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Os mortos não são números

por Pedro Correia, em 24.07.17

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Trinta e cinco dias depois da tragédia de Pedrógão Grande, o semanário Expresso, cumprindo a sua missão jornalística, rompeu enfim o bloqueio oficial e divulgou ao País as identidades dos mortos já confirmados naquele dia fatídico. Anotando as circunstâncias dramáticas em que morreram e acrescentando uma vítima mortal ao número que tinha sido difundido pelos organismos do Estado.

O mais impressionante, desde logo, é que numa sociedade aberta como a portuguesa este tema, por contraste, tenha sido tão opaco.

Como se aquelas vítimas, ao confinarem-se a um dado estatístico, estivessem destinadas a morrer uma segunda vez.

Como se fossem apenas um número.

Como se tivessem perdido o direito ao nome.

Surpreende que outros órgãos de informação, aparentemente, se tivessem resignado todo este tempo à "verdade" oficial, aos números oficiais, a um pretenso "segredo de justiça" que impusesse aos mortos o anonimato post mortem.

 

As vítimas de Pedrógão eram pessoas concretas, de carne e osso, com identidade.

Não eram dados estatísticos.

Era fundamental pôr fim à "lei da rolha" também neste domínio. Foi o que o Expresso fez. Revelando, desde logo, que a contabilidade oficial deixara de fora as chamadas "vítimas indirectas".

Uma autêntica missão de serviço público.

«Para que a Comissão Independente não se perca no exercício académico, para que seja mais importante o Estado salvar do que os presumíveis responsáveis salvarem os seus empregos. Para que se saiba que entidades poderão ser acusadas pelo Ministério Público de homicídio por negligência, se for esse o destino das investigações. Para que as investigações apurem em vez de denegar.» Palavras do director do semanário, Pedro Santos Guerreiro, num  notável texto que merece leitura atenta e reflexão de todos.

O Expresso garante que continuará a investigar até ao limite do possível para esclarecer a opinião pública se houve mais vítimas mortais, conferindo o rigor de algumas  listas que circulam na Rede em evidente desmentido à contabilidade oficial.

 

Os familiares são os primeiros a queixarem-se da opacidade e da inacção dos organismos públicos. Familiares como Nádia Piazza, que perdeu um filho em Pedrógão e critica a ausência de informação útil, a burocracia, a não divulgação da lista oficial de mortos e a falta de apoio psicológico. O Estado falhou antes e volta a falhar depois. Daí estar em vias de criação a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, que pode avançar com processos em tribunal contra instituições oficiais.

De uma vez para sempre, temos de saber quem e como morreu naquele fatídico 17 de Junho. Não pode haver "segredo de justiça" em torno desta informação fundamental num país que se orgulha de ser livre.

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A verdade a que temos direito.

por Luís Menezes Leitão, em 23.07.17

Parece que alguém se lembrou de definir uns critérios quaisquer para excluir da lista oficial as "vítimas indirectas" do incêndio. Agora se compreendem melhor as palavras de António Costa que já tinha avisado que a informação devidamente organizada e estruturada é uma mais-valia para todos”. O país passou a viver com uma verdade oficial, a única a que temos direito. Por isso obviamente o Primeiro-Ministro diz que está tudo esclarecido. Pois está, pelo menos a seu respeito. E o nosso afectuoso Presidente, que há tempos garantia que iria ser tudo efectivamente investigado, o que tem a dizer sobre o assunto?

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Ludibriar os portugueses

por Pedro Correia, em 18.07.17

 

Uma excelente peça da SIC, inserida ontem no Jornal da Noite, honrou as melhores tradições da estação televisiva que se prepara para festejar um quarto de século de existência. Esta peça jornalística relata com minúcia toda a fita do tempo da tragédia de Pedrógão Grande, demonstrando sem margem para dúvida que as comunicações entraram ali em colapso, tornando ineficaz toda a estrutura da protecção civil.

Sabendo-se agora tudo isto, torna-se não só chocante mas até insultuosa esta pretensa mensagem de tranquilidade que na noite da tragédia o secretário de Estado da Administração Interna – com a ministra ainda ausente do local – dirigiu aos portugueses em geral e à população de Pedrógão em particular: «Houve falhas momentâneas de comunicação mas que foram restabelecidas. O SIRESP [Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal] está a funcionar com bastante regularidade e bastante bem.»

