dos fiéis temas fracturantes e interpela a hierarquia, convidando-a a saltar do andor para chegar mais perto dos homens. Esta frontalidade bem como a humildade que Francisco coloca em cada um dos seus gestos, mostra-lhes um homem mais próximo do pescador de almas que a Bíblia reclama do que da figura do "santo padre" que a ICAR há muito entronizou. É este back to basics que está a encantar alguns cristãos - católicos e não católicos - e a confundir os que vêem na religião um baluarte inexpugnável, garante de uma moral e sobretudo de uma estética que precisam de preservar para seu próprio conforto de espírito. 

Estes acérrimos defensores da tradição esquecem-se que todas as Igrejas, sem excepção, abusam do nome de Deus e que as diferenças entre as várias confissões religiosas de inspiração cristã se alguma coisa provam é que a verdade universal não é exclusivo de nenhuma. Desta evidência devia retirar-se a primeira lição de humildade, que é algo que tem faltado a toda esta gente que torce o nariz à discussão e reclama para si o morno sono dos justos.   

O cinema a despir a religião

por João André, em 03.11.14

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Uma tendência recente em Hollywood é a de voltar a temas religiosos e míticos, umas vezes criando novos objectos, outras simplesmente refazendo-os. Infelizmente, uma tendência crescente destes filmes é tentar uma desconstrução do tema, por exemplo despindo-o dos elementos que o tornam míticos (Tróia sem deuses é um exemplo) ou acrescentando outros elementos desconhecidos de forma a humanizar as personagens (o Noé do filme é consideravelmente diferente do da Bíblia).

 

Obviamente que não argumento existir uma única forma de abordar um tema - qualquer tema. Tão pouco ignoro que a escolha de determinadas histórias é propositada para poder fazer o exercício de reflexão sem ter de criar um cenário inicial. Em Noé, o estudo sobre o tipo de pessoa que a personagem bíblica seria, de um ponto de vista humano, é simplificado por não ter de se explicar em demasiado qual o contexto da história. Estamos à partida parcialmente familiarizados com Noé e o Dilúvio, pelo que não se torna necessário explicar muito. Já se o objecto deste estudo de Aronofsky tivesse sido Abraão (na minha opinião, mais adequado às conclusões finais), a sua história teria de ser explicada em detalhe, uma vez que seria menos conhecida de quem não esteja familiarizado com a Bíblia.

 

Seja como for, penso que despir um filme dos elementos mais básicos da sua história o torna menos forte no tema que aborda. Um dos principais aspectos dos filmes baseados em religiões é o imaginário que evocam. Visualmente estes filmes deveriam ser imediatamente impressionantes. Não é por acaso que Lawrence da Arábia, não sendo um filme religioso, evoca esse imaginário retratando T.E. Lawrence como uma figura semi-mitológica. Também não é por acaso que autores ateus como Pasolini, o próprio Aronofsky, Buñuel, Rossellini ou John Huston sempre estiveram fascinados pelo imaginário - e visual - religioso. É também por isso que filmes fiéis a esse imaginário continuam a ser hoje em dia fascinantes, mesmo para ateus como eu. E é por isso que quando os filmes tentam humanizar ou contextualizar as acções divinas com explicações seculares, o cinema só tem a perder.

 

Abordo este tema por duas razões: primeiro porque, segundo leio, Ridley Scott pretende, no seu novo filme Exodus (nova variação sobre a história de Moisés baseado no mesmo livro da Bíblia) criar explicações cientificamente mais aceitáveis para os milagres (segundo parece, um terramoto explicaria a passagem do Mar Vermelho). Por outro lado vamos vendo hoje uma muito pobre exploração da imagética religiosa usando e abusando das CGIs, sendo um exemplo o filme de Aronofsky ou Imortais, de Tarsem Singh. Estes dois filmes, sendo visualmente muito interessantes (especialmente o segundo), são também preguiçosos, deixando de lado a fotografia para usarem a solução mais básica do digital. Veja-se a diferença de imagens entre o filme de Aronofsky e o de Huston (em A Bíblia, a encimar o post). o segundo retrata a arca contra o sol, mostrando claramente a chegada dos animais em pares e de forma ordeira, como Deus ordenaria. No segundo, temos uma arca estranha, num panorama preguiçoso e com os animais a chegar em debandada, como que a mostrar a qualidade da reconstrução digital.

 

Hollywood pode estar de facto a tentar aproveitar o filão aberto por Ridley Scott com a sua recriação dos filmes de espadas e sandálias (Gladiador), os quais serão uma tentativa de explorar o desejo de temas simples e transcendentais, longe do frenesim da modernidade e secularidade (as razões deste ressurgimento darão certamente muitas teses de doutoramento). No entanto, do ponto de vista artístico, penso que estes filmes só terão a perder na comparação com os clássicos do passado. Aquilo que ficou perfeito não deve ser recriado. As cópias saem sempre a perder.

