Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Fora da caixa (7)

por Pedro Correia, em 14.09.19

8172397_rES28[1].jpg

 

«O PSD vai perder as eleições.»

José Pacheco Pereira, na TVI 24 (4 de Setembro)

 

As sondagens variam, mas todas apontam na mesma direcção.

A da Pitagórica atribui 43,6% das intenções de voto ao PS e apenas 20,4% ao PSD - um fosso de 23,2% entre os dois principais partidos. A do ICS-ISCTE estabelece uma diferença de 19 pontos percentuais:  42% para o PS, 23% para o PSD. A da Eurosondagem concede a vitória aos socialistas, com 38,1%, ficando o partido laranja com 23,3% - um intervalo de 14,8%. E a da Intercampus fixa esta diferença em 14,3% - correspondente ao intervalo entre os 37,9% do primeiro e os 23,6% do segundo.

Seja qual for a distância que venha a registar-se nas legislativas de 6 de Outubro, alcance ou não o PS a vitória por maioria absoluta, um dado é inquestionável em todas estas pesquisas de opinião, elaboradas a cerca de um mês do escrutínio real: o PSD prepara-se para obter o seu pior resultado eleitoral de sempre. Coroando assim uma tendência: a da queda global do partido fundado por Francisco Sá Carneiro - em declínio desde a fuga de Durão Barroso para Bruxelas, no Verão de 2004. No ano seguinte, com Santana Lopes no comando, perdeu. Quatro anos depois, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, voltou a perder. Passos Coelho inverteu esta tendência, vencendo em 2011 e 2015, mas o rumo anterior é retomado agora com Rio ao leme.

 

Há pontos de contacto entre a derrota registada em 2009, frente ao PS de José Sócrates, e aquela que se antevê para o mês que vem, face ao PS de António Costa: num caso e noutro, o partido está nas mãos do mesmo grupo interno. Rui Rio chegou a ser apontado como proto-candidato há dez anos, acabando como mandatário no Porto da antiga ministra das Finanças, além de seu braço direito como primeiro vice-presidente da Comissão Política Nacional; agora, Manuela retribui com a defesa persistente de Rio na sua tribuna semanal da TVI 24. Paulo Mota Pinto, que presidiu à Comissão de Honra da candidatura de Rio, em Novembro de 2017, foi o mandatário nacional de Ferreira Leite em 2008.

Um grupo que, derrota após derrota, vai destruindo aquela que chegou a ser a maior força partidária portuguesa. Ao invés do que sucedia com Sá Carneiro, que conduziu o PSD a partido de governo, alicerçado em duas expressivas vitórias eleitorais possibilitadas pelo alargamento da sua base sociológica, estes seus putativos herdeiros estreitaram-na no afã de perseguirem a "verdadeira" social-democracia - agora também reclamada pelo BE de Catarina Martins  - com Rio a garantir que não quer «disputar eleitorado à direita».

 

Eis a consequência directa de um rumo encetado há muitos anos e que não surge por acaso: Rio, como Ferreira Leite antes dele, tem como estratego de cabeceira o biógrafo de Álvaro Cunhal, José Pacheco Pereira, que militava na esquerda radical quando Sá Carneiro presidia ao PSD. É ele o mentor da «viragem à esquerda» de um partido que sempre foi interclassista e avesso a catalogações ideológicas. Quatro anos após ter sido empossado o Executivo da "geringonça", Pacheco ainda espuma de raiva contra «o governo de Passos e Portas», de que foi um denodado combatente desde o primeiro dia.

Agora também ele já concede a derrota antecipada nas legislativas - a segunda que traz a sua marca estratégica no espaço duma década. O PSD, quando lhe atribui o estatuto de maitre penseur, sai sempre mais fraco e debilitado.

Será currículo ou cadastro? Eis matéria para reflexão a partir do dia 7 de Outubro, quando o partido tentar emergir dos escombros.

Fora da caixa (2)

por Pedro Correia, em 06.09.19

8172397_rES28[1].jpg

 

 

«Tanto me faz estar como não estar.»