 

Tudo falso nesta declaração. As falhas nunca foram apenas momentâneas, a comunicação não fora restabelecida e o apagão das ligações mantinha-se no preciso momento em que Jorge Gomes falava assim ao País. O SIRESP – que revelou deficiências desde o início, como esta reportagem de Ana Leal, da TVI, já deixava evidente em 2014 – não funcionava “com bastante regularidade e bastante bem”: não funcionava, ponto final.

Este alerta não evitou que a 17 de Maio, um mês exacto antes de eclodir o drama de Pedrógão Grande, Jorge Gomes, depondo numa audição na comissão parlamentar de Agricultura e Mar, tenha ludibriado os cidadãos, tranquilizando-os com estas palavras que os factos não tardariam a desmentir: «Quero transmitir aos portugueses que temos um dispositivo capaz, devidamente estruturado e organizado, no qual temos plena e total confiança, para fazer frente ao período mais crítico dos incêndios florestais» (minuto 8 deste vídeo); «O País tem um dispositivo integrado, competente, forte e mobilizado para defender a floresta, o património e a vida dos portugueses.» (10' 30'' do vídeo).

 

Pior que tudo isto, ainda pior que manter-se sem censura política um membro do Governo em manifesta fuga à verdade num momento tão traumático, é termos hoje a certeza de estarmos perante uma deficiência estrutural gravíssima, com efeitos potencialmente tão irreparáveis como os ocorridos em Pedrógão.

É um problema tão alarmante que por estes dias voltou a estar em foco no grande fogo florestal de Alijó, levando o presidente da câmara local a apontar sem rodeios para novas falhas neste sistema onde o Estado português enterra 40 milhões de euros por ano: «Estive duas horas sentado só a ouvir e apercebi-me que a comunicação falha: não sabemos exactamente onde está posicionada cada equipa, onde está a arder. Às tantas, só recorrendo aos telemóveis é que se consegue comunicar.»

Como escreve o Manuel Carvalho na edição de hoje do Público, «o que torna a história de Alijó num caso ainda mais absurdo e inaceitável é que, sem ser necessário recorrer a comissões de inquérito independentes, podemos desde já suspeitar que as operações de combate foram marcadas pelo desnorte, pela incompetência e, uma vez mais, pela falha criminosa desse sistema delinquente chamado SIRESP».

 

O secretário de Estado ainda em funções teve agora ao menos a sensatez de permanecer calado.

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Um mês depois.

por Luís Menezes Leitão, em 17.07.17

Passou um mês sobre a tragédia de Pedrógão Grande e três semanas sobre o roubo de Tancos. O Primeiro Ministro já regressou de férias, os Ministros continuam alegremente nos seus cargos e o Presidente a fazer o discurso contemporizador do costume. Entretanto, o país voltou a arder e o exército a cobrir-se de ridículo. Isto manifestamente não vai acabar bem.

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Quem responde?

por Helena Sacadura Cabral, em 17.07.17
Passa hoje um mês sobre a tragédia de Pedrogão. Outros incêndios se detectaram, entretanto. Agora foi em Alijó, onde mais uma vez o SIRESP não funcionou... Admite-se?
Entretanto e com tantas doações amealhadas, eu não consigo perceber bem quem é o fiel depositário do dinheiro que foi enviado. Mas algo parece evidente: é que ele não começou ainda a ser distribuído e aplicado. De que é que se está à espera, já que não é dinheiro público que está em causa, mas sim dinheiro que, solidariamente, os portugueses doaram aos que tanto sofreram e sofrem.
A União das Misericórdias depositou-o nalgum banco? Em qual? E em que conta? Era bom sabermos. Os sacrifícios daqueles que ajudaram merecem conhecer o destino dado àquilo que doaram!

 

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Ainda incrédulos e comovidos

por Pedro Correia, em 17.07.17

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«Uns homens que recolhem escombros observam o crepúsculo, o monte cor de grafita. Fazem uma pausa na reconstrução de uma barraca.

- Lembras-te? - diz um deles, de boina. Pele pálida, mãos fortes, cruza os braços.

- Como isto era bonito?

- Sim.

- A recuperação vai demorar 50 anos. Já não a veremos.»

