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Cem anos depois no dia delas

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.15

Facto

 

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

 

(Ruy Cinatti, 08/03/1915 -12/10/1986)

Luísa Dacosta

por Patrícia Reis, em 16.02.15


Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

UM POEMA DE LUÍSA DACOSTA(Via Maria José Ramôa) ChamamentoDa margem do sonho  e do outro lado do mar alguém me estremece sem me alcançar.Um bafo de desejo chega, vago, até mim. Perfume delido de impossível jasmim.É ele que me sonha? Sou eu a sonhar? Sabê-lo seria  desfazer, no vento, tranças de luar.Nuvens, barcos, espumas desmancham-se na noite.E a vida lateja, longe, num outro lugar.

Texte trouvé dans une église de Baltimore (1692)

por Helena Sacadura Cabral, em 16.11.14
Allez tranquillement parmi le vacarme et la hâte et souvenez-vous de la paix qui peut exister dans le silence.
Sans aliénation, vivez, autant que possible en bons termes avec toutes les personnes.
Dites doucement et clairement votre vérité.
Écoutez les autres, même les simples d'esprit et les ignorants, ils ont eux aussi leur histoire.
Évitez les individus bruyants et agressifs, ils sont une vexation pour l'esprit.
Ne vous comparez avec personne : il y a toujours plus grands et plus petits que vous.
Jouissez de vos projets aussi bien que de vos accomplissements.
Ne soyez pas aveugle en ce qui concerne la vertu qui existe.
Soyez vous-même.
Surtout, n'affectez pas l'amitié.
Non plus ne soyez pas cynique en amour car, il est, en face de tout désenchantement, aussi éternel que l'herbe.
Prenez avec bonté le conseil des années en renonçant avec grâce à votre jeunesse.
Fortifiez une puissance d'esprit pour vous protéger en cas de malheur soudain.
Mais ne vous chagrinez pas avec vos chimères.
De nombreuses peurs naissent de la fatigue et de la solitude.
Au delà d'une discipline saine, soyez doux avec vous-même.
Vous êtes un enfant de l'univers, pas moins que les arbres et les étoiles.
Vous avez le droit d'être ici.
Et, qu'il vous soit clair ou non, l'univers se déroule sans doute comme il le devait.
Quels que soient vos travaux et vos rêves, gardez dans le désarroi bruyant de la vie, la paix de votre cour.
Avec toutes ses perfidies et ses rêves brisés, le monde est pourtant beau.

Tachez d'être heureux.

 

Este texto, que me foi enviado por uma amiga, é uma verdadeira conversa/meditação de cada um consigo mesmo. Mas pode, igualmente, ser uma lindíssima oração. De uma qualquer crença ou religião que acredita na natureza humana.

 

Nota: O poema foi atribuído a Max Ehrmann, que o terá escrito em 1927, com o título Desiderata. A ser verdade a tradução aqui apresentada é tão bela quanto o original em inglês que um comentador teve a gentileza de dar a conhecer.

 

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Luísa Jardim

por Patrícia Reis, em 08.10.14

Pergunta-me o que o vento acende
se me voltarei a encontrar
para que saiba
que é para ti que soltei o perfume do mar

Quem me dera
o meu próprio destino
aquela viagem mil vezes por mim adiada

Quem me dera
nenhuma palavra
só sonhos, um apenas
daqueles que nunca desertou "

 

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Para Quem Sofre de Neura de Domingo à Noite

por Francisca Prieto, em 05.10.14

POEMA DO BECO

(Manuel Bandeira)

 

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

Faz hoje trinta anos

por Pedro Correia, em 12.08.14

 

Era já madrugada e nós seguimos

quilómetro a quilómetro a corrida

Era já madrugada e nós corríamos

com aquele que levava ao peito as quinas

Era já madrugada e nós não víamos

o loiro Menelau e as belas crinas

dos imbatíveis cavalos do Atrida.

 

Era só Carlos Lopes que nós víamos

e com ele ganhámos a corrida

aquela madrugada e toda a vida.