Rui Rio, entrevistado pela TVI 24 (3 de Setembro)

 

O estatuto de ex-presidente do PSD é um dos mais ambicionados na política portuguesa. Dá um bocado para quase tudo - desde administrador não-executivo do grupo financeiro multinacional Goldman Sachs (Barroso) até comentador de futebol na TVI 24 (Menezes). Por isso não admira que Rui Rio ande obcecado por atingir tal meta. Na corrida eleitoral em curso dir-se-ia até que este é o grande objectivo que o anima.

Para lá chegar, deu ontem mais um passo decisivo. No suposto frente-a-frente com Assunção Cristas, em directo no Jornal da Noite da SIC - afinal um monólogo a duas vozes, onde era gritante (até pela linguagem corporal de ambos) a nula empatia ali reinante.

Sem necessidade, como todas as sondagens indicam, o ainda presidente do PSD tudo fez para afugentar ainda mais o que resta do seu eleitorado fiel. Posicionou-se no espaço já ocupado por António Costa: «Eu não vou disputar eleitorado à direita. Disputo mais eleitorado com o PS do que com o CDS.» E saudou como filho pródigo um trânsfuga que nas europeias de 2014, durante a governação PSD-CDS, aceitou figurar no tempo de antena socialista e em Junho de 2015 foi brindado com aplausos frenéticos na Convenção Nacional do PS ao atacar a coligação e exprimir a sua «plena confiança» em Costa.

Rio - que voltou a não proferir uma palavra sobre o anterior Executivo liderado pelo seu partido - dobrou-se em vénias ao trânsfuga, gabando-lhe o «currículo notável» e enaltecendo-o como «pessoa altamente respeitável na sociedade portuguesa». Acelera para a derrota com tão convicta pedalada que já ninguém duvida: conseguirá atingir a cobiçada meta.

Antevejo-o já como comentador no Expresso aos sábados e na RTP3 às quintas. Um futuro auspicioso.

Marxismo, tendência Groucho.

por Luís Menezes Leitão, em 06.09.19

Groucho Marx disse uma vez que se recusava a ingressar em qualquer clube que o aceitasse como membro. António Capucho pelos vistos tem a perspectiva inversa.

«Nem sei bem»

por Pedro Correia, em 03.09.19

«O PSD neste momento tem mais dois ou três deputados... acho que são três, nem sei bem... do que o Partido Socialista.»

Rui Rio, o homem das "contas certas", esta noite, em entrevista à TVI

Exímio a derrotar as distritais

por Pedro Correia, em 07.08.19

d7db2ff6a723581160247edb2f4e4e55-783x450[1].jpg

Foto: Lusa

 

Fiel ao seu estilo, entrou mudo e saiu calado do Conselho Nacional do partido: nem uma palavrinha aos jornalistas. Os seus acólitos haviam prometido nos jornais uma profunda renovação nas listas eleitorais e a promessa tornou-se realidade: todos os críticos foram postos à margem.

Lá dentro, ele agiu como se fosse dono do partido, confrontando as estruturas distritais. Varreu da lista de Setúbal uma companheira que assumiu a pasta das Finanças com o País sob resgate enquanto ele próprio louvava o actual ministro, pertencente ao Governo do partido rival. Impôs para cabeça de lista em Lisboa a quarta vereadora da câmara de Cascais, eliminando o vice-presidente do mesmo município que era indicado pela distrital. Designou imperialmente para número dois por Lisboa o secretário-geral que ficou manchado pelo caso das falsas presenças no hemiciclo. Impôs para Viana do Castelo outra deputada salpicada pelo mesmo escândalo. Afastou de Braga um ex-líder parlamentar que cometeu o pecado de apoiar um rival no anterior congresso. Mandou avançar para o Porto vários nomes que estão sob escrutínio da justiça, já esquecido do «banho de ética» in illo tempore anunciado. E - com a inabalável coerência que o caracteriza - escolheu para este mesmo distrito um dos nomes que ele próprio associou, durante anos, ao pior que existe na política portuguesa.

Mostrou-se exímio a enfrentar os companheiros ao impor listas eleitorais que mostram um partido mais tenso, mais fechado, mais crispado, mais monolítico, mais distante da sociedade civil. Levou a melhor nesta sua emocionante refrega contra as distritais: conseguiu ver as listas aprovadas por 80 votos a favor, apenas 18 contra e dez abstenções.

É um político brilhante - deve estar a pensar neste momento o seu principal adversário.