 

Excerto de uma reportagem de Martín Mucha (El Mundo, 25 de Junho)

 

 

A tragédia de Pedrógão Grande ocorreu faz hoje um mês. Com imagens que deram a volta ao mundo e deixaram o País dilacerado.

As pessoas olhavam, incrédulas: como era possível algo digno de uma praga medieval ocorrer no país da "modernidade", anfitrião da Web Summit, orgulhoso de receber 21 milhões de turistas por ano e no preciso instante em que as duas principais cidades disputavam a sede da Agência Europeia do Medicamento?

 

Um país real, oculto sob a cortina da propaganda, emergiu em cinzas e sangue por esses dias. Um país devastado, que chorou 64 mortos e acolheu 254 feridos, muitos deles em estado grave. Um país desamparado, o do interior rural carcomido pela erosão do tempo, cheio de sonhos calcinados.

Um país atordoado. Um país cheio de  falhas logísticas, comunicacionais, organizativas. Aos irreparáveis danos humanos somaram-se impressionantes prejuízos materiais, avaliados em quase 500 milhões de euros: as chamas consumiram 43 mil hectares de floresta, afectaram quarenta empresas, ameaçaram 350 postos de trabalho numa região onde o emprego é um bem cada vez mais escasso, danificaram cerca de meio milhar de casas - 20% das quais de primeira habitação.

Um país carente, que no entanto se mobiliza com generosidade para apoiar quem necessita enquanto as entidades oficiais mantêm retidos os 13 milhões de euros recolhidos pela mobilização espontânea dos portugueses.

Um país que sofre e trinta dias depois se interroga dolorosamente "onde estão as ajudas tão apregoadas", como questiona, numa impressionante carta aberta ao Presidente da República, Ana Catarina, que tomou à sua conta um menino de sete anos, filho da sua irmã mais nova, Sara, falecida em Pedrógão. 

 

Desta tragédia emergiu também outro país oculto: o país dos heróis de carne e osso. O país dos lugares de Pobrais, Escalos Fundeiros, Vila Facaia, Várzeas, Casalinho, Sarzedas do Vasco, Pinheiro da Piedade, Troviscais e Nodeirinho, que entraram enfim no mapa mediático. Infelizmente, pelos piores motivos.

O país do bombeiro Gonçalo Conceição, voluntário de Castanheira de Pera, de 38 anos, que recusou ser dos primeiros a receber assistência médica de emergência em Pedrógão, acabando por sucumbir aos ferimentos. O país de  Maria do Céu Silva, nome bem apropriado para esta aldeã de 52 anos que salvou 12 pessoas metendo-as num tanque de água rodeado pelas chamas em Nogueirinho, povoação-mártir que viu morrer um terço dos seus habitantes.

 

Este é o país que hoje lembramos - ainda incrédulos, ainda revoltados, ainda comovidos. Deixando claro que a culpa não há-de morrer solteira.

A memória das vítimas de Pedrógão assim o exige.

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Duplicidade ética

por Pedro Correia, em 11.07.17

Eis um governo com uma insólita noção dos graus de responsabilidade política: demite-se um ministro por prometer duas metafóricas bengaladas no Facebook ao mais verrinoso colunista da imprensa, demitem-se três secretários de Estado por terem aceitado um convite de um grupo empresarial privado para assistir a um jogo de futebol.

Pode estar tudo muito certo, mas semelhante critério não devia estender-se, por larga maioria de razão, à ministra que tutela vários organismos que falharam na prevenção e no combate ao mais mortífero incêndio florestal alguma vez ocorrido no País e ao ministro que tutela as estruturas militares publicamente humilhadas no maior roubo de material bélico de que há memória entre nós?

Não sei o que os leitores do DELITO pensam sobre o tema. A minha opinião é clara: Constança de Sousa e Azeredo Lopes, detentores de pastas ministeriais ligadas à soberania e representação do Estado, estão a mais no Executivo. Ela desde o dia 18 de Junho, ele desde o dia 30. O facto de se manterem em funções constitui uma prova viva da existência de um inaceitável padrão de duplicidade ética neste Executivo. E nada como isto o fragiliza tanto.

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A culpa morreu solteira

por Pedro Correia, em 08.07.17

Três semanas depois, cumpridas hoje, ainda não entrou em funções a comissão oficial que irá apurar as responsabilidades da tragédia ocorrida em Pedrógão Grande.

