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Delito de Opinião

Hino, Camões, 10 de Junho

Pedro Correia, 10.06.25

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Penso há muito que o Hino Nacional devia ter versos de Luís de Camões. Sendo o Dia de Portugal assinalado a 10 de Junho, em evocação da data da morte do nosso maior poeta, faz todo o sentido.

Não desfazendo, claro, no vate Lopes de Mendonça, autor da letra do presente hino. Mas entre Camões e Mendonça, prefiro o primeiro.

A música de Alfredo Keil, naturalmente, deve manter-se.

A vida breve e trágica de vários reis

Pedro Correia, 24.05.25

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D. Afonso Henriques: só ele e mais dois monarcas portugueses ultrapassaram os 70 anos de idade

 

Fiz há dias uma investigação sumária, por mera curiosidade, sobre os 34 monarcas que reinaram durante quase nove séculos em Portugal e cheguei a uma conclusão inesperada: só oito morreram mais velhos do que a minha actual idade.

A morte prematura foi uma constante no trono português, em qualquer das dinastias. E a esperança média de vida, em vez de aumentar, foi diminuindo. Basta anotar que o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, foi também um dos que viveram mais tempo - faleceu em 1185, aos 76 anos. Enquanto o último, D. Manuel II, morreu com apenas 42, em 1932.

Destas cabeças coroadas, apenas uma chegou a octogenária: D. Maria I, falecida aos 81 anos. De pouco lhe valeu a longevidade física: passou o último quarto de século de vida como doente mental.

Septuagenários, apenas três. Além do fundador do Reino de Portugal, já mencionado, D. João I chegou aos 76 anos e Filipe I (luso-espanhol e o primeiro de três que durante seis décadas ocuparam simultaneamente os tronos em Madrid e Lisboa) morreu aos 71. Ninguém mais.

 

Ser monarca, na História de Portugal, parece ter implicado quase sempre falta de saúde. Até reis sexagenários, tivemos poucos. Eis o registo, por ordem cronológica: D. Afonso III (falecido aos 68 anos), D. Afonso IV (66), D. Henrique (68), Filipe III (60), D. João V (60), D. José (62) e D. Miguel (64).

Os nove monarcas da Dinastia Afonsina, entre 1143 e 1383, viveram em média 54 anos. A Dinastia de Avis, entre 1385 e 1580, teve oito reis, com 51 anos como idade média. Seguiu-se o domínio filipino, de 1580 a 1640: três cabeças coroadas, 58 anos anos de longevidade média. Superior à da Dinastia de Bragança, que se estendeu de 1640 a 1910: 14 monarcas, sem ultrapassar os 50 anos como idade média.

 

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Não faltaram óbitos abaixo dos quarenta. Segue a lista, pela mesma ordem a contar do início: D. Afonso II (37 anos), D. Sancho II (38), D. Fernando I (37), D. Sebastião (24), D. Pedro IV (35), D. Maria II (34) e D. Pedro V (24).

Por causas muito variadas: D. Afonso II morreu com lepra, D. Duarte (46 anos) e D. Manuel I (52 anos) com peste. D. Afonso VI (40 anos) e D. Pedro IV foram vitimados pela tuberculose. D. João III (55 anos) e D. José sucumbiram a tromboses. D. Maria II (retratada na imagem ao lado) morreu de parto e seu primogénito, o malogrado D. Pedro V, enlutou os súbditos ao desaparecer muito jovem, com febre tifóide. Tinha a mesma idade do infeliz D. Sebastião, um dos dois reis portugueses que sofreram morte violenta, tendo perecido na batalha de Álcacer-Quibir (1578). Já no século XX (1908), D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço. Tinha 44 anos.

Há fortes suspeitas de que pelo menos três acabaram envenenados: D. Fernando I em 1383, D. João II em 1495 (40 anos) e D. João VI em 1826 (58 anos). 

Vidas breves, em grande parte. Vidas trágicas, em vários casos. Quase todas davam séries ou filmes de pendor dramático.

 

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D. Manuel II, último Rei português, faleceu em 1932 com apenas 42 anos

Pausa de 24 horas para meditar

Pedro Correia, 17.05.25

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- Portugal tem a oitava maior carga fiscal da OCDE.

- Em Portugal a despesa pública ronda os 45% do PIB e cresceu 28 mil milhões de euros entre 2015 e 2023: mais 32,3% em oito anos.

- 80% do investimento público em Portugal provém de fundos comunitários, não de verbas inscritas no Orçamento do Estado.

- 12,4% dos portugueses estão sujeitos a despesas de saúde superiores a 10% do rendimento.

- Portugal é o terceiro país da OCDE onde as despesas directas em saúde têm mais peso nos gastos dos cidadãos.

- Em Junho de 2024, o Estado empregava 749.678 pessoas, o número mais alto desde 1991.

- Hoje 61% da população adulta portuguesa depende directa ou indirectamente do Estado (funcionários públicos, pensionistas, beneficiários de prestações sociais e trabalhadores com salário mínimo fixado pelo Governo). Em 1980 essa percentagem era apenas 34%.

- 25% da população vive hoje apenas em dez dos 308 concelhos do país.

- 20% da população nascida em Portugal vive fora do país. Na Europa, esta taxa é apenas ultrapassada por Croácia, Bulgária, Lituânia e Roménia.

- Em 2022 o PIB per capita da Área Metropolitana de Lisboa era cerca de 30% superior à média nacional.

- Lisboa é a terceira cidade da Europa onde são inaugurados mais hotéis. Em Agosto de 2024 foram anunciadas 36 novas unidades hoteleiras, com um total de 4425 quartos.

- Há mais de 700 mil casas vazias em Portugal, 240 mil só nas áreas metropolitanas.

- Mais de um milhão de pessoas vivem sós e, destas, 55% são idosas. Esta percentagem põe Portugal em quarto lugar na UE.

- Portugal é o quarto país da OCDE com a taxa máxima do IRC mais elevada. Em 2023 era o que tinha a taxa máxima mais elevada dos países europeus da OCDE. Mais do que em Espanha, França e Reino Unido. 

- 5% das nossas empresas são responsáveis por 65% da receita do IRC.

- Segundo o Índice de Competitividade Fiscal Internacional 2024, Portugal estava em 35.º entre 38 lugares da Competitividade Fiscal Geral. A nossa pior classificação: penúltimo lugar da lista em matéria de fiscalidade das empresas.

- Importamos dois terços do peixe que comemos: o nosso consumo anual per capita é de 59,9 kg - mais do dobro da média europeia.

- Portugal é o segundo país da União Europeia com mais eleições em sete anos.

Nem no 13 de Maio se safam

Sérgio de Almeida Correia, 13.05.25

1600px-Caravaggio_(Michelangelo_Merisi)_-_The_CardCaravaggio, 1594, I bari (Os trapaceiros)

O resultado da sondagem do Barómetro DN/Aximage não engana. E mostra a consistência do juízo que os portugueses fazem dos seus dirigentes políticos. "[N]ão há um líder partidário com saldo positivo".

Estão ali, em São Bento ou na Gomes Teixeira, como podiam estar ao balcão de um banco, a receber formulários numa repartição qualquer, a tirar cafés ou a servir imperiais na tasca do pai.

São consistentemente maus aos olhos dos seus concidadãos para as funções que querem desempenhar. Mas estão convencidos de que nasceram para aquilo. Até tratarem da vidinha.

Incapazes de melhorarem a sua imagem, de apresentarem desempenhos decentes ou de suscitarem algum aplauso.

Os seus discursos vão permanentemente do irado ao monocórdico. São repetitivos, repletos de banalidades, desligados da realidade e das verdadeiras preocupações dos portugueses, recheados de frases feitas e lugares-comuns.

A grande pobreza vocabular das suas intervenções, o nível da linguagem, espelham a sua insuficiência formativa, o afastamento da realidade nacional, a falta de talento para a direcção política, a total ausência de carisma e de capacidade mobilizadora.

Nunca políticos carreiristas, semi-ignorantes, cábulas e com espírito de funcionário poderão alguma vez mobilizar um país, erguê-lo da mediocridade em que medra de eleição em eleição.

Ainda que a população fosse exclusivamente composta por bimbos com "sonhos de menino", o desencanto seria sempre o mesmo.

E isto já não é sina. É uma escolha consciente.

Porque até as crianças se recusam a nascer. E mesmo os mais capazes se conformam para não terem chatices e não se incompatibilizarem com os vizinhos.

Assim vamos seguindo, sem chama, sem apelo, sem horizonte, empurrando com a barriga, escovando os fatos, mudando a naftalina, seguindo atrás de uma elite de moribundos alegres.