Religião, realidade e felicidade

por João André, em 31.07.14

Nos últimos tempos um estudo que indica que as crianças religiosas são menos capazes de distinguir fantasia e realidade tem feito umas piscinas no Facebook. Todos os dias algum dos meus contactos o indica, seja para o apresentar, defender ou denegrir. Não tendo possibilidade de ler o estudo científico original, decidi dar uma espreitadela a artigos que o citam e acabei a ler outros artigos que referem mais uns estudos dentro da mesma área.

 

Antes de mais o óbvio: o estudo que toda a gente refere foi feito com 66 crianças e, pormenor importante, não estabelece uma clara distinção em relação às histórias fantásticas (que no exemplo usam um nome muito facilmente identificável como bíblico). As crianças seculares terão maior tendência para identificar a história fantástica como não real, mas de acordo com as notícias não existe uma divisão absoluta neste aspecto entre elas e as crianças religiosas. Num outro estudo referido aqui, o mesmo tipo de teste mas algo diferente foi também administrado a crianças. A diferença é que no segundo estudo foram usados episódios bíblicos ou, segundo o artigo, com inspiração em episódios bíblicos.

 

Os estudos são portanto limitados na extensão e poderão não ser os ideais em termos de metodologia. Haveria também que contabilizar a localização: se os estudos forem feitos em regiões de maior fervor religioso, é óbvio que a influência da religião será superior, em ambos os grupos de crianças (as crianças seculares receberiam uma educação mais reactiva à influência do meio religioso circundante).

 

Outro aspecto a considerar seria então a influência da religião ao educar crianças para serem adultos na sua sociedade. Nesse aspecto parece, segundo outro estudo, que as crianças religiosas têm uma melhor saúde mental, são mais equilibradas e felizes. Como qualquer bom cientista, o autor aponta para o facto de a causalidade não estar provada, sendo que poderá estar aqui envolvida uma questão do tipo ovo ou galinha. Por outro lado, outros estudos indicam que a religião não é necessariamente um factor importante para o desenvolvimento mental da criança. Muita da sua importância estará relacionada, mais uma vez, com o meio ambiente: num meio religioso, a religião serve como factor identificativo e de integração para a criança e - igualmente importante - a sua família. Em meios seculares, seriam crianças seculares a integrarem-se melhor.

 

Por fim há a questão da idade a considerar: estas diferenças acentuam-se durante o tsunami emocional/hormonal da adolescência mas reduzem-se na idade adulta. Isto demonstra que, no final de contas, a religião não é assim tão decisiva (positiva ou negativamente) na formação das crianças e adultos quanto muitas pessoas poderão pensar. Influencia obviamente a felicidade em função da sociedade em que o indivíduo está inserido, mas também escolhas políticas, desportivas ou amorosas o poderão fazer. Para quem é intrínsecamente religioso, a religião oferece conforto e uma sensação de pertença a algo de superior, de transcendente. Para quem é, como eu, intrínsecamente ateu, essa falta de crença oferece um outro tipo de conforto, mais intelectual e que ajuda a admirar as maravilhas pelo lado dos factos.

 

No fim de contas, o essencial será a sociedade em que cada indivíduo está inserido. Enquanto ateu, cresci num país essencialmente católico. A minha bússola moral demonstra-o claramente quando me comparo com protestantes. O mesmo se pode dizer para um amigo, ateu que cresceu num país muçulmano e outro, judeu, que cresceu num país católico. Isto deveria ser óbvio para qualquer pessoa sem ter necessidade de contar argumentos científicos (a ironia...) como espingardas.

Comungar ou não comungar, eis a questão

por Teresa Ribeiro, em 18.01.14

Digamos que do ponto de vista católico, D. Januário considera algumas das práticas deste governo "anticonstitucionais".

Allah-o-Akbar!

por Fernando Sousa, em 30.10.13

O xeque Ali al Hemki, membro do Conselho dos Estudiosos da Arábia Saudita, emitiu uma fatwa, um decreto islâmico, proibindo as viagens a Marte, noticiou o jornal Ah Hayat, citado pela EFE - e o DN. Allah-o-Akbar! Quem comprou bilhetes, aconselho que os devolva. 

A caminho do céu

por Rui Rocha, em 10.10.13

A deslocação da imagem de Nossa Senhora de Fátima a Roma é bem o exemplo da complementaridade necessária entre ciência e religião. A viagem de avião propriamente dita está, convenhamos, bem mais dependente do efeito de Bernoulli do que de manifestações do Divino. Todavia, tratando-se de um voo da TAP, só mesmo a intervenção do Altíssimo poderá evitar que a estátua chegue significativamente atrasada.