 

Manuel Alegre

Blogue da semana

por Ana Lima, em 20.07.14

O prazer proporcionado pela leitura de um poema é sempre algo de muito pessoal. Ao publicá-lo num blogue partilhamos com outros as nossas escolhas e acontece, por vezes, que essa partilha dá a conhecer novos poetas ou divulga outros junto de quem, por vários motivos, não os conhecia. Por estes dias os poemas têm andado por aqui. Mas como a poesia nunca é demais escolhi para blogue da semana o "da luz & da sombra". 

Foi-se a Copa? Não faz mal.

Adeus chutes e sistemas.

A gente pode, afinal,

cuidar de nossos problemas.

 

Faltou inflação de pontos?

Perdura a inflação de fato.

Deixaremos de ser tontos

se chutarmos no alvo exato.

 

O povo, noutro torneio,

havendo tenacidade,

ganhará, rijo, e de cheio,

a Copa da Liberdade.

 

Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978

 

Carlos Drummond de Andrade escreveu este poema em 1978. Nesse ano, na Argentina, o Brasil, depois de vencer a Itália, ficou em 3º lugar no campeonato do mundo (curiosamente, a Alemanha, na fase de grupos desse campeonato, tinha dado 6-0 ao México). Os militares que impunham um brutal regime de ditadura no país anfitrião, viram a sua selecção vencer a Holanda na final.

Os campeonatos do mundo de futebol continuarão. Quanto ao povo que, no Brasil, sentia também, em 1978, os efeitos de um regime ditatorial, está agora, felizmente, num outro patamar. Mas ganhar a "Copa da Liberdade" é ainda, por enquanto, um desejo poético demasiado ambicioso. Por outro lado, poderão os desejos poéticos ser demasiado ambiciosos?

O que sobra dos discursos

por Ana Lima, em 03.07.14

O deve e o haver.

Penso rápido (2)

por Pedro Correia, em 15.06.14

Miguel Sousa Tavares, evocando sua mãe, menciona a palavra poetisa, agora tão em desuso. Gosto deste substantivo feminino. Tenho pena que algumas pessoas a desconsiderem em nome do combate a "estereótipos de género" ou sei lá o quê. É uma palavra muito bonita: pelo sentido, pelo significado, pela sonoridade, pela elegância.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 07.06.14

 

 

Metáforas para o Fogo, de Marisa Silva

Poesia

(edição de autor, 2014)

Da Auto-Censura

por Francisca Prieto, em 04.06.14

Uma amiga veio-me visitar e trouxe-me uma caixa de cerejas. Apeteceu-me escrever sobre isto, mas percebi que dava um mau poema.

Mário de Sá-Carneiro, 124 anos

por José Navarro de Andrade, em 19.05.14

Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro. Lisboa, Fevereiro de 1914

Dia Mundial da Poesia

por Joana Nave, em 21.03.14

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, aqui fica um texto meu, num registo completamente diferente do que tenho partilhado. Foi escrito há uns anos e publico-o tal como o escrevi na altura, sem qualquer filtro, apenas porque a poesia é aquilo que nos vai na alma, um sentimento puro, sem edição...

 

 

Lugares

 

Há lugares que me fazem sentir
que há sempre um espaço
onde podemos ficar,
apenas a sonhar.
São lugares escondidos
no meio da multidão,
pequenos paraísos
na imensidão de sons e cores,
lugares de abrigo
que nunca nos deixam sós.
São como um reconforto para a alma
que se sente perdida,
ou então, simplesmente um canto
onde podemos ficar,
apenas a pensar.
Este lugar onde estou...
lembra-me um estado de espírito
em que sinto apenas a leveza do ser.
A calma ou a agitação repousam
sem pressa de chegar.
Não quero ir, quero apenas ficar
e tornar este momento,
em que consolo a minha alma,
eterno!
À minha frente,
vejo o maior de todos os meus abrigos,
o Mar.
A sua fúria traz-me à memória
a minha intempestividade
e a calma serena do meu ser,
quando a sua fúria repousa
no peito de quem a sente,
e fica apenas a ondulação corrente
e o cheiro a maresia.