Tivéssemos nós um Rimbaud e teria desertado para Java. Como um foi para a Índia e o outro para Macau. Para não terem de nos aturar. 

Cumprem obrigações como quem vai à missa dominical, virando as folhas do calendário, celebrando os aniversários, respeitando veneradamente as efemérides, sabendo que a seguir à Primavera virá o Verão, depois o Outono, antes de chegar o Inverno, enquanto se ensaia a ladainha seguinte e se cumpre a promessa ao longo da berma das estradas.

E no final dar-se-á a volta para que tudo se repita de novo. Com os mesmos e nos mesmos dias para que não se perturbe a paz dos mortos e a conformação dos vivos.

Venha então de lá o Dez de Junho.

25 de Abril de 2025

jpt, 26.04.25

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No telejornal ouço breves declarações do secretário-geral do PCP, ripostando certeiramente às esparvoadas declarações de um ministro (esta gente não tem quem lhes escreva textos?) sobre o 25 de Abril. Dizia Raimundo "isto não é uma festa, é uma celebração!" ("e as celebrações não se adiam", concluia. Pois podem-se suspender, claro. Mas não adiar).
 
Eu gosto de festas (se recatadas, que me falta energia para festivais e festarolas). De manhã um simpático vizinho convidou-me para me juntar aos dele (que me são algo simpáticos) no desfile. Recusei, grato, explicando-lhe (até lhe enviando um texto que li há dois anos num 25 de Abril) que nunca vou a este desfile. Pois não celebro (a democracia, ainda por cima) com comunistas - versões brejnevistas, enverhoxistas, polpotistas, maoístas, guevaristas, etc.
 
Nada oponho a festejar conjunto uma qualquer efeméride ou vitória sportinguista. Mas "celebrar" a democracia com os seus adversários? É bom para o folclore, para a mimalhice. E será também para a afirmação partidária (louvável o estômago dos da IL em marchar ali depois do PCP - donos do desfile - os ter impedido de participar). Mas não sou de "folclores".
 
Depois um grande amigo, fotógrafo, telefonou-me: "vou fotografar, queres vir?", e isso seria diferente, vestiria o colete de observador não-participante, "se calhar escrevemos um texto juntos" (para blog, que ninguém nos paga...). Mas desisti, sem energias pois acabrunhadíssimo com episódio que sofri há dois dias.
 
Percebendo-me desasado uma querida amiga passou por minha casa e levou-me ao café local. Ela avançou na sua amêndoa amarga, eu amornando uma parca imperial, logo unidos por outra amiga, minha "mana", esta optando pela sua Sagres. Escorremos umas horas. Na televisão, frenética, incessante, a cobertura da arruaça na baixa lisboeta, cometida por umas dezenas de histéricos. Nesse entretanto viu-se (centenas de vezes, sem exagero) a detenção de um antigo juiz. Mais uns sopapos e meia dúzia de bastonadas. Repetidas, vezes sem conta.
 
Ali ao lado, a avenida da Liberdade estava cheia - sim, da gente folclórica que mitografa que os democratas são os socialistas e os comunistas e que nós outros somos "faxistas", ainda hoje, em pleno 2025 o dizem (mas eles ou os seus filhos emigram ou vão estudar para os países governados pelos "faxistas", coisas do arco da velha).
 
Mas não é isso que me interessa aqui. O relevante é terem as televisões passado horas a propagandear aquela minudência holiganesca. (Com menos porrada do que em qualquer derbi Braga-Guimarães, já agora). No 25 de Abril os mariolas colonizaram a televisão... E os "jornalistas"? Adoraram.

Fake-Indie?

jpt, 25.04.25

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"Indie", no rock ou no cinema e até mais longe, significava algo independente, "rebel, rebel", escapando-se aos ditames dos mercados, económicos e até ideológicos. Às vezes, diante de obras assim anunciadas percebe-se que o termo também se tornou um "pin", mera publicidade para nichos, assim ordinário, quinquilharia de loja de recuerdos, dessas máscaras do tráfico de neo-coolies. Outras vezes nada disso, surge gente a "rasgar", alguma depois alcochoando-se no mainstream, outra mais arisca, seguindo os seus rumos. E também aos seus protectores - os públicos, mais do que tudo; patrocinadores/mecenas; produtores - se presume alguma "rebeldia", um incómodo não confrontacional que seja, diante dos constrangimentos das dominantes tendências, o mercado mainstream.
 
Estava eu no comboio, em viagem pitoresca. E recebi uma mensagem de confrade bloguista, que me julgava conhecedor do trabalho referido - o filme Balane 3, que o realizador Ico Costa fez em Inhambane, Moçambique. Mas desconheço, o realizador e o seu trabalho, parcialmente feito naquele país.  Informava-me da suspensão da apresentação do filme no festival Indie Lisboa. Devido a num sítio da internet ter sido publicada uma carta aberta anónima, denunciando-o como culpado de violência doméstica.
 
Não faço a mínima ideia se isso é verdade. Quem vê filmes não vê corações tal como quem vê caras não os vê. E eu nem sequer aos filmes ou à cara de Carreira vi. Mas há uma denúncia? Investigue-se. Julgue-se, se houver suspeitas fundamentadas. E sentencie-se, consoante as conclusões obtidas. Mas um festival aprestar-se a retirar os seus filmes devido a isto?
 
Se um escritor for acusado de plágio é curial retirar-se o(s) livro(s) de circulação, até se aquilatar da veracidade do caso. Mas se for acusado de bater no vizinho ou caluniar alguém? Vai-se às livrarias e recolhem-se os livros? Se uma loja vende produtos falsificados ou roubados será normal ser encerrada. Mas se o seu dono é acusado de não pagar impostos ou pontapear um polícia, encerra-se-lhe o estabelecimento? Se um empresário atropela um transeunte numa passadeira deverá ser detido, julgado (e condenado!!!). Mas ainda o pobre peão está nas "Urgências" a tratar das (espero que apenas) escoriações e já está uma brigada a fechar a empresa, "até ordens em contrário"?
 
E um festival que se diz "indie" faz uma aleivosia destas? Os seus organizadores não sabem apartar as coisas, tantos as jurídicas como - e o que é ainda mais inadmissível - as relativas à liberdade criativa? Gentes arvoradas em "indie" que se comportam até pior do que os organizadores das quermesses das paróquias, aflitos com o "parece mal"? Subjugadas aos itens de uma agenda "correcta" - "interseccional", dirão os teóricos da tanga -, que sobrevaloriza, sublinha, histeriza, determinadas questões (género e sexualidade; identidade - e concomitante dita racialização) diante de outras?
 
Sem rodeios, basta entrar numa reunião "indie" de "lisboa" para perceber a mole sociológica e sua mundividência mainstream. "Bem-pensantes" de "boas-causas", já encanecidos imaginam-se como de "esquerda" - e hoje, 25.4, irão "à Avenida". E vêem-se como se "indie" fossem mas tratam-se apenas de meros índios de reserva, acobertados com os restos deste casino que é o Estado. Amodorrados em constante powwow, qu'entre eles é que se sabe das coisas, desalienados julgam-se, sendo os "outros" vis exploradores "extractivistas" ou coisa parecida.
 
Mostra-se assim o festival um fake-indie, amarrado ao mainstream político do "correctismo". E, deste modo paradoxal, é de contestar qualquer subsídio ou facilidade estatal que se lhe dê. E apupar as fundações - algumas também bem entrelaçadas com o tal Estado - que lhes dão uns trocos ou favores para irem andando. A troco do "respeitinho". Que fazer, repito? Ser indie, contra estes servis. 

Cruzeiro, a rapper no PS

jpt, 11.04.25

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Eva Cruzeiro, a rapper Eva Rap Diva, será candidata a deputada pelo Partido Socialista. Na semana passada isso deu polémica, devido a declarações que proferiu há 3 anos, num contexto em que estava sob "liberdade criativa", como afirmou, pois declamou (cantou?) numa desgarrada típica no seu estilo musical: “Eu sou africana, tou-me a cagar para a guerra na Ucrânia. Esses gajos que se matem como nós nos matamos. Eles não se importam connosco, então, nós não nos importamos. Eu sei que isso se cair na net, muitos vão começar a falar mal, mas não me compete agradar a toda a gente.