Três semanas depois, cumpridas hoje, ainda não tomou posse a comissão oficial que irá apurar as responsabilidades da tragédia ocorrida em Pedrógão Grande.

Três semanas depois, cumpridas hoje, ainda não está designado o presidente da comissão oficial que irá apurar as responsabilidades da tragédia ocorrida em Pedrógão Grande.

Três semanas depois, cumpridas hoje, ainda se desconhece o elenco completo da comissão oficial que irá apurar as responsabilidades da tragédia ocorrida em Pedrógão Grande.

 

Há três semanas, 64 pessoas foram vitimadas pelo trágico incêndio deflagrado em Pedrógão Grande. Nem uma só demissão nos organismos do Estado português ocorreu desde então - nem na GNR, nem na Protecção Civil, nem na PSP, nem no SIRESP, nem na Polícia Judiciária, nem nos bombeiros, nem no Instituto Português do Mar e da Atmosfera, nem nas autarquias locais, nem na Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Nem uma, para amostra.

Ninguém.

A culpa morreu solteira. Até quando?

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A segurança e defesa do Governo

por Diogo Noivo, em 07.07.17

O problema estava num Palma Cavalão que, ao abrigo do cobarde anonimato, ousou criticar o Governo português nas páginas de um diário espanhol associado à direita. Agora, um outro diário espanhol publicou uma notícia pouco abonatória da competência do Executivo chefiado por António Costa. Desta feita, trata-se de um periódico associado à esquerda e quem assina a notícia fá-lo com nome e apelido próprios. Assumindo que Portugal é um país normal, isto será o suficiente para que centremos o debate e abandonemos as arengas estéreis.

Sendo diferentes na origem e nos factos (nos poucos que se conhecem), os incêndios em Pedrógão Grande e o roubo de armas em Tancos são de extraordinária gravidade pois atestam a debilidade do Estado nos sectores da Segurança e da Defesa.

O apuramento de responsabilidades depende do apuramento dos factos. E já percebemos que o conhecimento dos factos foi habilmente atirado para as calendas, nomeadamente para depois do próximo acto eleitoral. Como o decoro é em Portugal um bem escasso e desvalorizado tudo isto é visto com normalidade.

Se não podemos avaliar os casos com base nos factos, podemos sim analisar a conduta política dos responsáveis pela Segurança e pela Defesa. No que respeita a Constança Urbano de Sousa, Ministra da Administração Interna, o que há a dizer está aqui e aqui. A senhora está a mais.

O caso da Defesa é mais complexo. O roubo de armamento é grave porque sugere incúria. É ainda mais grave dada a forte suspeita de que o destino do armamento roubado é o crime organizado e o terrorismo. Se o Ministro Azeredo Lopes não foi informado do risco, o CEMGFA terá de abandonar o seu posto e dar lugar a outro. Se o Ministro sabia, como é razoável que soubesse, então Azeredo Lopes deverá aproveitar a boleia da sua colega do MAI.

Porém, estas dúvidas tornaram-se assessórias quando o Ministro da Defesa decidiu abrir a boca. Em entrevista à SIC, Azeredo Lopes afirmou que o Ministro da Defesa Nacional “não sabe se falta uma câmara de videovigilância em Tancos ou em Lamego”. Disse também que o Ministro não é informado de problemas em vedações. Estas afirmações são reveladoras do entendimento que Azeredo Lopes tem da função que desempenha. Houve Ministros da Educação, de esquerda e de direita, a conhecer obras em escolas ao pormenor. Houve Ministros da Administração Interna a conhecer detalhes de todas as unidades das Forças de Segurança, do Corpo de Intervenção à Banda da PSP. Houve Ministros da Agricultura a saber de memória a extensão e a incidência regional de terrenos baldios em Portugal. Mas Azeredo Lopes aparenta não estar para ser incomodado com minudências. Adiante. Azeredo Lopes tenta mudar de assunto, mas o resultado não foi melhor: “Para não pensarmos que somos anormais no contexto europeu e mundial, basta procurar 'roubo de armamento militar' no Google e vamos chegar a conclusões interessantes.” Como o Pedro Correia aqui notou, parece que nunca foram roubadas tantas armas antitanque num país da NATO. Não satisfeito com esta lindeza de argumento, Azeredo Lopes volta a desculpar-se com as desgraças dos outros, dizendo não evocar, mas evocando, os atentados terroristas ocorridos em solo europeu. É dose.