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Para o Rui

por Pedro Correia, em 26.01.14

 

ACABA

 

En volandas

como si no existiera el avispero

aquí me tienes con los ojos desnudos

ignorando las piedras que lastiman

ignorando la misma suavidad de la muerte

¿Te acuerdas? He vivido dos siglos dos minutos

sobre un pecho latiente

he visto golondrinas de plomo triste anidadas en ojos

y una mejilla rota por una letra

La soledad de lo inmenso mientras medía la capacidad de una gota

Hecho pura memoria

hecho aliento de pájaro

he volado sobre los amaneceres espinosos

sobre lo que no puede tocarse con las manos

Un gris un polvo gris parado impediría siempre el beso sobre la tierra

sobre la única desnudez que yo amo

y de mi tos caída como una pieza

no se esperaría un latido sino un adiós yacente

Lo yacente no sabe

Se pueden tener brazos abandonados

Se pueden tener unos oídos pálidos

que no se apliquen a la corteza ya muda

Se puede aplicar la boca a lo irremediable

Se puede sollozar sobre el mundo ignorante

Como una nube silenciosa yo me elevaré de mí mismo

Escúchame Soy la avispa imprevista

Soy esa elevación a lo alto

que como un ojo herido

se va a clavar en el azul indefenso

Soy esa previsión triste de no ignorar todas las venas

de saber cuándo cuándo la sangre pasa por el corazón

y cuándo la sonrisa se entreabre estriada

Todos los aires azules

No

Todos los aguijones dulces que salen de las manos

todo ese afán de cerrar párpados de echar obscuridad o sueño

de soplar un olvido sobre las frentes cargadas

de convertirlo todo en un lienzo sin sonido

me transforma en la pura brisa de la hora

en ese rostro azul que no piensa

en la sonrisa de la piedra

en el agua que junta los brazos mudamente

En ese instante último en que todo lo uniforme pronuncia la palabra:

ACABA

 

Vicente Aleixandre, Espadas como Labios

Blogue da semana

por Ana Lima, em 05.01.14

É difícil acreditar que é tão nova. A Beatriz escreve como se por si já tivesse passado tanta vida... A sua escrita é madura, cheia de recordações e de sentimentos antigos. Podemos lê-la em revistas ou no livro, É quase noite, publicado pela Averno, em 2013. 

Mas há alguns anos que os seus textos poéticos são publicados em blogues da sua autoria. Aquele que é o mais recente foi o que escolhi para o primeiro blogue da semana deste ano. Percam-se por lá: ao longe todos são pedras de Beatriz Hierro Lopes.

Eusébio por Manuel Alegre

por Patrícia Reis, em 05.01.14

Havia nele a máxima tensão

Como um clássico ordenava a própria força

Sabia a contenção e era explosão

Não era só instinto era ciência

Magia e teoria já só prática

Havia nele a arte e a inteligência

Do puro e sua matemática

Buscava o golo mais que golo – só palavra

Abstracção ponto no espaço teorema

Despido do supérfluo rematava

E então não era golo – era poema.

 

José Tolentino Mendonça

por Patrícia Reis, em 22.12.13

"Desejo muito que a humanidade do futuro se deixe desconcertar pelo esplendor inexplicável de cada amanhecer; que se conserve sem palavras perante o mar; que se sinta irresistivelmente atraída pela variação de cores, de volumes e de odor da paisagem diurna e noturna; que estremeça ao primeiro contacto com a água; que mantenha a capacidade de espanto perante o modo como o vento arrasta as nossas vozes felizes na distância..."

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Maria Teresa Horta

por Patrícia Reis, em 16.12.13

FEMININO

É quando o ar estremece levemente indo

Em busca da transparência azul da Índia

Improvável luz feminina que só a placenta coa enquanto gera e no cristal vibra

Difuso momento onde a flor hesita

Se desdobra primeiro e em seguida vacila

(Inédito)

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Poesia para domingo

por Patrícia Reis, em 13.10.13
«Animais doentes as palavras
Também elas vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta que fazem de conta
Pequiníssimas pulgas de uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil de
De manejar de lançar de provocar
De reunir
de fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves na solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só do tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou diamante
O minuto rídiculo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Catava das entranhas ociosas.»
Alexandre O'Neill in 'No Reino da Dinamarca', 1958. (obrigada Margarida por mo recordares)

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