O assunto é-me muito interessante. E é passível de abordagem por várias portas. Claro que se pode ser cáustico, e acusar o PS de demagogia por cooptar uma artista em busca de votos. Mas é até tradicional que os partidos convidem personalidades públicas para "animarem" as suas listas, assim "convidando" eleitores flutuantes (Rosa Mota no PS, Saramago no PCP, o fadista do PPM, para exemplos).  E também podemos invectivar os modos da rapper - alguém a autodenominar-se "Diva" é um bocado piroso. Mas, convenhamos, os nossos "cantautores" (ou "cantores de intervenção", se se quiser) mimetizavam os da chanson française (ou "franco-belga", para se ser mais exacto). E os nosso rockeiros seguiam os (bons) tiques e toques do rock'n roll alhures... Vamos criticar os da nova geração pela mesma tendência para a cópia identitária?

Mais corrosiva será a evidente comparação - o PS é o regime, mesmo se agora na oposição, tem-no sido desde há largas décadas. Uma rapper, com a parafernália simbólica do anti-sistema, a enfileirar-se no partido é um bocado como se o José Mário Branco tivesse sido candidato do PS em 1987. Ou o Cabeleira nas listas encabeçadas por Fernando Nogueira em 1995... Mas, sendo franco, vendo o perfil e percurso da ainda jovem candidata Cruzeiro, percebe-se que ela não é uma "rebel without a cause". É artista, sim. Mas também estudante, investigadora, e activista sobre questões políticas e sociais. Ou seja, não é (não será) um mero "cromo" nas listas, é uma jovem empenhada na política. Assim justificando a ascensão a lugar elegível. 

Há outra dimensão nisto: tantos lamentam que os jovens não se interessem pela política. E mais, que aqueles que surgem na política sejam meros (e rasteiros, nisso videirinhos) "jotinhas", a papaguearem o que as direcções dos partidos dizem, na volúpia da ascensão "laboral". E de repente aparece uma jovem a interessar-se pela política partidária, e a ter opiniões dissonantes - ainda para mais no passado - das lideranças. E critica-se? É um absurdo esta verrina crítica. Ou seja, e independentemente do meu desejo da derrota do PS, bem-vinda seja Cruzeiro.

Outra coisa que é salutar: Cruzeiro apresenta-se como portuguesa da Arrentela (mal comparado tal como eu sou dos Olivais). E sendo filha de angolanos exerce (vive, activamente) essa "duplicidade" (no bom sentido, o de multiplicidade, complexidade) identitária. Trabalha, empenha-se, debate, participa, nas questões daqui e nas do país dos seus pais. Isso é uma riqueza imensa, dela pessoal mas também de quem com ela interagirá. Chama-se, para incompreensão de muitos críticos, cosmopolitismo. Ou seja, e de novo, bem-vinda Cruzeiro. E seria bom que os outros partidos democráticos se associassem nesta recepção. Apriorística, para depois se passar às hipotéticas críticas às suas posições futuras.

Ficam-me três coisas para referir: a primeira é algo que as extremistas feministas - e Cruzeiro anuncia-se como feminista - chamam de "mansplaining", termo inglês que significa quando alguém com pénis explica uma coisa óbvia a alguém com vagina, mas que eu exijo que seja considerado como um "oldsplaining": entrar no PS implica que, mais tarde ou mais cedo, se fica igual aos tipos do PS. Não há nada a fazer, não há antídoto. E é letal (ainda que dê empregos).

A segunda é relativa ao choradinho da desgarrada por Cruzeiro proferida há três anos sobre a guerra da Ucrânia, aquilo dos sacanas dos brancos "não se importam connosco" (africanos), pelas matanças em África, etc. e tal. Pois há três anos, diante do coro de aleivosias similares veiculadas por maduros moçambicanos sobre o assunto - esse que se lixem os "europeus" (entenda-se, os "brancos") nisso da Ucrânia porque não nos ligam, que Cruzeiro também então balbuciou - botei um texto: "O Barómetro Moral do Sul". O qual, com toda a honestidade, é irrefutável, dada a sua base empírica. Entenda-se bem: este choradinho, da culpabilização dos "brancos" pela sua desatenção pelos "problemas" em África é argumentação ideológica dos cleptófilos, dos adeptos das cleptocracias, tantas delas assassinas, em África. E seria melhor que uma rapper e/ou política desgarrasse sobre isso... Em vez de apenas papaguear a demagogia servil.

Finalmente, e para além de Cruzeiro, a propósito desta situação fui ver o seu perfil nas "redes sociais", nas quais é abundantemente seguida. Tudo curial, uma artista e investigadora jovem, que se apresenta em palco, ou em convívio, na frescura do seu aspecto, às vezes mais formal, outras vezes menos, e também com os seus interlocutores, uns conhecidos, outros menos, um ou outro até célebre. Usando as "redes" para propagar o seu percurso, propagandear o seu trabalho - em particular como "rapper", esse forma musical menor, qual literatura "lite".

Há pouco tempo reagi à disparatada forma como um intelectual português, João Pedro George, investiu sobre uma ... jovem escritora, Madalena Sá Fernandes. Acusando-a de se valorizar através da visibilidade nas "redes sociais": "A "lisboa" Literária". Ora neste caso é exactamente a mesma coisa. Alguns, idólatras das "letras", virão dizer que "literatura" e "música popular" são diferentes, que a análise "sociológica" das formas de afirmação dos seus agentes cumprem um diferente "dever-ser". Poderão argumentar como quiserem: mas eu sempre ripostarei desta forma, lembrando esta cena da tão simpática série "The Byrds of Paradise" (de 1994), na qual o Arlo Guthrie remetia as origens do rap para o Dylan - sim, esse mesmo que depois ganhou o Nobel ... da Literatura.

Ou seja, os conteúdos e as formas, a vacuidade da "liberdade criativa", do contestatário "lite" da demagogia, de uma jovem "africana" (é assim que Cruzeiro se define, no seu militante racialismo), passa incólume à "crítica", contrariamente ao afã sanguinolento que se abate sobre uma jovem "branca", sua congénere. Isto é apenas efeito dos espartilhos ideológicos da tralha "decolonial", abundante em Lisboa.

Vou ver o Tim

jpt, 04.04.25

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(Texto para o meu novo  "O Pimentel". Onde colocarei os textos mais "pessoais", desadequados aqui. Fica a informação para quem o quiser/puder subscrever, em modalidade paga ou gratuita)

 

Hoje vou ao São Jorge ver o espectáculo do Tim. Eu gosto dos (seus) Xutos. Continuo a pensar que o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. Sim, então o mais-velho Soares fez-nos, para o bem e para o mal, “mediterrânicos”, desse mar do meio afinal charco do qual ainda não saímos. E sim, nessa época Lopes e Mota convenceram-nos que poderíamos ser campeões. E, mais ainda, sim, Saramago (e Lobo Antunes) explicaram que até éramos inteligentes. Mas o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos. E estou feliz pois, há poucos anos, tive a honra de o (re)conhecer - cruzara-o superficialmente “nos tempos” - e o privilégio de lhe dizer isto mesmo. Julgo que o Ayres - o marechal Ayres, se se quiser aceitar o que sinto - não terá desatinado com o meu emotivo arrazoado, até balbuciado.

Mas isso - esse “isso” que agora, velhote, me é o fundamental - é outra coisa. E nada obsta a que os “meus” hinos, as minhas memórias, sejam as do Xutos. Desde o inicial concerto com os Minas e Armadilhas nos meus 15 anos, já nem me lembro onde correu esse verdadeiro “punkismo”, terei bebido demais… Mas lembro bem o “1º de Agosto” do Rock Rendez-Vous em 1984, ali ido com amiga boazuda, mais velha e com o namorado ausente - a malta dos Olivais sabe do que, de quem, falo, mas quarenta (!!!) anos depois já nem é inconfidência -, eu puto num “a ver no que isto dá”, mas a esquecer-me disso - até porque ela também indiferente, diga-se -, pois logo exultante, pulando, diante do “Já estou farto de procurar / um sítio para me encaixar… / eu vou para longe, para muito longe / … falta-me o ar para cá ficar”, isso que vim a seguir na vida. E sim, naquele dia terei urrado “se me amas / se me queres…”, mas para o ar, desarrumado. Vinte anos!, tinha, e ali com uns tipos a rockarem o que tinha eu no âmago…

E nesse longo entretanto vi-os imensas vezes. Um dia num qualquer recanto do Ribatejo, a esgalharem imenso num meio vazio rinque de patinagem, ali tendo uma primeira parte dos Radar Kadafi - a banda da minha rua, a Bolama, quando o Tiago, o Guli, o Ambrósio, o Fernando e o Sampaio tinham decidido que seria eu o “road manager” da banda então em ascensão, eu puto atrapalhado (e ganzado, diga-se) em demasia para ser “manager” de mim-mesmo quanto mais de outros negócios “on the road”…

E lembro o 1986, quando o amigo António Miguel - ele próprio um mito no nosso meio estudantil, pois “manager” dos à época rutilantes Trovante, veterano de palco da festa do Avante, um gajo soberbo, cabeça muito madura (digo-o mesmo, então meu colega de grupo de faculdade, no meio daquilo tudo o que fazia) - me deu acesso ao então celebrado Xutos no Pavilhão do Restelo. Assim eu ascendendo ao “lá em cima”, onde estava ele, produtor, camarote ou lá o que era. E eu, carregado do tão estupidificante haxe, a ver e a urrar o “conta-me histórias daquilo que eu não vi” já e a clamar “amas a vida e eu amo-te a ti” para aquela quem nem ali estava. Mas também momento (crucial, sim) de transição pessoal, percebi-o, pois subindo o degrau para estatuto de observador analítico, ao olhar lá para baixo, o recinto do pavilhão apinhado de gente exultante, imensas bandeiras agitadas, todos “loucos” com os Xutos - “isto é um fenómeno”, disse-me, aprendiz de antropólogo, para logo voltar ao êxtase diante de quem me cantava avisava “contra tudo lutas / contra tudo falhas / todas as tuas explosões / redundam em silêncio”.