Em resumo, os acontecimentos são gravíssimos e os Ministros não percebem a responsabilidade inerente às funções que desempenham. Estão a mais. E quanto mais tempo ficarem maior será a ameaça que constituem para a segurança e defesa políticas do Governo de António Costa.

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A carochinha de Pedrógão

por Pedro Correia, em 05.07.17

Dezoito dias depois, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera descarta a hipótese da "trovoada seca" ter estado na origem do brutal incêndio de Pedrógão Grande, que ceifou 64 vidas humanas em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas.

Fica assim excluída a história da carochinha contada ao País logo na manhã seguinte à tragédia pelo director nacional da Polícia Judiciária, que se apressou a apontar a tal trovoada inexistente como origem do fogo assassino. Almeida Rodrigues deve, no mínimo, um pedido imediato de desculpa aos portugueses. A menos que se encontre também já de toalha estendida em Maiorca, seguindo o exemplo do primeiro-ministro. Nesse caso os minorcas podem esperar.

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Pontaria ao andar de baixo

por Pedro Correia, em 03.07.17

 

«No meu país não acontece nada.»

Ruy Belo

 

Ao 18.º dia decorrido desde a tragédia de Pedrógão, nem uma demissão nas estruturas sob a tutela do malogrado ministério da Administração Interna - a que podemos chamar ministério da Desorganização Interna, enredado em passa-culpas de soma zero. Nada de novo: regressámos à rotina pasmacenta neste quente mês de Julho.

Ao menos no ministério da Defesa, sem ter ocorrido um só óbito, já houve exonerações: cinco oficiais situados em patamares médios da cadeia de comando foram removidos "para não interferirem nas averiguações" em curso - espantosa justificação que vale para o  assalto aos paióis de Tancos mas não se aplica aos inquéritos que decorrem para apurar causas e culpas na catástrofe de Pedrógão. Perante a maior pilhagem de armamento de guerra confiado à guarda do Estado em Portugal, os altíssimos comandos castrenses permanecem nos seus postos, reconfigurando a noção de ética militar. Imitam afinal o criativo conceito de "responsabilidade" garbosamente assumido pelo ministro da tutela: em perfeita sintonia, todos fazem pontaria ao andar de baixo. Enquanto aguardam que o País vá tranquilamente a banhos.

Como escreveu Ruy Belo, "a boca é p'ra comer e p'ra trazer fechada / o único caminho é direito ao sol".

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O mistério da árvore assassina

por Pedro Correia, em 02.07.17

18 de Junho:

«O director nacional da Polícia Judiciária afirmou hoje à Lusa que o incêndio que deflagrou no sábado no concelho de Pedrógão Grande teve origem numa trovoada seca, afastando qualquer indício de origem criminosa. "A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio", disse Almeida Rodrigues. "Conseguimos determinar que a origem do incêndio foi provocada por trovoadas secas", tendo sido a partir daí que o fogo se propagou, explicou o director nacional da PJ.»

Expresso

 

2 de Julho:

«Afinal, o raio causador do incêndio não caiu em cima de uma árvore. Terá atingido primeiro um posto de transformação das linhas de média tensão, sendo depois conduzido pelos cabos até onde o fogo começou, na zona de Escalos Fundeiros. Uma possibilidade que encaixa na informação do Instituto Português do Mar e da Atmosfera conhecida este sábado de que não caíram raios em Escalos Fundeiros na altura do início do incêndio.»

Expresso

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 01.07.17

«Continua o Estado português por fazer o cadastro que nunca foi capaz de realizar no norte do País desde a Maria da Fonte nos idos de 1840 e tal. Do mesmo modo, também nunca foi contemplado o sistemático abandono dos campos devido à corrente ininterrupta de emigração rural, ao ponto de hoje se ignorarem os donos de muitos terrenos ardidos e de ninguém ou muito poucos pagarem imposto fundiário.»

 

«A fileira do eucalipto tem hoje um volume de negócios de 2 mil milhões de euros e constitui, segundo a indústria, uma fonte de rendimento para mais de 400.000 proprietários privados e vários milhares de empregados. Quanto ao detestado "grupo Portucel", é o segundo maior exportador nacional, com mais de mil milhões de euros vendidos no mundo inteiro, do qual não há governo que não se sirva.»