Contra o código genético do PSD

por Pedro Correia, em 01.08.19

img_797x448$2014_11_26_17_42_54_96096[1].jpg

Outros tempos: Santana, Ferreira Leite, Durão e Rio (Dezembro de 2001)

 

Durão Barroso venceu o congresso de Viseu em 2000, contra Pedro Santana Lopes e Luís Marques Mendes - um congresso muito dividido e disputado. O passo seguinte era unir o PSD, estendendo pontes para os dois derrotados. Foi o que Durão fez, com um balanço largamente positivo: Santana avançou como candidato do partido à Câmara de Lisboa, que venceu em Dezembro de 2001, e Mendes encabeçou a lista eleitoral laranja pelo distrito de Aveiro às legislativas de Março de 2002, ganhas pelos sociais-democratas. A mensagem de unidade interna dada por Durão Barroso favoreceu assim o PSD em dois combates eleitorais.

 

Pedro Passos Coelho venceu a eleição interna no partido em Março de 2010, derrotando por larga margem as candidaturas adversárias protagonizadas por Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco. O seu primeiro gesto, mal ascendeu à presidência dos sociais-democratas, foi apaziguar as hostes adversárias, convidando os antagonistas da véspera para os órgãos nacionais. Assim, a convite dele, Rangel encabeçou a lista ao Conselho Nacional do PSD e Aguiar-Branco presidiu à comissão formada para rever o programa do partido. No ano seguinte, com Passos na liderança não só do partido mas já também do Governo, o segundo assumiu o cargo de ministro da Defesa enquanto o primeiro se manteve como deputado europeu, recandidatando-se em 2014 com o apoio expresso de quem o derrotara quatro anos antes.

 

Nesses tempos de progressão eleitoral e política do partido laranja tudo decorreu desta forma. Agora, com outra liderança e outras cabeças a definir a estratégia para as legislativas de 6 de Outubro, todos os sinais vão no sentido oposto: fragmentar em vez de unir, congregar fiéis em vez de estimular o pluralismo interno que faz parte do código genético do partido fundado por Francisco Sá Carneiro. Como se este PSD de Rui Rio mimetizasse os velhos movimentos da extrema-esquerda, que iam purgando dirigentes e militantes em nome da pureza ideológica e da estrita obediência à voz de comando.

Estamos em plena contagem decrescente: faltam 66 dias para conhecermos o resultado de tão brilhante estratégia.

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 30.07.19

 

Recado ao PSD. De Pedro Duarte, no Observador.

 

Centeno pode contar com Rio

por Pedro Correia, em 30.07.19

Ministro-das-Financas-Mario-Centeno-e-Primeiro-Min

 

Rui Rio continua a surpreender-nos. Na mesma semana em que vem a público apoiar com entusiasmo a putativa designação do socialista Mário Centeno para director-geral do FMI, escorraça sem remissão a social-democrata Maria Luís Albuquerque - antecessora de Centeno na pasta das Finanças - das próximas listas eleitorais do PSD, apesar de o nome da ex-ministra ter sido indicado pela estrutura distrital laranja por Setúbal.

Com tais gestos quase simultâneos, talvez sem reparar, o antigo autarca do Porto subscreve e aplaude os quatro anos do consulado Centeno - recordista dos impostos em alta e do investimento público em baixa - e repudia as traves mestras da política financeira do seu próprio partido, de que Maria Luís foi um rosto emblemático. Em vez de enfrentar os socialistas, como seria de supor, continua a cortar às fatias o que resta da agremiação social-democrata, indiferente às luzes de alarme que se acendem a cada sondagem.

Não podia haver maior incentivo, por parte do presidente do PSD, ao voto em António Costa. Começo a interrogar-me se não será mesmo isto o que Rio realmente pretende: uma maioria estável, sólida e absoluta do PS na próxima legislatura. 

Palavras para recordar (46)

por Pedro Correia, em 23.07.19

rui-rio.jpg

 

RUI RIO

SIC, 29 de Maio de 2008

«Qualquer dia também tenho de ir apagar um fogo ao PSD.»

Cuidados intensivos

por Pedro Correia, em 20.07.19

Barómetro de Julho da Aximage: há já um fosso de 14 pontos percentuais a separar o PS de António Costa do PSD de Rui Rio. É a maior distância do ano entre os dois partidos.