Muito tempo depois, e em tão diferentes tempos…, no final do milénio as paupérrimas mentes de então do Instituto Camões enviaram os Xutos a Maputo, num festival (dito “Pontes Lusófonas”) que eu logo percebera me viria a custar o belo e apetecido emprego. Mas isso, o tétrico embrulho, não era coisa deles, lá foram… Na Feira Popular acorreram algumas centenas de pessoas. Eu, mesmo se amargurado (forma educada de dizer fodido) com tudo aquilo, escondi-me na felicidade de … ver os Xutos em Maputo. Ali na primeira fila, já sem o fato-e-gravata, que então me era curial, e ao lado do patrício Hernâni (um rijo heavy barbudo e gordo, desses “como deve de ser”) alçando os nossos “X”… Subi ao camarim, o Kalu a perguntar-me “estes gajos não gostam de rock?”, diante do silêncio que os acolhera, eu a rir-me, dorido com a imbecilidade de quem os tinha ali levado, “sim” mas “não vos percebem”. E tinha sido uma bela rockada… Logo depois a Nice, a belíssima Nice - das mulheres mais bonitas que conheci na vida -, a verdadeira princesa de Pemba, ofereceu uma festa em sua casa, deu para todos nos conhecermos.

As décadas foram passando. Regressei à “terra”, num riff muito desafinado destruí a minha família! Ou talvez apenas a mim mesmo. Poucos anos depois a minha então juvenil filha pediu-me para a acompanhar a um festival rock. Trinta anos depois voltei a pedir uns bilhetes ao amigo António Miguel, o qual não via há anos, desde que fora a Maputo num concerto qualquer… E lá segui, já um pouco trôpego, à Costa da Caparica para um “estranho brilho na areia molhada”, mas já mais para que o sentisse a minha filha Carolina, qu’a vida é agora dela… Mas fiquei estupefacto, pois à chegada dos Xutos logo ela - e os seus, putos quatorzinhos - entraram em modo rock, entusiasmados, conhecedores… “pai, não tocaram a "Maria”", queixava-se depois, no fim, eufórica, a minha filha, mostrando-me que seguiam eles, afinal, fiéis aos mais-velhos. E “Mulher do Leme” ali a sonhei, em erupção de carinho amoroso…

Depois zanguei-me com os Xutos, coisas de se associarem aos políticos. Não era preciso, sempre tinham passado ao lado disso - sim, iam à Festa do Avante mas … sempre haviam seguido sem as merdas do “sistema”, num verdadeiro it’s only rock’n roll e nós gostamos.... Mas ao vê-los no falso Rock in Rio, entenda-se bem, ao vê-los no festival no velho “Cambodja” - esse onde os nossos iam buscar o “cavalo” -, a meter o Marcelo, o Ferro Rodrigues, o Medina e o Costa, essa gente a pantominar o nosso “X” em pleno palco? A ira foi-me terrível: apaguei os postais de blog em que os louvava, deitei fora os CDs que deles tinha, parti os vinis…

Claro, quando depois o Zé Pedro morreu fui até ao cemitério aqui nos Olivais - e nisso ombreando com a mais bela beldade aqui da rua, lendária mesmo, então já sexagenária avó, “nos tempos” inacessível tamanha a diferença de idade, aqueles 3 ou 4 anos… Fui lá para fazer o X à passagem do féretro. Fi-lo! Com lágrimas internas, despedindo-me do verdadeiro “Homem do Leme”.

Mas a zanga não podia demorar. Pois há anos tentei fazer um doutoramento, já ia nas 400 páginas ou mais. Desvaneceu-se entretanto - para quê fazê-lo?, para quê “remar, remar / forçar a corrente” se sabendo-me já sem cabimento? Mas nesse esforço, inglório, escrevera 30 páginas sobre o “Método” da minha disciplina, essa antropologia, as quais quis que fossem um “berras às bestas / que t(m)e sufocam / em braços viscosos / cheios de pavor”, os eunucos convictos que pululam nos “corredores”. E apresentei-me, nu, pobre pila à mostra, (quase) concluindo sobre como trabalhei 20 anos em Moçambique, como fui antropólogo ao som dos Xutos, deste modo:

“(Lá no Zambeze) Navegávamos então, percorrendo devagar aquela água dos hipopótamos e crocodilos, aqueles submersos apenas assomando, alguns destes espojados ao sol nos espraiados tão nossos próximos. De súbito, num pequeno braço de rio entre o canavial, atascámos num baixio. O piloto foi lesto a entrar na água para empurrar o barco, seguido pelo intérprete. Hesitei, para logo entender que o meu peso muito influía. Saltei também, num ápice pensando no enorme réptil que cruzáramos há tão pouco, tão ali próximo, e enquanto empurrava perguntei, até incrédulo com tudo aquilo, “E o crocodilo? …” para o piloto responder, com sorriso rápido, até doce, num cume esperançoso, “Não há-de vir!...”

Lestos nos desatascámos, logo partimos e pouco depois saímos daquele serpenteado entre as ilhotas, reentrando na vastidão do rio na rota para a margem distante. Então, já naquele horizonte tão mais amplo, lembrei-me de uns versos, aqueles “E mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / Vai quem já nada teme, vai o homem do leme (…) / A vida é sempre a perder”. E senti o quanto esse “homem do leme” era o ali homem do leme, no seu percurso relapso à ascensão nas “estruturas”, no partido-Estado, à hipotética acumulação, ao prestígio, preferindo o envelhecer naquela disponibilidade, radical, para o que há-de vir, naquele “não há-de …”, que se “a vida é sempre a perder” isso não “há-de” ser hoje. Cantado assim, há décadas, lá no meu país da minha juventude, assim a mostrar a enorme semelhança da amplitude de anseios e valores, práticas e caminhos, bem para além dos diferentes contextos e sítios onde decorre o devir, bem para além das coisas e ditos a que àqueles damos corpo.

E trauteei, lá durante o rio. Com ele ombreando.”

E ontem, já quarenta anos depois, o António Miguel pergunta-me “queres ir ver o Tim?, dou-te um bilhete”, “está a esgotar, despacha-te”. Claro que sim!, entusiasmo-me, lesto, pronto a ouvir o Tim d’agora, num “conta-me histórias, daquilo que eu não vi”. Hoje anuncio na vizinhança que irei ao concerto. “Onde vais comprar as ganzas?”, riem-se, “aos Candeeiros? ao Gordo?”, já com sarcasmo… arqueológico (sabem, sacanas, que a última vez que comprei uma pedra tinha 21 anos). “Vais com quem?”, avançam, cruéis, sabendo que não tenho “miúda” para içar às cavalitas, e mesmo se a tivesse a radiculite o vetaria. Mas estrearei o cantil que herdei do meu pai, vou comprar a vodka barata e bebível do Lidl, e seguirei ao São Jorge, “à minha maneira”, “Sacola às costas, cantante na mão”. Pois, sei bem, ainda “tudo em mim, é um fogo posto”, até porque “a vida é sempre a perder”.

Tim ao Vivo no Eléctrico - concerto completo

O Desplante de Desventura

jpt, 02.04.25

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"Já viste a entrevista do Boaventura", perguntam-me?... "Sim!" respondo. E sobre o homem também já escrevi - várias vezes ao longo dos anos, de muitos anos, tanto (em registo de blog) sobre o seu "sacanismo" como (em registo "academês", aquele das notas de rodapé e bibliografia apensa) sobre o seu apatetado teor ideológico, um mero lusotropicalista de pacotilha (em ideário e em prática...), algo que contradiz tudo o que de "revolucionário" (enverhoxista, não se esqueça) foi balbuciando sob retórica vigorosa. E também o fiz agora, há algum tempo, sobre este "Affaire Coimbra", esta miserável abjecção que o recobre, de modo indelével.
 