Violação do espaço aéreo

por José António Abreu, em 15.08.13

É claro que hoje em dia a assunção de Nossa Senhora seria imediatamente travada por um míssil Patriot.

Blogue da semana

por Fernando Sousa, em 29.07.13

O tema religião continua  limitado entre nós a uns quantos colunistas, por exemplo Frei Bento Domingues, no Público, aos domingos, Fernando Calado Rodrigues, no Correio da Manhã, às sextas, e Anselmo Borges e Tolentino Mendonça, respectivamente no Diário de Notícias e Expresso, aos sábados. Não é ainda parte da nossa cultura, tradicionalmente laica e republicana. Nem - infelizmente - uma especialidade jornalística a cultivar. Por isso escolhi como blogue da semana o Religionline, um trabalho colectivo de Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, do jornalista António Marujo, ex-Público, com anos de experiência acumulada, e de Joaquim Franco. Contra o que possa parecer não é um blogue proselitista, é um espaço voltado para o “sentido da vida, a dimensão religiosa e a cultura”, com “notas, notícias, procuras e interrogações”, abrangente, atento e crítico. 

Imagem de Nossa Senhora de Fátima analisada ao detalhe.

Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).

Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.

Entretanto, na última parte do século XX inicia-se  um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.


Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.


Só isso justifica que tenha prescindido da vaca e do burro e que deixe ficar o Gaspar.

EUA: a hora dos católicos

por Pedro Correia, em 05.09.12

 

Pela primeira vez na História bissecular dos Estados Unidos, não há nenhum protestante branco entre os candidatos à presidência e à vice-presidência, o que constitui um significativo sinal dos tempos. No campo republicano, o candidato à Casa Branca, Mitt Romney, professa a religião mórmone. O seu braço direito, como candidato à vice-presidência, é Paul Ryan, um católico assumido - tal como Joe Biden, recandidato ao lugar de vice-presidente pelo Partido Democrata.

Mas o recuo dos protestantes na vida pública norte-americana tem muitos outros sinais visíveis. O democrata que preside ao Senado, Harry Reid, é mórmone. A Câmara dos Representantes tem um presidente republicano: John Boehner, católico. E entre os nove membros do Supremo Tribunal federal há seis católicos e três judeus. Algo sem precedentes nos EUA.

Resta nas hostes protestantes o próprio Presidente Barack Obama, que cresceu sem educação religiosa e se baptizou já adulto, em 1988, aos 27 anos. Mas por ser afro-americano também ele foge ao padrão clássico. Estamos muito longe dos tempos em que John F. Kennedy - primeiro e até agora único presidente católico dos EUA - teve de proclamar solenemente, num discurso marcante, que jamais se deixaria influenciar pelas opiniões de bispos ou até do Papa. E mesmo ele escolheu para vice-presidente o senador Lyndon Johnson, um protestante oriundo do sul do país.

A verdade é que o mapa sociológico norte-americano está a mudar rapidamente. Os protestantes não ultrapassam hoje 51% da população, a nível nacional, enquanto os católicos são já cerca de 25%, o que corresponde a quase 70 milhões de fiéis - a quarta maior comunidade nacional católica a nível mundial, após o Brasil, o México e as Filipinas. Mas assumem o primeiro lugar enquanto confissão religiosa autónoma, uma vez que as diversas igrejas protestantes estão muito fragmentadas. E em estados como Rhode Island e a Pensilvânia ultrapassam 50% da população.

"Acredito numa América onde a separação entre a Igreja e o Estado seja absoluta. Acredito numa América que não seja oficialmente católica, protestante ou judaica - onde nenhum membro da administração pública solicite ou aceite instruções do Papa, do Conselho Nacional das Igrejas ou de qualquer outra fonte eclesiástica", declarou o então jovem candidato Kennnedy nessa memorável alocução, proferida a 12 de Setembro de 1960, a menos de dois meses de derrotar Richard Nixon na corrida à Casa Branca.

Se fosse hoje, tenho a certeza, não precisaria de fazer esse discurso. Joe Biden que o diga. E Paul Ryan também.

 

Imagem: John F. Kennedy, o primeiro presidente católico dos EUA, em visita à Irlanda (Junho de 1963)

De retorno

por Helena Sacadura Cabral, em 20.08.12

Para retorno de férias aqui está uma apresentadora que não tem medo de dizer o que pensa, nem de enfrentar as consequências. Embora o estilo tenha algo de agreste - que, pessoalmente, não aprecio -, o conteúdo merece reflexão. Sobretudo para Estados que não são laicos, o que, felizmente, não é o nosso caso.

A religião não deveria ser, nunca, poder político. É algo profundamente pessoal, que deverá constituir uma escolha e jamais uma imposição. E os ateus têm tanto direito a sê-lo como aqueles que o não são.