De acordo com estes números, divulgados a menos de três meses das legislativas, PSD e CDS somam apenas 28,5% (23,6% + 4,9%). Conclusão óbvia: em Portugal, a chamada "direita" (que rejeita este rótulo no PSD de Rio) necessita de internamento urgente nos cuidados intensivos.

É este um líder da oposição?

por Pedro Correia, em 09.07.19

hugo_delgado58057ced[1].jpg

 

 

1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

De tombo em tombo

por Pedro Correia, em 25.06.19

image_content_1975356_20190116194131.jpg

 

Aumenta a convicção, apoiada pelas mais recentes sondagens, de que o PSD terá em Outubro o pior resultado alguma vez obtido numas eleições legislativas. Enquanto Rui Rio - há um ano e meio em funções na presidência do partido - transmite a crescente sensação de ser um actor sempre à procura do seu papel: remete-se ao silêncio quando devia falar, insiste em abrir a boca quando devia calar-se. 

Em poucos dias, somou mais uma série de erros e disparates.

 

Lembrou-se, por exemplo, de reduzir o número efectivo de deputados pela contabilização de votos brancos e nulos, que originariam cadeiras vazias no hemiciclo de São Bento - proposta de tal modo estapafúrdia que acabou por afogar-se à nascença.

Apressou-se a sair em defesa de António Costa na controversa decisão de nacionalizar o sistema integrado de redes de emergência e segurança quando ainda nada se sabe sobre os contornos deste negócio.

Apresta-se a transformar o PSD num pneu sobressalente do Governo após o fracassado acordo à esquerda em torno da Lei de Bases da Saúde, a três meses das legislativas, aparentemente esquecido de que o PS, pela voz autorizada de Pedro Nuno Santos, garantira em Janeiro de 2017 que «nunca mais precisará da direita para governar» .

Critica a anunciada medida do Executivo relativa à dispensa dos trabalhadores da função pública no acompanhamento do primeiro dia de aulas dos filhos sem sequer a ter lido: faz alusão a «um dia de folga» quando o diploma aponta para um máximo de três horas de falta justificada.

Deixa ao CDS terreno livre para reivindicar uma medida mais que justa: o alargamento do acesso à ADSE a todos os trabalhadores do sector privado, pondo fim a uma discriminação que não faz hoje o menor sentido.

 

Silencia o descalabro nas urgências externas das maternidades, decorrente da falta de especialistas em ginecologia e obstetrícia - tema em que urgia ouvir a voz do PSD enquanto maior partido da oposição, tanto mais que a situação «ultrapassa os limites do aceitável», segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, e os próprios directores clínicos denunciam a «situação caótica» reinante em diversas unidades hospitalares.

Neste contexto, agravado pelas cativações do ministro das Finanças, escuta-se o Presidente da República, exigindo que tudo seja «devidamente esclarecido e explicado», e Marques Mendes acusa o ministro das Finanças de ser o «coveiro do Serviço Nacional de Saúde». Mas Rio prefere calar-se.

 

Está talvez mais preocupado em «escorraçar os desleais» das próximas listas eleitorais do seu partido: a única luta política que parece animá-lo é o combate ao adversário interno.

Pode ficar tranquilo: ao ritmo a que o PSD vai tombando nas intenções de voto, só lhe restará mesmo um pequeno núcleo de fiéis para alojar.

Outros tempos

por Diogo Noivo, em 17.06.19

Após dias que mais pareceram meses, Álvaro Amaro anuncia que prescindirá da imunidade conferida pelo cargo de eurodeputado. Menos mal.

Já Rui Rio arremessou o banho de ética para parte incerta, pois mandou dizer à imprensa que não pensa pronunciar-se sobre o assunto. Afinal, trata-se tão somente de um coordenador do partido, recém-eleito deputado ao Parlamento Europeu, que é constituído arguido no âmbito de um processo que visa crimes de fraude, corrupção, tráfico de influências e prevaricação.

Há não muito tempo, sem esperar por acusações formais ou pela constituição de arguidos, um ministro do PSD demitia-se para preservar a autoridade das instituições. E preservou-a (a das instituições e a sua). Outros tempos.