Não me vou repetir. Mas deixo três apontamentos, dedicados àquelas (sim, o género é correcto) que sobre isto antes me escreveram com ... dúvidas (no registo "há mulheres que...", as "provocadoras...", "nunca se sabe...", "se lá estavam era porque...").
 
1. Há algum tempo o velho publicitou (afrontando a nossa etiqueta de recato) um lamentável diagnóstico de doença gravíssima de uma sua companheira colega. E usou-o para proclamar a sua inocência e o teor até assassino das suas acusadoras. Honestamente: nunca vi tamanha indecência. Tétrica, amoral.
 
2. Agora, em longa entrevista televisiva, gaba-se de ter sorte com as mulheres, de ser atraente. Sabe-se que a docência é composta de sedução e nisso tem uma dimensão de erotização (foi o Steiner que o escreveu, não sou a dizê-lo...). E nesse registo sempre lembro que dois dos meus melhores e íntimos amigos casaram com antigas alunas. Tendo começado os namoros... depois de terminado o vínculo docente. Há uma diferença gigantesca. Não de grau, mas de natureza.
 
Fui professor bastante tempo. As alunas (e as jovens colegas) têm uma característica: são novas, por si só um item de beldade. Algumas são belíssimas. E/ou interessantíssimas. Algumas são insinuantes - porque seduzidas ou porque atrevidas (aquilo do "comer o professor" também existe). "Raisparta" diz o homem comum... Ao longo do meu período docente estive escudado diante disso - de facto, mesmo que seja ridículo dizê-lo, eu amava a minha mulher, mesmo. Mas isso não impede que um tipo diga, sinta, "raisparta que esta miúda.... ah, se fosse no meu tempo!". Só que sempre pensei, e alardeei - e talvez por esse meu escudo amoroso - "uma aluna (ou uma jovem assistente, entenda-se), uma aluna é um homem!". Isto não é um homofóbico, é só um heterossexual a falar. Não estou a ser moralista, cada um vive o casamento como quer. Estou a ser deontólogo, um professor não tem "sorte com as mulheres".... Se estes alunas ou tuteladas. Pqp o velho!
 
3. Neste seu execrável e negacionista exercício retórico (proporcionado por uma estação televisiva) o velho coimbrão veio dizer que nos anos 60/70 todos diziam "galanteios", misturando as coisas, reduzindo as acusações de assédio sexual (carnal) e laboral (coisa terrível que abunda na universidade) a umas "bocas"...
 
Ontem estive horas com um amigo (camarada, "mano") e uma amiga, já dos "tempos". Mulher belíssima, divertidíssima. A partir das 3 ou 4 imperiais cumulei-a de galanteios, até para sorriso (cúmplice) do amigo... O melhor (ou maior) terá sido quando quis pagar a conta (dolorosa, decerto) e o empregado (lisboeta dos antigos) disse "a senhora já pagou", e eu resmunguei o "velha guarda" machista "então deixa a senhora pagar?!" e ele me respondeu, surpreendido, "então?!, julguei que eram o mesmo!!!". "Hé, pá, homem, esse é o maior elogio que me fazem desde há anos", exultei para gargalhada na mesa... Estes galanteios em 2025 importunaram, agrediram, pressionaram? Ou foram contextuais, simpatias inócuas, semanticamente perceptíveis e aceitáveis, entre pares? Entenda-se bem, o velho "sociólogo" enverhoxista coimbrão aldraba as relações, esconde as questões do poder...
 
4. Deixemo-nos de merdas, é inadmissível que uma estação televisiva que emite com alvará público dê espaço a mariolas. Pois é "deseducativo". E, acima de tudo, é ordinário.
 
Finalmente, o velho tem o desplante de afirmar que o agente que o "calunia" é o "neoliberalismo". Ilustro com esta fotografia, para aí com 20 anos, talvez da província de Nampula. Ou na Zambézia. Tão mítica como a argumentação dele. Mas não vergonhosa, ao invés da dele.

A lei das consequências não intencionais

Pedro Correia, 06.03.25

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Cometemos o erro de procurar interpretar sempre os acontecimentos políticos à luz da estrita racionalidade. E assim falhamos o alvo. Porque a política obedece demasiadas vezes àquilo que Henry Kissinger designava, com sapiência irónica, «a lei das consequências não intencionais». Alguns actos produzem determinadas efeitos que nunca chegaram a ser previstos e estavam longe de ser desejados. 

Vem isto a propósito da alucinante cascata de acontecimentos que está prestes a gerar nova dissolução de uma legislatura e as terceiras eleições parlamentares em três anos no nosso país. Depois de ruir um governo com maioria absoluta, o actual executivo - empossado há escassos 11 meses - prepara-se para cair. Mesmo após superar duas moções de censura no hemiciclo - a primeira só com 50 votos favoráveis em 230 deputados, a segunda tendo recolhido apenas 14 votos de apoio. Nenhuma dessas moções foi sequer apresentada pelo principal partido da oposição, que aliás inviabilizou ambas no hemiciclo. O que torna tudo ainda mais anómalo.

Impôs-se, portanto, a lei das consequências não intencionais: a aparente estabilidade de anteontem degenerou em toada de montanha russa para o caos do momento que só favorece o mais desbragado populismo político. Sem que nenhum dos protagonistas, aparentemente, o tivesse desejado. Sem indícios de mudança substancial de opinião entre os portugueses que foram às urnas a 10 de Março de 2024. Sem a menor garantia de que o próximo acto eleitoral produza uma solução governativa mais estável. Conduzindo o País a um ciclo de três eleições em oito meses (legislativas, autárquicas, presidenciais) quando a actual situação na Europa e no mundo é a mais explosiva em muitas décadas.

«Há quase um sentimento de I República», observou ontem Carlos Moedas, em entrevista à SIC Notícias. Frase certeira. Lembremos esse período nada recomendável do nosso século XX: em menos de 16 anos houve sete legislaturas, oito presidentes, 45 governos e uma junta revolucionária. Num quadro de convulsões sociais, instabilidade económica e violência política que desembocou em meio século de ditadura. 

A história pode sempre repetir-se: basta certos actos impensados produzirem determinadas consequências não previstas.

Alguém devia alertar os aprendizes de feiticeiro para evitarem brincar com o fogo.

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (8)

Balanço

Cristina Torrão, 21.02.25

A 23 de Dezembro, três semanas e meia depois da sua chegada a casa, Jette fez um balanço da sua viagem. Ao organizar um livro de fotografias, recordou, passo a passo, as suas vivências e apercebeu-se, mais do que nunca, da singularidade da sua experiência.

Atravessou o rio Reno de ferry; amarrou a Pinou à porta de um supermercado; dormiu num estábulo; o pai levou-a através da França, para que ela pudesse retomar a viagem em Burgos; cavalgou ao longo do Atlântico; dormiu em casa de pessoas desconhecidas, incluindo homens acabados de conhecer, apenas porque eles a abordaram de maneira simpática e perguntaram: “queres dormir aqui?”. Porém, diz Jette, nunca sentiu receio ou insegurança. Todas as pessoas se revelaram prontas a ajudá-la, com a melhor das intenções.

Jette notou igualmente a diferença que a viagem operou na Pinou. A égua dormiu em alguns sítios sozinha e/ou ao ar livre, assim como num estábulo com cavalos que lhe eram estranhos. As duas atravessaram florestas solitárias, Pinou chegou até a caminhar solta, à sua frente. A égua emagreceu um pouco, mas seria praticamente impossível evitá-lo, numa jornada tão longa. Mantendo-se em contacto com a dona, Jette sabe, entretanto, que a Pinou recuperou o seu peso normal e se encontra calma e feliz. A relação de completa confiança estabelecida entre ela e o animal, as pessoas incríveis que conheceu e as lindas paisagens foram, segundo a moça, as melhores vivências.

Ao folhear o livro de fotografias, Jette apercebe-se de como foi incrível elas não terem desistido. E conseguir regressar à Alemanha, sem levar a Pinou consigo. O facto de logo ter sido solicitada para tratar, montar e educar novos cavalos ajudou-a a diminuir as saudades da Pinou.

A moça agradece ainda o apoio dos pais, do namorado, de família, amigos e da dona da Pinou. Acompanharam o seu diário de viagem, comentaram, deram-lhe ânimo. As novas tecnologias têm muitos aspectos positivos, basta dar-lhes o uso adequado.