Corte na aldeia

por Laura Ramos, em 13.07.12


Por esta altura decorrem as festas da cidade. É fácil alhearmo-nos. O som e a alacridade são os mesmos de sempre, as procissões de ida e volta entre as margens do Mondego agregam, inexplicavelmente, os milhares de caminhantes do costume. O kitsch desfila em apontamentos repetidos de diversos tamanhos, às centenas, erráticos e sem um trilho cénico, alienígenos, incompreensíveis e pungentes: são as Rainhas Santas de todas as idades, desde as que vão ao colo às que percorrem a pé as pedras tortas da calçada, novas, maduras, gordas, magras. De negro ou rosa vivo, emolduradas em véus de tule hirto e vestes com galões de debrum de ouro, baratucho.
Nem faltam Dons Dinises…

Mesmo assim houve este ano o bom gosto de reduzir o tempo dos fogos-de-artifício: nem se deu pão, nem circo, quando a austeridade assola todos por igual.

E até o anfitrião temporário  da imagem (aquela belíssima escultura de Teixeira Lopes) não se furtou a invectivar os tempos, pondo os dedos nas feridas sem dó nem piedade.

Tudo pesado, neste culto, vejo que há coisas - coisas ditas menores - que são de facto maiores do que todos nós.

E eu gosto de ter por padroeira uma mulher.

Isabel de Portugal, à parte o seu carisma milagreiro herdado, enredo incluído, da sua tia-avó Isabel da Hungria, foi uma pessoa admirável.

De carne e osso, incansável obreira, recidiva infractora, incorrigível na sua liberdade de, como hoje se diria, ser solidária.
Provocadoramente, até merecer castigo e a reprovação do clero que enfrentou, desafiando sem medo a cristandade oficial, foi compassiva, sim, mas foi activa, interventora e até diplomata ao evitar, de facto, diversas guerras fratricidas.

 


"Levava uma vez a Rainha Santa moedas no regaço para dar aos pobres, / Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas".

Por mim, prefiro ver nesta lenda o registo de uma falsa candura que a sua inteligência soube apresentar à oficialidade assim, desta maneira:

- Tomem lá o que querem, a minha passividade. Vede rosas, Senhor...
E foi à sua vida.

Sobre os encantos desta vida

por José António Abreu, em 08.04.12

Jesus ressuscitou mas não ficou cá por baixo.

Bom senso ou double standards?

por Rui Rocha, em 16.03.12

Em 9 de Março, o New York Times publicou um anúncio colocado pela Freedom From Religion Foundation. No anúncio, apelava-se a que os respectivos fiéis abandonassem a Igreja Católica. O principal fundamento apontado foi o dos escândalos sexuais com envolvimento de padres e a cumplicidade da hierarquia da Igreja. Uns dias depois, Pamela Geller, líder do movimento Stop Islamization Now (conhecida, é bom dizê-lo, por posições radicais e inaceitáveis) solicitou ao jornal a publicação de um anúncio "simétrico" em que se apelava ao abandono do Islão com fundamento principal na falta de respeito pelas mulheres e pelos não islâmicos. 

Desta vez, o New York Times recusou a publicação apesar de Geller estar disposta a pagar os mesmos 39.000 USD cobrados pela colocação do primeiro anúncio. De acordo com as explicações prestadas pelo jornal, não se trata de uma recusa definitiva, mas de um adiamento da publicação, motivado pela violência desencadeada no Afeganistão na sequência do episódio em que foram queimados exemplares do Corão e pelo temor de que vidas fossem postas em causa por novas reacções exacerbadas. A matéria é delicada. Mas, o que a decisão tem subjacente é o entendimento de que a liberdade de expressão deve ser limitada a partir de uma avaliação da perigosidade dos fiéis das duas religiões. Terá o NYT agido correctamente? Ou demonstrou apenas que utiliza inaceitáveis double standards editoriais?

 

* Mais detalhes sobre a notícia podem ler-se aqui.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 26.02.12

«Como dizia José Régio, os que falam da religião como alienação suprema não podem compreender de quantas alienações ela nos liberta. A esperança de que a própria morte é trânsito misterioso para o grau mais evoluído da existência é profundamente humanista.»

Frei Bento Domingues, no Público

Imagem do Papa Bento XVI retirada de campanha

por Cláudia Köver, em 17.11.11

Percebo a revolta contra o uso  comercial da imagem do Papa. É coerente e uma atitude que já se esperava do Vaticano. Agora, chamar-lhe ofensiva. Porquê?

Não é uma campanha que pretenda gozar a igreja, a fé e os crentes. É uma campanha que tem como base uma mensagem de paz e muitas roupas coloridas. Quem nos dera a nós que as imagens propostas pela Benetton fossem reais.


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