Ser turcófilo passou de moda

por Pedro Correia, em 13.06.19

shutterstock-478539034.jpg

 

1

Ao contrário do que por vezes se imagina, a passagem do tempo costuma ser clemente para os políticos. Se assim não fosse, estaríamos em 2019 a escrutinar todos aqueles que durante anos andaram por cá a defender com fervor a integração da Turquia na União Europeia. 

Não precisamos de recuar muito. Na campanha para as eleições europeias de 2009, este tema esteve em debate. Com os cabeças de lista do PS e do PSD, Vital Moreira e Paulo Rangel, convergindo no apoio à adesão turca.

«A União Europeia só teria a ganhar com a integração de um país muçulmano e laico», declarou Vital Moreira durante essa campanha. Enquanto Paulo Rangel deixou claro: «Devemos apoiar os esforços de negociação entre a Turquia e a UE.»

 

2

Ainda mais longe neste entusiasmo andou o ex-Presidente da República Cavaco Silva. Que aproveitou precisamente uma visita de Estado realizada há dez anos à Turquia para garantir o «apoio integral de Portugal» no processo de adesão, possibilitando que a maior potência da Ásia Menor se tornasse «membro pleno» da UE.

Indiferente ao facto de se tratar de um país com mais de 70 milhões de habitantes, aliás na esmagadora maioria residentes fora do continente europeu (em termos geográficos, o centro-sul/sudeste da Trácia é a única parcela de território turco que faz parte da Europa).

Indiferente também à inevitável pressão demográfica desta adesão, que conduziria à quebra de salários e rendimentos dos trabalhadores assalariados no espaço comunitário.

 

3

Havia já suficientes sinais de alerta para que tais entusiasmos fossem travados. Desde logo, a ocupação ilegal de parte da ilha de Chipre por forças turcas, à revelia do direito internacional. Depois, o contínuo desrespeito da minoria curda residente em solo turco. Sem esquecer a preocupante aproximação do partido do primeiro-ministro (agora Presidente da República) Recep Erdogan ao integrismo islâmico.

Sabemos o que aconteceu desde então: a Turquia tornou-se um Estado autoritário, onde se multiplicam as violações dos direitos fundamentais dos seus cidadãos - incluindo severas restrições às liberdades de expressão, de reunião, de manifestação e de imprensa, acentuadas desde a alegada tentativa de golpe ocorrida em 2016, que serviu de pretexto a Erdogan para uma gigantesca purga no aparelho de Estado, além do silenciamento de incontáveis vozes incómodas no jornalismo turco. Enquanto se vai diluindo o regime laico implantado em 1923 por Ataturk. 

 

4

Tudo isto já é suficientemente grave com a Turquia fora da UE. Agora imaginemos se as teses turcófilas dos generosos políticos portugueses tivessem prevalecido dez anos atrás, escancarando as portas a Ancara: haveria hoje uma séria deriva ditatorial no segundo país mais populoso do espaço comunitário (logo após a Alemanha).

Felizmente os desígnios de Erdogan foram travados pela sábia Angela Merkel e pelo arguto Nicolas Sarkozy, que vetaram a adesão. Felizmente também para alguns políticos cá do burgo, a nossa memória colectiva é muito curta: cada vez somos menos com memória suficiente para pedir-lhes contas do que disseram e fizeram.

De disparate em disparate

por Pedro Correia, em 02.06.19

Rui Rio, como se não tivesse já adversários em número suficiente, decidiu abrir mais uma frente de batalha. Mas ainda não foi desta vez que começou a alvejar o Governo: preferiu atirar-se ao Presidente da República, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa faz uma análise «muito optimista um bocadinho superficial» da cena política portuguesa.

«Temos uma crise efectiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário», disse hoje Rio aos jornalistas. Falava como se não fizesse parte do sistema partidário e não fosse ele próprio líder de um partido desde Janeiro de 2018. Falava como se não andasse há quase 40 anos na política portuguesa - como vice-presidente da JSD, deputado social-democrata, vice-presidente do grupo parlamentar, secretário-geral do PSD, presidente da Câmara do Porto eleito pelo partido laranja e presidente da Junta Metropolitana do Porto antes de assumir as actuais funções.