Jette diz que nunca se sentiu sozinha, durante a viagem, pois tinha a Pinou a seu lado. E eu penso ter sido precisamente isso a dar-lhe uma permanente sensação de segurança. Ela não fez a viagem de bicicleta, tinha um animal consigo, um ser vivo. Embora a Pinou pertença a uma raça relativamente pequena, um cavalo impõe sempre respeito. É o suficiente para afugentar quem nada entende de animais, ou cobardes. E sabemos: homens que molestam mulheres são cobardes. A não ser que estejam munidos de uma arma para, neste caso, dar cabo do animal. Mas isso, na nossa Europa, é felizmente raríssimo.

Neste postal, a comentadora Susana V. não deixou de referir ser imprudente “uma jovem de 20 anos com a responsabilidade enorme de tratar de uma égua, a viajar por terras despovoadas”, embora diga também que “as boas aventuras são muitas vezes comportamentos inconscientes que correram bem”.

Admiram-se sempre as aventuras dos rapazes, enumerando, com entusiasmo, os perigos por que passaram. Em relação a raparigas, somos mais críticos. Há mais perigos à sua espreita. E duvida-se mais facilmente das suas capacidades (neste caso, em tratar de uma égua). Mas a Jette provou que não tem de ser assim.

E não, não pretendo igualar os sexos, mas o respeito e a consideração que se lhes devota. Trata-se de não ver, num ser humano, uma presa à mercê de alguém, apenas por ser mulher. Por mais que muita gente insista em que a sociedade evolui por si própria, num processo natural, sem necessidade de exageros e sobressaltos, estes são essenciais. Tem de haver solavancos e rupturas. São necessárias pessoas que se atrevam a dar passos no desconhecido, quebrando tabus. A Jette não foi a primeira mulher a viajar sozinha. Mas mulheres dessas ainda representam uma excepção.

E não esqueçamos igualmente a mentalidade europeia. Foi na velha e bela Europa que isto aconteceu. Não poderia ter acontecido em muitas outras partes do mundo.

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Um ano com D. Dinis (5)

Aclamação de D. Dinis e a questão do Algarve

Cristina Torrão, 16.02.25

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D. Dinis foi aclamado rei de Portugal há 746 anos. Tinha apenas dezassete.

A aclamação deu-se depois da morte de seu pai, nesse mesmo dia. D. Afonso III foi sepultado em São Domingos de Lisboa. Dez anos mais tarde, foi trasladado para Alcobaça.

Também a 16 de Fevereiro, mas doze anos antes, foi assinado em Badajoz o documento que legitimou para sempre a integração do Algarve em Portugal.

D. Afonso III conquistara as praças do Algarve com a ajuda da Ordem de Santiago, cujos cavaleiros portugueses estavam dependentes do Mestre castelhano. Por isso se sentia o rei Afonso X de Leão e Castela com direito a exigir vassalagem ao monarca português por esse território.

Conquista de Loulé.jpgConquista de Loulé, Luís Furtado

Os primeiros passos para a resolução do problema foram dados em Maio de 1253, quando D. Afonso III, ignorando o seu casamento com Matilde de Bologne, desposou a filha mais velha do rei castelhano (ilegítima) D. Beatriz. Depois do nascimento de D. Dinis, Afonso X de Castela enfeudou o Algarve ao neto, a fim de acabar com a situação de vassalagem do rei português ao castelhano, causadora de mal-estar em Portugal.

Porém, se ele aliviou a situação, não a resolveu. Uma vez chegado ao trono, D. Dinis deveria igualmente prestar vassalagem ao rei castelhano por aquele território. Iniciou-se uma acção diplomática e, no dia 16 de Fevereiro de 1267, em Badajoz, Afonso X concordou em renunciar a todos os seus direitos sobre o Algarve, recebendo em compensação as povoações de Aroche e Aracena, conquistadas por Afonso III em 1251. O Guadiana ficou a demarcar a fronteira entre Portugal e Leão, a partir da foz do Caia para sul. Essa fronteira seria modificada trinta anos depois, pelo próprio D. Dinis, no Tratado de Alcañices (12 de Setembro de 1297).

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Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (7)

Cristina Torrão, 14.02.25

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O atravessar da fronteira (frame)

14 de Novembro de 2024, 68º dia de viagem: partindo de La Alamedilla, Jette atravessou a fronteira, perto de Aldeia da Ribeira, concelho do Sabugal.

Chegava finalmente a Portugal e a paisagem encantou-a, desde o primeiro minuto. Só o tempo não estava agradável, com frio e chuva miudinha. Jette escreveu no seu diário nunca ter pensado passar mais frio em Portugal do que em Espanha. Típico de alemães, têm sempre a ideia de que em Portugal nunca faz frio…

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Continuam as manadas de bovinos

Jette penetrou na Reserva Natural da Serra da Malcata, atravessou um rio e passou por um lago formado por uma barragem. Depois de uma consulta ao Google Maps, presumo ter sido na zona de Alfaiates.

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Mais tarde, ela enviou a sua localização à pessoa que a hospedaria, em Souto. Um homem veio ao seu encontro, igualmente a cavalo (nada devendo, em cortesia, aos espanhóis) e guiando-a até às cavalariças, onde a Pinou ficou instalada.

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Na aldeia, Jette pernoitou numa, como ela escreveu, “casa enorme”. Depois do jantar, foi levada a um bar, onde toda a gente falava inglês (nisto, temos claramente vantagem em relação a nuestros hermanos), proporcionando-lhe bons momentos de conversa.

15 de Novembro de 2024, 69º dia de viagem: de Souto a Vale da Senhora da Póvoa.

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À despedida, o dono da quinta onde Jette pernoitou surpreendeu-a com uma t-shirt da sua propriedade.

Pelo caminho, o mapa mostrava uma ponte, onde poderia atravessar um pequeno rio. Lá chegada, porém, Jette viu apenas uma passagem estreita, sem qualquer tipo de protecção.

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Não vislumbrando alternativa, Jette fez-se à travessia arriscada. E a Pinou passou o teste com bravura.

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Esta foi uma etapa cansativa e demorada, com subidas e descidas íngremes e alguma chuva.

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Começou a escurecer, antes de chegarem ao seu destino, e tiveram de usar uma estrada com trânsito automóvel. Mesmo provida de colete reflector e iluminação no seu capacete (frente e traseira), Jette esteve em permanente alerta, respirando de alívio quando finalmente chegou.

Foi convidada para jantar e passou um serão agradável. Mas, quando se recolheu, lembrou-se dos cães acorrentados, ao longo do caminho, e acabou por escrever no seu diário (tradução minha): “Em Espanha e em Portugal, os animais são frequentemente mantidos de maneira diferente ao que estou habituada: muitos cães estão permanentemente acorrentados, burros e cavalos trancados, ou amarrados no meio do nada. Isto deprimiu-me um pouco.”

16 de Novembro de 2024, 70º dia de viagem: de Vale da Senhora da Póvoa até Pedrógão de São Pedro. 25,8 km, com alguns montes para vencer.

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Como sempre, Jette desmontou nas subidas. Por vezes, até largou a Pinou, para que ela pudesse escolher o próprio ritmo. E a égua acabou por surpreender a moça com a sua agilidade. Era mais rápida, mas esperava por ela, quando a distância entre as duas aumentava. A relação entre a moça e a égua atingira a perfeita harmonia. E Jette, caminhando atrás, constatou que a Pinou estava mais musculosa do que antes da viagem.

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As canseiras eram recompensadas com a beleza da paisagem, embora o tempo continuasse chuvoso.

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Em Pedrógão de São Pedro, ficaram instaladas na quinta de uma senhora que Jette conhecia do Instagram.

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A moça resolveu repousar durante um dia. O cansaço não foi, porém, o único motivo para a pausa. As duas tinham apenas mais uma etapa pela frente e Jette, apesar de se sentir aliviada por as duas terem vencido tantos quilómetros sãs e salvas, receava o momento da despedida.

Aproveitou a pausa para escovar a Pinou e tratar-lhe dos cascos.

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Depois do jantar, tornou a ir ao estábulo, a fim de passar aquele último serão junto com a égua. Pinou deitou-se e Jette sentou-se junto a ela. Não evitou verter lágrimas, mal acreditando que a aventura estava quase a terminar.

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18 de Novembro de 2024, 72º dia de viagem: os últimos 20 km. Sol e 20ºC.

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Jette passou o dia cheia de sentimentos contraditórios, tanto chorava, como se alegrava.