 

«A machadada final numa reforma florestal realmente moderna foi dada pelo governo Sócrates ao adoptar a actual legislação que pôs toda a ênfase no combate ao crescente número de incêndios e de áreas ardidas, em vez de ter dado a prioridade, como devia, à prevenção desses incêndios. O resultado foi que, enquanto todos os países da UE têm visto diminuir as áreas ardidas, Portugal é o único onde elas continuam a aumentar

 

Tudo como dantes (ou pior). De Manuel Villaverde Cabral, no Observador.

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Um filme de terror

por Pedro Correia, em 01.07.17

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«Na véspera [16 de Junho], a previsão meteorológica passa para aviso laranja, o que implicaria o pré-posicionamento de meios, deslocação para as zonas de risco de viaturas de combate. Não foi feito. A partir do alerta para o 112, o incêndio acelera vertiginosamente, mas o que se vê é a desvalorização pela cadeia de comando do que os bombeiros iam reportando e os populares pedindo: ajuda, reforços, socorro. Devia ter sido accionado o que tecnicamente se chama ataque ampliado. Não foi feito. O posto de comando não é estruturado para a dimensão da tragédia, não é feito o reconhecimento da situação, não são enviados tanques pesados nem helicópteros bombardeiros, o fogo arde em três distritos e o plano nacional de emergência está ainda por activar. O presidente da Câmara aparece três horas depois, as comunicações falham e, quando não falham, são os operacionais que não as usam correctamente, entupindo canais, falta-lhes formação. Só 24 horas depois é que o Plano Distrital de Protecção Civil de Leiria é activado. O que estava lá a fazer o secretário de Estado, se tarda em activar o plano nacional? Quando a Protecção Civil assume o comando, às 22 horas, já há dezenas de mortos e de feridos.

Sim, tudo correu mal, mesmo tudo, do fundo ao topo da cadeia de comando. E isso é apenas parte da leitura possível, a que esquece o drama humano do outro lado da linha telefónica, a quem vão respondendo: não há meios disponíveis, não há meios disponíveis, não há meios disponíveis...»

 

Pedro Santos Guerreiro, no Expresso de hoje (sublinhados meus). Quinze dias depois da tragédia de Pedrógão, ainda ninguém assumiu responsabilidades públicas pelo mais mortífero incêndio de que há memória em Portugal.

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Um dos argumentos que tem sido utilizado para justificar a inqualificável ausência de consequências políticas pela tragédia de Pedrógão Grande é que seria mais fácil para a Ministra da Administração Interna sair do que ficar. Trata-se de uma forma completamente enviesada de colocar em questão. Do que estamos aqui a falar é, repita-se, de responsabilidade política e não de responsabilidade individual. Por ser assim, são completamente indiferentes para a discussão argumentos que assentem no impacto da decisão na pessoa de Constança Urbano de Sousa. No campo da responsabilidade política não relevam, por exemplo, considerações de justiça ou injustiça da consequência para a Ministra. A responsabilidade política é, por definição, injusta para o responsável do cargo. A natureza da responsabilidade política é precisamente não haver um envolvimento directo do titular do cargo, um nexo de causalidade evidente, entre as suas decisões e as consequências trágicas. Se esse nexo existisse, estaríamos então a falar de responsabilidade de outra natureza, eventualmente até criminal. Da mesma maneira, não interessa se a Ministra sofre mais ou menos, se lhe é mais fácil ficar ou sair. O que importa é preservar o funcionamento institucional. E a continuação da Ministra em funções enfraquece o governo, não este em concreto mas a instituição, porque, depois destes acontecimentos, Constança Urbano de Sousa é evidentemente uma governante fragilizada.

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OK Corral no MAI

por Diogo Noivo, em 30.06.17

A Protecção Civil diz que o SIRESP falhou. Em resposta, o SIRESP diz que não. Já a Secretaria Geral do MAI aponta o dedo à Protecção Civil. A Protecção Civil, que não achou graça à acusação, escreveu ao Secretário de Estado a repor aquilo que entende ser a verdade dos factos. A GNR, ainda que num registo institucional e discreto, atribui responsabilidades ao Governo. Para rematar a faena, a Inspecção Geral da Administração Interna diz que vai investigar a Secretaria Geral da Administração Interna. É o caos no seu máximo esplendor. 