Foi preciso ter conduzido o partido à mais estrondosa derrota eleitoral de sempre para se alarmar com a «crisa efectiva de regime». Cabe perguntar se falaria assim caso o PSD não tivesse ficado 11,5 pontos percentuais atrás do PS nas eleições que ocorreram faz hoje oito dias.

Impressões eleitorais

por Diogo Noivo, em 27.05.19

António Costa ‘nacionalizou’ as eleições europeias, transformando-as num plebiscito à sua governação. E apesar de Pedro Marques, de Pedro Silva Pereira e da época de banditismo e prepotência que representa, do CV da Maria Begonha, de Carlos César e da sua grande família, das nomeações descaradas de amigos e familiares, da maior carga fiscal dos últimos 22 anos, de Tancos, do caos no Serviço Nacional de Saúde, e do número inaudito de mortos em incêndios florestais onde o Estado falhou por incúria, o Partido Socialista venceu as eleições de forma claríssima. É obra. A força e a legitimidade de António Costa saem reforçadas – embora os 70% de abstenção não permitam embandeirar em arco.

Os resultados porventura digam algo sobre aquilo que somos enquanto eleitores. Mas dizem certamente muito da oposição que temos, pois raras foram as vezes em que o partido incumbente venceu as europeias. O PSD, que é hoje um simulacro do partido que foi em tempos, não parece ter percebido a dimensão da coisa. Não lhe auguro nada de bom.

Europeias (22)

por Pedro Correia, em 27.05.19

3290816_aWQWl.jpeg

 

UM ROMBO NO PSD

 

«Crescemos pouco», disse esta noite na RTP 3 o vice-presidente social-democrata David Justino. Neste sucinto comentário aos resultados eleitorais percebe-se o desnorte que paira nas cabeças dirigentes do partido: ao contrário do que diz o braço direito de Rui Rio, o PSD nada cresceu. Pelo contrário, acaba de registar o pior resultado da sua história numa eleição de âmbito nacional. Situando-se 11,5% atrás do PS nesta que constitui a maior "sondagem" aos portugueses a quatro meses da eleição para a Assembleia da República.

A incompetência revelada pela cúpula social-democrata na questão do tempo de serviço dos professores, como na devida altura aqui se alertou, foi fatal para as aspirações eleitorais do PSD: bastou António Costa fazer voz grossa numa comunicação ao País para Rio se transformar num boneco de plasticina, claramente apavorado com a perspectiva de disputar legislativas antecipadas. Desautorizou o seu grupo parlamentar, recuou em toda a linha e transmitiu uma imagem de confrangedor amadorismo, evidenciando um insólito temor reverencial perante o partido do Governo.

Estas coisas pagam-se caras. «A política não é para aprendizes», como escrevi na altura. E agora reitero com renovada convicção.

Europeias (16)

por Pedro Correia, em 22.05.19

3290816_aWQWl.jpeg

 

PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA: TRÊS PROPOSTAS

 

  • Prioridade à instituição de um plano europeu de luta contra o cancro, assumindo como meta a erradicação da doença.
  • Valorização do património florestal: Missão Floresta deve promover o rendimento dos proprietários, salvaguardar o ambiente e combater os fogos.
  • Aposta na ciência da inovação: inteligência artificial, robótica, biomedicina, metadados e engenharia da mobilidade.

 

Do manifesto eleitoral, Mais Portugal, Melhor Europa

Europeias (15)

por Pedro Correia, em 22.05.19

3290816_aWQWl.jpeg

 

AUSENTE MAS PRESENTE

 

A presença de Pedro Passos Coelho numa acção de campanha do PSD bastou para perturbar a campanha socialista. Ao ponto de usarem essa esporádica aparição do anterior primeiro-ministro como fio condutor de um mini-comício promovido ontem pelo PS em Aveiro.

Valia mais que os dirigentes do partido do Governo evitassem abordar este tema. Para não serem confrontados sobre a ausência, nesta mesma campanha, do primeiro-ministro que antecedeu Passos Coelho. Eles sabem muito bem que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos quem foi.

 

Frases de 2019 (13)

por Pedro Correia, em 07.05.19

«Se o Dr. Sá Carneiro não tivesse feito um partido, eu se calhar tinha ido para o PS.»

Rui Rio, presidente do PSD, no jantar do 45.º aniversário do partido


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D