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A chegada ao seu destino foi registada em vídeo pela dona da Pinou. Jette experimentou uma turbulência de emoções. Não aguentou. Levou a mão aos olhos, chorando mais uma vez. O vídeo pode ser visto no Instagram, não penso que exista alguma maneira de eu o trazer para aqui. Mas deixo um frame:

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A aventura durou quase dois meses e meio. Jette e Pinou percorreram sozinhas 1.595,49 km.

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Passados cinco dias, a moça foi apanhar o avião a Lisboa, de regresso à Alemanha.

 

Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

 

Nota: três semanas depois da sua chegada à Alemanha, Jette teve a calma e a distância suficientes para fazer um balanço da viagem, concluindo, dessa forma, o seu diário. Penso que ela foca alguns pontos e momentos interessantes. Por isso, na próxima sexta-feira vou postar algumas dessas impressões.

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (6)

Cristina Torrão, 07.02.25

Continuamos pelo planalto do Norte de Espanha, Comunidade Autónoma "Castela e Leão", rota: Burgos, Valhadolid, Salamanca (parcialmente ao longo do Duero/Douro) - uma região inóspita, esparsamente povoada, mas cheia de gente capaz de reconhecer e recompensar a coragem de uma jovem.

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A 1 de Novembro, 55.º dia de viagem, Jette montava a tenda, quando um homem veio ter com ela, perguntando se precisava de ração para a égua. Ela aceitou logo, Pinou necessitava de mais do que apenas relva. Foram a casa dele. O homem tinha dois cavalos e Pinou acabou por ser levada para junto deles. O espanhol acabou por dizer a Jette que ela podia dormir no seu quarto de hóspedes. Ao pensar no frio da tenda, ela aceitou, apesar de ele viver sozinho (ou, pelo menos, estar sozinho, naquela altura). Ele encomendou pizza para o jantar. E tudo correu bem, sem surpresas desagradáveis. No dia seguinte, à partida, a moça recebeu ainda um saco de comida.

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Quatro dias mais tarde, Jette recebeu uma mensagem desse mesmo espanhol, perguntando-lhe onde estava e se a podia ajudar a encontrar um local para dormir. A moça deu-lhe as informações e, dez minutos depois, ele enviou-lhe um endereço de uma família que se prontificava a alojá-la, com lugar para a Pinou.

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Numa manhã, um homem veio ter com ela ao caminho, de tractor, dizendo-lhe que gostaria de lhe mostrar os seus cavalos. Além de admirar os belos animais, Jette já não seguiu viagem, acabou por ficar a dormir nessa quinta.

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A próxima cena é tipicamente ibérica, poderia ter acontecido também em Portugal: Jette chegou à praça principal de uma aldeia e, de repente, tinha cerca de quinze pessoas à sua volta. Falavam todas ao mesmo tempo, fazendo-lhe perguntas, mas a moça não as entendia. Uma mulher acabou por surgir com alguém que sabia inglês. E convidou Jette para ficar na sua quinta, que, além da família, albergava um rebanho de trezentas ovelhas.

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A 7 de Novembro, 60.º dia de viagem, Jette chegou a Moríñigo, perto de Salamanca. Pernoitou, mais uma vez,  em casa de uma família e, no dia seguinte, “um homem muito simpático, sobre um belo cavalo espanhol”, acompanhou-a, mostrando-lhe o caminho para Arapiles, onde lhe tinha arranjado estadia.

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Depois do jantar, em Arapiles, Jette foi levada à bela Salamanca.

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Na manhã seguinte, ela tornou a ser acompanhada, durante alguns quilómetros, por um cavaleiro, amigo da família onde pernoitara. O mesmo aconteceu dois dias mais tarde. Os espanhóis revelavam-se, não só bons cavaleiros, como também cavalheiros.

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Nas últimas etapas, antes da fronteira portuguesa, Jette dava, constantemente, com portões. Deixavam-se aliás abrir facilmente e ela não hesitava em passar por esses terrenos, era-lhe difícil encontrar alternativas. Felizmente, não foi admoestada.

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Passava por manadas de bovinos e a Pinou surpreendia-a, mantendo-se calma, contrariando o comportamento  apresentado, antes da viagem: sempre se mostrara nervosa na presença de vacas, ou mesmo de ovelhas e cabras.

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Atrás de mais um portão, porém, Jette deparou com uma quinta de touros! A avaliar pelo vídeo (Tag 64), eu diria que eram de vinte a trinta animais. A moça ainda hesitou, mas acabou por entrar. Coragem, ou inconsciência, irresponsabilidade?

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O certo é que o insólito aconteceu: os touros comportaram-se como cordeirinhos! Ficaram calmos, enquanto a moça passava por eles, sobre a égua. Nem sequer reagiram, quando Pinou não resistiu e começou a comer de um dos montes de palha espalhados pelo terreno.

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Que conclusão tirar? Que os touros não são tão agressivos como se pensa? Que estes estavam habituados a ver cavaleiros e seus cavalos? Que sentiam a descontracção de Jette e de Pinou, respeitando-as e/ou não as vendo como ameaça? Os animais têm de facto sensibilidade especial para ler estados de espírito, digamos assim, uma espécie de sexto sentido. Aprendi isso com os cães. E todas as amizades entre humanos e animais, mesmo tratando-se de animais selvagens, como leões, por exemplo, são baseadas numa confiança incondicional, estabelecendo um compromisso que nunca lhes passa pela cabeça quebrar.

Muitos dirão ter sido apenas sorte, no caso de Jette. Não excluo essa hipótese. Mas é fascinante ver as fotografias e os vídeos postados pela moça.

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Estava-se a 10 de Novembro. Nesse dia, Jette chegou a Sancti-Spíritus e tinha apenas mais três etapas, até à fronteira portuguesa: Ciudad Rodrigo, Gallegos de Argañán e La Alamedilla. O planalto ia dando lugar à região montanhosa, que plenamente se desenvolve no lado português. A paisagem já era mais verde. Jette acabou por apanhar alguma chuva, o que aliás, tem as suas vantagens.

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Dez dias atrás, a moça lamentava, no seu diário, ainda lhe faltarem mais de 300 km até Castelo Branco. Nesse serão, escreveu que, apesar de se alegrar com a aproximação a Portugal, também se sentia um pouco triste, perante o fim da aventura. O fim desta viagem da sua vida.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

Todos chumbados e era pouco

Sérgio de Almeida Correia, 06.02.25

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Há dias deixei aqui uma reflexão sobre as razões para uma recente sondagem colocar um, por agora, putativo candidato à Presidência da República em posição de vencer as eleições presidenciais de Janeiro próximo.

Ontem, uma outra sondagem para o barómetro DN/Aximage e o debate parlamentar, com a presença do primeiro-ministro Luís Montenegro, confirmaram essa ideia que tenho e reforçou-me a convicção de que o almirante Gouveia e Melo, salvo qualquer surpresa de última hora e para mal dos meus pecados, levará a palma aos candidatos que já se apresentaram.

A sondagem do DN/Aximage, revelada num artigo de Bernardo Ralha com um título porventura enganador – “Governo continua a ter nota menos má do que uma Oposição que tem dois líderes" – preocupa-se em destacar aspectos laterais do resultado obtido, deixando na sombra aquele que é o resultado que verdadeiramente importa sublinhar.

Importante, ao contrário do que refere o articulista ao escolher o título em questão, não é saber se a nota do Governo é “menos má” do que a da Oposição, ou se esta tem dois líderes, porque na verdade chegámos a um ponto em que nenhum português com um mínimo de senso, sentido da realidade e preocupação com o futuro da democracia e do país dá uma esmola para esse peditório. De certo modo, isso também é revelador do desfasamento da agenda mediática em relação à realidade.

O que aquela sondagem nos diz, ignorando os que nada dizem ou não respondem, é que em relação à actuação do Governo actual são mais os que consideram mau e muito mau (34% + 13% = 47%) o seu desempenho do que os que o consideram bom e muito bom (41% + 4% = 45%).

E em relação à Oposição esses mesmos portugueses consideraram que a sua prestação é, digo eu, um verdadeiro desastre, visto que somente 34% a consideraram muito boa (3%) e boa (31%), sendo 55% os que a consideram má (44%) e muito má (11%).

Estes números deveriam fazer reflectir os partidos políticos e as pessoas que têm responsabilidades em Portugal. Qualquer candidato à Presidência da República não poderá deixar de olhar para isto.

Sondagem após sondagem os portugueses entendem que tanto o Governo como a Oposição são maus ou muito maus, que é como quem diz, absolutamente ineptos para as funções que desempenham, reafirmando aquilo que Medina Carreira já dizia e eu não me cansarei de reafirmar: esta gente não presta.

E ou os portugueses arranjam outros ou o destino deste país e da sua democracia estarão traçados e à mercê de qualquer surripiador de malas ou gangue autárquico com capacidade de organização.