Em teoria, o cargo de Ministro da Administração Interna serve, entre outras coisas, para evitar que este passa-culpas e total desnorte suceda. Acontece que o lugar é ocupado por Constança Urbano de Sousa. Em vez de meter mão no faroeste que impera no Ministério, Constança Urbano de Sousa entretém-se (e tenta entreter-nos) com declarações difíceis de qualificar. Primeiro disse-nos que prefere dar a cara a demitir-se, não percebendo que uma e a outra coisa não são incompatíveis (vide o já muito falado caso de Jorge Coelho na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios). No parlamento, lacrimejante, disse-nos que passou por momentos muito difíceis, o que é de uma falta de tacto total e absoluta se tivermos em conta os sacrifícios feitos pelos bombeiros e o número arrepiante de mortos - esta declaração é também desleal porque quem esteve no momento mais duro do incêndio a dar más notícias ao país foi Jorge Gomes, Secretário de Estado da Administração Interna. A Ministra referiu ainda na Assembleia que este não foi o dia mais difícil da sua vida política, mas sim o dia mais difícil da sua vida, o que, ainda que respeitável, é absolutamente irrelevante para o apuramento dos factos (nem falo de responsabilidades).

Constança Urbano de Sousa reconhece, porém, que houve algo de "anómalo" (além do seu comportamento político, acrescento eu). Há esperança. Mas, no geral, tudo está bem porque aparentemente há um focus group a garantir que a popularidade do Governo permanece imaculada. Como a política é feita de percepções e expectativas, equipa que ganha não mexe e a culpa morrerá solteira.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 29.06.17

«Sabe-se que o Eucalyptus Globulus consome recursos hídricos, arde com relativa facilidade, alimenta uma forte fileira industrial e ocupa aproximadamente 25% da floresta portuguesa. Sabe-se também que é uma das raras fontes de rendimento de populações do interior, como os autarcas da Região Centro frequentemente salientam. E sabe-se, por fim, que nos 200 mil hectares de eucaliptos, sobreiros e pinheiros geridos directamente pela indústria da celulose a área ardida é anualmente inferior a 1%. Aqui chegados, onde acaba a culpa do eucalipto e começa a dos proprietários?»

Luís Nazaré, no Jornal de Negócios

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Do tabefe virtual ao drama real

por Pedro Correia, em 29.06.17

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 Dois pesos, duas medidas: João Soares saiu, Constança de Sousa ficou

 

Quase duas semanas após a catástrofe de Pedrógão, com o seu macabro cortejo de 64 mortos e 254 feridos, estaremos todos de acordo nisto: é essencial encontrar todas as respostas, sem subterfúgios nem biombos, que permitam explicar como ocorreu esta tragédia. A apressada tese da "trovoada homicida" já caducou. E a rocambolesca teoria da "árvore assassina" hoje não convence ninguém: lamento que o director nacional da PJ tenha sido o primeiro a anunciá-la ao País sem investigação nem fundamento.

Por muito respeitável e compreensível que seja a  comoção da ministra da Administração Interna, isto não a iliba de responsabilidades efectivas pelas graves falhas operacionais que terão sido cometidas por estruturas sob o seu comando hierárquico. Essas falhas terão de ser apuradas, acarretando consequências - doa a quem doer.

Entretanto, sabemos desde já qual é o entendimento para o Executivo da "nova ética da responsabilidade" invocada no discurso da sessão solene do 25 de Abril pelo deputado socialista Alberto Martins: é mais fácil haver uma demissão no Governo quando um ministro promete no Facebook dar um tabefe a um par de comentadores do que alguém abandonar a cadeira do poder perante o mais devastador incêndio da história contemporânea em Portugal. 

 

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Afinal nada de importante se perdeu em Pedrógão...

por José António Abreu, em 29.06.17

Governo organiza focus group para avaliar os efeitos do incêndio na popularidade de António Costa.

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Frases de 2017 (22)

por Pedro Correia, em 29.06.17

«Não foi o momento mais difícil da minha carreira política. Foi o momento mais difícil da minha vida

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, ontem, no Parlamento

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