Se juntarmos a esta sondagem da manhã o pornográfico debate parlamentar da tarde, a que muitos terão assistido sem saber o que pensar daquele nível de discussão, do estilo e tom que lhe foram emprestados e, em particular, da linguagem de carroceiro a que muitos recorrem e de que as sumidades do Chega e o deputado Ventura são os indiscutíveis campeões, perceber-se-á a razão para as sondagens apresentarem tais resultados.

E essa má impressão de quem governa e de quem interpela reflecte-se depois no processo Tutti Fruit, com dezenas de envolvidos e afins, cuja simples existência – não porque não devam existir – só por si constitui vergonha para as instituições e os portugueses. Igualmente nas acções de justicialismo mediático de uma certa magistratura que também gostava de poder governar, nos gangues que por aí proliferam nas mais variadas áreas de “empreendedorismo” e a que nem os desgraçados dos imigrantes escapam quando se trata de obter testados em juntas de freguesia, no que parecem ser procedimentos corriqueiros em autarquias de norte a sul, num saque permanente e de dimensões descomunais, de tal forma que há quem ache normal que um ex-secretário de Estado, em tempo integral e trabalhando em exclusividade, para além do tempo que demorou a demitir-se – quando se impunha que tivesse sido imediatamente demitido por quem tinham autoridade sobre ele –, poucos meses volvidos sobre a data da sua tomada de posse, tenha cabeça e tempo para pensar e constituir sociedades comerciais, independentemente do respectivo escopo e das áreas em que pretende actuar, num momento em que se devia dedicar de corpo e alma à acção governativa, a pensar e a resolver os problemas da área que lhe coube em sorte, e deixar as suas aventuras empresariais para quando saísse do Governo e da política activa.

Como se o problema do mau funcionamento do Estado e dos partidos políticos e o miserável recrutamento das “elites”, aliás amplamente espelhado nas múltiplas escutas telefónicas que clinicamente chegam às páginas dos jornais, às televisões, carregadas de cortes devido ao rico palavreado dos senhores deputados e ministros, e à Internet se resumisse a meros problemas de legalidade. Ou aos milhares de horas que os motoristas da Assembleia da República "faziam" aos sábados sem que ninguém desse por nada. Antes fosse.

Não sei quantos mais candidatos irão aparecer para as presidenciais. Os que aí estão não oferecem a mínima confiança. Facto agravado pela crise de credibilidade dos partidos e respectivas lideranças, cujo patrocínio a qualquer candidatura presidencial não é garantia de seriedade. Ainda recentemente se viu com as acusações que recaíram sobre um antigo dirigente e ex-candidato presidencial dos impolutos liberais, que acabou expulso do partido que o queria para nosso Presidente da República, enredado na justiça por falsificação de documentos numa autarquia. Grotesco.

É por isso que em momentos destes, e eu nunca pensei ter de vir a dizê-lo meio século dobrado sobre o 25 de Abril, é preciso olhar para o exemplo de homens como Ramalho Eanes – o PRD foi outra coisa – que com mais de 90 anos continua a dar-nos lições de cidadania, empenhamento cívico, lealdade a Portugal e aos portugueses e, acima de tudo, independentemente das respectivas convicções e erros de julgamento que como qualquer um terá cometido, de seriedade, boa-fé, elevação, nobreza de carácter, dignidade, desprendimento material na hora de servir e capacidade de resistir à errância, à frivolidade, à miséria moral, ao espectáculo mediático.

E não foi por ser um militar. Militares há muitos. E alguns que conheci uns farsantes e uns estafermos sem vergonha nem amor à farda.

Foi por ser um homem sério, que quando se está no Governo ou na Presidência não se está lá para “tratar da vida”, não se anda a constituir sociedades, a comprar e a vender acções, a investir em projectos imobiliários com os amigos, a constituir fundações com dinheiro público, a recorrer a fundos e subvenções por interpostas pessoas ou a ajudar a família, os conterrâneos, os colegas de escola, os amigos de infância e os amigalhaços de ocasião a singrar na vida.

E foi também por ter percebido que a política é uma actividade demasiado importante para ser confiada a arrivistas, a gente destituída de ética, moral ou carácter, a vigaristas diplomados, excursionistas da política, agilizadores de negócios, feirantes misericordiosos ou a videirinhos com os bolsos carregados de cromos dos três pastorinhos à procura do melhor ângulo para a foto e os saltinhos que os portugueses lhe ficarão sempre a dever.

Podemos ter muitos magos na bola, em muitas áreas da ciência e do conhecimento, da cultura, mas do que precisávamos mesmo neste hora era de um Eanes. De um Eanes na política. De um Eanes em Belém.

Se possível de muitos, com estaleca. Dentro dos partidos, metendo a canalha na ordem, correndo com o lúmpen das empresas, das autarquias, das escolas, dos campos, das universidades, das indústrias.

Precisávamos de gente como Eanes, com apego à democracia e às instituições, com ética de trabalho, serviço e respeito para com os outros. De gente séria, de gente que prestasse para alguma coisa e ajudasse a criar algo de útil e com futuro. De gente que, como ele, pudesse servir de exemplo e estímulo. Ou deixasse na sombra os miseráveis.

Lamento hoje, mais do que nunca, que tenhamos perdido duas gerações, estourando milhões a construir estádios e a produzir Cristinas, para as televisões e os partidos, desprezando o sangue, o suor e as lágrimas de tantos que nos precederam sem que tivéssemos sido capazes de produzir, não digo muitos, pelo menos uma meia-dúzia de pessoas capazes para a política com a estatura cívica e moral de um Ramalho Eanes. Um que fosse, militar ou civil, para sair da mediocridade e do anonimato e se apresentar às presidenciais de 2026.

Creio que até nisso os deuses nos estão a obrigar a pagar o preço do infortúnio. Da romaria, da Maria que foi com as outras. Pela medida grande. Crucificados diariamente numa espécie de Portugal dos pequeninos. Com os anões que temos a zelarem por nós. Mas sempre prontos para irem aos figos, às cavalitas uns dos outros, e fazerem justiça na hora dos dividendos.

Só me apetece dizer um palavrão. Dos grandes. Para ser ouvido no Além. E indignar os deuses. Espero que os leitores me desculpem.

Os burocratas

Paulo Sousa, 05.02.25

Não importa explicar todos os detalhes, mas imaginemos que numa obra em curso os respectivos pagamentos estão previstos numa sequência que acompanha o decurso dos trabalhos. Terminada cada uma das fases pré-estabelecidas no caderno de encargos, o construtor emite um auto de medição que deve ser assinado por si e pelo dono da obra. A facturação e pagamento ocorrerá apenas após a verificação e medição por uma terceira entidade.

Acontece que esta terceira entidade é também um habitat de sonho dos burocratas que nos emperram a vida e chegamos ao ponto em que, num dos autos de medição dos trabalhos efectuados, uma das rubricas tem a indicação de estar realizada em 50% (cinquenta por cento). Até aqui tudo bem.

Após vários telefonemas e emails trocados, fui alertado que a evolução do respectivo trabalho tem de estar representada em decimal e não em percentagem.

Dizem-me: O auto não está correto porque mantém os 50% nos primeiros artigos e não pode ser tem de ser 0.50, porque o auto é quantificado à unidade e não em percentagem.”

E é nesta fase que entendemos como é difícil ser português. Não por causa da administação Trump, dos russos, dos espanhóis ou dos chineses, mas por causa dos portugueses.

O primeiro impulso levar-me-ia a tentar trocar a falta de vírgula no texto pela vírgula exigida no auto de medição; a exigir-lhe a instrução de serviço em que se sustenta tamanha aberração; a uma explicação de Matemática ministrada por um aluno do primeiro ciclo; a explicar o clássico princípio contabilistico da Substância sobre a Forma; a telefonar ao chefe para interceder a favor da racionalidade, ou, após algumas horas de meditação, chá de hortelã e pés dentro de um alguidar com gelo, a ordeiramente telefonar ao construtor, lembrar-lhe que estamos em Portugal, com vergonha alheia pedir-lhe desculpa e solicitar a “correcção” do tal “erro”. Ao fim e ao cabo, não podemos hostilizar os burocratas, pois estes, sentido-se despeitados e ofendidos pela injúria, poderiam abrir toda a imensidão de pragas sem fim que emperrariam o "normal" decorrer dos trabalhos.

Assim, depois de me aliviar com este postal, irei cordialmente dar seguimento ao solicitado para que esta seja apenas uma normal quarta-feira na República Portuguesa.

 

PS: Mas, com alguma sorte, o link deste texto chegará ao alcance do burocrata em causa.